31 janeiro 2012

29 janeiro 2012

A austeridade tem um sentido: empobrecer a classe média

O caminho que se percorre resulta de uma opção. A classe média optou pela visão neoliberal e sofre na pele as consequências. Daqui a um ano serão menos os que acreditam que a mudança foi boa.
Em 2011, o consumo privado já diminui 4,2%, o pior resultado de que há registo. Mas em 2012, será ainda pior: 5,9% de acordo com a Comissão Europeia. Em 1983, da última vez que o FMI esteve em Portugal, a queda tinha sido de "apenas" 0,3%.
A bola de neve não pára aqui, naturalmente. Esta quebra do consumo faz com que muitas lojas, indústrias, fornecedores de serviços e o próprio Estado sintam uma perda abrupta das suas receitas. O resultado é, no sector privado, mais cortes no investimento, mais trabalhadores colocados no desemprego e mais empresas a declararem falência. Tudo fenómenos que tendem a autoalimentar-se e a tornar a tarefa inicial do Estado de cortar o défice mais difícil e, quem sabe, a exigir ainda mais medidas de austeridade.
Felizmente, há quem tenha arregaçado as mangas e se dedique a mostrar como se esbanja dinheiro em Portugal. Bárbara Rosa, Rui Abreu e Rui Oliveira Marques são os responsáveis pelo blog Má despesa pública, onde põem a nu a irresponsabilidade de tanto servidor do Estado que, como se sabe, se alimenta à grande do adormecimento dos cidadãos.

Fonte: Público

Efeitos do neoliberalismo em Portugal

Fala Elísio Estanque, sociólogo e autor de A Classe Média: Ascensão e Declínio: "Todos os dias há algo de novo: o acordo de concertação social, o anúncio de uma nova vaga de excedentários na função pública, o abandono da universidade pelos estudantes, as novas vagas de desemprego, o aumento das taxas moderadoras, a desmontagem do Estado Social – está tudo a acontecer de uma forma extraordinariamente rápida e intensa".
Nesse ensaio, referem-se as particularidades da "célere e pouco sustentada ascensão da classe média" e também à forma como ela "agora se desmorona, de maneira igualmente rápida e abrupta, na sequência do "empurrão" da crise e das medidas de austeridade". A classe média "está em risco de um empobrecimento muito rápido" que pode levar a um "descontentamento mais amplo na sociedade portuguesa" e ao "enfraquecimento do sistema socioeconómico e do sistema democrático".
Segundo o autor "a classe média que Portugal conseguiu edificar" foi criada num "processo muito rápido, pouco consistente, que resultou sobretudo da expansão do Estado social e que, na sequência dos anos 80 do século passado, sujeita a um discurso mais ou menos eufórico orientado para o consumo e para um certo individualismo, criou um conjunto de expectativas relativamente às oportunidades do sistema". No entanto, a crise económica que Portugal enfrenta está a defraudar essas expectativas, considerou Elísio Estanque, explicando que isso levará a uma alteração da sociedade a partir da insatisfação dos jovens. Muitos deles, que fazem parte da classe média mas que têm formação superior, vivem uma "condição de precariedade e insatisfação relativamente às instituições e à classe política", sendo esta faixa da sociedade que "alimenta os movimentos de protesto".
No livro, o investigador fala de uma classe média a que atribui "vivências de carácter bipolar", em que "um quotidiano depressivo se conjuga com técnicas de dissimulação e disfarce". Estanque chega a afirmar que o quadro roça "a patologia social", já que um grupo continua "a negar a todo o custo uma realidade, mesmo quando já mergulhou nela até ao pescoço". Por exemplo a do endividamento brutal. Diz-se na notícia de que transcrevemos excertos, que "As pessoas recusam-se a assumir a perda de status, aguentam muito para além do limite do razoável, procurando manter a aparência de um estilo de vida que já não são capazes de pagar." "As pessoas pedem ajuda sob a condição de total confidencialidade. Escondem a sua situação dos vizinhos e até dos familiares que, temem, se afastariam se dela tivessem conhecimento". "São professores, juristas, arquitectos, engenheiros". Ou seja, são uma parte dos que alimentam reality shows e revistas que pululam os consultórios médicos. "É doentia", considera, a forma "envergonhada, calada e silenciosa" como esta frustração está a ser vivida por aqueles que ao mesmo tempo "encenam uma normalidade que já não existe".

