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25 março 2012

Antonio Tabucchi (1943-2012)



Num curto espaço de tempo Itália perde dois nomes maiores da sua literatura: Tonino Guerra e Antonio Tabucchi.


Ambos com ligações a Portugal. Tabucchi talvez fosse o escritor italiano mais português, tanto que, ao que se sabe, morreu hoje em Lisboa. Antonio Tabucchi dedicou um livro aos Açores, A mulher de Porto Pim:

Post Scriptum
Uma baleia vê os homens

Sempre tão atarefados, e com longas barbatanas que agitam com frequência. E como são pouco redondos, sem a majestosidade das formas acabadas e suficientes, mas com uma pequena cabeça móvel onde parece concentrar-se toda a sua estranha vida. Chegam deslizando sobre o mar, quase como se fossem pássaros, e infligem a morte com fragilidade e graciosa ferocidade. Permanecem longo tempo em silêncio, mas depois entre eles gritam com fúria repentina, com um amontoado de sons que quase não varia e aos quais falta a perfeição dos nossos sons essenciais: chamamento, amor, pranto de luto. E como deve ser penoso o seu amar-se: e áspero, quase brusco, imediato, sem uma macia capa de gordura, favorecido pela sua natureza filiforme que não prevê a heróica dificuldade da união nem os magníficos e ternos esforços para a realizar.
Não gostam da água e têm medo dela, e não se percebe porque a frequentam. Também eles andam em bandos mas não levam fêmeas e adivinha-se que elas estão algures, mas são sempre invisíveis. Às vezes cantam, mas só para si, e o seu canto não é um chamamento, mas uma forma de lamento angustiado. Cansam-se depressa, e quando cai a noite estendem-se sobre as pequenas ilhas que os transportam e talvez adormeçam ou olhem para a lua. Vão-se embora deslizando em silêncio e percebe-se que são tristes.

in A mulher de Porto Pim, Difel, págs. 94-5

01 março 2012

Da leitura: uma deriva

Ler é uma experiência intoxicante. Reler e ser surpreendido é algo tão intenso que se correm certos riscos.
Há quem leia para passar o tempo. Há quem leia por obrigação. Há quem não leia por opção, preguiça, falta de preparação. Há quem o faça com o mesmo princípio com que se ouvem ritmos fáceis, para entreter.
Ler e sair-se do mundo de certezas que se possui; ler e ver-se desassossegado é verdadeiramente viciante. Como uma droga. Ler é um vício caro. Porque exige ócio. Por isso, ler assim é algo que se abeira da insubordinação. Chega a ser associal e profundamente contra o negócio.
Ler num mundo todo ele virado para o negócio é criminoso. Um estado que "promove" a leitura é um estado infantil. Ler devora tudo. É anti-estatal.
Que ainda haja 300 leitores é qualquer coisa de extraordinário, mesmo que o universo seja de 8 milhões. Trezentos leitores são demasiados para um universo concentracionário.
E no entanto há mais de 300 leitores. Paradoxos que confirmam a impossibilidade de estabelecer qualquer programa de leitura.
A mim apetece-me dizer leiam e se quiser fotocopiem, fotografem, digitalizem os livros de Joaquim Manuel Magalhães anteriores a Um Toldo Vermelho. A este guardem-no numa vitrina e prestem-lhe a mesma cerimónia que se presta a um santo: ignorem-no. A ignorância é um modo de ler. E como dizia Álvaro Lapa, lendo descobre-se.

13 junho 2010

Quem edita Eugénio de Andrade?


A editora Quasi faliu. A coisa afectou muita gente, por exemplo a Fundação Eugénio de Andrade, a quem ficou dever muito dinheiro.
Ler mais aqui.

09 junho 2010

Libro del Arcipreste ou Libro de buen amor



O Libro de buen amor é um livro de imaginárias confissões eróticas, redigidas por um tal Juan Ruiz, arcipreste de Hita (localidade a nordeste de Madrid) à volta de 1330-40. Narra as andanças de um clérigo que se divide entre seguir o bom amor (o amor a Deus) ou o amor louco (o amor carnal). Se por um lado é pastor de almas, por outro é homem e a sua natureza pede-lhe que encontre uma fêmea prazenteira. Como é clérigo, precisa da ajuda de alcoviteiras, mormente com a astuta Trotaconventos, com quem estabelece proveitosa sociedade.
Mil e duzentas páginas, com 1720 estrofes, escritas em castelhano arcaico, que configuram um misto de sátira clerical, paródia literária, tratado didáctico-religioso e manual amatório. Tudo com muito sentido de humor, tendo por base a obsessão do protagonista em encontrar "fêmea prazenteira". Recentemente editado pela Akal, numa edição crítica, enriquecida com notas e comentários.

Fonte: El País

30 maio 2010

The Big Butt Book


Depois de The Big Book of Breasts, The Big Book of Legs e de The Big Penis Book, eis que chega The Big Butt Book (O livro dos rabos grandes), em inglês, francês e alemão. O livro pretende mostrar a atracção da sociedade por essa parte do corpo ao longo de quatro décadas. Publicado pela editora alemã Taschen, a edição é de Dian Hanson. Que já está a preparar The Big Book of Pussy.
Diz ela que no Hemisfério Norte, a preferência pelos seios, muito populares há mais de 50 anos, vem dando lugar ao fascínio pelo rabo, em parte porque os povos do norte começam a respeitar mais a cultura afro-americana, que enfatiza os glúteos como fonte de estímulo sexual.

