05 julho 2009

A história de um leitor compulsivo 2

Em Ponte da Barca, Laureano era amado e odiado, e retribuía ambos os sentimentos. As eminências locais tinham a noção de ter ali uma personalidade de craveira nacional, e tentavam aproveitar-se, oferecendo-lhe cargos e medalhas. Laureano nunca aceitou, alegando que nada fizera pela terra, o que não podia ser mais verdade.
Limitava-se a ser um exemplo, o que nem sempre era devidamente apreciado. Para desconforto de muita gente, a legalidade fiscal era uma das obsessões de Laureano. Quase uma doença. Pagava tudo antes do tempo e até mais do que devia, para não correr o risco de errar. Não admitia a mínima batota. Nas transacções de propriedades, era comum assinar-se a escritura por um valor inferior ao real, para pagar menos imposto. Laureano recusava-se, o que lhe impediu alguns negócios. Mas não cedia. Uma vez, quis vender uma das terras da família por 100 mil euros. O comprador aceitava o preço, desde que se fizesse escritura por 10 mil. Laureano fez um acordo: pagaria ele próprio o montante do imposto de transacção correspondente a 90 mil euros, que era devido ao outro. Foi aceite e o negócio fez-se.
Intransigente em relação à dignidade das pessoas, Laureando comia com os seus trabalhadores à mesma mesa, o que muitos consideravam esquisito.
Foi também o primeiro, na região, a fazer descontos para a reforma e segurança social dos trabalhadores. Os outros agricultores sentiram-se prejudicados com este precedente e nomearam um representante para interceder junto de Laureano. Quando aquele chegou à quinta sugerindo, com falinhas mansas, que o "senhor doutor", pelo menos, descontasse para a segurança social apenas um dia ou dois, e não a semana inteira, foi corrido com insultos.
A Quinta da Fonte da Cova era um oásis de legalidade. E de alguma loucura também.

