31 janeiro 2010

Rui Ramos ao Público

«[...] não é verdade, como escreve Nuno Monteiro, que mesmo no seu apogeu Portugal fosse uma grande potência. Tivemos sempre de jogar com os diferentes poderes e aproveitámos apenas uma janela de oportunidade. Mal apareceram concorrentes mais fortes deixámos de ser uma potência determinante no Oriente. Pensar que podíamos manter o domínio do Índico para lá do século XVI é pensar que tínhamos uma força que nunca tivemos.

Mas passou por cá uma enorme quantidade de riqueza que não criou raízes. Porquê?

Esse período não é a minha especialidade, mas muito provavelmente não criou raízes porque Portugal já era um país pobre, e já então quando se atirava dinheiro para cima de um país pobre ele desaparecia. E éramos um país pobre no sentido em que não possuíamos estruturas para produzir riqueza de forma auto-sustentada. O dinheiro que por cá passava era utilizado pelas elites para comprarem luxos onde eles eram manufacturados: no Norte de Itália, no Norte da Alemanha e nos Países Baixos. Regiões que são ricas hoje como o eram no século passado ou no século XVI. Ou mesmo no século XII. Basta olharmos para as nossas igrejas medievais e para as nossas obras do Renascimento e ver o que se fazia nesses países.

Como explicar a capacidade de outros países europeus que eram pobres, marginais e muito atrasados mas saltaram para o pelotão da frente?

O que a investigação de história económica mais recente nos mostra é que houve quase sempre limitações de recursos e de oportunidades em Portugal. Quando existiam oportunidades, os portugueses sabiam agarrá-las - quanto mais não fosse emigrando. Por outro lado, no momento decisivo do salto em frente no século XIX, Portugal não tinha um conjunto de recursos naturais muito importantes, a começar pela impossibilidade de produzir, a preços competitivos, os alimentos mais procurados. Só tínhamos o vinho, mais nada. Há também outras razões, algumas delas culturais: também não tínhamos gente preparada, gente letrada em quantidade suficiente.

Portugal foi um país que nunca estimulou os homens livres. Pelo contrário, sempre houve uma tendência para ricos e pobres se encostarem ao Estado. Porquê?

Uma explicação para isso tem a ver com a dimensão ultramarina de Portugal, que permitiu que o Estado se soltasse da sociedade. O Estado não necessitava de cobrar impostos nem de estimular o desenvolvimento, pois os proventos não lhe vinham da metrópole mas da pimenta das Índias ou do ouro do Brasil. Isso criou um poder político centrado em Lisboa, transformada quase em cidade-estado onde tudo se passava, à margem de um interior rural e pobre com que ninguém se preocupava. E quem queria pertencer à elite tinha de vir para a Corte. A nossa aristocracia, ao contrário da aristocracia inglesa ou da aristocracia prussiana, não era terratenente, vivia de rendimentos públicos. Houve sempre um Estado maior do que o país e do que a sociedade devido à realidade ultramarina. Quando se perde o Brasil, passamos a ter um Estado que desconfia da sociedade, que acha que ela não se sabe governar. Encontramos essa mentalidade nos liberais, nos republicanos e nos salazaristas. Todos entendem que têm a missão histórica de arrastar a sociedade para o que entendem por bem comum. Lutam os liberais e os republicanos contra uma sociedade que vêem como tradicionalista e reaccionária, lutam os salazaristas contra uma sociedade que vêem como individualista e anárquica.

Todo esse discurso aponta para um momento de corte, como se houvesse um Portugal do Antigo Regime e um Portugal pós-Revolução Liberal. É isso?

Sim, e esta é porventura uma das novidades desta "História de Portugal" para alguns leitores: a grande revolução em Portugal nos últimos 200 anos foi a Revolução Liberal, foi aquela que mudou realmente o mundo político e cortou todas as pontes com o passado.