25 janeiro 2012

Em memórica de Zeca Afonso


Em Fevereiro de 1987 morria um dos nomes grandes da música portuguesa. Associamo-nos à iniciativa de o lembrar. Fá-lo-emos colocando algumas das suas músicas aqui.
Começamos com Era Um Redondo Vocábulo (incluído no álbum Venham Mais Cinco, de 1973).

Cortar salários e cortar direitos é fácil, mas

fazer crescer a economia é difícil. Exige muito mais do que meras promessas. Quando se ouve falar de crescimento e emprego, nomeadamente o emprego dos jovens e os destinados à investigação e inovação dá vontade de rir.
Em Portugal a maior parte dos empresários não tem formação para perceber de que se trata, apenas entende os números: 1 para quem trabalha, 99 para ele poder ostentar a sua riqueza. E que faz o governo? Nada. Não é capaz de salientar a importância da formação e do empreendedorismo, aliviando impostos aos que são inovadores e criam emprego e penalizando os oportunistas.
Até o CDS já se interroga se não há margem para uma redução dos impostos no médio prazo, porque a actual carga fiscal "não é sustentável por muito mais tempo".

A propaganda que afunda a economia portuguesa

O primeiro-ministro afirmou ontem que Portugal não vai renegociar o programa de ajuda internacional e que não pedirá "mais tempo, nem mais dinheiro". Matthew Lynn, colunista da Bloomberg News e responsável pela “newsletter” da área financeira dessa agência, afirma que Portugal será o responsável pela queda do euro. "Prevê-se que a economia grega registe uma contracção de 6% este ano e Portugal não fica muito atrás – o Citigroup estima que a economia ‘encolha’ 5,7% em 2012 e mais 3% em 2013”. “Os objectivos de redução do défice não vão ser cumpridos. No início deste mês, o governo reviu em alta a previsão do défice, de 4,5% para 5,9% do PIB este ano. Se a experiência grega for válida, esta meta continuará a ser revista em alta. A economia encolhe, cada vez mais pessoas transitarão para a economia subterrânea para sobreviverem e o défice continuará a crescer”.
Matthew Lynn recorda o estudo da Universidade do Porto, divulgado na semana passada, onde se revela que a economia paralela aumentou 2,5% no ano passado e que representa agora cerca de 25% da actividade económica em Portugal. “E não há qualquer expectativa de que isso vá mudar em breve. As empresas portuguesas simplesmente não conseguem sobreviver a pagar as taxas de imposto que lhes foram impostas”.
Ou seja, o governo e Passos Coelho usam o que podem para sossegar os "mercados". Mas os "mercados" são cada vez mais peremptórios: Portugal vai cair na bancarrota. O que vem mostrar quanto o discurso interno de obsessão do défice é tiro no pé.
E o governo continua a não cortar nas gorduras: 20% do PIB é gasto em "Despesas dos Serviços e Fundos Autónomos, por classificação orgânica", que o mesmo é dizer em institutos, agências, comissões, entidades, direcções, centros, fundações, administrações, serviços e fundos autónomos que, com estas ou outras designações, fazem parte do chamado Serviço Público.
A propaganda afunda a economia e o governo ainda não mexeu (depois de tantas promessas e garantias) nas gorduras.

24 janeiro 2012

O estranho caso das crianças desaparecidas

Eis um caso a seguir com atenção pela APCD: no ano em que as Finanças exigiram o número de contribuinte dos filhos para poderem entrar no IRS dos pais, "desapareceram" 111 mil crianças das declarações.
A polícia não tem mãos a medir. Talvez por estarem a olhar para o céu, a ver se percebem as mudanças nas hierarquias.
Dar-se-á o caso de tal desaparecimento ser um prenúncio do apocalipse? O sol está a enviar em direcção à Terra partículas com carga eléctrica.
Ai tantos sustos que abalam o mundo em geral e o nosso país em particular.

20 janeiro 2012

Transferências

Como no futebol, há na esfera pública jobs muito mal remunerados. Os da cultura são os piorzinhos. Ao nosso vate laranja coube-lhe o CCB. Com CCB quem ganha é você.
Na cultura vale tudo, desde que salvaguardadas duas coisas: 1.ª ser do partido; 2.ª ser nome conhecido do grande público. O resto é épater les bourgeois. O mérito, em Portugal, não passa de artigos de imprensa.