O patrão achava que devia iniciar os empregados no mundo da bibliofilia e da cultura. Lia para eles, convocava-os para sessões temáticas nos aposentos por onde se distribuía a biblioteca: a sala, a salinha, o quartinho ou mesmo a saleta. Por vezes, anunciava-lhes que iam dar um passeio. Chamava então Arlindo, o seu taxista de serviço, e partiam para um tour literário pelas aldeias do Gerês. No fim, jantavam todos no Restaurante Elevador, no Bom Jesus de Braga. Previamente informado, o gerente reservava uma mesa num recanto discreto, para que o grupo (de "secretários", como Laureano os apresentava) não assustasse os clientes normais do luxuoso restaurante. E lá iam, o Nelinho, o Carlos, o Nuno, o Gi e todos os jornaleiros da quinta, incluindo o lenhador José Corga, que carecia de uma indicação especial à cozinha do restaurante. Corga era um fenómeno: só comia batatas (em dias de festa, com bacalhau - era a sua única concessão), mas não em doses normais. Precisava de um prato especial, de Viana, onde coubesse "meia quarta" (o equivalente a três quilos) de batatas cozidas. Repudiava, aliás, a ideia de que alguém conseguisse comer mais do que ele.
Laureano, que se maravilhava com os prodígios da Natureza, gostava de encorajar e exibir este apanágio do empregado. Por isso, no Elevador, o senhor Corga tinha direito ao seu prato especial de batatas.
O "senhor" Corga. Laureano tratava toda a gente por "senhor". Até um pobre que ia lá a casa levar a carne do talho merecia sempre um "Obrigado, senhor Manuel". Para o Nelinho, isto era pura magia. Nunca tinha visto nada assim. Laureano tinha o estranho poder de elevar as pessoas. De transformar um zé-ninguém num senhor.
"O doutor foi a pessoa mais honesta e culta que conheci à face da terra", diz Manuel Rocha, a quem Laureano chamava Nelo, ou Nelinho, que hoje tem 36 anos, mas está na quinta desde criança. "Ele para mim era tudo. Sempre pensei: com este homem, não preciso de mais nada."
Nelo era uma das várias crianças que trabalhavam ou habitavam na Quinta da Fonte da Cova, tais como o seu irmão, Carlos, o Nuno Leitão ou o Moisés Cerqueira (conhecido como o "Gi"), ou os sobrinhos mulatos de Laureano (filhos dos seus meios-irmãos de Angola), que lá iam passar férias.
O pai de Nelo fora jornaleiro na quinta. Levava-o para lá na época da apanha da maçã, trabalho que requeria gente pequena e leve. Mas um dia emigrou para França e deixou com o "doutor" os filhos, Nelo e Carlos. O "doutor Manuel" e o "engenheiro Carlos", como Laureano passou a designá-los, celebrando o talento para a conversa de um e o jeito de mãos do outro.
Carlos, com efeito, acabaria por arranjar emprego como mecânico de máquinas, e passou a ir à quinta apenas às quartas-feiras, almoçar. Nelo continuou a viver lá, até à morte de Laureano, no ano passado. Encarregava-se de vários trabalhos na quinta, mas também tomava conta da biblioteca e, acima de tudo, tornou-se discípulo, amigo e confidente do patrão. "Nelinho, hoje o dia já está ganho, vamos conversar", chamava Laureano. "Nelinho, comprei um livro novo, vamos vê-lo". E Nelo interrompia o trabalho na quinta, sentava-se na salinha. "Isto, Nelinho, fica só entre nós. Não sai daqui", dizia-lhe Laureano, depois de contar uma visita a um alfarrabista ou a um leilão para adquirir um certo livro raro.
Nelo percebera que a biblioteca se tornara muito valiosa, e não convinha que isso constasse. Era um segredo que guardava. "Nelinho, hoje vamos tirar os livros daquela prateleira. Vamos vê-los." Ou então: "Vai ali à saleta, à segunda prateleira da estante do meio, encostada à janela, tira o terceiro livro a contar do lado norte para sul. Abre na página 153..."
Nelo abria e Laureano, da outra sala, começava a dizer o texto de cor, excertos enormes de Camilo ou Pessoa. Conhecia ao pormenor cada um dos seus livros e sabia exactamente onde se encontrava.
Um dia, Nuno Leitão, que trabalhou na quinta mas depois estudou Informática de Gestão, ofereceu-se para catalogar toda a biblioteca em computador. Laureano agradeceu, mas não precisava: tinha os ficheiros todos na cabeça.
Nuno chegou a viver na Fonte da Cova, mas acabou por ir estudar, encorajado por Laureano. O "Gi", que foi criado na quinta, sairia para casar e arranjar emprego como serralheiro.
A família dele, muito pobre, vivia numa casa em frente. Eram oito irmãos, que cedo se fizeram aos caminhos do fracasso ou do crime. Para lhe dar um futuro alternativo, a mãe de "Gi" pô-lo a viver na quinta, aos seis anos.
Ele e o Nelo, bem como o Carlos e o Nuno, eram como filhos de Laureano. Os seus "meninos", dizia ele. Todos falam do "doutor", hoje, com incondicional afecto e uma orgulhosa emoção. A exaltação quase fanática, possessiva, de quem sente ter tocado uma esfera superior da existência. "Faço questão de ser como ele, na minha vida", diz o Nelinho. "Em cada situação, penso: se o senhor doutor fosse vivo, faria assim. E tento fazer igual."
Não é fácil entender que tipo de influência Laureano exerceu sobre os espíritos destes jovens. Mas basta falar um pouco com eles para perceber que ainda lhe estão submetidos. Têm uma transparência comovente no olhar, que nos faria confiar-lhes a própria vida, sem hesitação.
Não que Laureano tenha sido condescendente com eles. Mas talvez por isso mesmo. "Gi" não teve uma relação fácil com o "doutor", que se zangava, e lhe batia, se ele chegava tarde a casa. Para o punir, mandava a Mariquinhas cozinhar favas com carne, o prato que "Gi" detestava. Uma vez, por ele ter ido ver as cheias do rio e não comparecer a horas no trabalho, deu-lhe uma bofetada. "Gi" fugiu para casa dos pais. No dia seguinte, Laureano telefonou-lhe a pedir que voltasse.
Acima de tudo, irritava-se por o seu "menino" não levar os estudos a sério. Ele ia, no entanto, concluir com êxito o secundário, não tivesse Laureano, que era na altura director da escola, irrompido pela reunião de professores, expressamente para não os deixar aprovar o "Gi". "Eu estou com ele em casa e vejo que ele não estuda", garantiu o director. "Gi" chumbou e foi trabalhar como serralheiro. Mas não ganhava o suficiente e teve de emigrar para Andorra, porque o "doutor", com os seus rígidos princípios, se recusou a meter uma cunha para lhe arranjar um emprego.
Já o Nelo não quis continuar os estudos, nem empregar-se, para ficar com Laureano. "No meu íntimo, eu sentia que não podia deixar o doutor. Achava que ele precisava de mim", explica o Nelo, que ainda continua na quinta, sem saber que ela vai ser vendida. "A minha filosofia de vida era: enquanto o doutor for vivo, eu fico com ele."
Parece que os dois competem pela maior dedicação a Laureano. "Gi" conta que passou muitos Natais sozinho com ele, quando nem os filhos o vinham visitar. E que, pouco antes da sua morte, era ele quem lhe dava banho.
Nelo e "Gi" contam cheios de vaidade estas compassivas intimidades, como se defendessem um fundamental património humano.
Laureano dissera à empregada: "Maria, se eu morrer, chama os meninos, para virem ajudar." Foi nessa altura que escreveu a lista de quem deveria ser avisado e as regras para o funeral, que incluíam ser enterrado sem caixão, sem discursos e sem cerimónia religiosa, de preferência na quinta (vontade que, obviamente, não pôde ser cumprida).
Nos últimos tempos de vida, aliás, depois de ter ficado doente, Laureano começou a preocupar-se com a posteridade. Não teve nenhuma fraqueza religiosa - manteve-se agnóstico até ao fim - mas passou a tomar disposições. Uma delas fora o divórcio com Maria José Caleijo, para não causar aos filhos problemas com a herança. Margarida, aliás, que só soube pelos jornais do casamento do pai, foi convidada formalmente para um almoço de divórcio.
Depois, Laureano doou todos os bens aos filhos. Quis poupá-los a burocracias e eventuais contendas. Organizado e precavido como era, passou os últimos anos a preparar o seu desaparecimento. Distribuiu as casas e os terrenos pelos três filhos, mas a sua grande preocupação eram, obviamente, os livros.
"Este ficará para a minha filha", ia dizendo ao Nelinho, "esta colecção para o Carlos...", mas à medida que se aproximava do fim, e ia perdendo o interesse por tudo excepto pelos livros, apercebia-se também de que os filhos não queriam a biblioteca. Pensou em várias soluções - doar as obras a uma instituição, criar uma fundação (ideia do filho Carlos). Mas nenhuma lhe agradou. Por fim, deixou de pensar no assunto. Mergulhou numa estranha apatia, uma inconsciência meticulosa e desesperada, que apenas aos seus "meninos" era visível. E os fazia sofrer.
Como pôde aquele homem que tudo calculava e tudo prevenia ter cometido um erro tão grosseiro? No seu afã de tudo medir pela beleza dos livros, de sublimar neles os seus dias e o seu futuro, nunca lhe passou pela cabeça que a biblioteca pudesse não ser eterna.
Mas não deixou, mesmo sabendo (e decerto aceitando) que em breve tudo aquilo seria vendido em leilão, de folhear, tratar e acariciar os seus livros, com a leveza confiante com que uma criança diz adeus a quem ama. A mesma com que, pouco depois, as mãos grossas e calejadas do "Gi" lhe seguraram o rosto que partia.