[...] Há um país antes de 1820, ou mais exactamente antes de 1832-34, e outro depois. Na República não mudam os paradigmas, com o triunfo da Revolução Liberal mudou tudo na relação dos portugueses com o Estado. Como disse Almeida Garret, foi nessa altura que um Portugal Velho acabou e começou um Portugal Novo. Todas as instituições, algumas delas seculares, desapareceram. Até acabou a velha relação das pessoas com a terra, que não correspondia à ideia de propriedade individual e absoluta dos dias de hoje. O mapa dos concelhos é todo alterado, na prática destruiu-se um poder municipal que vinha desde o nascimento do país. É também então que começa realmente a separação de poderes. Mas a "maior revolução social da história portuguesa", como se lhe referiu Alexandre Herculano, também destruiu as condições para um equilíbrio entre o Estado e a sociedade que permitisse a modernização, no contexto de uma sociedade tradicional que vai evoluindo sem destruir.

[...]

O que é que alguém que queira pensar Portugal hoje pode retirar desta História?

Pode perceber que Portugal não começou ontem, que existem condicionantes que vêm do passado, pode até verificar que algumas soluções já foram tentadas no passado, como os programas desenvolvimentistas de obras públicas, e que não deram resultado. Mas a história também é importante para percebermos a nossa inerradicável pluralidade. Não permite um discurso uniformizador sobre "o português"...

Então livros como "O Medo de Existir", de José Gil, não fazem sentido...

Tenho sempre uma enorme dificuldade em compreender as obras que passam por uma antropomorfização de Portugal, como se Portugal estivesse ali ao lado sentado a tomar café. Há dez milhões de portugueses, logo há dez milhões de maneiras diferentes de se ser português. A alternativa a esse discurso é uma História de Portugal que não procura uma explicação filosófica geral. Temos muitas coisas comuns, mas o fado é de Lisboa e o vinho verde tinto é do Norte Litoral. Não tentemos esconder a pluralidade nem substituí-la por uma qualquer leitura secular do velho providencialismo divino.»

Fonte: Y

30 janeiro 2010

Joaquim Manuel Magalhães

Benjoim


Regresso ao silêncio da sala,
à plana doçura do inverno,
a campainha que não vai tocar.

*

Com talos de couve e uma bola de pau
jogávamos (a quê?) quando um professor
faltava. Apenas os traidores.

*

Os elefantes são por natureza
melancólicos, têm medos,
torturados por sonhos ferozes.

*

É sempre a pior gente
que primeiro não acredita.
E sempre a pior gente
que depois não deixa de acreditar.

*

De noite, às escondidas.


[in Uma luz com toldo vermelho, Presença, 1990, pág. 60]

Jorge de Sena

Para bellum

Protestos, livros, poemas, sacrifícios,
a história analisada e desmascarada: a paz
e não a guerra desde sempre a guerra.
É velho tudo isto. Há malandros
para ganhar com as guerras, há patriotas
para mandar os outros morrer nelas, há
heróis ou não heróis que morrem nelas,
há multidões para serem massacradas.
Eu protesto, tu protestas, ele protesta, etc.
E nada muda, ou muda para mais.
Antigamente, os faraós ao contar os mortos inimigos
nunca os próprios mortos) exageravam - evidente.
Hoje, os comunicados cometem sempre esse exagero
e a mesma distracção discreta). Mas há sempre
humanidade com vocação para matar e multidões
com vocação vacum para cadáver.
E neste cheiro a podre milenário - vale a pena
sequer dizer que são filhos da puta?

Dec. 3/1970

[in Visão Perpétua, Edições 70, pág. 123]

Cultura e ex-ministra da pasta

"O primeiro-ministro identificou o pouco investimento em Cultura como um erro da sua governação, admitindo que talvez devesse ter investido em Cultura como fizera em Ciência."

"Ainda não será desta que a promessa "reforçar o orçamento da Cultura" será cumprida, apesar do simpático mas aparente aumento na estimativa global da despesa de 12,8%, anunciado sem detalhes por alguma comunicação social. Todavia esta informação do OE importa ser complementada por outra que faz o sector Cultura corresponder a 0,1% do PIB e a 0,4% do OE, crescendo 0,1%."

"Estamos nuns tímidos 0,4%; em 2005, estávamos em 0,6% [do Orçamento de Estado para a Cultura]."

"A Cultura continua, pois, não sendo alçada a prioridade política, facto incompreensível quando recente estudo independente revela que, em 2006, o sector cultural e criativo representou 2,8% da riqueza produzida em Portugal e criou 2,6% do emprego. Isto para só falarmos em números..."

