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14 outubro 2011

A mais antiga oficina de pintura da humanidade


Foi descoberta na gruta de Blombos, perto da Cidade do Cabo, na África do Sul. As conchas marinhas achadas na caverna sul-africana continham uma mescla de pigmentos ocres com osso e carvão triturados, misturados com água ou urina, criando uma "tinta" arcaica que podia ser aplicada com uma espátula de osso (também achada no local).


Cristopher Henshilwood dirige uma equipa de arqueólogos da Universidade de Bergen, na Noruega, que fez o levantamento do achado.


"Acreditamos que o processo de produção passava por esfregar pedaços de ocre (obtido a partir da terra ou da rocha que contém uma mistura de óxidos e hidróxidos de ferro, com cor ferruginosa] em lâminas de quartzito para produzir um pó fino. Depois o pó era misturado com carvão vegetal, com lascas de pedra e um líquido."


À volta dos utensílios, os paleontólogos não encontraram nem comida, nem detritos associados ao quotidiano destas populações. Algo que reforça a ideia de que aquele não era um local habitado, mas um sítio de trabalho, uma oficina.


A descoberta das duas espécies de "estojos de ferramentas" da idade da pedra, pertencentes ao Paleolítico Médio, deu-se numa camada com cem mil anos, na gruta. Duas conchas separadas por alguns centímetros, em que cada uma continha restos secos da tinta de ocre-vermelho produzida pelas pessoas que estiveram ali. Um dos estojos estava mais completo, e tinha pedras para polir, osso, carvão vegetal, etc.
No mesmo campo arquológico já se tinham realizado outros importantes achados, como duas barras de argila colorida com desenhos geométricos.

Fontes: 1, 2, 3 e Público

01 agosto 2011

Taça chinesa do século XVII com motivos pornográficos




A vida no convento de Santana em Lisboa, no século XVII, era um misto de luxo e devoção. Escavações ali realizadas pelos investigadores Rosa Varela Gomes e Mário Varela Gomes apontam nesse sentido.
As escavações arqueológicas tiveram início em 2002 e terminaram em 2010, no local onde estão a ser construídos equipamentos da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova, onde existia o edifício do Instituto Bacteriológico Câmara Pestana, ao Campo Santana.
No antigo convento, onde chegaram a viver cerca de 300 pessoas (em 1702), das quais 130 religiosas, foi encontrado um conjunto de 35 sepulturas, bem como variadíssimos artefactos que permitem identificar o quotidiano das residentes, fossem elas religiosas ou laicas.
Foram encontradas muitas peças de faiança portuguesa, porcelana chinesa, peças espanholas e italianas. Tudo objectos de grande valor e a que apenas famílias nobres teriam acesso. De entre as peças descobertas encontraram-se porcelanas chinesas da dinastia Ming, uma peça de cerâmica de origem vietnamita e algo até agora inédito: uma taça de porcelana com imagens que constituem uma espécie de manual de práticas sexuais, à semelhança de outras obras da época na filosofia do Kamasutra.
O investigador Mário Varela Gomes explica que aquela "é uma peça única no mundo", porque da época são conhecidas porcelanas chinesas com motivos eróticos, mas sem sexo explícito. "Esta peça ultrapassa tudo o que se conhece da época, já tem conteúdos pornográficos".
Paralelamente aos objectos que mostram a existência de luxo, foram descobertas escovas e pentes, mas também artigos de uso religioso, como um anel de martírio, cruzes e medalhas.

05 julho 2011

A mais antiga imagem de rei egípcio


Arqueólogos norte-americanos e italianos descobriram uma inscrição com o desenho mais antigo de um faraó egípcio. O achado ocorreu em Al Hamdulab, a noroeste da cidade de Asuan, 800 kms a sul do Cairo. E faz parte de uma série de escrituras e imagens que mostram os rituais dos faraós na antiguidade, bem como cenas de combates, festas, pesca, sinais de poder político e animais.

01 julho 2010

Daqui a um ano temos a casa de Manuel de Arriaga


O Solar dos Arriagas, cuja edificação teve lugar durante a primeira metade do século XIX, é actualmente designado como Casa Manuel de Arriaga, por aí ter nascido (a 8 de Julho de 1840) e vivido até aos 18 anos Manuel José de Arriaga Brum da Silveira, que se tornaria, em 1911, o primeiro Presidente da República Portuguesa.
A reabilitação do edifício custará aos cofres da Região Autónoma dos Açores um milhão de euros. O projecto de arquitectura e especialidades é da responsabilidade do ateliê dos arquitectos Rui Pinto e Ana Robalo. Na casa haverá um espaço em que se evoca a personalidade mas também ideais e valores da República. A inauguração está prevista para o segundo semestre de 2011.

15 junho 2010

Auschwitz Birkenau





[Fotos daqui]

A 14 de Junho de 1940 chegavam 728 prisioneiros políticos à antiga caserna da cidade de Oswiecim, baptizada como Auschwitz pelos nazis. Era o início de um pesadelo que viria a ser designado como holocausto.
A ideia de usar o lugar para campo de concentração nascera em finais de Abril na cabeça do chefe das SS, Heirich Himmler, com a finalidade de receber resistentes polacos.
Alargado o campo, viria a ser cenário, em Setembro de 1941, ainda antes do lançamento da Solução Final, do primeiro assassinato em massa, com gás Zyklon B, de cerca de 600 prisioneiros soviéticos e 250 polacos.
Até à Primavera de 1942, Auschwitz foi essencialmente ocupado por polacos não judeus. Nessa altura, começaram as chegadas de judeus de toda a Europa, num afluxo que obrigaria à criação de Auschwitz-II, ou Birkenau.

Em Auschwitz-Birkenau morreram, segundo os dados do museu do campo, um milhão de judeus, 70 mil a 75 mil polacos não judeus, 21 mil ciganos, 15 mil prisioneiros de guerra soviéticos e dez mil a 15 mil outros prisioneiros, entre os quais resistentes. E nem sequer se pode dizer que ninguém sabia: desde Novembro de 1940, escassos cinco meses após a sua abertura, e ao longo de dois anos e meio, Witold Pilecki, capitão polaco e resistente à ocupação, que viria a participar no levantamento de Varsóvia e seria executado pelo regime comunista do pós-guerra, enviou para o exterior informações, que terão chegado desde Março de 1941 aos britânicos.
Pilecki, que se fizera prender para preparar uma insurreição, recolheu informações com dados sobre extermínio de judeus, câmaras de gás e construção de fornos crematórios. Evadiu-se em Abril de 1943, mas não conseguiu convencer os aliados sobre o Holocausto que ali decorria.

25 abril 2010

Sexo, drogas e microfones ocultos



Com este título pode ler-se uma curiosa notícia no El País sobre Rock & servizi segreti, livro do historiador italiano Mimmo Franzinelli. O assunto é J. Edgar Hoover, pai do FBI. Que elegeu alguns músicos como alvo a seguir.
Frank Sinatra e Jim Morrison, Bob Dylan e Leonard Bernstein, John Lennon e Pete Seeger contam-se entre os eleitos. Sempre com o mesmo objectivo: o poder.
A paranóia chegou a ser tão forte que se forjaram complôs.Quem quiser ler a notícia tem o link em cima.