Texto de Paulo Moura in Público

A história de um leitor compulsivo 1


Era uma vez... Laureano Barros (1921-2008). Planeava tudo. Era organizado, previdente e perfeccionista. Inflexível com a verdade, a liberdade, a independência, o rigor e a pontualidade, exigia-os de si e dos outros. Tinha, portanto, poucos amigos.
Esta é a história de um leitor, tal como vem aqui. Um luxo dominical.

Foi quando foi viver para o Porto, para frequentar o liceu, que o jovem Laureano Barros começou a comprar livros. Frequentava os alfarrabistas e iniciou uma colecção, tal como fazia com os paliteiros, bengalas, relógios, louças, antiguidades ou alfaias agrícolas. Mas ao contrário de toda a traquitana que sempre gostou de trazer para casa, aos livros ergueu uma fidelidade. Não os vendia, não desistia nem se esquecia deles. Começou a acumulá-los na moradia que o pai lhe comprou para se instalar na cidade, na Foz, continuou a ampliar a colecção enquanto viveu nessa casa com a primeira mulher, Leonor, e depois quando se divorciou dela e das seguintes. De cada vez que se separava da mulher com quem vivia (e foram mais mulheres do que os três casamentos), deixava-lhe tudo: a casa, os móveis, as antiguidades. Mas levava consigo a biblioteca. Eram livros de Matemática, de Filosofia, de Botânica, mas acima de tudo de Literatura Portuguesa, e, cada vez mais, volumes curiosos e raros, obras pouco conhecidas, primeiras edições. Por alguns autores tornou-se obcecado e comprava tudo. Depois estendeu a obsessão a todos os escritores. Comprava e lia, várias vezes, os livros de Camilo, Eça, Pessoa, Torga. Sempre teve insónias, e passava-as a ler. Dono de uma memória prodigiosa, sabia páginas e páginas de cor. Perdia horas a arrumar os livros, a manuseá-los, a acariciá-los.
Para ele, eram um salvo-conduto contra a efemeridade de tudo o resto. E também contra a desilusão, como se nada, além dos livros, estivesse à altura dos padrões de excelência que estabeleceu. Do grau de pureza que cedo definiu para a sua vida.
Tendo concluído a licenciatura em Matemática com alta classificação, Laureano foi logo convidado, com 21 anos, para assistente de Rui Luís Gomes, um dos professores mais prestigiados da Faculdade de Ciências do Porto. A bela colega Leonor Moreira obtivera, no secundário, a segunda melhor classificação a Matemática (19) e ele (que teve 20) casou com ela, quando eram ambos estudantes no curso de Matemática da Faculdade de Ciências. Teriam três filhos: Carlos, Rui e Margarida, futuros médico, arquitecto e professora de Matemática.
Mas Rui Luís Gomes era um antifascista incorrigível. Em 1947, a seguir a vários episódios pouco felizes com a PIDE, foi expulso da faculdade, juntamente com outros dois matemáticos, José Morgado e, claro, o recto e incorruptível Laureano Barros, após terem enviado ao Governo uma carta protestando contra a prisão de uma aluna.
Desempregado, Laureano, então com 26 anos, montou uma sala de explicações, em frente ao mercado do Bolhão. Durante mais de 20 anos, viveu disso e pouco mais. Os rendimentos das propriedades familiares de Ponte da Barca, quando chegavam, convertiam-se imediatamente nalguma edição rara de Camilo ou Eça. O mesmo acontecia com as poucas remessas de Angola, onde o pai entretanto se estabelecera e constituíra outra família. Qualquer dinheiro extra era aplicado em extravagâncias bibliófilas, que incluíam, por exemplo, contratar um estudante para lhe catalogar a biblioteca.
Foi o primeiro emprego de Alexandre Outeiro. Laureano Barros pagava ao jovem de Ponte da Barca a estadia numa pensão, mais um salário simbólico, para ele passar os dias a fazer fichas dos livros no T2 que, depois de se divorciar pela segunda vez, arrendara na Rua de Sá da Bandeira. Alexandre cumpria o seu horário de trabalho sozinho no apartamento, mas por volta do meio-dia recebia um telefonema de Laureano convidando-o para o almoço num restaurante, onde passaria a refeição a falar-lhe de livros, cultura e aventuras.
Alexandre ficou a saber, maravilhado, como Laureano, que nunca foi comunista, deu guarida, na casa da Foz, ao militante comunista na clandestinidade Rogério de Carvalho, ou como se encontrou, a meio da noite, num pinhal em Vila do Conde, com a linda militante clandestina do PC Cândida Ventura, que ele não conhecia, para lhe passar uma pasta com documentos secretos. Ou ainda como numa aldeia chamada S. Martinho da Anta havia um velho olmo negro, descrito por Miguel Torga...

