27 março 2009

O outrora agora


Francisco Sá de Miranda (1481-1558) escreveu um soneto em que diz:

Alma, que fica por fazer desde hoje
na vida mais, se a vã minha esperança,
que sempre sigo, que me sempre foge,
já quanto a vista alcança a não alcança?

Fortuna que fará? Roube, despoje,
prometa doutra parte em abastança,
que tem com que me alegre, ou com que anoje?
Tanto tempo há que dei mão à balança.

Chorei dias e noites, chorei anos,
e fui ouvido ao longe, pelo escuro
gritando, acrescentar muito em meus danos.

Agora, que farei? Por amor juro
de tornar a cantar fora de enganos
e, por muito do mal, posto em seguro.

Tantos anos depois, noutras paragens, foi descoberto o que se julga ser a ossada de uma mulher dada como desaparecida há sete anos. Chamava-se Eunice Workman e era americana. Por estes dias, as autoridades foram chamadas à casa onde vivia Eunice Workman, por causa de negócios e impostos. Os trabalhadores contratados para limpar a casa reportaram uma pilha de ossos aparentemente humanos debaixo de um monte de lixo.
A casa estava literalmente apinhada de lixo e de tralhas, do chão até ao tecto. As investigações preliminares indicam que a Eunice deve ter morrido esmagada ou entalada nas pilhas de lixo e tralhas que coleccionava. O seu nome tê-la-á traído. Não era homem de trabalho, mas mulher de colecções.
A fortuna dela foi a sua perdição. A fortuna que sempre é um engano, revelou-se uma companheira pouco fiel e Eunice soçobrou por falta de segurança.

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