10 março 2010

Spínola


Foi marechal e após o 25 de Abril de 1974 assumiu a Presidência da República. Mas... como homem do antigo regime, não se sente confortável com o rumo esquerdizante que o país parecia tomar. Tenta um golpe a 28 de Setembro desse ano que falha e vê-se obrigado a abandonar a presidência. Não desiste e no 11 de Março de 1975 surge ligado ao golpe de estado de extrema-direita. Que mais uma vez falha e o obriga a fugir.
Spínola era já um terrorista e junta-se a um Pide no Exército de Libertação de Portugal (ELP). Ao ELP devem-se vários ataques bombistas a sedes de partidos políticos, o assassinato de um padre e outros actos de terrorismo.
Sabe-se que António de Spínola queria voltar ao poder através de um golpe de Estado e eliminar fisicamente os adversários políticos, segundo conta o jornalista Guenter Wallraff, que em 1976 se encontrou com o general na Alemanha, disfarçado de traficante de armas. O facto de Spínola lhe ter dito que queria armas para exterminar fisicamente os adversários levou depois a que as autoridades suíças, a quem Wallraff entregou provas, o detivessem e extraditassem mais tarde para o Brasil.

Fonte: JN

04 março 2010

Carruagem de D. Maria Pia


Carruagem privativa da rainha D. Maria Pia, oferecida por seu pai, o rei Vitor Manuel, aquando do casamento com o rei português D. Luís, em 1862. A carruagem é puxada pela locomotiva a vapor D. Luiz. Fotografia sem data. Produzida durante a actividade do Estúdio Mário Novais: 1933-1983.
A rainha dormiu ali muitas noites. As viagens eram longas e, afinal, este é um comboio-casa, com quartos, salas, casas-de-banho e um furgão onde se cozinhavam as refeições.
Foi esta carruagem construída em 1858, em Bruxelas, pela Compagnie Générale de Matériels de Chemins de Fer.
Na imagem pode-se ver ainda a locomotiva D. Luiz. Havia uma relação muito própria entre esta e as carruagens D. Maria Pia e do príncipe D. Carlos (com o seu luxuoso Salão do Príncipe, prenda da rainha D. Maria Pia ao seu filho mais velho, D. Carlos, quando este completou 14 anos.)
É uma carruagem de três eixos, com três compartimentos, composta por uma antecâmara, um salão principal e uma divisão com instalações sanitárias, possuindo ainda uma varanda coberta numa das extremidades.

Fonte: Público

02 março 2010

A Sanajeh indicus há 67 milhões de anos




Uma equipa internacional de cientistas descobriu em Dholi Dungri (Índia), um extraordinário fóssil de uma serpente (Sanajeh indicus) com 67 milhões de anos. Os restos, muito bem conservados e quase completos, foram encontrados no ninho de um saurópode, enroscados a um ovo. Ao lado, estavam os restos de um dinossauro recém-nascido.
O réptil, com três metros e meio, foi apanhado pelo tempo e mostra aos paleontólogos o momento do ataque.

Para ler mais, aqui e aqui

02 fevereiro 2010

Caius Maecenas

Caio Mecenas, etrusco que foi conselheiro e homem da confiança do imperador Octávio Augusto, é sobretudo recordado como patrocinador de escritores: Virgilio, Horácio, Propércio, Vario, entre outros. Diz-se que a Virgilio lhe sugeriu o tema das suas Geórgicas sob os auspícios do próprio imperador, que acabaria por retirar o seu apoio a Mecenas, num desses gestos magnânimos em que os imperadores sempre foram pródigos.
Mecenas foi também o homem que introduziu em Roma as piscinas de água quente. O homem cujo nome ficou para sempre como símbolo de apoio às artes.
Em sua honra, aqui fica este breve apontamento, a que havemos de voltar em breve.

31 janeiro 2010

Rui Ramos ao Público

«[...] não é verdade, como escreve Nuno Monteiro, que mesmo no seu apogeu Portugal fosse uma grande potência. Tivemos sempre de jogar com os diferentes poderes e aproveitámos apenas uma janela de oportunidade. Mal apareceram concorrentes mais fortes deixámos de ser uma potência determinante no Oriente. Pensar que podíamos manter o domínio do Índico para lá do século XVI é pensar que tínhamos uma força que nunca tivemos.

Mas passou por cá uma enorme quantidade de riqueza que não criou raízes. Porquê?

Esse período não é a minha especialidade, mas muito provavelmente não criou raízes porque Portugal já era um país pobre, e já então quando se atirava dinheiro para cima de um país pobre ele desaparecia. E éramos um país pobre no sentido em que não possuíamos estruturas para produzir riqueza de forma auto-sustentada. O dinheiro que por cá passava era utilizado pelas elites para comprarem luxos onde eles eram manufacturados: no Norte de Itália, no Norte da Alemanha e nos Países Baixos. Regiões que são ricas hoje como o eram no século passado ou no século XVI. Ou mesmo no século XII. Basta olharmos para as nossas igrejas medievais e para as nossas obras do Renascimento e ver o que se fazia nesses países.

Como explicar a capacidade de outros países europeus que eram pobres, marginais e muito atrasados mas saltaram para o pelotão da frente?

O que a investigação de história económica mais recente nos mostra é que houve quase sempre limitações de recursos e de oportunidades em Portugal. Quando existiam oportunidades, os portugueses sabiam agarrá-las - quanto mais não fosse emigrando. Por outro lado, no momento decisivo do salto em frente no século XIX, Portugal não tinha um conjunto de recursos naturais muito importantes, a começar pela impossibilidade de produzir, a preços competitivos, os alimentos mais procurados. Só tínhamos o vinho, mais nada. Há também outras razões, algumas delas culturais: também não tínhamos gente preparada, gente letrada em quantidade suficiente.

Portugal foi um país que nunca estimulou os homens livres. Pelo contrário, sempre houve uma tendência para ricos e pobres se encostarem ao Estado. Porquê?

Uma explicação para isso tem a ver com a dimensão ultramarina de Portugal, que permitiu que o Estado se soltasse da sociedade. O Estado não necessitava de cobrar impostos nem de estimular o desenvolvimento, pois os proventos não lhe vinham da metrópole mas da pimenta das Índias ou do ouro do Brasil. Isso criou um poder político centrado em Lisboa, transformada quase em cidade-estado onde tudo se passava, à margem de um interior rural e pobre com que ninguém se preocupava. E quem queria pertencer à elite tinha de vir para a Corte. A nossa aristocracia, ao contrário da aristocracia inglesa ou da aristocracia prussiana, não era terratenente, vivia de rendimentos públicos. Houve sempre um Estado maior do que o país e do que a sociedade devido à realidade ultramarina. Quando se perde o Brasil, passamos a ter um Estado que desconfia da sociedade, que acha que ela não se sabe governar. Encontramos essa mentalidade nos liberais, nos republicanos e nos salazaristas. Todos entendem que têm a missão histórica de arrastar a sociedade para o que entendem por bem comum. Lutam os liberais e os republicanos contra uma sociedade que vêem como tradicionalista e reaccionária, lutam os salazaristas contra uma sociedade que vêem como individualista e anárquica.