"Replica-se a gasta e ultrapassada fórmula de, em época de vacas magras, não alimentar a Cultura, mesmo que o paradigma de desenvolvimento tenha mudado, revelando que o que ela produz é potenciador de energia criativa e económica na sociedade da inovação de hoje."

Isabel Pires de Lima no i online

Quer dar uma conferência na Gulbenkian?


Precisa apenas de duas coisas: 1ª ser americano; 2ª ser um perito em disparates.
Veja-se: Paul Pastorek, superintendente para a Educação no estado de Luisiana nos EUA afirmou que «se o aluno chumba o ano, a culpa é do professor; se o aluno desiste de estudar, a culpa também é do professor; e se o aluno falta às aulas, a culpa é outra vez do professor. O sucesso escolar de uma criança está sempre nas mãos do professor. Nem as origens socioeconómicas nem o contexto familiar servem de justificação - a culpa é sempre da escola, que não soube encontrar as estratégias certas para ensinar os seus alunos.»
O mais extraordinário é que há muita gente que precisa de ouvir disparates. Sobretudo se forem ditos em inglês. Soam muito melhor. Não é que uma tal audiência tenha sentido de humor. É que se sente muito menos diminuída.
Quem anda em transportes públicos ou frequenta cafés e ouve as explicações que os portugueses encontram, sabe que somos um povo especialmente dotado para acreditar em aparições, em bruxas e noutras maravilhas. Um português sempre descobre as razões secretas e é sempre capaz de explicar o inexplicável. Somos altamente dotados para as ciências e para a Verdade.
Voltando à escola, sabe quem por lá anda que a escola é o sítio onde se desenham saídas e prisões. Saídas para os que desenvolvem capacidades. Prisões para os que jamais conseguem sair do mundo fechado em que nasceram e onde vivem.
Em Portugal ainda há poucas escolas para ricos, mas são muitos os que querem que haja mais, pois o negócio é, de facto, apetecível. Na América, há a escola pública para os pobres e escolas para os endinheirados. Aos pobres há que alimentar a ilusão de pertença, conduzi-los, qual gado manso, ao redil e mantê-los entretidos. Serão aquela mão-de-obra barata de que precisam os empresários pequenos.
Sempre houve gente capaz de defender que a individualidade não existe, que apenas interessa a manada. E se a manada faz X, todos têm que fazer X. Porque isso é do alto interesse de meia dúzia de senhores.
Às vezes, ainda parece possível haver quem saiba que só se pode aprender quando se tem interesse, quando há uma motivação própria, individual. Mas isso será cada vez mais uma visão minoritária. O que é preciso, cada vez mais, é ter bem identificados os alvos a abater. Porque assim andamos todos mais seguros, mesmo que vivamos dentro de uma imensa mentira.
Que o diga o pastor Pastorek.

28 janeiro 2010

Jerome David Salinger (1919 - 2010)



Morreu (ver aqui) um ícone da literatura pop americana. Salinger há muito não publicava nada, mas periodicamente a imprensa americana servia-se dele para alimentar o mito. A editora precisava de continuar a vender o autor para lhe pagar o que havia sido acordado.
Era budista e detestava que o procurassem, que o fotografassem, que se metessem na sua vida. Os livros que escreveu e lemos não são grande coisa. O que lhe deu a fama (The Catcher in the Rye / À Espera no Centeio, 1951) teve o mérito de falar em linguagem de todos do que era um tabu na puritana sociedade americana e fazê-lo pela voz de um adolescente. Como a América é o país dos adolescentes, a coisa foi um sucesso. E quando os adolescentes chegam a velhos, recordam-se dos "anos loucos" da juventude e... um círculo que rendeu.
As anedotas são quase tão interessantes como as histórias do autor. Agora, veremos se a pouco e pouco saem livros que tenha deixados escritos que valham a pena ler.