22 maio 2010

Livros e leilões


Há quem goste de primeiras edições. Há quem goste de as ter consigo, como se os livros contassem outras histórias além das que as letras dizem.
O público dos leilões de livros divide-se entre bibliófilos, alfarrabistas e curiosos. Às vezes, pelo fenómeno da disputa, os valores tornam-se espectaculares. Outras vezes, revelam-se decepcionantes. Mesmo assim, há dados que permitem saber a temperatura do mercado e a importância de certos livros.
A primeira edição da “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto não parece valer muito. Impressa por Pedro Craesbeeck, em 1614, a obra ficou-se pelos 15 mil euros.
A terceira parte do leilão, organizado pelo experiente Manuel Ferreira, onde isso aconteceu continha outros volumes significativos da nossa história literária: as primeiras edições dos «Sermões» do Padre António Vieira e do raríssimo «Livro de Cesário Verde»; as edições originais das obras de Verney e a dos autores que se vincularam à polémica que o seu «Verdadeiro Método de Estudar» trouxe a lume; Teixeira de Pascoaes, Camilo Pessanha, Fernando Pessoa, António Pedro, José Cardoso Pires, Eça de Queiroz, Antero de Quental, José Régio, Aquilino Ribeiro, José Saramago, Jorge de Sena, Miguel Torga, Carolina Michaelis de Vasconcelos, Mário de Sá Carneiro, Leite de Vasconcelos, Mário Cesariny de Vasconcelos.
Sabemos, pela notícia, que a primeira edição dos “Sonetos” de Antero de Quental, foi licitada na sessão de ontem e atingiu os 9400 euros. Fernando Pessoa continua a atrair as atenções (os livros de poesia inglesa que publicou em vida – “35 Sonnets” (1918), “Antinous” (1918) e “English Poems” (dois opúsculos editados em 1921) – renderam, respectivamente, 1900, 2200 e 2400 euros. Uma primeira edição da “Mensagem” chegou aos 2300, o “Ultimatum” de Álvaro de Campos foi comprado por dois mil euros, o panfleto “Aviso por Causa da Moral”, assinado pelo mesmo heterónimo, atingiu 1800, e a raríssima folha volante “Sobre Um Manifesto de Estudantes”, com a qual Pessoa saiu em defesa de Raul Leal, foi arrematada por 2200 euros).

16 maio 2010

Livros e políticos. Ou livros e presidentes


O livro. O determinante sugere o peso do nome. Livro designa um objecto que nuns desperta apetite e noutros repulsa. Os primeiros podem ser literatos, mas também podem ser presidentes, chefes de governo, ministros. Há uns anos, Aznar referiu-se a alguns autores espanhóis, contribuindo para que muitos procurassem livros desses autores, que desconheciam ou ainda não tinham lido.
No Público de hoje vem a tradução de um texto escrito por Tevi Troy, do The Washington Post. Transcrevemos o lead: «Sim, George W. Bush lia. Lia muito. Livros de Camus, biografias de Mao... mas não dizia. Tinha medo que a sua reputação estragasse a do livro. Foi caso único. Por regra, um livro nas mãos de um presidente dos EUA tem duplo impacte: ajuda a vendê-lo e revela o que vai no pensamento do inquilino da Casa Branca.»
O resto, é um artigo baço. Com excepção do caso Clinton: «Bill Clinton lia de forma ecléctica e frequentemente - os seus autores favoritos incluíam a poeta Maya Angelou, o romancista Ralph Ellison e o historiador Taylor Branch - e estava consciente de que as leituras presidenciais captavam atenções nos media e nos círculos intelectuais. Por isso, fez o possível para agradar aos intelectuais aparecendo em público com os seus livros. Uma vez colocou The Culture of Disbelief, do professor de Direito em Yale Stephen Carter na sua secretária na sala oval para que os jornalistas vissem o que andava a ler, e eles cumpriram as expectativas, noticiando-o. (...) Clinton também devorava policiais, apelidando-os de "pequena literatura de evasão"
E os nossos políticos? Sócrates lerá alguma coisa além dos dossiês ministeriáveis e do que sobre ele escrevem nos jornais? E Passos Coelho? E Paulo Portas, Francisco Louçã, Jerónimo de Sousa?

18 março 2010

Livros, esses objectos de desejo


O roubo de livros é moeda corrente. Mesmo gente à partida insuspeita não resiste à tentação. Disso se fala hoje numa pequena reportagem que pode ser lida aqui. O texto não é dos melhores, talvez por lhe terem roubado palavras. às vezes a economia dá nisto: perda de sentido. Assim, não se percebe qual a relação entre as marcas dos veículos e o modo como um livreiro recuperou mil livros roubados. Há mais coisas que não se percebem. Se calhar, o propósito é mesmo esse, não se perceber. E dar um ar de graça. Mas que graça pode haver em roubar bestsellers? Já alguém que rouba poesia e música erudita merece a nossa atenção. Será a reencarnação de Genet (autor de Diário de um ladrão) ou um moralista a coberto da Arte de Furtar?

23 fevereiro 2010

Em ano de crise o Super-Homem vale 1 milhão


Uma edição rara e bem conservada da primeira banda-desenhada do Super-Homem (de que já aqui falámos) foi vendida pelo valor-recorde de um milhão de dólares (quase 735 mil euros).
O livro, que saíra do mercado há cerca de 15 anos, fora vendido, em 1995, por cerca de 110 mil euros. No ano passado a quantia mais do que duplicou (233.375 euros). Agora triplicou.

15 dezembro 2009

Renata Correia Botelho

Vai estar hoje na livraria Solmar (Ponta Delgada) com o seu livro Um Circo no Nevoeiro (edição Averno). Os gastos da apresentação correm a cargo de Rosa Goulart, professora da Universidade dos Açores. Às 20h30, para quem estiver em S. Miguel e goste de preciosidades.
Um Circo no Nevoeiro é o segundo livro da autora.

Renata Correia Botelho fala sobre o seu livro - Um Circo no Nevoeiro from ARTilharia TV on Vimeo.



"Um Circo no Nevoeiro" livro de poesia de Renata Correia Botelho lançado na livraria Solmar from ARTilharia TV on Vimeo.