Nesta altura já Laureano e Alexandre eram amigos, e davam passeios de vários dias pelo Norte do país, a convite de Laureano, que pagava comidas e dormidas, mas no carro de Alexandre, porque o outro nunca teve carta de condução. Mesmo assim, Alexandre sabia que tinha de chegar ao encontro com o amigo à hora exacta que haviam marcado. Se se atrasasse um minuto, Laureano era capaz de, zangado, ir sem abrir a boca do Porto a Braga. "Ele exagerava", admite Alexandre Outeiro, que é hoje director de uma delegação da Caixa Geral de Depósitos em Gaia. "E sabia que exagerava. Mas era assim. Um homem de um rigor extremo, em tudo o que fazia."
Depois do 25 de Abril de 1974, Rui Gomes da Silva regressou do exílio no Brasil para ser nomeado reitor da Universidade do Porto. A primeira coisa que fez foi convidar Laureano para dar aulas na Faculdade de Ciências. Relutante, ele aceitou, mas, por discordar dos arbitrários saneamentos de professores, demitiu-se meses depois. Ainda voltou às explicações e leccionou num colégio, mas não se adaptou à balbúrdia da época e, após a morte do irmão, Joaquim, em 1976, mudou-se definitivamente para Ponte da Barca. Ia no terceiro casamento, com a professora de Francês Maria José Caleijo, que continuou a viver no apartamento de Sá da Bandeira. Os livros, esses, viajaram com Laureano. Agora, que herdara a casa grande da família, tinha espaço para eles.
Primeiras edições de Fernão Mendes Pinto, Camões, Vieira, Verney, Eça, Pessoa, Antero ou António Nobre, obras juvenis de Guerra Junqueiro, Torga ou José Gomes Ferreira, edições raras de poetas quinhentistas de Ponte da Barca - a biblioteca começou a crescer em majestade, a tornar-se maior do que si própria, misteriosa e imortal, exigindo reverência e devoção. Laureano foi ficando solitário. Ninguém sabe ao certo porquê.
Laureano Alves, primo de Laureano Barros, acha que ele se tornou um homem desiludido. "Passava muito tempo sozinho, embora adorasse conversar." O comportamento dos outros entristecia-o. Principalmente o dos mais comprometidos com o mundo. Por isso foi cortando elos. Recusou tudo o que lhe ofereceram. Foi convidado para professor catedrático da Faculdade de Ciências, como se tivesse leccionado durante todo o tempo desde a expulsão, em 1947. Não achou justo. Aceitou o cargo de director da Escola Secundária de Ponte da Barca, mas por pouco tempo. Segundo uma investigação que instaurou, descobriu serem falsos os atestados médicos que uma professora apresentava para faltar às aulas. Como ela não foi demitida, alegadamente por ter amizades no Ministério da Educação, Laureano pediu a reforma. Mais uma vez, recusou que lhe fosse contado o tempo de serviço desde a sua expulsão da Função Pública, como tinha direito, pelo que ficou com uma pensão miserável.
"Para ele, tudo tinha de ser perfeito", explica o primo.
Não facilitava. Essa era provavelmente a razão por que, sendo um amante da literatura, não escrevia. "O que fizesse teria de ser perfeito. Até uma carta, demorava semanas a escrevê-la. Esse perfeccionismo paralisava-o. E, no entanto, escrevia muito bem." Também terá sido por causa do perfeccionsmo e obsessão pela verdade que não conseguiu manter nenhum casamento, explica um amigo. Não suportava situações menos que perfeitas, e não conseguia mentir: de cada vez que tinha uma infidelidade, contava logo, o que acabava por levar à separação. Mas continuou amigo de todas as ex-mulheres.
A última, Maria José Caleijo, foi companheira até à sua morte, durante 45 anos, apesar de tudo. A certa altura, por imperativos de coerência, divorciaram-se, embora tivessem continuado juntos.
Laureano isolou-se em Ponte da Barca, onde passaria os últimos 30 anos de vida. Fugia das pessoas, e ao mesmo tempo procurava-as. Os outros surgiam-lhe como entidades algo imateriais e o encontro com eles não raro o fazia sentir-se perdido.
Para não se desiludir, preferia por vezes manter à distância aqueles de quem gostava, ignorando a crueldade da atitude. Quando Margarida, a filha, regressou de Inglaterra, onde, muito jovem, fora fazer o doutoramento em Matemática, Laureano fez tudo para que ela não o fosse visitar. Tinha medo que ela tivesse voltado muito esquerdista, e que se zangassem à primeira discussão. Fizera tudo, aliás, para que ela não seguisse Matemática, receando que não conseguisse. Margarida empenhou-se em mostrar que ele estava enganado, concluindo a licenciatura com média de 17.
Talvez cultivasse o relacionamento com os que se prestavam a ser amigos imaginários, metáforas de si próprios. Dizem os psicólogos que os coleccionadores compulsivos sofrem de incapacidade de lidar com os outros. Se isso é verdade, os livros, metáforas perfeitas da vida, são a colecção ideal do filantropo solitário.
No entanto, Laureano tornou-se amigo de pessoas que admirava. Lagoa Henriques, Óscar Lopes, Costa Gomes, que foi seu colega de faculdade. O general era visita regular da Quinta da Fonte da Cova, até quando foi Presidente da República (Laureano chegou a enviar-lhe uma carta criticando-o pelas cedências aos comunistas), e o mesmo acontecia com vários intelectuais e artistas, alguns bem pouco convencionais, como Luís Pacheco ou Eugénio de Andrade. Nestes, o austero e rígido Laureano apreciava a liberdade e a capacidade de surpreender. Mas mais tarde ou mais cedo a tolerância levava à colisão.
Eugénio passava grandes temporadas na quinta. Sentia-se em casa e dava largas às suas muitos próprias jovialidade e loucura. Mas quando a mãe de Laureano morreu, não mostrou grande consternação, explicando simplesmente que não gostava de funerais.
Uma vez, numa festa, Laureano apresentou-lhe uma personalidade de Ponte da Barca, um sujeito baixo e gordo que sorria de deferência para com o poeta. Eugénio apertou-lhe a mão - "Muito prazer!" - mas ao mesmo tempo disse para o lado, alto e bom som: "Isto é um homem ou é um cagalhão?"
Foi de mais. Laureano cortou com ele relações, que só viria a reatar, décadas depois, pouco antes da morte do amigo.