De cada vez que abre a boca sai asneira



Que o engenheiro é vaidoso, todos sabíamos. Que sabe vender o seu peixe ,também. Que está tão inchado que mais parece um sapo... idem.
Ajudem-me a perceber como é que alguém supostamente responsável (e criador de tantos empregos - a demagogia da criação de empregos é tão doce nos nossos dias, que eu próprio estou a pensar criar uma empresa e empregar mil pessoas de cada vez, com salários adequados, assim coisa proporcional ao que paga Belmiro com os lucros que tem, ou seja, um euro por cabeça) tem necessidade de vir com as atoardas que a Visão publicou.
Soa-me a duas coisas, ressentimento e negócios em vista. Belmiro está-se nas tintas para o resto. Ou há muito teria aumentado os salários mais baixos, em época de vacas gordas. E não só não fez, como sempre foi pródigo em utilizar mão-de-obra barata, precária e tratada quase como gado. Repare-se que ele quer aumentar salários é aos gestores, pois são eles que sujam as mãos e encontram estratégias para contornar leis laborais e outras minudências.
Os patrões portugueses nunca defenderam senão o lucro próprio, o resto é fogo de vista para seduzir os papalvos que se babam de contentamento sempre que uma abécula maldiz a classe política.
Outro exemplo é o douto Ricardo Salgado, que considera que a tributação sobre bónus e rendimentos variáveis de administradores e gestores pode levar a que “gente muito valiosa” abandone Portugal para trabalhar noutro país.
As bandeiras cheias de fantasmas fazem lembrar os piratas. Será que Salgado deu em pirata?
Azevedo e Salgado, duas faces da mesma grandeza de Portugal: oportunismo.

27 janeiro 2010

Diopatra micrura, o novo verme marinho


De cor acastanhada, o verme tem à volta de seis centímetros de comprimento. Cinco antenas com umas riscas azuis servem de órgãos sensoriais, que detectam substâncias químicas no ambiente e funcionam também como sensores tácteis.
Ao longo de parte do corpo, apresenta uns esporos que se assemelham a árvores, os órgãos de respiração (as brânquias).
Este verme foi encontrado pela bióloga Adília Pires num dos braços principais da ria de Aveiro – o canal de Mira.
Até há pouco, apenas se conhecia um primo deste verme marinho na Europa, o Diopatra neapolitana, identificado em meados do século XIX, e conhecido pelo seu interesse económico, pois é vendido como isco na pesca. Desempenha um papel ecológico importante na cadeia alimentar: aves, peixes e outros animais comem-no. Na zona da ria de Aveiro, chamam-lhe “casulo”, porque constrói um tubo e vive dentro dele. Esse tubo é fabricado através do muco segregado pelo animal, ao qual aderem partículas de sedimentos, pedaços de conchas, algas, entre outras coisas. O tubo não se mexe, pois encontra-se preso ao chão. O animal sai dele para se alimentar.
O Diopatra micrura também constrói um tubo, só que um pouco mais pequeno.
Na mesma ria de Aveiro já os biólogos se tinham deparado com uma outra espécie de verme marinho, o Diopatra marocensis, até então apenas identificado na costa de Marrocos.

Fontes: 1, 2, 3

Para onde vai o dinheiro dos contribuintes?


Segundo o orçamento de 2010 vai em primeiro lugar para as Finanças (que leva quase 18 mil e 400 milhões de euros). Segue-se a Saúde, que fica com 9500 milhões. Ao ministério do Trabalho cabe-lhe quase 9 mil milhões. A Educação recebe 7275 milhões, sendo que parte disso é para obras, ou seja, deveria ter sido contabilizado na conta respectiva, que apenas recebe 413 milhões de euros. A Defesa e a Administração Interna recebem, respectivamente, 2440,5 milhões e 2016,2 milhões. À Justiça vão parar 1720,4 milhões, menos do que a Ciência que recebe 2559,7 milhões, mas mais do que a Agricultura, que tem direito a 1271,4 milhões.
A propaganda (Presidência do Conselho de Ministros) recebe mais do que a Cultura: 318,5 contra 236,3 milhões. O que mostra bem como este governo não descura o sector da informação (parte do bolo destina-se precisamente a encher os cofres de televisões, agências de publicidade, rádios, revistas e jornais).
Como diz Saldanha Sanches, o “Estado está recheado” de despesas supérfluas. E o que se faz para combater isso? “Foi-se para uma espécie de dieta geral, como alguém que tentasse emagrecer sem perder gordura”.