15 setembro 2009

Fernando Pinto do Amaral


T-Clube

Seriam oito e meia ou pouco mais
quando chegámos, prontos a assistir
ao lento fim da tarde sobre o cais
com o estuário do rio a seduzir

o ameno convívio das pessoas
cumprimentando a Ana Salazar
e comentando como estavam boas
as tapas de pâté e caviar.

Entre beijos de afecto e circunstância
ia representar o meu papel:
simpatia com um toque de distância
de modo a não parecer muito infiel

à presença dos outros seres humanos,
afinal, convidados como eu
pròs frequentes rituais mundanos
do nosso Portugal tão europeu.

(...)

O resto do poema podem lê-lo no volume Poesia Reunida 1990-2000, editado pelas Publicações Dom Quixote em 2000.

31 agosto 2009

Narrativa, de Paulo da Costa Domingos


Paulo da Costa Domingos é o responsável por uma qualidade gráfica raríssima entre nós. Meticuloso, faz de cada livro frenesi um pequeno objecto de culto.

Um livro não é apenas um objecto, e Paulo da Costa Domingos sempre os quis com pólvora, com sangue, com vísceras. Editou por isso quem quis, o que lhe trouxe bastantes inimigos. E sobretudo escreveu o que achou pertinente. Caldeando gargalhada altiva, raiva contra as diversas formas de castração e uma postura ética rara entre portugueses.

A edição é indissociável da sua poesia. Áspera, até há pouco de uma acidez criptográfica. Fruto da época em que cresceu, dos autores que começou a ler e lhe propiciaram ar fresco e território onde o seu corpo não se sentia aprisionado e também maneira de dizer não à babugem poética. Percorreu o árido caminho da tensão, do combate, da noite e dos lastros que lhe andam associados. Foi e é um autor refractário. Narrativa ajuda a perceber porquê e deveria ser lido em complemento a Vaga, livro que reúne alguns dos textos que foi publicando em periódicos nos anos 80 e 90. A literatura portuguesa nunca foi pródiga em rebeldias, quiçá pelo excesso de funcionalismo público e de clericalismo. E é parca também em vida.

Narrativa é um livro contra a corrente. Não encena, diz. E isso, caros amigos, é toda a diferença.

05 julho 2009

Laureano Barros, leitor 3

Além de coleccionador de livros raros, Laureano Barros foi um genuíno leitor. Amigo de muitos escritores, como Eugénio de Andrade ou Luiz Pacheco, a sua biblioteca incluía numerosos manuscritos e dactiloscritos que lhe foram sendo oferecidos por estes e outros autores. "Ao Laureano, com uma amizade que chega ao ponto de lhe oferecer isto", escreve Eugénio num raríssimo exemplar do seu primeiro livro, Narciso, que publicou aos 16 anos, ainda com o seu verdadeiro nome de José Fontinhas, e que depressa veio a rejeitar.

O facto de Laureano Barros não se ter regido apenas por critérios de coleccionismo deu à sua biblioteca uma abrangência pouco vulgar. Quem colecciona primeiras edições de Fernão Mendes Pinto, de António Vieira ou de Luís António Verney não costuma ter também o mítico O Amor em Visita de Herberto Helder ou os primeiros livros de João Miguel Fernandes Jorge. Laureano Barros tinha tudo isto e ainda arranjou tempo e dinheiro para compor uma boa biblioteca de historiografia portuguesa, para lá de livros dedicados a vários outros temas que o interessavam, como, por exemplo, a botânica.
Um dos núcleos mais importantes da colecção de Laureano, era um exaustivo conjunto de edições portuguesas e estrangeiras dos cancioneiros medievais. Outro, o das principais revistas literárias portuguesas, desde as oitocentistas, como Ave Azul, passando pelas mais importantes publicações do primeiro modernismo - Orpheu, Centauro, Exílio, Portugal Futurista, Byzancio ou Athena -, até às que saíram já na segunda metade do século XX.
Havia, depois, primeiras edições dos poetas quinhentistas Diogo Bernardes e Frei Agostinho da Cruz, uma segunda edição das poesias de Sá de Miranda, a edição original dos Apólogos Dialogais de Francisco Manuel de Melo e a segunda da sua Carta de Guia de Casados, ou ainda as primeiras edições de diversas obras do pedagogo iluminista Luís António Verney, incluindo o Verdadeiro Método de Estudar.

