31 julho 2009

A incultura generalizada


O fotógrafo Paulo Nozolino viu, com espanto, que o n.º 19 da revista Artes & Leilões trazia na capa a fotografia Lagos 1979, de que é autor. Publicada sem autorização e desconfigurada, a fotografia representa a mãe do seu filho "na água de um Algarve infelizmente perdido."
O fotógrafo protestou junto do director da publicação e a resposta foi: que Nozolino deveria “estar contente com a publicação em capa da imagem” e que o mesmo facto “faria subir a sua cotação no mercado”.
Bem ao jeito alarve dos burgessos que atravancam tudo o que é lugar soit disant cultural e que serve para sacar uns quantos euros, maioritariamente ao erário público.
O episódio vem num post da frenesi, intitulado Os azeiteiros da "Artes & Leitões".

Hoje estou que não atino


Às vezes é assim, o prato com os restos vai parar ao frigorífico e a meia garrafa de vinho branco quase vai parar ao lixo. Ou então é o pano do pó que vai parar à gaveta dos condimentos... Isto para não falar da troca de letras, dos nomes trocados ou de querer arrancar em terceira.
Segundo Rui Costa (coordenador do departamento de Neurobiologia da Acção da Fundação Champalimaud), nos nossos neurónios que parecem árvores cheias de ramos o stress crónico decepa galhos nas duas regiões ligadas aos comportamentos intencionais e faz nascer novos ramos no campo cerebral da rotina. Na luta de equilíbrios, a rotina parece sair vencedora.
Há diferentes tipos de stress. Sabe-se por exemplo que, nalgumas situações, o stress agudo pode até ser benéfico para a eficácia na execução de uma tarefa. Daí que existam pessoas que dizem que funcionam melhor em stress, mas o stress crónico é diferente: "Uma coisa é estarmos stressados porque temos uma apresentação no dia seguinte ou um artigo importante para apresentar. Outra coisa é ter isso todos os dias, durante meses", diz Rui Costa.
Pessoas que sofrem de stress crónico, na hora de decidir têm maior probabilidade de reagir de forma mecânica, por hábito, sem analisar as consequências da acção.
Tudo num estudo, publicado na revista "Science" e realizado por uma equipa coordenada por Nuno Sousa, do Instituto de Investigação em Ciências da Vida e da Saúde (ICVS) da Universidade do Minho, e Rui Costa, na altura nos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos Estados Unidos e actualmente investigador no programa de Neurociência da Fundação Champalimaud.

30 julho 2009

O afundamento da escola


A culpa dos maus resultados nos exames só pode ser uma: dos alunos. Porque não fazem o que deviam fazer, estudar. E durante as aulas estão sempre a tentar que os profs não dêem matéria, mas que conversem.
Se houvesse sinais exteriores de que a escola não é para brincar, pois tem outra função, talvez alunos e pais percebessem que as explicações por si só não ajudam e que sem vontade dos alunos não se vai a lado nenhum.
Toda a gente quer que os médicos saibam as respostas para os problemas que têm. Já pensaram que se os médicos não estudarem, não se actualizarem pouco sabem? Ficam contentes quando encontram médicos assim?
Muitas outras profissões exigem rigor, conhecimentos, saber, mas, curiosamente, Portugal deve ser, juntamente com Espanha e Itália, dos poucos países em que pouco se valoriza a escola.
Qualquer emigrante de leste tem filhos bem preparados e que alcançam óptimos resultados, mesmo não sendo o português a língua materna. Como é que os autóctones são tão grunhos?
Atirar as culpas para cima do Ministério é atirar areia para os olhos das pessoas, embora este Ministério tenha dado demasiados sinais de paralisia mental e tenha contribuído para a ideia de que com eles tudo ia ser tão fácil como limpar o tutu ao Menino Jesus. Pelos vistos não foi. Mas será que aprenderam a lição ou será que apenas vão engrossar o grande número de ressentidos contra a escola?