04 julho 2009

Os portugueses e a política


Descrença, descrédito, cinismo podem ser algumas das palavras de que os portugueses se servem para caracterizar a sua relação com aqueles que elegem. No entanto, basta estar num café ou ler os comentários que vão aparecendo em jornais e blogues para se perceber que esse relacionamento é feito de uma mistura de paixão/ódio que assenta numa tradição de calar, de ter medo, de "respeitinho".
Os portugueses consideram que quem tem mais posses tem melhores advogados e encontra buracos na lei, por isso a maioria dos nossos concidadãos sente-se desincentivada de recorrer aos tribunais para defender os seus direitos.

Além disso há a ideia generalizada de que a política é um trampolim para "bons tachos", ideia que vigora há muitos anos sem que se tenha assistido a uma corrida em massa à militância política, à procura de um lugar ao sol. Ou seja, os portugueses acham que dizer mal continua a ser óptima válvula de escape e por isso se consideram felizes.
Mesmo assim, como todos sabem, embora pouco falem disso, o país é hoje muito mais democrático do que era e, apesar dos exageros, para isso muito tem contribuído a guerra de audiências, ou seja, a necessidade sentida pela imprensa de dar voz ao povo, apesar da muita promiscuidade entre jornalistas e políticos (havendo casos, como o da Manuela Moura Guedes que chegam a ser as duas coisas ao mesmo tempo).
O que parece ainda faltar aos portugueses é maior empenho social, quiçá pelos resquícios da "minha alegre casinha" que os mantém pelos cafés ou por casa a exercitar a má língua.

03 julho 2009

Abstenção elevadíssima


O Benfica parece que tem muitos sócios. Cerca de 160 mil. E segundo vi há pouco, o número de votantes era superior a 15 mil. Ou seja, a abstenção é superior a 90%. Se isto é exemplo para o país vou ali e já venho.
Curiosamente, em lado nenhum se faz referência ao assunto. Quiçá porque o futebol é do domínio das paixões e a razão esquece-se disso. Mas não deixa de me incomodar que a suposta imprensa séria não reflicta sobre votações tão pouco participadas.
Será que o Benfica está mesmo moribundo?

Maria João Pires na ditosa pátria


Ditosa pátria que «está metida / No gosto da cobiça e na rudeza / Duma austera, apagada e vil tristeza.»
Porque continuamos a ouvir Camões sempre que nos chegam notícias destas? Porque os negócios da nação continuam medíocres e a educação permanece uma fantasia.
Maria João Pires prefere ser brasileira? Óptimo. Mas que por cá não se deixe morrer uma escola só por mera cegueira mercantil.
A nacionalidade da pianista interessa-me pouco. Já o que tentou fazer em Belgais interessa-me muito. E creio que deveria ser uma prioridade nacional disseminar pelo país escolas desse tipo. Portugal criaria, no espaço de uma geração, uma nova cidadania. Mas, infelizmente, por cá a educação só é notícia por questões de mealheiro: poupar em salários, poupar em custos de manutenção; gastar em maquinetas e propaganda.

02 julho 2009

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)


Um lustro correu já sobre a morte de Sophia. Com dois dos seus poemas lhe prestamos homenagem.

Maria Natália Teotónio Pereira

Aquela que tanto amou
O sol e o vento da canção
Agora jaz no silêncio terrestre
Oculta na ressurreição

Porque em seu viver nascia
Porque estando era procura
Sua imagem permanece
Não passada mas futura

Sempre que rio e confio
E passo além do meu pranto
A sua presença irrompe
Erguida em nós como canto

Aquela que agora jaz
Como semente no chão
Ergue no vento seu riso
Transpõe a destruição

[in Dual, 1972]


Biografia

Tive amigos que morriam, amigos que partiam
Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.
Odiei o que era fácil
Procurei-te na luz, no mar, no vento.

[in Mar Novo, 1958]

Descoberta de um novo auto-retrato de Miguel Ângelo



Na restaurada Capela Paulina do Vaticano encontrou-se, num dos frescos, um "autoritário" acompanhante romano com turbante azul que acompanha a crucificação, que é visto como um auto-retrato do pintor renascentista.
Embora à data do fresco Miguel Ângelo contasse já 70 anos e o auto-retrato mostre alguém substancialmente menos idoso, há características que apontam para o pintor. Segundo a estudiosa Cristina Acidini, do Pólo Museológico Romano, o rosto de Miguel Ângelo assemelha-se bastante ao do famoso retrato (imagem acima) pintado por Daniele da Volterra, em 1541: "a sua expressão é de sofrimento, triste, tensa, como se compreendesse a injustiça que se estava levando a cabo" ao crucificar S. Pedro.