Laureano Barros coleccionou sobretudo literatura portuguesa, mas a sua biblioteca incluía também autores brasileiros e algumas obras em línguas estrangeiras, entre as quais se destaca um raríssimo exemplar da primeira edição em volume de Madame Bovary, de Flaubert. Outra peça curiosa era um exemplar setecentista, em latim, do Index de livros proibidos pelo Vaticano.
A partir do início do século XIX, e no que respeita à poesia e ficção portuguesas, o mais simples seria assinalar o que falta, e não falta quase nada de significativo até ao final da década de 1950. Atendendo só aos autores mais relevantes, pode começar-se por Garrett, com primeiras edições dos poemas Camões ou D. Branca, que introduziram o romantismo em Portugal, ou as de Folhas Caídas e do drama O Alfageme de Santarém, a par de muitas outras obras menos conhecidas.
a raríssima primeira edição dos Sonetos de Antero de Quental, as duas primeiras edições de Claridades do Sul, de Gomes Leal, o invulgar Mysticae Nuptiae, que Guerra Junqueiro publicou aos 16 anos, ou ainda, para não alongar os exemplos, as primeiras edições de O Livro de Cesário Verde e do , de António Nobre. No caso da obra-prima de Nobre, Laureano Barros deu-se mesmo ao luxo de reunir as oito primeiras edições.
Na ficção oitocentista, imensas primeiras edições de Camilo e de Eça de Queirós, por exemplo de Os Maias. Mas podiam acrescentar-se muitos outros autores, entre os quais Júlio Dinis, de quem possuía, além dos livros de ficção e poesia, um raríssimo opúsculo intitulado Da Importância dos Estudos Meteorológicos para a Medicina, de que apenas se publicaram 100 exemplares.
Quanto a Fernando Pessoa e à geração de Orpheu, a coisa volta a poder resumir-se em três palavras: não faltava nada. Nem sequer a segunda edição de Mensagem, menos valiosa do que a primeira (que, claro, Laureano Barros também tinha), mas provavelmente mais rara. Tinha todas as edições que o poeta publicou em vida, dos volumes de poesia inglesa ao texto O Interregno. Defesa e Justificação da Ditadura Militar em Portugal. De Almada Negreiros, algumas das peças mais raras são as primeiras edições da Cena do Ódio e do Manifesto Anti-Dantas. Bastante difíceis de encontrar são também as edições originais de Confissão de Lúcio, Céu em Fogo e Dispersão, de Mário Sá-Carneiro. Alfredo Guisado não é um autor da mesma importância dos anteriores, mas, por isso mesmo, o facto de Laureano Barros ter conseguido reunir todos os nove livros que o poeta publicou mostra bem até que ponto era um coleccionador minucioso. Que dedicava particular atenção a Aquilino Ribeiro, Agustina Bessa-Luís, Miguel Torga, António Botto, Camilo Pessanha, Florbela Espanca, Raul Brandão, Wenceslau de Moraes, José Régio, Irene Lisboa, Ferreira de Castro, Vitorino Nemésio, Sophia, Jorge de Sena, Herberto Helder e por aí adiante. Do primeiro livro de Mário Cesariny, Corpo Visível, que muitos coleccionadores bem gostariam de ter, o matemático de Ponte da Barca dava-se ao luxo de ter dois exemplares.
E mais, muito mais, como pode verificar quem consultar o catálogo que
Manuel Ferreira organizou, com a minúcia que se lhe conhece, para o leilão que decorreu na cidade do Porto há tempos.

Texto ligeiramente modificado por nós, a partir daqui (não está assinado, mas supomos que é da autoria de Luís Miguel Queirós).

A história de um leitor compulsivo 2

Em Ponte da Barca, Laureano era amado e odiado, e retribuía ambos os sentimentos. As eminências locais tinham a noção de ter ali uma personalidade de craveira nacional, e tentavam aproveitar-se, oferecendo-lhe cargos e medalhas. Laureano nunca aceitou, alegando que nada fizera pela terra, o que não podia ser mais verdade.
Limitava-se a ser um exemplo, o que nem sempre era devidamente apreciado. Para desconforto de muita gente, a legalidade fiscal era uma das obsessões de Laureano. Quase uma doença. Pagava tudo antes do tempo e até mais do que devia, para não correr o risco de errar. Não admitia a mínima batota. Nas transacções de propriedades, era comum assinar-se a escritura por um valor inferior ao real, para pagar menos imposto. Laureano recusava-se, o que lhe impediu alguns negócios. Mas não cedia. Uma vez, quis vender uma das terras da família por 100 mil euros. O comprador aceitava o preço, desde que se fizesse escritura por 10 mil. Laureano fez um acordo: pagaria ele próprio o montante do imposto de transacção correspondente a 90 mil euros, que era devido ao outro. Foi aceite e o negócio fez-se.
Intransigente em relação à dignidade das pessoas, Laureando comia com os seus trabalhadores à mesma mesa, o que muitos consideravam esquisito.
Foi também o primeiro, na região, a fazer descontos para a reforma e segurança social dos trabalhadores. Os outros agricultores sentiram-se prejudicados com este precedente e nomearam um representante para interceder junto de Laureano. Quando aquele chegou à quinta sugerindo, com falinhas mansas, que o "senhor doutor", pelo menos, descontasse para a segurança social apenas um dia ou dois, e não a semana inteira, foi corrido com insultos.
A Quinta da Fonte da Cova era um oásis de legalidade. E de alguma loucura também.