Sobredotado


Juan Ramón Jiménez (1881-1958) é um poeta espanhol pouco conhecido deste lado da fronteira, quiçá por ter recebido o Prémio Nobel dois anos antes da morte. Mesmo no seu país natal, Espanha, pouca atenção lhe deram durante décadas. Ultimamente, tem vindo a ser resgatado e sucede-se a edição de livros seus ou de livros sobre a sua vida e obra.
Mais: de Juan Ramón Jiménez têm sido publicados novos títulos a um ritmo maior do que o de muitos escritores vivos. Porque o autor deixou muita coisa por publicar. Assim, depois das seis mil páginas da Espasa Calpe, com a sua obra poética em verso e em prosa, já vieram a público mais inéditos e estão para sair alguns livros, durante o corrente ano e nos próximos: dois livros de poemas inéditos, uma biografia em imagens, dois volumes de correspondência, a primeira reedição dos seus "cuadernos" e a versão definitiva de um livro seu sobre a Guerra Civil. Virá depois Monumento de amor, o volume que dedicou à sua mulher, Zenobia Camprubí, e Vida, a monumental autobiografia a que o autor dedicou os últimos anos da sua existência.
Quem quiser saber o resto, apenas tem de passear até este artigo de J. R.Marcos.

29 julho 2009

Baleias na Praia da Vitória


A baía da Praia recebeu a inesperada visita de quatro baleias de bico. Uma morreu e já foi removida do areal, as outras ainda há pouco se debatiam com o aparato dos meios da Marinha, que tentava a todo o custo salvá-las, levando-os para mar alto.
Entraram na baía ao final da tarde de ontem, terça-feira e, desde essa altura, têm resistido a todos os esforços feitos para as conduzir de novo para o oceano.
A baleia que morreu hoje foi retirada e transportada para o Matadouro Industrial da Terceira, onde será analisada por especialistas para determinar a causa da morte.

27 julho 2009

Coitado do pobre

Bastaram as eleições europeias para o pobre descobrir aquilo que já todos sabíamos: que governar à direita e ser do centro dá maus resultados.
Sócrates perdeu. O PS perdeu. A cosmética de última hora não engana ninguém. As autárquicas serão um parênteses para a grande derrota do PS. Partido que jamais chegara à maioria absoluta e que nunca mais a deve voltar a ter. Fica com tiques de arrogância e torna-se prepotente.
A democracia é uma máscara com que brinca, mas o maralhal não é tão parvo quanto o PS e Sócrates crêem.
Dizer mal ou bem de Sócrates é secundário. O que importa é o legado dele. E que legado é esse? Em que é que o país se transformou? Santana foi corrido do governo do país e por causa dele Sócrates alcançou a maioria absoluta. Prometeu reduzir o défice e fartou-se de brincar com a sua massa eleitoral de apoio. O défice aumentou e muito.
Prometeu criar emprego e o desemprego disparou.
Conseguiu que a classe profissional mais egoísta e desunida cerrasse fileiras contra o seu Ministério da Educação.
Mostrou como ter sucesso educativo: ser militante de carreira e fazer o curso com cartões, depois de ter tacho público de relevo.
E aos poucos os portugueses que tinham dúvidas perceberam quem é que Sócrates estava a defender, a quem é que ele dava o dinheiro dos contribuintes. Os que trabalham têm de apertar o cinto, receber menos reforma (quando lá chegam e se chegam). Os que vivem da especulação recebem salários opíparos, refastelam-se com as prebendas públicas (dinheiro dos contribuintes - dos que trabalham e não são familiares de Sócrates, fugindo ao fisco ou adquirindo propriedades 10 vezes superiores ao vencimento que declaram auferir).
Isto não é dizer mal, é apenas contribuir para o bem-estar de um país em que pouco mais se pode fazer além de gastar uns tiros de pólvora seca. Enquanto não chegam as eleições, claro.
Quanto a Sócrates, quem se lembrará dele na próxima legislatura?

25 julho 2009

"Dos mujeres y un paisaje" de Víctor Manuel García, pintor cubano (1897-1969)