26 janeiro 2010

Achegas para o modernismo


Diz a notícia que «A ilustração foi o modo mais fácil para a entrada do modernismo em Portugal. A conclusão é da investigadora Theresa Lobo, que, ao longo de 20 anos, procedeu a um levantamento sobre ilustração portuguesa entre 1910 e 1940.»
No entanto, segundo se pode ler linhas abaixo, não foi bem assim. Diz-se que «os ilustradores portugueses recorreram muito aos magazines, aos jornais e aos cartazes. Estes suportes "eram imensos laboratórios, onde também realizaram as fórmulas de uma modernidade, que, dessa forma, penetrou lentamente na sociedade", refere a investigadora. Nesse sentido, " os magazines eram um campo de experimentação ideal para os novos ilustradores marcarem a sua estética".»
Ora o que se verifica é que os ilustradores, os artistas precisavam de sobreviver e os jornais, as revistas, os magazines foram o ganha-pão. Alguns, pelo seu talento, deixaram seguidores e contribuíram para divulgar o modernismo em Portugal. Mas será preciso ter em conta que Portugal viveu fechado ao mundo durante uma longa ditadura, o que impediu a livre circulação de pessoas e bens. Alguns, poucos, tinham oportunidade de sair do país ou de adquirirem informação proveniente de França.
Indiscutível é a aliança entre as melhores revistas literárias e um certo gosto gráfico. Mas sem objectos ricos como foi comum em França, na Bélgica, na Suíça e noutros países europeus.
Portugal não tinha nem uma burguesia culta nem uma classe média suficientemente letrada para voos maiores.
O modernismo foi coisa de minorias e ainda hoje perdura na sociedade portuguesa um entendimento das artes onde se mistura o naturalismo com o neo-realismo, caldeados com uns laivos de surrealismo serôdio, que configura um caldo requentado que torna difícil a vida a quantos procuram criar. Caldo que o Estado Novo divulgou com fervor, juntamente com o sector intelectual da altura do Partido Comunista.
A pouco e pouco as coisas foram mudando, mais pelo lado da literatura do que das artes plásticas, embora um ou outro nome tenha começado a marcar a diferença.

25 janeiro 2010

Falhas da medicina

Em muitos aspectos, a medicina é um jogo de possibilidades. Jogo que, nas mãos da indústria farmacêutica, permite encaixes de muitos milhões. Se a isso lhe associarmos medos primários e manipulação da opinião pública, temos o caldo ideal para o embuste perfeito.
Há quem grite aqui d'el-rei há muito. Há quem insista, depois de verificado o exagero, num escândalo. O presidente da comissão de Saúde da assembleia parlamentar do Conselho da Europa, Wolfgang Wodarg, considerou que no caso da gripe A se assistiu "ao maior escândalo médico do século" e acusou a OMS de ter "relações impróprias" com as empresas do sector farmacêutico. Na sua opinião, o alarme era escusado o e custou muito dinheiro aos governos - só na Europa, foram gastos 5 mil milhões de euros com as vacinas, nota, acrescentando que este investimento resultou da pressão da indústria farmacêutica.
Os governos abriram os cordões à bolsa para mostrar à população dos seus países que estavam empenhados em cuidar da saúde pública. O problema é terem gasto quantias exorbitantes com algo que se revelou um flop. Só em Portugal, os impactos financeiros directos da gripe A nos custos do Estado português ascendiam, em Outubro passado, a 67,5 milhões de euros com a compra de vacinas. Por apurar estão ainda os custos indirectos (perdas em IRS, as contribuições para a Segurança Social e subsídio de doença), dependendo da evolução da pandemia, mas um estudo efectuado pela Deloitte, em colaboração com a Intelligent Life Solutions, refere que os custos para o Estado estão estimados em 330 a 500 milhões de euros. Se se contar com o absentismo laboral, a Deloitte estima que a gripe A poderá originar uma redução do Produto Interno Bruto (PIB) nacional entre os 0,3 e os 0,45 por cento, ou seja, entre os 490 e os 740 milhões de euros.