O patrão achava que devia iniciar os empregados no mundo da bibliofilia e da cultura. Lia para eles, convocava-os para sessões temáticas nos aposentos por onde se distribuía a biblioteca: a sala, a salinha, o quartinho ou mesmo a saleta. Por vezes, anunciava-lhes que iam dar um passeio. Chamava então Arlindo, o seu taxista de serviço, e partiam para um tour literário pelas aldeias do Gerês. No fim, jantavam todos no Restaurante Elevador, no Bom Jesus de Braga. Previamente informado, o gerente reservava uma mesa num recanto discreto, para que o grupo (de "secretários", como Laureano os apresentava) não assustasse os clientes normais do luxuoso restaurante. E lá iam, o Nelinho, o Carlos, o Nuno, o Gi e todos os jornaleiros da quinta, incluindo o lenhador José Corga, que carecia de uma indicação especial à cozinha do restaurante. Corga era um fenómeno: só comia batatas (em dias de festa, com bacalhau - era a sua única concessão), mas não em doses normais. Precisava de um prato especial, de Viana, onde coubesse "meia quarta" (o equivalente a três quilos) de batatas cozidas. Repudiava, aliás, a ideia de que alguém conseguisse comer mais do que ele.
Laureano, que se maravilhava com os prodígios da Natureza, gostava de encorajar e exibir este apanágio do empregado. Por isso, no Elevador, o senhor Corga tinha direito ao seu prato especial de batatas.
O "senhor" Corga. Laureano tratava toda a gente por "senhor". Até um pobre que ia lá a casa levar a carne do talho merecia sempre um "Obrigado, senhor Manuel". Para o Nelinho, isto era pura magia. Nunca tinha visto nada assim. Laureano tinha o estranho poder de elevar as pessoas. De transformar um zé-ninguém num senhor.
"O doutor foi a pessoa mais honesta e culta que conheci à face da terra", diz Manuel Rocha, a quem Laureano chamava Nelo, ou Nelinho, que hoje tem 36 anos, mas está na quinta desde criança. "Ele para mim era tudo. Sempre pensei: com este homem, não preciso de mais nada."
Nelo era uma das várias crianças que trabalhavam ou habitavam na Quinta da Fonte da Cova, tais como o seu irmão, Carlos, o Nuno Leitão ou o Moisés Cerqueira (conhecido como o "Gi"), ou os sobrinhos mulatos de Laureano (filhos dos seus meios-irmãos de Angola), que lá iam passar férias.
O pai de Nelo fora jornaleiro na quinta. Levava-o para lá na época da apanha da maçã, trabalho que requeria gente pequena e leve. Mas um dia emigrou para França e deixou com o "doutor" os filhos, Nelo e Carlos. O "doutor Manuel" e o "engenheiro Carlos", como Laureano passou a designá-los, celebrando o talento para a conversa de um e o jeito de mãos do outro.
Carlos, com efeito, acabaria por arranjar emprego como mecânico de máquinas, e passou a ir à quinta apenas às quartas-feiras, almoçar. Nelo continuou a viver lá, até à morte de Laureano, no ano passado. Encarregava-se de vários trabalhos na quinta, mas também tomava conta da biblioteca e, acima de tudo, tornou-se discípulo, amigo e confidente do patrão. "Nelinho, hoje o dia já está ganho, vamos conversar", chamava Laureano. "Nelinho, comprei um livro novo, vamos vê-lo". E Nelo interrompia o trabalho na quinta, sentava-se na salinha. "Isto, Nelinho, fica só entre nós. Não sai daqui", dizia-lhe Laureano, depois de contar uma visita a um alfarrabista ou a um leilão para adquirir um certo livro raro.
Nelo percebera que a biblioteca se tornara muito valiosa, e não convinha que isso constasse. Era um segredo que guardava. "Nelinho, hoje vamos tirar os livros daquela prateleira. Vamos vê-los." Ou então: "Vai ali à saleta, à segunda prateleira da estante do meio, encostada à janela, tira o terceiro livro a contar do lado norte para sul. Abre na página 153..."
Nelo abria e Laureano, da outra sala, começava a dizer o texto de cor, excertos enormes de Camilo ou Pessoa. Conhecia ao pormenor cada um dos seus livros e sabia exactamente onde se encontrava.
Um dia, Nuno Leitão, que trabalhou na quinta mas depois estudou Informática de Gestão, ofereceu-se para catalogar toda a biblioteca em computador. Laureano agradeceu, mas não precisava: tinha os ficheiros todos na cabeça.
Nuno chegou a viver na Fonte da Cova, mas acabou por ir estudar, encorajado por Laureano. O "Gi", que foi criado na quinta, sairia para casar e arranjar emprego como serralheiro.
A família dele, muito pobre, vivia numa casa em frente. Eram oito irmãos, que cedo se fizeram aos caminhos do fracasso ou do crime. Para lhe dar um futuro alternativo, a mãe de "Gi" pô-lo a viver na quinta, aos seis anos.
Ele e o Nelo, bem como o Carlos e o Nuno, eram como filhos de Laureano. Os seus "meninos", dizia ele. Todos falam do "doutor", hoje, com incondicional afecto e uma orgulhosa emoção. A exaltação quase fanática, possessiva, de quem sente ter tocado uma esfera superior da existência. "Faço questão de ser como ele, na minha vida", diz o Nelinho. "Em cada situação, penso: se o senhor doutor fosse vivo, faria assim. E tento fazer igual."
Não é fácil entender que tipo de influência Laureano exerceu sobre os espíritos destes jovens. Mas basta falar um pouco com eles para perceber que ainda lhe estão submetidos. Têm uma transparência comovente no olhar, que nos faria confiar-lhes a própria vida, sem hesitação.
Não que Laureano tenha sido condescendente com eles. Mas talvez por isso mesmo. "Gi" não teve uma relação fácil com o "doutor", que se zangava, e lhe batia, se ele chegava tarde a casa. Para o punir, mandava a Mariquinhas cozinhar favas com carne, o prato que "Gi" detestava. Uma vez, por ele ter ido ver as cheias do rio e não comparecer a horas no trabalho, deu-lhe uma bofetada. "Gi" fugiu para casa dos pais. No dia seguinte, Laureano telefonou-lhe a pedir que voltasse.
Acima de tudo, irritava-se por o seu "menino" não levar os estudos a sério. Ele ia, no entanto, concluir com êxito o secundário, não tivesse Laureano, que era na altura director da escola, irrompido pela reunião de professores, expressamente para não os deixar aprovar o "Gi". "Eu estou com ele em casa e vejo que ele não estuda", garantiu o director. "Gi" chumbou e foi trabalhar como serralheiro. Mas não ganhava o suficiente e teve de emigrar para Andorra, porque o "doutor", com os seus rígidos princípios, se recusou a meter uma cunha para lhe arranjar um emprego.
Já o Nelo não quis continuar os estudos, nem empregar-se, para ficar com Laureano. "No meu íntimo, eu sentia que não podia deixar o doutor. Achava que ele precisava de mim", explica o Nelo, que ainda continua na quinta, sem saber que ela vai ser vendida. "A minha filosofia de vida era: enquanto o doutor for vivo, eu fico com ele."
Parece que os dois competem pela maior dedicação a Laureano. "Gi" conta que passou muitos Natais sozinho com ele, quando nem os filhos o vinham visitar. E que, pouco antes da sua morte, era ele quem lhe dava banho.
Nelo e "Gi" contam cheios de vaidade estas compassivas intimidades, como se defendessem um fundamental património humano.
Laureano dissera à empregada: "Maria, se eu morrer, chama os meninos, para virem ajudar." Foi nessa altura que escreveu a lista de quem deveria ser avisado e as regras para o funeral, que incluíam ser enterrado sem caixão, sem discursos e sem cerimónia religiosa, de preferência na quinta (vontade que, obviamente, não pôde ser cumprida).
Nos últimos tempos de vida, aliás, depois de ter ficado doente, Laureano começou a preocupar-se com a posteridade. Não teve nenhuma fraqueza religiosa - manteve-se agnóstico até ao fim - mas passou a tomar disposições. Uma delas fora o divórcio com Maria José Caleijo, para não causar aos filhos problemas com a herança. Margarida, aliás, que só soube pelos jornais do casamento do pai, foi convidada formalmente para um almoço de divórcio.
Depois, Laureano doou todos os bens aos filhos. Quis poupá-los a burocracias e eventuais contendas. Organizado e precavido como era, passou os últimos anos a preparar o seu desaparecimento. Distribuiu as casas e os terrenos pelos três filhos, mas a sua grande preocupação eram, obviamente, os livros.
"Este ficará para a minha filha", ia dizendo ao Nelinho, "esta colecção para o Carlos...", mas à medida que se aproximava do fim, e ia perdendo o interesse por tudo excepto pelos livros, apercebia-se também de que os filhos não queriam a biblioteca. Pensou em várias soluções - doar as obras a uma instituição, criar uma fundação (ideia do filho Carlos). Mas nenhuma lhe agradou. Por fim, deixou de pensar no assunto. Mergulhou numa estranha apatia, uma inconsciência meticulosa e desesperada, que apenas aos seus "meninos" era visível. E os fazia sofrer.
Como pôde aquele homem que tudo calculava e tudo prevenia ter cometido um erro tão grosseiro? No seu afã de tudo medir pela beleza dos livros, de sublimar neles os seus dias e o seu futuro, nunca lhe passou pela cabeça que a biblioteca pudesse não ser eterna.
Mas não deixou, mesmo sabendo (e decerto aceitando) que em breve tudo aquilo seria vendido em leilão, de folhear, tratar e acariciar os seus livros, com a leveza confiante com que uma criança diz adeus a quem ama. A mesma com que, pouco depois, as mãos grossas e calejadas do "Gi" lhe seguraram o rosto que partia.