Todo esse discurso aponta para um momento de corte, como se houvesse um Portugal do Antigo Regime e um Portugal pós-Revolução Liberal. É isso?

Sim, e esta é porventura uma das novidades desta "História de Portugal" para alguns leitores: a grande revolução em Portugal nos últimos 200 anos foi a Revolução Liberal, foi aquela que mudou realmente o mundo político e cortou todas as pontes com o passado.

[...] Há um país antes de 1820, ou mais exactamente antes de 1832-34, e outro depois. Na República não mudam os paradigmas, com o triunfo da Revolução Liberal mudou tudo na relação dos portugueses com o Estado. Como disse Almeida Garret, foi nessa altura que um Portugal Velho acabou e começou um Portugal Novo. Todas as instituições, algumas delas seculares, desapareceram. Até acabou a velha relação das pessoas com a terra, que não correspondia à ideia de propriedade individual e absoluta dos dias de hoje. O mapa dos concelhos é todo alterado, na prática destruiu-se um poder municipal que vinha desde o nascimento do país. É também então que começa realmente a separação de poderes. Mas a "maior revolução social da história portuguesa", como se lhe referiu Alexandre Herculano, também destruiu as condições para um equilíbrio entre o Estado e a sociedade que permitisse a modernização, no contexto de uma sociedade tradicional que vai evoluindo sem destruir.

[...]

O que é que alguém que queira pensar Portugal hoje pode retirar desta História?

Pode perceber que Portugal não começou ontem, que existem condicionantes que vêm do passado, pode até verificar que algumas soluções já foram tentadas no passado, como os programas desenvolvimentistas de obras públicas, e que não deram resultado. Mas a história também é importante para percebermos a nossa inerradicável pluralidade. Não permite um discurso uniformizador sobre "o português"...

Então livros como "O Medo de Existir", de José Gil, não fazem sentido...

Tenho sempre uma enorme dificuldade em compreender as obras que passam por uma antropomorfização de Portugal, como se Portugal estivesse ali ao lado sentado a tomar café. Há dez milhões de portugueses, logo há dez milhões de maneiras diferentes de se ser português. A alternativa a esse discurso é uma História de Portugal que não procura uma explicação filosófica geral. Temos muitas coisas comuns, mas o fado é de Lisboa e o vinho verde tinto é do Norte Litoral. Não tentemos esconder a pluralidade nem substituí-la por uma qualquer leitura secular do velho providencialismo divino.»

Fonte: Y

18 janeiro 2010

Abraçados para a eternidade


No Campo de Hockey de San Fernando (Cádiz), houve lugar a um achado arqueológico pouco comum: dois esqueletos abraçados há seis mil anos, frente a frente, com os membros inferiores e superiores entrelaçados, no que se designa como motivo dos namorados.
Há três anos, em Itália, um grupo de arqueólogos italianos descobriu na cidade de Mântua uma sepultura com dois esqueletos abraçados, que dataram de há mais de seis mil anos. Pelas ossadas concluiu-se que o par era ainda jovem. Ao achado denominaram-no "Os amantes de Valardo".
No caso do achado espanhol, estamos em presença de um esqueleto de uma rapariga à roda dos 12 anos e do esqueleto de um adulto (ainda não se determinou o género) entre os 35 e os 40 anos. Tanto pode ser um casal como uma dupla parental ou maternal, já que ambas as hipóteses encaixam nas vivências da época (neolítico).

Fonte: ABC

29 novembro 2009

Para quem gosta de desenhar



os lápis são uma tentação. Por isso fomos espreitar a Viarco, que produz lápis e outros produtos para desenho altamente sedutores. No sítio da empresa descobrimos um pouco da história dos lápis no nosso país.
A origem do fabrico de lápis em Portugal remonta ao ano de 1907 quando o Conselheiro Figueiredo Faria juntamente com o seu sócio o Engenheiro Francês Jules Cacheux decidem construir em Vila do Conde uma unidade industrial de fabrico de lápis, designada por “Faria, Cacheux & Cª” também conhecida como Portugália.
Apesar da Portugália ter sido pioneira e bem sucedida no desenvolvimento e produção de artigos de escrita no país pensa-se que a sua actividade terá sido gravemente afectada com a entrada de Portugal na Primeira Guerra Mundial, principalmente pela Grande Depressão de 1929/31.
A viragem dá-se em 1931, quando Manoel Vieira Araújo, industrial experiente da chapelaria e figura proeminente de S. João da Madeira, decide diversificar o ramo de actividade da Vieira Araújo & Cª, Lda, e adquire a Fábrica Portuguesa de Lápis. No ano de 1936 é registada a marca que acompanharia gerações de portugueses até aos dias de hoje - Viarco.
Como é que fazem os lápis?
Grafite, argila e água são misturadas no moinho cerâmico (mais argila ou grafite conforme a graduação pretendida B, HB, H...), até se criar uma massa consistente e uniforme. Esta massa será colocada em sacos e introduzida numa estufa que lhe retirará a maior parte da água. O resultado, uma pedra de argila e grafite, vai ser triturada e reduzida a pequenos grãos de mistura que posteriormente serão introduzidos em rolos compressores para eliminar quaisquer impurezas existentes na argila.
Após este processo, o produto resultante será compactado num martelo pilão, formando um cartucho maciço de grafite com graduação pré-determinada que será colocado na prensa de onde sairão os “fios” de mina. Estes “fios” são cortados à medida pretendida do lápis, entrarão para uma máquina de secar que lhes retirará a água que ainda resta e vão cozer num forno à temperatura 1020ºC. Para que as minas fiquem resistentes, macias, aptas a escrever e apagar serão ainda de ser impregnadas de gordura por osmose.
As minas de cor têm por base da sua concepção o caulino, tylose, água e os pigmentos que lhes darão a cor pretendida. Estes produtos são introduzidos no misturador, formando uma massa consistente que será esmagada entre os rolos compressores, eliminando assim eventuais impurezas que prejudiquem a boa utilização do lápis de cor.
A partir desta fase, o material resultante seguirá o percurso já descrito anteriormente entre o martelo pilão e a máquina de secar, sendo que as minas de cor não irão ao forno cozer e são impregnadas de estearina e outras ceras em vez de gordura.
Para continuar a ler esta história fascinante, vá pelos seus dedos.
A Viarco tem novidades: uma aguarela de grafite para pintura, barras de grafite aguarelável para uso em grandes superfícies e um estúdio portátil com utensílios incluídos. Fazem parte da a linha ArtGraf, vocacionada para os técnicos das artes plásticas e design.

19 novembro 2009

Dois filmes sobre extermínios

Dois filmes sobre extermínios: Katyn, do polaco Andrzej Wajda, e Shoah, do francés Claude Lanzmann. Um sobre o extermínio comunista. Outro sobre o extermínio nazi.

Katyn, de 2007, é sobre a matança de mais de 20 mil militares polacos pelo Exército Vermelho, em 1940, quando a URSS invadiu a Polónia. Narram-se os últimos dias das vítimas antes de serem enterradas no bosque de Katyn, (nas proximidades de Kiev, Ucrânia).