A entrevista do Ministro da Cultura



Bem vistas as coisas, o problema da cultura (nunca referido pelo ministro) é a falta de formação. Ou seja, um problema de educação. O ensino público não promove o gosto nem pela música, nem pelas artes plásticas (que tanto entusiasmam o senhor ministro), nem pelo teatro, nem pela dança, nem pela literatura. Sem público não há meios (lógica do discurso ministerial).
No entanto, o senhor ministro parece acreditar que o mais importante é o discurso (algo cada vez mais recorrente na retórica de diversos governos PSD e PS). Por isso, a excitação com o Museu da Viagem. E sempre tudo em Lisboa, claro, pois durante este ano e meio o senhor ministro já gastou muito com a província.
Claro que sem dinheiro não há milagres e o senhor ministro da cultura orgulha-se de ter feito bastante sem meios. A lógica centralista tem destas coisas, não se percebe que o "discurso" Portugal só começou a fazer sentido porque houve uma unidade linguística entre norte e sul, entre interior e litoral. Mas, mesmo para um ministro tão entusiasmado com discursos, isso parece ficar esquecido. É como se Portugal só fizesse sentido depois dos descobrimentos. Porque já há quem fala da primeira globalização e não há como estes chavões para entusiasmar a retórica política.
Numa coisa estamos de acordo com o senhor ministro: Portugal continua a ter uma élite cultural cujo discurso permanece contaminado pelos discursos oitocentistas. Ele próprio parece um exemplo cabal disso. Mal começou a falar do Douro viu-se que não tinha nada para dizer. Coisa estranha para um entusiasta dos discursos.
Tirem os políticos de Lisboa e levem-nos a passear pelo país. No mínimo, devem conhecer o território que vão gerir. Portugal não é apenas Lisboa.
Portugal pode produzir muitos discursos. Tem história para isso. Mas precisa que seja definida uma política: uma visão. Sem isso não há discursos que valham. E também precisa que a escola deixe de estar tão preocupada com a estatística e haja formação de formadores culturais, com circulação dos agentes pelo todo nacional. É preciso que o teatro circule, que a dança e o bailado façam o mesmo, que certas exposições nacionais, cheguem a todo o lado (e como deslocar obras é impossível, dado o custo, que as façam chegar virtualmente a todo o lado, como um desígnio político, como uma obrigação pública), para passarmos "da cultura do saber, a cultura dos doutores, para uma cultura do fazer".

23 julho 2009

Conduzir sem capacete


Quem é das ilhas já ouviu falar do "capacete", ou seja, do denso manto de nuvens que é frequente nos céus dos Açores, e pode julgar que é disso que se trata. Mas não é.
A Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR) enviou para a residência de um condutor bracarense um auto de de contra-ordenação por conduzir "o veículo ligeiro de mercadorias sem utilizar o capacete de modelo oficialmente aprovado". O dito condutor, no dia 9 de Maio de 2007, pelas 14.52 horas, na Rua Óscar da Silva, Matosinhos, conduzia veículo ligeiro de mercadorias e, que raio, não levava boné, nem quico, nem chapéu e muito menos capacete.
Conduzir de cabeça descoberta é grave. Por isso, diz o auto, "foi praticada a seguinte infracção: não utilização do capacete de modelo oficialmente aprovado pelo ocupante do veículo". "Tal facto constitui contra-ordenação ao disposto no art.º 82º, n.º 3 do Código da Estrada, sancionável com coima de 120 a 600 euros, nos termos do art.º 82º, n.º 6 do mesmo diploma".
Pelo ocorrido, reclama o Estado o pagamento de 228 euros.
Será que o agente que fez registo da ocorrência alucinou momentaneamente? Terá ocorrido alguma visita inter-estelar que interferiu com o normal funcionamento do organismo do tal agente? Ou será um indefectível da fórmula 1?

Fonte: JN

22 julho 2009

Wynton Marsalis



Barulho e outras pechas


Comecemos por um excerto da notícia do Local/Lisboa do Público de hoje, que reza assim:

«Os gases e o barulho dos autocarros estão a condenar o café predilecto de Fernando Pessoa. O dono da bicentenária casa diz que já não aguenta a situação criada pelas alterações de trânsito. Diz António Sousa, o proprietário do café Martinho da Arcada, no Terreiro do Paço: "Isto tornou-se insuportável. Corremos o risco de fechar porque nos meteram num colete de forças feito de autocarros da Carris. Chegam a ser 180 por hora. Isto tornou-se insuportável."»

Quem está num café ou num restaurante gosta de estar sossegado e de falar normalmente e não aos gritos. Se ainda há grunhos que não conseguem pensar em espaços de lazer e divertimento sem excesso de ruído, a verdade é que as pessoas preferem a qualidade ambiental ao lixo. Seja este lixo visual ou sonoro.
Autocarros constantemente a passar ou amplificações sonoras altíssimas produzem o mesmo efeito: repugnância.

21 julho 2009

Gotan Project





Para que serve a escola?