Texto de Paulo Moura in Público

A história de um leitor compulsivo 1


Era uma vez... Laureano Barros (1921-2008). Planeava tudo. Era organizado, previdente e perfeccionista. Inflexível com a verdade, a liberdade, a independência, o rigor e a pontualidade, exigia-os de si e dos outros. Tinha, portanto, poucos amigos.
Esta é a história de um leitor, tal como vem aqui. Um luxo dominical.

Foi quando foi viver para o Porto, para frequentar o liceu, que o jovem Laureano Barros começou a comprar livros. Frequentava os alfarrabistas e iniciou uma colecção, tal como fazia com os paliteiros, bengalas, relógios, louças, antiguidades ou alfaias agrícolas. Mas ao contrário de toda a traquitana que sempre gostou de trazer para casa, aos livros ergueu uma fidelidade. Não os vendia, não desistia nem se esquecia deles. Começou a acumulá-los na moradia que o pai lhe comprou para se instalar na cidade, na Foz, continuou a ampliar a colecção enquanto viveu nessa casa com a primeira mulher, Leonor, e depois quando se divorciou dela e das seguintes. De cada vez que se separava da mulher com quem vivia (e foram mais mulheres do que os três casamentos), deixava-lhe tudo: a casa, os móveis, as antiguidades. Mas levava consigo a biblioteca. Eram livros de Matemática, de Filosofia, de Botânica, mas acima de tudo de Literatura Portuguesa, e, cada vez mais, volumes curiosos e raros, obras pouco conhecidas, primeiras edições. Por alguns autores tornou-se obcecado e comprava tudo. Depois estendeu a obsessão a todos os escritores. Comprava e lia, várias vezes, os livros de Camilo, Eça, Pessoa, Torga. Sempre teve insónias, e passava-as a ler. Dono de uma memória prodigiosa, sabia páginas e páginas de cor. Perdia horas a arrumar os livros, a manuseá-los, a acariciá-los.
Para ele, eram um salvo-conduto contra a efemeridade de tudo o resto. E também contra a desilusão, como se nada, além dos livros, estivesse à altura dos padrões de excelência que estabeleceu. Do grau de pureza que cedo definiu para a sua vida.
Tendo concluído a licenciatura em Matemática com alta classificação, Laureano foi logo convidado, com 21 anos, para assistente de Rui Luís Gomes, um dos professores mais prestigiados da Faculdade de Ciências do Porto. A bela colega Leonor Moreira obtivera, no secundário, a segunda melhor classificação a Matemática (19) e ele (que teve 20) casou com ela, quando eram ambos estudantes no curso de Matemática da Faculdade de Ciências. Teriam três filhos: Carlos, Rui e Margarida, futuros médico, arquitecto e professora de Matemática.
Mas Rui Luís Gomes era um antifascista incorrigível. Em 1947, a seguir a vários episódios pouco felizes com a PIDE, foi expulso da faculdade, juntamente com outros dois matemáticos, José Morgado e, claro, o recto e incorruptível Laureano Barros, após terem enviado ao Governo uma carta protestando contra a prisão de uma aluna.
Desempregado, Laureano, então com 26 anos, montou uma sala de explicações, em frente ao mercado do Bolhão. Durante mais de 20 anos, viveu disso e pouco mais. Os rendimentos das propriedades familiares de Ponte da Barca, quando chegavam, convertiam-se imediatamente nalguma edição rara de Camilo ou Eça. O mesmo acontecia com as poucas remessas de Angola, onde o pai entretanto se estabelecera e constituíra outra família. Qualquer dinheiro extra era aplicado em extravagâncias bibliófilas, que incluíam, por exemplo, contratar um estudante para lhe catalogar a biblioteca.
Foi o primeiro emprego de Alexandre Outeiro. Laureano Barros pagava ao jovem de Ponte da Barca a estadia numa pensão, mais um salário simbólico, para ele passar os dias a fazer fichas dos livros no T2 que, depois de se divorciar pela segunda vez, arrendara na Rua de Sá da Bandeira. Alexandre cumpria o seu horário de trabalho sozinho no apartamento, mas por volta do meio-dia recebia um telefonema de Laureano convidando-o para o almoço num restaurante, onde passaria a refeição a falar-lhe de livros, cultura e aventuras.
Alexandre ficou a saber, maravilhado, como Laureano, que nunca foi comunista, deu guarida, na casa da Foz, ao militante comunista na clandestinidade Rogério de Carvalho, ou como se encontrou, a meio da noite, num pinhal em Vila do Conde, com a linda militante clandestina do PC Cândida Ventura, que ele não conhecia, para lhe passar uma pasta com documentos secretos. Ou ainda como numa aldeia chamada S. Martinho da Anta havia um velho olmo negro, descrito por Miguel Torga...

