22 abril 2008

Sentido crítico sim, mas só sobre o que eu disser

Há frases curiosas. Na pressa de uma primeira leitura parecem cheias de significado, mas, em parando para pensar, o encanto dá lugar ao bocejo. Vejamos uma atribuída a José Saramago. Diz ele: "falta em Portugal sentido crítico". E defende o valor "das ideias que vão contra a maré".

O que à primeira vista parece um apelo à insurreição revela-se fogo-fátuo. Basta lembrar que José Saramago sempre que foi alvo de críticas reagiu mal, tão mal que nem sequer hesitava em pôr em causa o tal espírito crítico que vem agora reclamar. E se há alguém que represente a voz de Portugal é, como todos sabemos, Saramago. Porquê? Porque ele defende as ideias que vão contra a maré e ir contra a maré é o que mais caracteriza os portugueses. Vão tanto contra a maré que se se perguntar quem escreveu a Torre da Barbela, alguns até julgarão ter sido Saramago

2 comentários:

rotive53 disse...

O que se constata:
É que há a necessidade de mais capacidade critica.
José Saramago, prémio Novel da Literatura, o seu valor internacional cilindrou forças de bloqueio em Portugal que pretendiam descriminar a sua obra.
José Saramago, pela sua postura desafiadora do preestabelecido, sempre representou representa e representará o futuro. Contrariando assim, os presos e acríticos do sistema.

pisca de gente disse...

Caro rotive53, em Portugal cilindram-se muitas obras. Consta até que grande parte do nosso problema é precisamente esse. O cimento consome-nos a alma, exaure-a. Quanto a obras literárias, o desafio mantém-se: quem é o autor de "Torre da Barbela"? Poderíamos ter perguntado quem é o autor de "A Origem", ou até de "Peregrinatio ad Loca Infecta". Poderíamos perguntar por que razão colocam tantas bibliotecas Gabriela Llansol nas prateleiras das literaturas espanhola, sueca, eu sei lá... São todos autores cilindrados. Saramago? O homem diz a maior bacorada e é notícia em todo o lado. Enganou-se e queria dizer incensado, idolatrado.
Como deve recordar-se, já no tempo da outra senhora (ou do português do século) os autores mais lidos eram "soit disant" comunistas...