Fonte: El País

Mistérios da lei


O Decreto-Lei n.º 15/93, de 22 de Janeiro, define o regime jurídico do tráfico e consumo de estupefacientes. E pelos vistos alguém andou a mexer na lei à revelia do legislador. Em causa está o artigo 40.º da lei que pune o "tráfico e consumo de estupefacientes e de substância psicotrópicas". Esta norma pune o "consumo", "cultivo", "aquisição" ou "detenção" de droga, mas na versão alterada e publicada em Diário da República do passado dia 11 de Maio foram retiradas todas as expressões, à excepção de "cultivo".
Onde devia estar "1 - Quem consumir ou, para o seu consumo, cultivar, adquirir ou detiver plantas, substâncias ou preparações compreendidas nas tabelas I a IV é punido com pena de prisão até 3 meses ou com pena de multa até 30 dias." Passou a estar: "1 - Quem cultivar plantas, substâncias ou preparações compreendidas nas tabelas I a IV é punido com pena de prisão até 3 meses ou com pena de multa até 30 dias."
A "nova" versão do artigo 40.º que veio a constar na republicação integral do decreto-lei - na sequência de pequenas alterações a outros artigos - causou polémica no meio judicial. Isto porque apenas os artigos 15.º 16.º tiveram alteração aprovada pelo Parlamento e não se compreende como pôde um artigo ser modificado substancialmente naquelas circunstâncias.
"Houve apenas um lapso fortuito, razão pela qual a Assembleia da República vai publicar uma declaração de rectificação", segundo disse ao JN a assessoria do ministro dos Assuntos Parlamentares. A rectificação foi publicada no passado dia 22 de Junho.

01 julho 2009

O graffiti segundo Vhils




Vhils é o pseudónimo artístico de Alexandre Farto, artista de rua que já saltou fronteiras. Amanhã inaugura a primeira exposição individual em Londres, na galeria Lazarides, que representa Banksy, Invader e David Choe.
Em Londres e também em Lisboa, o mercado da "street art" está a atrair a atenção de mais coleccionadores, agora que também passou a apresentar-se em "espaços expositivos". Segundo Matilde Meireles, da galeria Vera Cortês, que representa Alexandre Farto em Portugal, é uma arte que está na moda.
Para Vhils, a valorização da arte de rua ainda está para vir, quando a geração que mais se identifica com a estética, que está agora entre os 15 e 25 anos, ganhar poder de compra. "Acredito que, num futuro próximo, quando essa geração for a que tomar a situação, as coisas vão ser mais sérias".
O artista, que começou a fazer grafitti em muros e comboios aos 13 anos em Lisboa, nunca pensou que o interesse pela pintura e desenho tivesse futuro. A perspectiva mudou quando conheceu o trabalho de outros artistas internacionais e percebeu que "conseguia transmitir alguma coisa com isto e ter uma ideia por trás" das pinturas que fazia pela cidade.
A certa altura, recordou Matilde Meireles, Alexandre, então com 18 anos, começou a questionar-se se devia fazer um trabalho mais convencional, como pintar telas, para poder afirmar-se. Incentivaram-no a continuar na arte de rua, mesmo que isso implique intervenções ilegais - quer as que continua a fazer sozinho, quer as que desenvolve com o colectivo VSP. "Ser ilegal dá a liberdade de conseguir entrar num contexto que as pessoas não estão à espera e isso, na minha opinião, é o que diferencia a street art - graffiti de tudo o resto".

Fonte: DN

A flauta mágica





30 junho 2009

Trinta anos de Walkman


Walkman era um aparelho que lia cassetes e se podia transportar facilmente. Os leitores portáteis de cassetes existiam há anos. O Walkman teve o mérito de ser um aparelho barato, prático (para os padrões da altura) e, sobretudo, bem publicitado pela Sony. O aparelho era azul e cinzento – e substancialmente maior do que qualquer moderno leitor de áudio.
O walkman foi lançado em 1979. Anunciado a 21 de Junho, começou a ser vendido no Japão no 1º de Julho. E o sucesso foi retumbante. Marcou o mundo da música da década de 80.
Por cá, dois poetas juntaram-se numa espécie de homenagem. Falamos de Walkmen, de José Miguel Silva e Manuel de Freitas, que recorda os tempo de uma banda, os Tuxedomoon.
Aqui fica um poema de Manuel de Freitas, retirado da pág.16 desse livro, com o título Loneliness (e dedicado "à memória de Eduardo Guerra Carneiro").


Há refrões que não são fáceis de aprender:
Here comes loneliness.
Foi essa, desde o início, a nossa história.

Que passos te levam
ou não levam agora aos mesmos
bares, a portas fechadas,
àqueles de que nem pudeste despedir-te?

Procuras uma resposta,
a forca simples de um olhar.
Mas é demasiado tarde,
canções
que fingindo a vida nos sepultam.

Pina Bausch (1940-2009)


A coreógrafa alemã Pina Bausch, que fundiu o teatro, a dança moderna, a pantomima e o musical, moldando um novo estilo, morreu. Tinha 68 anos. Disse numa entrevista: "Todos os pormenores são tão importantes! Tudo é pormenor."
António Pinto Ribeiro, ensaísta e consultor da Fundação Gulbenkian, diz: “Pina Bausch deixa um reportório absolutamente invulgar e único; é uma das artistas e autoras mais criativas do século XX, cuja obra ultrapassa largamente o domínio da dança. Um dos aspectos mais notáveis é ela ter começado pela dança tradicional e, depois, ter ultrapassado todas as fronteiras, tornando-se numa das heroínas da cultura do século XX. É uma obra atravessada por um grande humanismo, no modo como retrata as contradições da natureza humana, e no olhar sábio que lança sobre o homem e sobre a mulher”.