Nesta altura já Laureano e Alexandre eram amigos, e davam passeios de vários dias pelo Norte do país, a convite de Laureano, que pagava comidas e dormidas, mas no carro de Alexandre, porque o outro nunca teve carta de condução. Mesmo assim, Alexandre sabia que tinha de chegar ao encontro com o amigo à hora exacta que haviam marcado. Se se atrasasse um minuto, Laureano era capaz de, zangado, ir sem abrir a boca do Porto a Braga. "Ele exagerava", admite Alexandre Outeiro, que é hoje director de uma delegação da Caixa Geral de Depósitos em Gaia. "E sabia que exagerava. Mas era assim. Um homem de um rigor extremo, em tudo o que fazia."
Depois do 25 de Abril de 1974, Rui Gomes da Silva regressou do exílio no Brasil para ser nomeado reitor da Universidade do Porto. A primeira coisa que fez foi convidar Laureano para dar aulas na Faculdade de Ciências. Relutante, ele aceitou, mas, por discordar dos arbitrários saneamentos de professores, demitiu-se meses depois. Ainda voltou às explicações e leccionou num colégio, mas não se adaptou à balbúrdia da época e, após a morte do irmão, Joaquim, em 1976, mudou-se definitivamente para Ponte da Barca. Ia no terceiro casamento, com a professora de Francês Maria José Caleijo, que continuou a viver no apartamento de Sá da Bandeira. Os livros, esses, viajaram com Laureano. Agora, que herdara a casa grande da família, tinha espaço para eles.
Primeiras edições de Fernão Mendes Pinto, Camões, Vieira, Verney, Eça, Pessoa, Antero ou António Nobre, obras juvenis de Guerra Junqueiro, Torga ou José Gomes Ferreira, edições raras de poetas quinhentistas de Ponte da Barca - a biblioteca começou a crescer em majestade, a tornar-se maior do que si própria, misteriosa e imortal, exigindo reverência e devoção. Laureano foi ficando solitário. Ninguém sabe ao certo porquê.
Laureano Alves, primo de Laureano Barros, acha que ele se tornou um homem desiludido. "Passava muito tempo sozinho, embora adorasse conversar." O comportamento dos outros entristecia-o. Principalmente o dos mais comprometidos com o mundo. Por isso foi cortando elos. Recusou tudo o que lhe ofereceram. Foi convidado para professor catedrático da Faculdade de Ciências, como se tivesse leccionado durante todo o tempo desde a expulsão, em 1947. Não achou justo. Aceitou o cargo de director da Escola Secundária de Ponte da Barca, mas por pouco tempo. Segundo uma investigação que instaurou, descobriu serem falsos os atestados médicos que uma professora apresentava para faltar às aulas. Como ela não foi demitida, alegadamente por ter amizades no Ministério da Educação, Laureano pediu a reforma. Mais uma vez, recusou que lhe fosse contado o tempo de serviço desde a sua expulsão da Função Pública, como tinha direito, pelo que ficou com uma pensão miserável.
"Para ele, tudo tinha de ser perfeito", explica o primo.
Não facilitava. Essa era provavelmente a razão por que, sendo um amante da literatura, não escrevia. "O que fizesse teria de ser perfeito. Até uma carta, demorava semanas a escrevê-la. Esse perfeccionismo paralisava-o. E, no entanto, escrevia muito bem." Também terá sido por causa do perfeccionsmo e obsessão pela verdade que não conseguiu manter nenhum casamento, explica um amigo. Não suportava situações menos que perfeitas, e não conseguia mentir: de cada vez que tinha uma infidelidade, contava logo, o que acabava por levar à separação. Mas continuou amigo de todas as ex-mulheres.
A última, Maria José Caleijo, foi companheira até à sua morte, durante 45 anos, apesar de tudo. A certa altura, por imperativos de coerência, divorciaram-se, embora tivessem continuado juntos.
Laureano isolou-se em Ponte da Barca, onde passaria os últimos 30 anos de vida. Fugia das pessoas, e ao mesmo tempo procurava-as. Os outros surgiam-lhe como entidades algo imateriais e o encontro com eles não raro o fazia sentir-se perdido.
Para não se desiludir, preferia por vezes manter à distância aqueles de quem gostava, ignorando a crueldade da atitude. Quando Margarida, a filha, regressou de Inglaterra, onde, muito jovem, fora fazer o doutoramento em Matemática, Laureano fez tudo para que ela não o fosse visitar. Tinha medo que ela tivesse voltado muito esquerdista, e que se zangassem à primeira discussão. Fizera tudo, aliás, para que ela não seguisse Matemática, receando que não conseguisse. Margarida empenhou-se em mostrar que ele estava enganado, concluindo a licenciatura com média de 17.
Talvez cultivasse o relacionamento com os que se prestavam a ser amigos imaginários, metáforas de si próprios. Dizem os psicólogos que os coleccionadores compulsivos sofrem de incapacidade de lidar com os outros. Se isso é verdade, os livros, metáforas perfeitas da vida, são a colecção ideal do filantropo solitário.
No entanto, Laureano tornou-se amigo de pessoas que admirava. Lagoa Henriques, Óscar Lopes, Costa Gomes, que foi seu colega de faculdade. O general era visita regular da Quinta da Fonte da Cova, até quando foi Presidente da República (Laureano chegou a enviar-lhe uma carta criticando-o pelas cedências aos comunistas), e o mesmo acontecia com vários intelectuais e artistas, alguns bem pouco convencionais, como Luís Pacheco ou Eugénio de Andrade. Nestes, o austero e rígido Laureano apreciava a liberdade e a capacidade de surpreender. Mas mais tarde ou mais cedo a tolerância levava à colisão.
Eugénio passava grandes temporadas na quinta. Sentia-se em casa e dava largas às suas muitos próprias jovialidade e loucura. Mas quando a mãe de Laureano morreu, não mostrou grande consternação, explicando simplesmente que não gostava de funerais.
Uma vez, numa festa, Laureano apresentou-lhe uma personalidade de Ponte da Barca, um sujeito baixo e gordo que sorria de deferência para com o poeta. Eugénio apertou-lhe a mão - "Muito prazer!" - mas ao mesmo tempo disse para o lado, alto e bom som: "Isto é um homem ou é um cagalhão?"
Foi de mais. Laureano cortou com ele relações, que só viria a reatar, décadas depois, pouco antes da morte do amigo.