Shoah, de 1985, é um filme de 9 horas, que custou a Claude Lanzmann, o realizador, 11 anos de trabalho (gravou 350 horas de filme). Não tem efeitos especiais, apenas relatos e imagens dos campos tal como foram encontrados. O filme fala cruamente do engenho nazi para a morte em massa, desde os primeiros momentos, em que utilizavam os camiões como câmaras de gás, servindo-se dos tubos de escape (anidrido carbónico), até ao uso do gás zyclón, que matava as vítimas em apenas 10 ou 15 minutos.



Errata: onde está «extermínio comunista» deveria estar «extermínio bolchevique».

10 novembro 2009

Memórias em contraluz


Petter Moen (1901-1944) foi um jornalista e resistente norueguês que a Gestapo capturou. Enquanto esteve preso redigiu um diário em pequenos papéis que enrolava e atirava por um ralo de ventilação. Como não tinha lápis nem caneta, grafava o que via e pensava em papel higiénico.
Esteve detido sete meses (corria o ano de 1944) no quartel general da Gestapo em Oslo. Período no qual perfurou cada letra sobre papel higiénico com um prego, dando testemunho do horror nazi.
Morreu num naufrágio com outros 400 prisioneiros quando era levado para a Alemanha. Um dos sobreviventes deu a conhecer a proeza de Moen quando acabou a guerra e o livro viria a ser editado em 1949, na Noruega, sendo depois traduzido para várias línguas.
O manuscrito encontra-se no Museu da Resistência de Oslo, mas não está exposto.

Fonte: El País

Pirâmide pintada descoberta em Calakmul




No recinto arqueológico de Chiik Nahb, junto à linha fronteiriça entre o México e a Guatemala, descobriu-se uma pirâmide com cenas da vida quotidiana dos Maias, que datam de há 1350 anos.
As pinturas dão preciosa informação sobre as classes sociais, sobre o tipo de alimentação e sobre a indumentária usada na época.
Até à data, a maior parte do conhecimento sobre os costumes e a sociedade dos maias tinha apenas em conta a vida das elites e das classes altas (guerras, cerimónias religiosas e protocolares). Os desenhos mostram outros membros dessa sociedade.
Um artigo sobre a descoberta foi publicado aqui (mas só pode ser lido pelos subscritores da publicação científica).

Fonte: El País

09 novembro 2009

Cartas da Península, de William Warre


William Warre era luso-britânico. Nasceu no Porto, em 1784, e estava destinado a prosseguir o negócio da família britânica, ligada ao comércio do vinho. As invasões napoleónicas trocaram-lhe as voltas (ingressara no Exército britânico aos 19 anos). Foi na qualidade de oficial inglês que regressou ao solo natal, na altura com 24 anos, para cumprir o que lhe pareceu ser a sua vocação histórica: ajudar a salvar Portugal da invasão estrangeira. Participou não só nas mais importantes batalhas das Guerras Peninsulares, mas também na resistência dos portugueses.
Lutou na Batalha da Roliça (o primeiro combate da Guerra Peninsular) e na do Vimeiro, que conduziram directamente à libertação de Lisboa, e esteve com o general Sir John Moore na sua famosa e terrível retirada na Corunha, ainda hoje lendária na história britânica. Esta catastrófica marcha de Inverno através de montanhas cobertas de neve culminou na batalha desesperada nos cumes das colinas da Corunha e na morte prematura do general Moore. Warre escreveu numa carta para casa relatando a honra de estar na retaguarda e de ser o último oficial a embarcar a 16 de Janeiro, no momento em que os franceses tomavam a cidade.
O capitão Warre esteve presente na libertação da sua cidade natal, o Porto; no cerco e tomada de Ciudad Rodrigo; e testemunhou a brutalidade do segundo cerco e saque de Badajoz, em Abril de 1812. Embora tivesse apenas 27 anos na altura, foi o oficial principal na intimação do Forte de São Cristóvão e fez prisioneiros os generais Philippon e Weyland - os comandantes franceses de Badajoz -, que lhe entregaram as suas espadas pessoalmente.
Participou na épica e decisiva batalha de Salamanca, em Julho de 1812, que muitos estrategas militares consideram ser aquela em que Wellington demonstrou as suas grandes qualidades estratégicas, ainda mais do que em Waterloo.
As suas cartas foram publicadas em 1909, por iniciativa de um sobrinho e mereceram uma segunda edição em 1999, pela mão de um sobrinho-bisneto. Dez anos depois, regressam pela mão da Alêtheia. Cartas que, embora pessoais, contêm muitos dados militares e são, por isso, um curioso documento da época de 1808 a 1812.

15 julho 2009

Hermínio da Palma Inácio (a seguir)

No Almanaque Republicano faz-se história. Leiam a I parte do In memorian dedicado ao nosso revolucionário romântico. E dêem um passeio pelo arquivo. Há blogues que nos abrem mundo e o Almanaque é um deles.