29 junho 2009

O discurso da pobreza


Essa coisa do "pobres mas felizes" soa um pouco a "o povo é soberano", mas vai-se a ver e a soberania é apenas fachada e a felicidade é o mesmo lado da moeda. Maneira de dizer que apesar dos sofrimentos e das faltas se conserva o espírito.
Basta andar pelas ruas para ver a felicidade espelhada nos rostos. Até assusta tanta felicidade. É como perguntar a alguém que chora se está triste... quantos não dizem que não, que choram de alegria. Sim, Portugal é o país da euforia. E quiçá da esquizofrenia.
Portugal tem 1,8 milhões de pobres. Por coincidência, é esse o número de reformados existentes no país e cuja pensão média é de 385 euros.
Só em quatro concelhos, a pensão do reformado médio permite ultrapassar o limiar de pobreza (360 euros). São eles Lisboa, Setúbal, Porto e Aveiro.
Nas cidades é mais comum encontrar casos de miséria extrema e abandono, apesar do crescente número de equipamentos sociais. E também de pessoas com vergonha de pedir ajuda. Veja-se o caso de um idoso que foi encontrado morto já em decomposição, no Porto, na semana passada. Na cidade, a solidão é muito mais densa. Vale a pena ler Nos rastos da solidão, de José Machado Pais (Ambar, 2006).
Já os ricos, coitados, devem andar tristes. Ascende a mais de 24 milhões de euros (24.301.669 euros) o montante total que os cinco arguidos do caso BCP (Banco Comercial Português) - os ex-membros do Conselho de Administração (CA) Jardim Gonçalves, Filipe Pinhal, Christopher de Beck, António Rodrigues e António Castro Henriques - receberam entre 2001 e 2004, respectivamente: 9693 milhões de euros, 2913 milhões, 2684 milhões, 2661 milhões e 1505 milhões. "Montantes que os arguidos, apesar de bem saberem não lhes serem devidos, fizeram seus e permitiram que os restantes membros do CA igualmente o fizessem", sendo recebidos nos anos seguintes, tendo a última vez sido em Junho de 2007
No final do estudo "Necessidades em Portugal – Tradição e Tendências Emergentes", os investigadores viram-se perante um país socialmente muito frágil, pouco capaz de se mobilizar individual e socialmente. Mas, apesar disso, com altos níveis de satisfação e felicidade. Como é que se avaliam esses níveis? Só pelo que as pessoas dizem? A ser assim...

28 junho 2009

Juan Bonilla


Denominación de origen: extranjero

La patria es estar lejos de la patria:
una nostalgia de la infancia en noches
en que te sientes viejo, una nostalgia
que sube a tu garganta como el agrio
sabor del vino en las resacas duras.

La patria es un estado: pero de ánimo.
Un viejo invernadero de pasiones.
La patria es la familia: ese lugar
en el que dan paella los domingos.

Una patria es la lengua en la que sueñas.
Y el patio del colegio donde un día
bajo una lámina de cielo oscuro
decidiste escpar por vez primera.

Mi patria está en el cuerpo de Patricia:
mi himno es su gemido, mi bandera
su desnudez de doce de la noche
a ocho de la mañana. Tras la ducha
mi patria se va al trabajo, yo me exilio.

[in Partes de Guerra, Pre-Textos, 1994, pág. 35]


Epitafio del enamorado

Si alguien quiere escribir mi biografia
no hay nada más sencillo.
Dispone de dos fechas solamente:
la del dia en que te conocí
y la del que te fuiste.
Entre una y outra transcurrió mi vida.
Lo que ocurriera antes, lo olvide.
Lo que suceda ya, carece de importancia.

[in El Belvedere, Pre-Textos pág. 18]


Contra San Juan

Pusiste amor donde no había amor
y allí creció la flor del desengño.
Donde aguardabas oro hallaste estaño
y el entusiasmo se enquisto en sopor.

Se equivocaron De Yepes y Sor
Juana, que amor sembrado en sitio extraño
no proporciona sino antiguo daño
al que no sobrevive su esplendor.

Así que el que sembrare en un erial
su amor, no cuente com que se agigante.
Ni lo recobrará, pues, contagiado,

su corazón habrá adquirido el mal
que impide que otro amor se le trasplante.
Él mismo en un erial se ha transformado.

[in Buzón Vacío, Pre-Textos, 2006, pág. 33]

Javier Rodríguez Marcos


Autorretrato

Estoy hecho de golpes, de agujeros,
de ceniza caliente que llena mis arterias
y me pinta una estrella en el cielo de la boca.
Soy el dueño de heridas extranjeras
que sangran todavía bajo las cicatrices,
y lo terrible del dolor ajeno
es saberse la causa.
Fui la llaga, el cuchillo.
¿Por qué esta vida nuestra viene siempre
de la mano de la muerte de alguien?
(Ya sé que cada paso traiciona un pensamiento,
que la única inocencia es no pensar,
pero la vana lógica
no sirve de consuelo).
Estoy hecho de huecos, de túneles, de barro
de palabras que significan poco.
Soy la sombra de lo que pensó alguien
hace ya muchos años. No soy lo que soñaron
(el sueño de aquel sueño, un fuego que se apaga)
Soy una piel reseca y poco más,
este golpe de huesos mal sumados.
Lo demás, viento y vanidad, miseria.

[in Mientras ardem, Hiperión, 1996, págs.39-40]


Todo

La resaca de todo lo vivido
como un charco de culpa.

Por pedirle a la vida
más de lo que esta ofrece,

este dolor es todo
lo que tengo,

este dolor es todo
lo que yo puedo darte.