31 maio 2009

Estilística da língua portuguesa

Os diminutivos são geralmente usados como descarga sentimental, traduzindo uma manifestação que pode ser tanto de afecto como de aversão por pessoas ou coisas. Talvez porque sempre fomos sentimentais e escarnecedores e os sufixos captam bem essa dupla e contraditória faceta do nosso temperamento, às vezes de grande delicadeza lírica, às vezes ostensivamente galhofeiro e motejador.
O diminutivo inho é, dentre os sufixos, aquele que mais absorveu essa característica temperamental do ser português, associando a pequenez a algo ternurento, simpático, gracioso (pobrezinho, mãezinha, paizinho, velhinho), pois, como em tempos disse Jaime Cortesão, o português é uma língua lírica, franciscana, repassada de ternura e de piedade e por isso muito rica em diminutivos caridosos. No entanto, como assinalou Rodrigues Lapa, somos, porém, gente apaixonada, e facilmente vamos de um extremo ao outro, pelo que não é de surpreender que o mesmo sufixo evoque em nós sentimentos depreciativos.

Transcrevemos dois sonetos, um do ferino Bocage, outro do sofrido António Nobre, que fazem distinto uso do diminutivo. Os exemplos foram colhidos nesse livro magistral de Lapa que é Estilística da Língua Portuguesa. Esperamos que contribuam para um bom domingo de quantos aqui vêm.



Junto ao Tejo, entre os tenros Amorinhos,
as belmíricas musas pequeninas,
para agradar a estúpidas meninas
haviam fabricado uns bonequinhos.

Com eles os travessos rapazinhos,
que são mui folgazões e mui traquinas,
armaram mil subtis alicantinas
e os lançaram depois nuns bispotinhos.

Eis tágide louçã, de ebúrneo colo,
a quem não vencerá, por mais que lute,
o nosso Belmirinho, anão de Apolo,

Surge d'água e lhe diz: – Filhinho, escute,
olhe com que notícia hoje o consolo:
é poeta do rei de Lilipute!




Fazes-me pena, ao ver-te. Andas rotinho,
como que envolto em transparente véu:
pouco me falta para te ver nuzinho,
pouco te falta para andar ao léu!

Tens a batina, pálido Misquinho,
cor da esperança... e tem a cor do breu...
No entanto assim foi Cristo, em rapazinho,
e hoje é o duque de Morny no céu!

Por isso, ó flor ideal dos rapazitos,
paciênciazinha, cose os farrapitos
dessa batina. Toma a agulha e as linhas.

Dar-te-ia, crê, meu lindo pequerrucho,
uma das penas orientais – um luxo! –
se eu fosse Deus, o pai das andorinhas.

19 maio 2009

Carl Larsson (1853-1919)





Aguarelista sueco, particularmente conhecido pela colecção de 26 aguarelas de Ett Hem (Uma Casa), de 1899; pelas 32 aguarelas de Larssons (Os Larssons), de 1902, e pelas 31 de Åt solsidan (O Lado Ensolarado) – ilustrações da simples vida campestre e da sua família, que muita influência exerceram no design de interiores sueco.

28 abril 2009

Madalena Matoso - Prémio Nacional de Ilustração 2008



A ilustradora Madalena Matoso venceu o Prémio Nacional de Ilustração 2008 pelo seu trabalho no livro "A charada da bicharada", de Alice Vieira.
A charada da bicharada, editado em 2008, pela Texto Editores, é um livro de charadas de Alice Vieira que convida o leitor a adivinhar o nome dos animais, num jogo em que a ilustração de Madalena Matoso assume um importante papel.
O júri atribuiu ainda uma Menção Especial ao livro O Cuquedo da Livros Horizonte, com ilustração de Paulo Galindro e texto de Clara Cunha e ao livro És Mesmo Tu?, do Planeta Tangerina, com ilustrações de Bernardo Carvalho e textos de Isabel Minhós Martins.
Mereceram uma menção do júri os autores e os livros:
Afonso Cruz, Histórias de Reis e Princesas, Asa.
Bernardo Carvalho, Um Dia na Praia, Planeta Tangerina.
Danuta Wojciechowska, O que se vê no ABC, Caminho.
Inês Oliveira, Milagre de Natal, Civilização.
Luís Henriques, Sabes, Maria, o Pai Natal não existe, Caminho.
Madalena Matoso, Trava-Línguas, Planeta Tangerina.
Rachel Caiano, A Casa de Férias, Histórias do Senhor Valéry, Caminho.
Teresa Lima, Lá de cima cá de baixo, Gailivro.