24 janeiro 2010

Angola, Angola


Segundo a Organização pela Transparência Internacional, a República angolana faz parte da lista dos 18 países mais corruptos do mundo.
Nos países corruptos, a manutenção do poder faz-se a todo o custo. Angola resolveu o assunto de um modo simples, para fazer de conta que é um país democrático: «O parlamento angolano aprovou ontem uma nova Constituição que vai acabar com as eleições directas para o cargo do presidente de Angola. O novo texto entra em vigor já em Março e prevê que o presidente do país passe a acumular funções de chefe de Estado e de governo, congregando na sua figura a totalidade do poder executivo.»
Ou seja, a nova Constituição angolana garante liderança vitalícia a José Eduardo dos Santos e aumenta-lhe os poderes.
Angola mantém-se no ranking dos países com menor índice de desenvolvimento humano, mas denuncia um dos maiores níveis de crescimento económico do mundo. Quase imune à crise mundial, prevê-se que o país cresça 6,5% este ano, acelerando até 8,7% em 2011, adianta o Banco Mundial.
O crescimento económico, claro, vai parar aos bolsos de meia dúzia. De resto, cerca de 116 mil pessoas morrem anualmente em Angola devido às más condições ambientais, principalmente da água e ar, de acordo com um estudo divulgado nesta quarta-feira pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Isto para não falarmos das centenas de pessoas que continuam a morrer de fome por dia. Entretanto, alguns sorriem...

23 janeiro 2010

Sexo e poesia


Com o título Sexo na rua: onde é que eles têm a cabeça? pode ler-se no i-online uma breve reportagem sobre quem gosta de ter relações sexuais no cinema, em vestiários de lojas, em parques de estacionamento, em transportes públicos e noutros lugares públicos. O que me fez recordar um poema que LP traduziu e postou por estes dias no seu Do trapézio, sem rede e que transcrevemos com a devida vénia. Às vezes, a vida e a poesia espelham-se. Às vezes, a poesia é apenas um vazio imenso, que procura transformar a língua numa matéria viscosa, afim da merda. Infelizmente, quer por cá, quer em muitos outros países há quem entenda a poesia como puro experimentalismo, assim algo afim do onanismo. Nós por cá preferimos outro tipo de prazeres.

Encontro na cidade

Eles estavam a defecar em público, disse ele,
e outro disse,
e a copular também,
e eu pensei, quantos, mil?
Todos os sem-abrigo estavam a coupular em público? Que espectáculo.
Então alguém disse,
não eram todos os sem-abrigo,
e nós pudemos respirar melhor,
só uns quinze, se tantos, e eu pensei
que mesmo assim eram uns quantos para fazerem aquilo em público,
mas quando já estávamos no fim
parecia
que só tinha sido uma de cada:
uma cópula, uma defecação,
e então alguém acabou por dizer,
não é preciso ser um sem-abrigo para se fazer isso.

Poema de Doug Anderson, traduzido por LP, a partir de original reproduzido em Poetry like Bread, poets of the political imagination, selecção de Martín Espada, Curbstone Press, 4ª edição, 2007, p. 42).

Walton Ford





Sorte grande

Detido sob acusação de esfaqueamento, o homem pensou que os deuses são, de facto, doidos. Estava ele na esquadra quando viu que estava milionário. Tinha-lhe acabado de sair o euromilhões. Milionário é uma forma de dizer, pois a ele apenas lhe coube um prémio de seis mil euros. Mas para quem acabara de assaltar um empresário, a fim de lhe sacar uma pasta com dinheiro e cheques, a coisa soou-lhe a piada. A história real pode ser lida aqui.


22 janeiro 2010

Joaquim Manuel Magalhães

Teorias Literárias

3

O poeta era brasileiro e de turismo.
Na meia língua dos dois ensaboou-me
com um baião de galanteria .
Loas de grasnar a tolo e, é claro, o
talmente verdade a sua ladainha.

Emplumei-me de rubores a consentir
tudo o que requeria: introduções,
selecções, montras de livraria. Um festim
de recalques borbulhava compensado:
«Faça o que quiser. A sei eu autorizo.»

O brasileiro resfolegava de elogios.
Ganhara as férias, tinha pronta a lista
da antologia e mesmo em editora de segunda
já palmara em troca agradecida um
piqueno florilégio luso de versos seus.

Aviões passavam para bem mais longe
às seis da tarde desse dia.
Calcados pela vigarice, no super
mercado de abraços, esgueirámo-nos
cada um para a sua maravilha.