É bom que estas coisas [aluno que passa de ano com 9 negativas] sejam do conhecimento alargado da população. Portugal gasta muito dinheiro com brincadeiras. Para fazer de conta que é europeu, moderno, de esquerda.
A lei é muito clara: a escoloridade é obrigatória até ao 9.º ano e até aos 15 anos de idade. Não tarda sê-lo-á até ao 12.º ano. Por causa das metas estatísticas. Os alunos, mesmo que refractários, têm de estar na escola. E a escola procura maneiras de os reter até ao limite legal.
Há um problema de educação geral. Que não tem a ver directamente com a escola, mas com a imagem que se tem da escola e do que dela se pretende. Considera-se, por exemplo, que é melhor ter os adolescentes ocupados dentro da escola do que à solta na rua. Em nome da segurança, do bem comum, blá blá. Mas a verdade é que os comportamentos de risco sempre existiram e continuarão a existir e que por mais boas intenções há um razoável número de pessoas que detesta a escola. O problema não está aí. O problema é querer a todo o custo baixar o nível para que esse tipo de alunos seja absorvido pelo sistema. Mesmo quando as mundividências são opostas aos princípios da escola.
Há já muitos estudos sobre os aparelhos repressores do Estado e sobre os valores que a escola defende. Como há muitos mais sobre a infantilização do ensino público. Mas ainda são poucos os estudos que abordam as consequências dessa infantilização na democracia.
Há já problemas graves no que respeita ao domínio da língua portuguesa. Lê-se mal, não se percebe o que se lê e passa-se adiante como se isso não fosse muito grave. Forma-se gente que terá 9 ou 12 anos de escolaridade e mal sabe ler. Que está, portanto, ao nível dos mais velhos que apenas fizeram os 4 anos de escola primária. Com a agravante de nesse tempo não se considerar nunca os alunos com dificuldades na aprendizagem e de eles serem, actualmente, o cerne das políticas educativas. Ou seja, quando não se gastava um chavo com apoios, com equipas multidisciplinares a escola afastava muitos que eram absorvidos pelo mercado de trabalho. Agora, que se gastam fortunas com essas coisas, os que completam 12 ou mais anos de escolaridade saem para o desemprego. E são educados no princípio de que têm o direito a receber ajudas. A mendicidade é geral e promovida pelo próprio Estado, leia-se, pelo dinheiro dos contribuintes. O país paga para que a fachada se mantenha e ainda contribui para os colégios e escolas particulares que rejeitam os alunos com dificuldades. E olha-se para os diversos programas eleitorais dos aprtidos que concorrem a eleições e não se vislumbra uma ideia que seja para contrariar este tipo de coisas. Andam todos obecados com as estatísticas.
A escola é apenas um parente pobre numa cadeia onde quem decide o faz a pensar na sua vidinha particular ou na sua elegibilidade, repetindo chavões que há muito esgotaram o prazo de validade.
Urge pôr de lado esquerdismos educativos que fizeram sentido nas décadas de 1970 e 1980 e discutir o que é a escola, qual a sua função, como deve estar organizada e como pode responder aos desafios do agora. Não é com computadores em miniatura nem com contenções salariais que se vai chegar a algum lado.

20 julho 2009

Influência do Impressionismo

"Reading" de Kuroga Seiki, 1891. Período Meiji, Japão.
Ver mais aqui.

Size matter


Segundo a revista “Proceedings of the National Academy of Sciences”, as diferentes espécies de peixes dos rios europeus, do Mar do Norte e do Mar Báltico perderam em média 50 por cento da sua massa corporal nos últimos 20 ou 30 anos. Além disso, a massa total dos peixes que vivem nas águas europeias baixou 60 por cento.
As espécies mais pequenas tendem a assumir um lugar mais importante nos mares e nos rios e as consequências para a cadeia alimentar podem ser perigosas. É que os peixes mais pequenos têm menos crias e constituem presas mais pequenas para os seus predadores, incluindo o homem.

19 julho 2009

E. E. Cummings ou Edward Estlin Cummings (1894-1962)


algures aonde eu nunca viajei, alegremente além de
qualquer experiência, os teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frouxo há coisas que me prendem,
ou que não posso tocar de tão próximas que estão

o teu mínimo olhar há-de facilmente desprender-me
embora eu me tenha cerrado como dedos,
tu sempre me abres pétala a pétala como abre a Primavera
(tocando hábil, misteriosamente) a primeira rosa

mas se teu desejo for encerrar-me,eu e
minha vida fecharemos em beleza,de repente,
como quando o coração desta flor imagina
a neve em tudo cuidadosa descendo;

nada do que existe para ser sentido neste mundo iguala
o poder da tua extrema fragilidade: cuja textura
me submete com a cor dos seus domínios,
representando a morte e para sempre em cada alento