14 julho 2009

Aventuras de um revolucionário romântico


Hermínio da Palma Inácio morreu (1922-2009). Era uma lenda. Porque foi um "terrorista". Pelo menos para o Estado Novo. Protagonizou diversos golpes. Foi um dos responsáveis pelo desvio político de um avião, a 10 de Novembro de 1961. Assaltou o Banco de Portugal, na Figueira da Foz, de onde levou cerca de 30 mil contos.
Numa operação concebida por Henrique Galvão e chefiada por Palma Inácio, o voo TAP de 11 de Novembro de 1961 do Super Constellation Mouzinho de Albuquerque de Casablanca para Lisboa foi desviado, com o objectivo de lançar panfletos anti-salazaristas em várias cidades portuguesas. Cerca de 45 m após o início do voo, Hermínio da Palma Inácio, entra no cockpit e aponta um revolver à cabeça do Comandante, explicando que o avião estava a ser assaltado. O objectivo era lançarem sobre Lisboa, Barreiro, Setúbal, Beja e Faro, 100 000 folhetos, denunciando as eleições para a Assembleia Nacional que se iam realizar 2 dias depois e incitando à revolta contra o regime de Salazar, regressando depois a Tânger onde Palma Inácio e os seus 6 companheiros, deviam obter asilo político. Esta operação planeada por Henrique Galvão tinha o nome de “Operação Vagô”. No Público online recupera-se um artigo de há sete anos (28 de Outubro de 2001) em que se narra o episódio. Transcrevemos:
«Hermínio da Palma Inácio sempre foi louco por aviões. Em 1951 chegara aos EUA, após uma fuga da prisão do Aljube, onde foi parar por ter sabotado os aviões da base de Sintra, operação integrada numa intentona que correu mal. No Massachusetts, tirou o brevet, tornou-se instrutor e voou sobre o país inteiro até ser preso e ir parar ao Brasil, onde trabalhou em empresas ligadas à aviação e de onde seguiu a aventura eleitoral de Humberto Delgado, em 1958.
Pouco depois, é o próprio Delgado a chegar ao Rio de Janeiro. A seguir, em Janeiro de 1961, Henrique Galvão, com Camilo Mortágua, protagoniza o espectacular assalto ao Santa Maria.
Depois de muitas peripécias, o navio acaba por atracar no Brasil, onde deixa Galvão e Camilo.
Em Portugal, a proeza enfurece a Pide, que começa a prender a torto e a direito. Um grupo de operacionais não militares que tinha participado na revolta da Sé, em Março de 1959, achou que era altura de coordenar a acção a partir do estrangeiro, e pediu asilo político na embaixada do Brasil, mal tomou posse na Presidência brasileira um homem que desde sempre mantivera distância em relação ao Governo de Salazar: Eugênio Quadros.
Amândio Silva, Manuel Serra, Raul Miguel Marques, José Paulo da Silva Graça chegaram todos ao Brasil pela mesma altura, com a intenção de lançar a revolução em Portugal sob a liderança de Henrique Galvão e Humberto Delgado.
Mas os dois líderes não se entendiam. Galvão considerava-se o chefe operacional e achava que a Delgado, a quem todos chamavam Sr. Presidente Eleito, devia ficar reservado o papel de líder político. Delgado considerava que, na situação em que estavam, não fazia sentido a distinção, e queria chefiar tudo. Era uma luta por protagonismo mas também por diferentes estratégias de acção, que acabou por levar os dois a uma ruptura formal, numa reunião supostamente conciliadora convocada pêlos operacionais em que Delgado se enfureceu e saiu porta fora.
Os operacionais convocaram outra reunião, sem Delgado nem Galvão, e decidiram organizar eles a sublevação, e concretizá-la, a despeito da luta de galos dos chefes, nem que para isso fosse preciso enganá-los.
Eis o plano, basicamente concebido por Galvão, que deveria ser posto em prática a partir de Marrocos: três operacionais partiriam clandestinamente para Portugal, com a missão de aliciar militares para uma revolta contra o regime.
As hipóteses seriam, ou tomar um quartel a Sul, como o de Beja, a partir do qual a revolução partiria para Norte, com ajuda de países do Norte de África, ou conquistar um quartel a Norte com capacidade de resistir durante meses, para que a revolução germinasse a partir daí.
Quando a insurreição tivesse começado, seria enviado, por código, um sinal verde para Marrocos, onde outro grupo de operacionais desviaria um avião comercial. Com Galvão e Delgado a bordo, o avião aterraria algures nas imediações do foco da revolta, de onde os dois carismáticos líderes oposicionistas encabeçariam a marcha de tomada do poder. O avião deveria ainda lançar sobre todo o país 100 mil panfletos incitando à revolta, que chegaram a estar impressos, com instruções precisas de guerrilha — como confeccionar um cocktail Molotov, como sabotar uma ponto ou os acessos a uma cidade, etc.
A primeira parto do plano foi posta em prática.
Os operacionais, Galvão e Delgado incluídos, começaram, em pequenos grupos, a sair para Marrocos. Raul Miguel Marques, um casapiano com grande habilidade manual, encarregou-se de falsificar os passaportes, que eram válidos apenas para o Brasil. Acrescentou: "Este passaporte também é válido para os seguintes países... e inscreveu a quase totalidade dos estados do mundo. Depois, aproveitando o carimbo de uma empresa ditosamente chamada Consórcio Geral de Portugal, mudou o "órdo" para "ulado" e falsificou a assinatura do cônsul por cima.
Raul, Miguel Serra (que militara na Juventude Católica e passava agora muitas horas a rezar para que a falsificação dos passaportes não fosse descoberta) e Amândio Silva foram os primeiros a partir, primeiro para Paris, depois para Amsterdão, onde Amândio foi "salvar" o operacional Jaime Conde, contacto de Fernando Oneto, um dos líderes da revolta da Sé, que entretanto fora preso. Conde estava num barco no porto holandês, desconhecendo a detenção de Oneto e a consequente iminência da sua própria prisão. Pela calada da noite, Amândio entrou clandestinamente no barco e levou o companheiro para uma embaixada onde pediu asilo político. Só depois rumou a Tânger.
Palma Inácio, Camilo Mortágua, José Paulo da Silva Graça partiram a seguir, com encontro marcado com Galvão em Roma, que não chegou a concretizar-se porque as autoridades italianas nunca tinham "compreendido" o assalto ao Santa Maria. Delgado chegou também a Marrocos, e instalou-se num hotel em Casablanca, para ficar o mais longe possível de Galvão.
Numa derradeira tentativa de sensibilizar os dois líderes para a necessidade de ultrapassarem divergências, Serra, Raul e Amândio alugaram um carro e foram a Casablanca. Era uma operação-relâmpago, ou pelo menos assim a entendia Amândio, que assumiu o volante com viril afoiteza. Ao passar em Alcácer Quibir, não se sabe se por causa do nevoeiro, consta que um beduíno se postou no meio da estrada. Para poupar o autóctone, Amândio guinou para a esquerda e entrou em contramão numa curva, onde vinha outro carro, em sentido contrário. Amândio emendou para a direita, de forma tão resoluta que um pneu rebentou, e em consequência a velha carcaça desceu uma ribanceira, subiu outra ribanceira e acabou estampada contra uma árvore.
O condutor foi levado, com um traumatismo craniano, para a maternidade de Alcácer Quibir, onde um médico lhe coseu a cabeça à pressa, esquecendo-se de limpar a terra e outros detritos, e onde ficou internado. Só um mês depois outro médico se decidiu a lancetar-lhe, sem anestesia, a cabeça, entretanto toda infectada, para retirar a terra de lá de dentro. Dias depois, Amândio estava bom, mas não a tempo de ir para Portugal iniciar a revolução, como estava previsto. Decidiu-se que José Paulo da Silva Graça partiria em seu lugar e Amândio passou a integrar a equipa do avião.
José Marcelino, piloto da TAP, então na casa dos 40 anos, era um homem casado que gostava de viver a vida. O pai tinha sido um republicano activo mas ele optara por ignorar a política, dedicando-se ao trabalho, na aviação, e, nas horas livres... às miúdas.



No início dos anos 60, Marcelino era já um profissional tão respeitado na companhia, que o ministro da Guerra da altura, o general Gomes de Araújo, não confiava a mais nenhum piloto a sua mulher e filha. Nas deslocações que as duas faziam frequentemente a Paris, para ir às compras, viajavam sempre nos voos e ao cuidado especial do seu comandante preferido.
Uma noite, Marcelino, na companhia de uma jovem, conduziu o carro até um certo parque, na zona de Cheias, onde, à época, muitos homens e mulheres consumavam, no sigilo tácito dos carros, os seus namoros ilícitos. Marcelino, que já perdera a conta a quantas vezes ali estivera, não tinha o hábito de olhar para quem estava no carro do lado. Mas naquele dia olhou. E... surpresa! Quem, num afã, se recreava pacificamente com uma beldade semipubescente? O ministro da Guerra! Em pânico, Marcelino deu meia-volta, mas não antes de o ministro o ter enxergado. E quando, mais tarde, a legítima esposa de Gomes de Araújo veio a saber do caso deste com a jovem, o ministro convenceu-se de que fora Marcelino, com as suas relações privilegiadas com a senhora de Araújo, o delator. Nada mais falso mas, a partir dessa data, acabaram-se as compras em Paris e Marcelino passou a contar, na sua folha de serviço, com um ódio de morte da parte do ministro da Guerra.
Escaldado com os maus encontros em Cheias, Marcelino arranjou outros estratagemas para namorar secretamente, nomeadamente com a jovem hospedeira da TAP Maria Luísa Infante, por quem entretanto se tomou de amores.