[in Alguns livros reunidos, Contexto, 1987, pág. 117]

Jorge de Sena

«Ser um grande poeta»


Ser um grande poeta
morto e nacional
é atrair as moscas
como idiotas e
os idiotas como
moscas.

Ser um poeta medíocre
vivo e universal
é atrair os catedráticos
de literatura como
idiotas e moscas.

Ser um poeta apenas
nem vivo nem morto
ou nacional ou universal
é atrair apenas os poetas
como moscas idiotas.

Moralidade: não há saída.

Maio/1970

[in Visão Perpétua, edições 70, 1989, pág. 116]

21 janeiro 2010

A justiça em Portugal é uma farsa


«Infelizmente em Portugal existe o segredo de justiça para dar cobertura à negligência e incompetência e para fazer julgamentos na praça pública. É melhor acabar com essa farsa.»

O segredo de justiça «é uma farsa» que tem servido para «dar cobertura à negligência e à incompetência e para fazer julgamentos na praça pública.»

«a divulgação de conteúdos em segredo de justiça serve para criar alarme social para efeitos processuais e é instrumento para criar juízos de culpabilidade na opinião pública.»

Marinho Pinto, bastonário da Ordem dos Advogados

Fonte 1 e 2

A saúde em Portugal é um luxo


Há muita gente que gasta mensalmente fortunas em medicamentos. Mas não são essas que usam a net para adquirir a posologia necessária ao seu bem-estar.
Recorre à net quem a domina e sabe onde procurar ou os que se deixam seduzir pelos anúncios que aparecem nos motores de pesquisa, disfarçados de informação (o que ajuda a perceber o grande negócio que é o Google).
Mas nem por isso deixa de se colocar a questão de os remédios serem abusivamente caros para a grande maioria dos cidadão portugueses. Aliás, a saúde é, em geral, coisa para os ricos, pois apenas os ricos podem pagar médicos privados, clínicas, exames (TACs, endoscopias, ecografias, etc.) e tratamentos em tempo útil. O resto da população sobrevive ao ritmo dos prazos alargados de marcação de consultas, a clínicos gerais apressados, a muitas horas passadas em filas de espera, em triagens e noutras quantas peripécias que procuram conferir ao atendimento uma aparência de funcionalidade.
A ideia geral é, claro, a de que a medicina funciona mal e é cara. Quem pode, tenta contorná-la recorrendo à net, onde abundam os sítios com informação médica (verdadeira? falsa? perigosa?).
A saúde é um grande negócio em qualquer parte do mundo. E se já não há tanta gente a acreditar em feiticeiros, muitos haverá que ainda olham para o médico como um primo afastado, capaz de resolver tudo só por ter o paciente diante de si.
O papel paliativo e mágico da net surge aos olhos de uns quantos como uma boa alternativa às consultas onerosas, excessivamente rápidas e aborrecidas dos consultórios ou clínicas das especialidades. Além disso, algumas pessoas ficam embaraçadas em ter que expor os seus problemas a um estranho. Não espanta que cerca de 46 por cento dos medicamentos comprados online se destinem ao emagrecimento ou que 16,7 por cento sejam anti-depressivos. Ou que haja procura de medicamentos para aumentar a massa muscular (15 por cento), dos que se destinam a curar a disfunção eréctil (seis por cento) ou dos destinados às doenças do foro oncológico (quatro por cento).

20 janeiro 2010

Infantilidades do mundo moderno


Há milhares que sofrem de disfunção eréctil. Outros, estão bem. Tão bem que sofrem... por ser figuras públicas. Que o diga o golfista norte-americano, Tiger Woods, internado numa clínica especializada na cura da "adicção sexual", de Hattiesburg, Mississippi.
Inventam-se adições como quem inventa novas funcionalidades informáticas: para fazer negócio. O problema, estamos em crer, é a diferença entre o homem e a máquina. Um dia, estas manias de agora afectar-nos-ão a todos. O que será uma grande oportunidade de negócio para psicólogos e clínicos. Mas convém não esquecer que a fertilidade nos países desenvolvidos está em acentuado declínio e que a eugenia é um assunto muito perigoso (pelo menos, ao tempo dos nazis era; se calhar agora, com o selo das clínicas especializadas, já deixou de ser).