(eu não sei o que é que há em ti que fecha
e abre;apenas alguma coisa em mim entende
a voz dos teus olhos mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem tão finas mãos

e.e. cummings, xix poems, tradução de Jorge Fazenda Lourenço

18 julho 2009

Bocejo, um grande bocejo

É curioso que um documento assinado por gente que se auto-intitula de intelectual parta de considerações genéricas abertas para propostas conservadoras e que enfermam de um entendimento passadista da vida. E sobretudo que o faça no jargão meio bacoco do politicamente correcto.
Quem maltrata a língua e a distorce para corresponder a manias, esquecendo que a simplicidade e a economia são sempre essenciais, só pode estar a brincar. Ou estar tão cheio de si que se esquece do quão irrelevante é. Dizer que, «de um modo geral, o texto formula interrogações que implicam escolhas e admite que as diferentes forças políticas assumam posições distintas e até antagónicas» é mostrar que o tal documento não passa de um amontoado de banalidades onde se perdem as poucas ideias interessantes que aqui ou ali se encontram.
Os intelectuais nunca tiveram muito jeito para servir. São mais do tipo de se servir, de se alimentarem da mesa do orçamento. Amontoar generalidades sem propostas concretas é algo ao alcance de qualquer pessoa. Os cafés estão cheios disso. E como texto humorístico tem palavras a mais, é enxundioso.
Esperava-se que cada questão fosse teoricamente fundamentada. Mas isso era pedir qualidade. Não. O que ali está é generalidade, banalidade, lugar comum.

17 julho 2009

Reciclagem


Na Terceira, as autarquias, depois de tantos anos de mentira, começaram finalmente a separar resíduos. Dizemos mentira, porque durante quase uma década a separação de lixo era feita pelos cidadão para ter o destino a lixeira. Porque, ao que se sabia, os custos de envio do lixo separado para reciclagem era muito elevado. Mas bastou haver um X número de câmaras da mesma cor do governo regional para o que era um senão deixar de o ser.
E agora capitaliza-se a coisa. E fica bem. Pois as pessoas há muito se habituaram a separar o lixo e a levá-lo aos ecopontos. Agora basta porem-no, em certos dias da semana, à porta de casa, que aparece o camião para o recolher. Os resultados estão à vista. A ilha Terceira, nos Açores, foi a região do país que recolheu mais embalagens de papel e de vidro para reciclagem a nível nacional, por habitante, no primeiro semestre deste ano.

16 julho 2009

Manias da actualidade


O pessoal adora brincar. A net permite que se brinque fazendo de conta que a coisa é a sério. O tweet é um bom exemplo. E há quem se sirva da ferramenta para publicar romances.
O conceito de romance e a filosofia por detrás do twitter são opostos. Mas isso que importa se daí advier visibilidade?
A visibilidade, a notoriedade são duas das febres que sufocam as pessoas. E todos os meios são válidos para as conseguir. Talvez venhamos a assistir, daqui a uns anos, à reformulação de muita da tralha que ainda nos serve para pensar o mundo. Não que não haja já alguns eloquentes exercícios de análise, mas permanecem fechados num determinado meio. A pouco e pouco a realidade encarregar-se-á de confirmar ou aperfeiçoar aquilo que ainda não passa de pontos de vistas muito particulares.
Por ora, saiba-se que o norte-americano Matt Stewart não conseguia encontrar uma editora que publicasse o seu romance de estreia: “The French Revolution” (A Revolução Francesa). Assim, vai descarregá-lo em 3500 “tweets” (os necessários para publicar os 480 mil caracteres da obra).
Quem terá paciência para ler aquilo tudo de trás para a frente? Será esta uma questão pertinente? O que importa é que ele ainda agora começou e já chegou a Portugal a notícia.

15 julho 2009

As mulheres dos mafiosos


Mulher de um mafioso preso


Roberto Saviano é o autor de um livro sobre a máfia napolitana. Do filme fez-se um filme, com o mesmo título: "Gamorra".
Saviano tem a vida a prémio. Mas não pára. No El País de hoje vem um artigo seu sobre o código sexual que impera nos clãs mafiosos: "nunca debaixo de uma mulher". Um artigo pequeno mas inquietante, onde Saviano aborda as regras complexas que determinam os casamentos e o comportamento das mulheres. Algo com que todos os mafiosos crescem desde a infância, aprendendo os ademanes do poder, do controlo. As mulheres dos mafiosos obedecem a códigos tão ou mais apertados que as dos talibãs e dos fundamentalistas islâmicos.
Tudo num país europeu dos nossos dias. Onde o poder (se calhar por causa das muitas máfias) está nas mãos de um tonto. Um tonto que ainda há dias deu muito que falar pela tendência para "carne fresca", ou seja, para meninas.


Chá das mulheres de mafiosos ainda em liberdade