Nos dias 10 e 11 de Novembro de 1961, por exemplo, os voos Lisboa-Tânger-Casablanca-Lisboa deveriam ser efectuados, como acontecera nos últimos meses, por um DC-6 francês da UAT, que a TAP fretava quando não dispunha de aviões suficientes na sua frota. Apesar de o avião ter matricula francesa, era um voo TAP, pelo que a tripulação, que viajaria até Casablanca e aí pernoitaria, para regressar no dia seguinte a Lisboa, era da companhia portuguesa. Pois nesse dia, José Marcelino estava escalado para fazer o voo da TAP Lisboa-Porto, num Super Constellation de última geração, de nome Mouzinho de Albuquerque. Ora Marcelino, que tinha competência para alterar as escalas de serviço, ao ver que Maria Luísa faria o Lisboa-Tânger-Casablanca no DC-6 francês, decidiu, à última hora, mudar tudo: ele, Marcelino, voaria com o Super Constellation para Marrocos, com a tripulação que incluía Maria Luísa, e o DC-6 faria a carreira para o Porto. O objectivo era assistir, com Maria Luísa, a um espectáculo de dança do ventre e dormir com ela, em Casablanca. A hospedeira soube do plano minutos antes da partida, e ficou radiante.
Em Outubro de 1961, Fernando Vasconcelos, com 19 anos, deveria entrar na Universidade do Porto. Isso não chegou a acontecer porque estava a começar a guerra colonial, porque parecia não haver forma de combater a ditadura, e porque, ele e Maria Helena, com quem casara há um mês, decidiram fugir do país.
Compraram um pequeno barco de seis metros com um motor fora-de-borda de 25 cavalos chamado Rumo e, com outros quatro companheiros, numa manhã de São João, enquanto o Porto dormia, fizeram-se ao mar.
Pararam em Cascais, onde entrou outro resistente, que era procurado pela Polícia, depois em Aljezur, e partiram, os sete, para Tânger. Como estava previsto que a viagem duraria quatro dias, levavam combustível ajusta para a travessia, 70 litros de água e latas de conserva. Como instrumentos de navegação levavam uma bússola, um receptor de rádio, porque sabiam que, ao sintonizar uma estação de ondas médias, o sinal era mais nítido quando se dirigiam na sua direcção, e uma edição liceal de um Atlas.
Mas ao segundo dia de viagem foram apanhados por uma tempestade. Desviaram-se da rota, andaram as voltas e quando o vento amainou estavam no alto mar sem combustível. Navegaram à deriva durante sete dias, racionando os mantimentos: dois copos de água e uma almôndega por dia. Já quase tinham perdido a esperança, quando surgiu um petroleiro, que os salvou. O navio, de bandeira liberiana, armador americano e tripulação italiana, meteu-os a bordo e rebocou o barco até Gibraltar. Pediram asilo político, mas a Grã-Bretanha recusou, concedendo-lhes um prazo de 24 horas para consertarem o barco e partirem. No dia seguinte, conseguiram chegar a Tânger, onde lhes foi concedida uma autorização de permanência.
Parte do grupo decidiu aceitar convites para estudar em países socialistas, mas o que Fernando e Maria Helena queriam era combater o regime de Salazar. Contactaram com revolucionários argelinos da FNL e, meses depois, com Henrique Galvão, que chegara a Tânger com os seus operacionais.
Quando Fernando Vasconcelos e Maria Helena Vidal se integraram no grupo de Palma, Amândio e companhia, já Manuel Serra, Raul Miguel Marques e José Paulo da Silva Graça tinham partido para Portugal, para atear a revolução. Saíram às 4h00 da manhã de Tânger, apanharam o barco de Ceuta para Algeciras, chegaram a Sevilha, de táxi colectivo, ao cair da noite. Dormiram numa pensão e pelas 8h00 da manha apanharam um comboio para Cáceres. Foi aí que tiveram pela primeira vez a suspeita de que estavam a ser seguidos. A polícia pediu-lhes os passaportes umas dez vezes durante a viagem. Apearam-se em Cáceres, esfomeados, entraram num restaurante, e estavam a comer a sopa quando entraram seis agentes da Polícia política espanhola. "Passaportes! Os senhores estão presos!".
Quando, na esquadra, foram interrogados, um de cada vez, José Paulo contou a história que tinham combinado: vinha, com aqueles amigos, visitar o comandante da Polícia Joaquin Cabrera, grande amigo do seu sogro, Rolão Preto... A história tinha um fundo de verdade.
José Paulo era casado com uma rapariga chamada Rita Rolão Preto, filha do famoso Rolão Preto, um líder do movimento fascista dos Camisas Azuis que nos anos 30 fora expulso para Espanha e se fixara na região de Cáceres. O velho Rolão Preto fizera amizade com o Comandante da Polícia secreta de Cáceres, o tal Joaquin Cabrera, que depois o ajudara muitas vezes a safar contrabandistas amigos que eram presos na fronteira. Ora no casamento de José Paulo com Rita, realizado na quinta de Roláo Preto, esteve presente como convidado nada menos que D. Joaquin, que por sua vez convidou o noivo para uma tourada, do lado de lá da fronteira...
"Telefone por favor ao D. Joaquin Cabrera", disse José Paulo aos boquiabertos polidas, "diga-lhe que está aqui o marido da filha do dr.
Rolão Preto, que o quer visitar . Os polícias obedeceram e, poucas horas depois, os três revolucionários dormiam num hotel aconselhado pela "secreta" espanhola, pela manha, José Paulo fez uma visita de cortesia ao circunspecto Cabrera, que, apesar de estar seguramente informado dos propósitos dos revolucionários, por respeito ao velho amigo lhes deu todas as instruções de como chegar à fronteira por Villanueva del Fresno.
Ainda receando ser esperados pela Pide à chegada, os três agitadores optaram por ir primeiro a Salamanca, vaguear de autocarro e de táxi pela região, e entrar a pé em Portugal. Para quem os visse naquela altura, sujos e escanzelados, devia ser imensamente triste — e significativo — pensar que a democracia e a liberdade de todo um povo dependiam daquele trio.
Chegados ao país, dividiram-se, para cumprir a sua missão: Manuel Serra foi para Caldas da Rainha, José Paulo para Viseu, e depois para o Porto, Raul para Lisboa. Duas semanas depois, como combinado, encontraram-se os três em Lisboa para darem conta dos sucessos de cada um no incitamento dos militares à revolta.
Decepção. Não tinham conseguido nada. Nem um só elemento das Forças Armadas se comovera com os seus argumentos. Ignoraram-nos.
Chamaram-lhes malucos. Dos três, só Manuel Serra se obstinou em não desistir. Separou-se dos outros e continuou sozinho, até lograr, já no fim do ano, organizar a revolta de Beja. Quarenta anos mais tarde, José Paulo diria, num suspiro: "Não gosto muito de falar nestas coisas. Tenho a sensação de que falhámos sempre".
A Tânger chegou a mensagem, em código: não há condições para a revolução neste momento.
Talvez daqui a três ou quatro meses. Abortar a operação.
A vida em Tânger não era fácil para o grupo de operacionais. Tinham ido para Marrocos com os escassos fundos angariados junto de alguns anti-fascistas portugueses exilados no Brasil.
Amândio, com a capacidade de organização que lhe reconheciam, era quem geria os recursos. A rotina do grupo, Galvão incluído, era austera: de manhã, tomavam um café; às 4h00 da tarde, ingeriam a única refeição do dia, sopa e um prato, numa tasca espanhola que fazia um preço especial; à noite, bebiam um copo de leite. Tudo isto acompanhado de muitos exercícios físicos, para se manterem em forma até ao momento da grande acção.
Perante a notícia de que a revolução não era possível no momento, que fazer? Não tinham dinheiro para se manterem em Tânger mais alguns meses, à espera da altura propícia. Aliás, nem tinham dinheiro para o bilhete de regresso ao Brasil. Foi principalmente esta circunstância, e a falta de coragem para dizerem aos seus financiadores que não tinham feito nada, que determinou a decisão que foi tomada. Numa reunião de emergência, em que nem todos estiveram de acordo, optou-se por manter a operação do avião. Não para apoiar a revolução em curso, mas simplesmente como acção de propaganda, uma espécie de golpe de charme da oposição não-comunista, tanto mais que se estava nas vésperas de eleições em Portugal. Desviariam o avião Casablanca-Lisboa, que fariam regressar a Marrocos, onde seriam certamente presos e expulsos do país, o que resolveria o problema do bilhete de regresso.
A operação, que baptizaram como "Vago", começou. Viajaram durante a noite, em dois carros, chegaram ao início da manhã a Casablanca.
Encontraram-se num café, onde tomaram o pequeno-almoço, Palma sempre a enxotar os teimosos engraxadores, para não darem com o revólver 32 que levava na peúga.
Chegaram ao aeroporto, para o voo das 9hl5. Despediram-se de Galvão, que perguntou: "O Palma, a que horas é que achas que estás de regresso, para eu avisar as autoridades marroquinas?" "Às 10 para o meio-dia estamos aqui. Certo como um relógio", respondeu Palma.
Quando avistaram o avião na pista, primeiro susto: não era o DC-6 francês, como julgavam, mas um Super-Constellation da TAP. Pensaram: Pronto, a Pide já nos descobriu, mandaram um avião cheio de polícias. Discutiram por minutos se continuavam. Avançaram. No check-in, entregaram as sete malas, cheias com os 100 mil novos panfletos que mandaram imprimir.