[in Frágil, Hiperión, 2002, pág.59]

27 junho 2009

Irene Lisboa


Escrever

Se eu pudesse havia de... de...
transformar as palavras em clava!
havia de escrever rijamente.
Cada palavra seca, irressonante!
Sem música, como um gesto,
uma pancada brusca e sóbria.
Para quê,
mas para quê todo o artifício
da composição sintáctica e métrica,
este arredondado linguístico?
Gostava de atirar palavras.
Rápidas, secas e bárbaras: pedradas!
Sentidos próprios em tudo.
Amo? Amo ou não amo!
Vejo, admiro, desejo?
Ou não... ou sim.
E, como isto, continuando...

E gostava,
para as infinitamente delicadas coisas do espírito
(quais? mas quais?)
em oposição com a braveza
do jogo da pedrada,
da pontaria às coisas certas e negadas,
gostava...
de escrever com um fio de água!
um fio que nada traçasse...
fino e sem cor... medroso...
Ó infinitamente delicadas coisas do espírito...
Amor que se não tem,
desejo dispersivo,
sofrimento indefinido,
ideia incontornada,
apreços, gostos fugitivos...
Ai, o fio da água,
o próprio fio da água poderia
sobre vós passar, transparentemente...
ou seguir-vos, humilde e tranquilo?

[Transcrição da versão incluída por Eugénio de Andrade na Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa, págs. 386-7, Campo das Letras, 2000. Há uma outra versão, que se encontra nas págs. 300-1 de Poesia - I, Presença, 1991, organizada por Paula Morão. Não conseguimos averiguar qual a fonte de que se serviu Eugénio de Andrade e não sabemos, por isso, qual das versões é mais antiga.]

26 junho 2009

R I P


Morreu, ontem. Por overdose. Coitado. Era e não era. Em quase tudo. Ganhou milhões. Perdeu milhões. Deu o seu contributo. Chamam-lhe rei. Já lhe vimos chamar nomes piores. Cada um tem os insultos que merece. Talvez quisesse (a pequena moral é sempre tão alarve e cómica) ser o que todos somos, um Zé-Ninguém. Mas era o Michael Jackson. Tinha 50 anos. Que descanse em paz.
E que os vivos apurem a gula, pois à custa do era e não era factura-se um pouco mais. E os que ainda há pouco escarneciam do pedófilo enaltecem agora o artista. Isto de ser artista é quase o mesmo que ser e não ser. Mas Shakespeare não é para aqui chamado.

25 junho 2009

Paulo da Costa Domingos

CONSTRUÇÃO CIVIL

1.
Contra o vento que sopra
corremos a desejos inconcussos
por veleidade e atrevimento
enquanto raparigas carregam
seus violoncelos às costas
e nós aqui na obra evitamos
a magueira do cimento.

Escravas, que são!, da
vibração de cordas, de
esfregar os arcos
em gemidos conclusivos.

Nós, o mais que nos ocupa
são saladas de orelha,
como bons e pacíficos católicos
domina-nos a féria.


2.
A horas certas em regulares cadências
sobem ou descem palavras nossas
leva-as o vento na grua:
cartas de amor ao sindicato,
guias para a junta médica, a bola
(fora de jogo eu vi, o penalty),
elogios à fêvera da boa fêmea...

Que a elas soa como impropério
estimulante ofensa à paridade
(fossem antes solos de violino...)
na boca de bocas inúteis.

Nós, o menos que nos preocupa
é desenterrar os botins do lodaçal,
como bons e fiáveis operários
não perder no cimento fresco o nível.

Poemas transcritos daqui.

Delírios canadianos


A retórica tem destas coisas. Quando alguém quer veicular certo ponto de vista procura exemplos que o sustente, pois desse modo o seu ponto de vista tem algo de concreto que confirma não só a sua veracidade como o seu valor.
Don Tapscott faz isso mesmo no seu post. Quem o ler com atenção verifica que ele deduz, ou seja, formula uma opinião. Não descreve um facto. A diferença está nisso. Será um especialista em tecnologia, mas é um tanto ou quanto aldrabão em assuntos pedagógicos. Pelo menos no que nos diz respeito a nós, portugueses. Desde o tipo de matéria leccionada a crianças do 1º ano (astronomia), passando pela cuidada formação de professores (terá sido um pink dream do Mr. expert?), acabando nas extrapolações o que ele faz é política e lóbi.

24 junho 2009

Os Surrealistas


O surrealismo chegou tarde. Chegou bastante depois dos manifestos de Breton e quando o Estado Novo levava já 16 anos de existência.
Os surrealistas eram: Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, Pedro Oom, Risques Pereira, António Maria Lisboa, Mário Henrique Leiria, Fernando José Francisco, Carlos Eurico da Costa, Carlos Calvet, Fernando Alves dos Santos, António Paulo Tomas e João Artur da Silva.
Cesariny é, digamos, a abelha mestra. Da sua acção, dos seus textos, da sua persistência provém o fulgor que o surrealismo teve entre nós. Sem ele, teria sido mais uma curiosidade, espécie de flor de papel para os manuais da história de arte e da história literária.
Mário Cesariny descobriu com Alexandre O´Neill a revolução surrealista. Foi considerado suspeito de vagabundagem pela Polícia Judiciária e cultivou a homossexualidade sem medo. Viveu para a liberdade, o amor e a poesia, a bandeira dos surrealistas. E deixou obra, obra temperada pela vida, pelos combates que quis e precisou de travar.
Agora, temos as comemorações. Vão-se sucedendo. O costume.
E o surrealismo tem a particularidade de ficar bem nas notícias, espécie de picante para gente fina, mas não subnutrida, claro.