Viajavam 19 passageiros no avião, dois deles, os únicos portugueses, em primeira classe, que ficava na parte de trás. Amândio, suspeitando tratar-se de pides, disse logo a João Martins, ao ouvido: "Tu ficas aqui atrás. Aqueles dois não se levantam durante todo o voo, nem para mijar! Entendido?" Quando o avião descolou, os operacionais, que se sentavam em lugares separados, levantaram-se, um a um, para ir buscar a sua pistola. Maria Helena, que já retirara as armas da cinta, entregou-as subrepticiamente, com gestos de prestidigitadora. Mas foi apenas quando a aeronave saiu das águas territoriais marroquinas que começou a acção propriamente dita.
Palma e Camilo irromperam pelo cockpit. O copiloto estava nos comandos e o comandante, José Marcelino, sentava-se na pequena divisão contígua. Palma apontou-lhe o "32": "Comandante, somos um grupo revolucionário patriótico e estamos a fazer uma operação política, contra o regime ditatorial de Salazar. O senhor tem duas alternativas: ou colabora, fazendo tudo o que lhe for ordenado, ou afasta-se e eu próprio assumo os comandos do avião".



Marcelino, que estava de costas, deu um salto, assustado. "Que é isto, o que é que os senhores querem?" "Pretendemos voar baixo sobre Lisboa, o Barreiro, Beja e Faro, e lançar panfletos. Depois, regressaremos a Tânger. Queremos fazer isto garantindo a segurança de todos".
"Mas eu não tenho combustível para isso", ripostou o comandante. "E é impossível abrir as janelas para lançar panfletos, por causa da pressão..." "Não? Então mostre-me o plano de voo".
Palma, com modos rápidos de conhecedor, analisou os documentos de voo e concluiu que havia combustível suficiente. E esclareceu logo o problema da pressão: "Descemos abaixo de 3 mil pés e fazemos a despressurização. Depois, podemos abrir sem perigo as escotilhas de emergência e lançar os papéis".
Marcelino declarou imediatamente que era dele a responsabilidade dos passageiros e que, portanto, obedeceria, sem abandonar os comandos.
Cá atrás, começava a servir-se o pequeno-almoço. Uma das hospedeiras, Pilar Blanco, queixou-se à colega mais velha, Maria Luísa Infante: "Estão uns homens no cockpit. Não me deixam entrar".
O comissário de bordo, Orloff Esteves, riu-se.
"O quê? Eu vou lá. Vai ver como me deixam entrar". E entrou, de facto. Mas não saiu mais.
Foi Amândio e Maria Helena, incumbidos das "relações públicas" da operação, quem explicou às hospedeiras o que se passava. Foi chamado o mecânico de bordo, António Coragem, para ir ao porão buscar as malas. Aos passageiros que se sentavam nas últimas filas foi pedido que, por motivos de serviço, se mudassem para lugares livres à frente. Fechada a cortina separadora, a área de trás do avião ficou reservada para as operações patrióticas.
Tudo começou a acontecer com incrível naturalidade. Camilo saiu do cockpit, sentou-se num dos lugares da frente e desabafou: "Foi fácil de mais! Assim não tem graça!" O comandante, depois de ter pedido aos piratas que não exibissem as armas em frente dos passageiros, mandou servir champanhe. Depois whisky. As hospedeiras andavam numa roda viva, aparentemente até divertidas. Luísa, ainda em estado de beatitude depois das emoções da noite anterior, em Casablanca, preocupou-se por um momento com a segurança do amante Marcelino, embora se esforçasse por o não dar a entender. Mas logo percebeu que estava entre gente correcta.
Já Pilar, que fazia o seu último voo, porque tinha casamento marcado e decidira deixar de trabalhar, a certa altura sentou-se cabisbaixa, e deixou cair uma lágrima pelo rosto moreno.
"Que tem a menina?", condoeu-se o garboso Amândio. "Por que chora?" "Eu tinha combinado com o Gil, que é o meu noivo, ir hoje ao cinema em Lisboa, à primeira matiné do Império".
Amândio sacou do lenço, limpou as lágrimas à donzela. "Não se apoquente. Dou-lhe a minha palavra de honra que, se não for à primeira, há-de ir à segunda matiné do Império com o Gil".



A seguir, foi a vez do comissário Orloff proporcionar a Amândio mais um daqueles momentos cinematográficos que ele adorava. "Fique bem claro que estamos a fazer tudo isto porque somos obrigados, pela força das armas!", declarou heroicamente a Amândio. Este não hesitou: lançou a pistola para rima de um dos bancos (um que estava mais próximo dele do que do comissário, pelo sim pelo não). "Bom, diga lá agora: colabora ou não?" Orloff não respondeu.
O comandante mandou abrir mais champanhe, distribuir flores, e os passageiros, surpreendidos com tanta prodigalidade, riam e cantavam, sem se aperceberem de nada, quando finalmente chegaram a Lisboa. Marcelino comunicou à torre de controlo que ia aterrar e aproximou-se da pista. No momento em que parecia que ia tocar o solo, Palma Inácio irritou-se. "Ai vai aterrar? Então ficamos todos aqui!", gritou, e lançou-se sobre os comandos, embora, no íntimo, nem por um segundo tencionasse fazer despenhar o avião. Era um verdadeiro dogma do grupo não pôr em perigo a vida de inocentes, nem que para isso tivessem de ser presos, ou mesmo sacrificados. "Os fins não justificam todos os meios", costumavam dizer Galvão e Camilo, nas suas (poucas) conversas teóricas.
Mas Marcelino percebeu a mensagem. Dirigiu-se de novo à torre; "Peço autorização para voar baixo sobre Lisboa".
Para sua surpresa, a resposta surgiu imediata: "Autorização concedida". Pensou: "Estão feitos uns com os outros, não há outra explicação.
Isto afinal é uma coisa séria". E passou a agir com mais prudência, "Remeteu" motores, começou a sobrevoar a cidade, desligou os altifalantes do cockpit e sussurrou ao microfone: "Informo que o avião está a ser assaltado. É uma operação política do Henrique Galvão. Querem lançar panfletos e regressar a Marrocos". Silêncio do outro lado. Depois: "Comandante, pode repetir, se faz favor?" E antes que pudesse recomeçar a falar, Marcelino ouviu, nos auscultadores, a voz bem conhecida do general da Força Aérea Costa Macedo, que andava nas imediações a voar num Dakota: "Não é preciso repetir. Já percebi tudo! Vou já comunicar com a Batina, para ver se mo apanham ".
A Batina, designação por que é conhecido o centro de radar militar de Montejunto, comunicou pouco depois: "Não vemos o avião". Ao que Costa Macedo respondeu: "Não? Então é porque já o abateram".
Marcelino, que ouviu tudo isto, compreendeu subitamente o que acontecera, e que mais tarde lhe foi confirmado por várias fontes fidedignas: quando o ministro da Guerra, Gomes de Araújo, foi informado do que se passava, perguntou quem era o comandante do aviáo desviado. Ao saber, cedendo a um desejo de vingança antigo, deu ordem para abater o avião.
Mal pensara isto, Marcelino vislumbrou os dois pares de aviões caças que tinham saído da base de Sáo Jacinto, com a missão de abater o Super-Constellation. Para não ser detectado pêlos radares e ficar fora do alcance dos caças, o comandante baixou a altitude até escassos 30 metros por cima dos prédios.
Os piratas rejubilaram. Feita a despressurização, começou o lançamento dos comunicados, com a ajuda mais que solícita do mecânico Coragem, que a certa altura disse mesmo: "Dê cá, que eu também quero lançar alguns!" Aliás, as próprias hospedeiras acabaram por ajudar no lançamento dos papéis, bem como alguns passageiros, já francamente bêbados, acreditando que estavam a deitar fora alguma papelada que já não era necessária.
Com as mudanças bruscas de altitude, João Martins sentiu-se mal e foi à casa de banho vomitar. Pouco depois, Maria Luísa saía de lá aos gritos: "Quem foi o porco que sujou a sanita? Vá lá limpar imediatamente!" E o bom Martins lá foi, guardanapo numa mão, pistola na outra.
Estava um dia luminoso em Lisboa, cheio de sol e vento, e os panfletos voaram por todo o lado, espalharam-se pela Avenida da Liberdade, pousaram nos cafés do Terreiro do Paço, entraram pelas janelas abertas do Ministério do Interior.
"Agora, vamos ali à malta fixe do Barreiro", ordenou Palma Inácio. "Agora vamos à malta fixe de Beja". Voaram, "a rapar o solo" sobre o Alentejo e o Algarve. Martins, ao ver a sua terra-natal, chorou. E continuaram para Sul. No mar, ao largo de Faro, estavam dois navios de guerra que tomaram posições, alinhados com o avião.
Marcelino convenceu-se de que era o alvo e desceu ainda mais, passando rente ao mar entre as duas corvetas. Para seu espanto, os militares a bordo disseram adeus, sorridentes. Estavam ali, confirmou-se mais tarde, à espera da operação marítima de Henrique Galvão...



A chegada a Tânger registou-se precisamente ao meio-dia menos 10, como previsto. Galvão esperava os seus homens no aeroporto, as autoridades estavam avisadas.
O avião regressou horas depois a Lisboa e os operacionais foram todos presos. Após algumas andanças pouco agradáveis em Marrocos foram mandados para Dacar, precisamente no dia da declaração da independência do Senegal. Galvão, apresentado como um famoso anti-fascista e anti-colonialista português, ainda fez um discurso às massas, antes de as autoridades senegalesas terem enfiado o grupo à força num avião com destino à Argentina. A entrada, Camilo pôs-se aos gritos de que, mal levantassem voo, desviaria o avião. O comandante mandou dizer que não transportava tão difíceis passageiros, e, pouco depois, estavam de regresso ao Brasil, prontos para outra operação, Em Portugal, foram todos julgados à revelia e condenados a penas entre os 15 e 20 anos, ajuntar às que já tinham O comandante Marcelino, que não foi capaz de explicar satisfatoriamente por que razão tinha alterado o voo de Casablanca, foi interrogado inúmeras vezes pela Pide e ficou suspenso das suas funções.
Um mês depois, recebe um telefonema do aeroporto, às 2h00 da manhã. "Comandante Marcelino, tem um voo para fazer agora, para Goa", disseram. Acrescentaram que a ordem de suspensão tinha acabado de ser levantada e Marcelino foi à pressa para o aeroporto. De tão radiante por recomeçar a trabalhar, nem estranhou que o voo, àquela hora, fosse repleto de passageiros e com a carga máxima.
Já nas proximidades da Índia, foi um controlador aéreo paquistanês quem o informou: "O quê? Vai para Goa? Você está louco? Goa acaba de ser tomada pelo Nehru. Já chegaram aqui, ao aeroporto de Carachi, dois aviões crivados de balas." Marcelino começou, com todas as cautelas, a explicar aos passageiros por que razão teriam de aterrar em Carachi... mas um deles dirigiu-se ao cockpit: "Sr. comandante, não perca o seu tempo. Sabemos o que se passa. Somos todos militares à civil, o avião vai carregado de armamento".
Sabendo da iminente invasão de Goa, o Governo português decidira enviar, à última hora, soldados e armas para defender a colónia. E quem melhor para pilotar o avião-suicida, pensou o ministro da Guerra, do que o comandante Marcelino? Hoje, é casado com Maria Luísa, tem três netos.»