Temos pena

e não fora a crise até subscreveríamos uma assinatura mensal do dislate presidencia-cavaquistal, mas assim, passamos, não dá. O homem recebe mais de dez mil euros brutos mensais, a que acrescem 2900 euros/mês de despesas de representação e queixa-se. Tadinho dele. Foi primeiro-ministro e agora é presidente. Recebeu milhões da UE. O país, como se vê, está há décadas no lodo. E o homem queixa-se. A impotência é terrível, mas o descaramento não lhe fica atrás.

Pelas silvas é que vamos

Devagar, devagarinho, eles começam a pousar. Regressam, contentes, pressentido caminho fértil para o trabalho académico. Ai, a poesia portuguesa, sempre tão atrasada, tão fora do mundo, tão caldo requentado e eles a dar-lhe, a querer atrasá-la sempre mais e mais.

18 janeiro 2012

Confirma-se. O quê? Olha, não sei, ratices, talvez

Isto parece o pim pam pum, cada bola mata um. De um lado, Joseph Stiglitz assegura que a política de austeridade, seguida pela generalidade dos países europeus, apenas vai deteriorar a situação. Não só porque reduz a dimensão do PIB, mas também porque faz com que caiam as receitas fiscais, fazendo com que a opção seja contraprodutiva.
Por outro lado, a Moody’s confirma, prevendo que Portugal, Espanha, Itália e Grécia estejam em recessão em 2012 e que haja um aumento das falências das pequenas e médias empresas nos quatro países.
Stiglitz constata que "os empréstimos não chegam à economia real. As pequenas e médias empresas não estão a obter os fundos de que precisam e as falências estão a alastrar”.

O mundo dos negócios sufoca-nos


Quantas leis não se têm feito para, supostamente, nos defenderem, embora apenas sirvam estratégias de grandes grupos económicos e financeiros?
Nos EUA, pátria da liberdade, há quem queira dinamitar a internet. Não é na China, no Líbano, no Egipto ou noutros países assim. Não, é nos EUA.
A defesa dos "nossos" interesses, como não poderia deixar de ser, é encabeçada por um republicano. Os tais que nunca querem mexer na lei de uso de porte de arma, em nome da liberdade. Mas querem limitá-la onde se sentem mais ameaçados, na internet.
Entre sopas e pipas (o Stop Online Piracy Act -SOPA- e o Protect IP Act -PIPA), navega Lamar Smith, coadjuvado por empresas como a NBC e ABC ou como a Nike e a Ford, que, como se percebe, são grandes defensores dos direitos de autor. Querem que o Departamento de Justiça norte-americano possa pedir uma ordem judicial para encerrar ou bloquear o acesso a sites que considere estarem a disponibilizar ou facilitar o acesso ilegal a músicas, filmes ou outro género de obras protegidas. Admitem também que o procurador-geral norte-americano possa exigir a remoção de sites das pesquisas nos motores de busca.
O primeiro passo é este. Seguir-se-á a manobra de fechar sítios online por veicularem informação contrária aos interesses A ou B. Chama-se a isso censura ou D-I-T-A-D-U-R-A do poder contra a liberdade individual.
Felizmente, a resposta não tardou e vários sítios, como a Wikipedia afirmam: "Há mais de uma década que gastamos milhões de horas a construir a maior enciclopédia da história da humanidade. Agora, o Congresso dos Estados Unidos está a discutir legislação que pode matar uma Internet livre e aberta. Durante 24 horas, como forma de sensibilização, a Wikipedia está em baixo".



A Wired corresponde, censurando as entradas de textos e imagens.



Outros fizeram o mesmo e bloquearam total ou parcialmente o acesso às suas páginas, em protesto contra duas leis em discussão no Congresso norte-americano que poderão afectar o funcionamento de sites registados fora dos Estados Unidos.

Os republicanos são um atentado à liberdade dos cidadãos.

17 janeiro 2012

A tempo de virar a página

A lógica do (por exemplo no) call center

é melhor do que a do pastel de nata?
Há quem encha o peito para dizer como. Enche-o de ar, claro, confortado pelos bolsos bem recheados ou pela carteira de pele ricamente decorada pelos golden cards.
Trata-se de voltarmos a Eça e trocarmos o francês pelo inglês. O dislate conserva-se sempre fresco e vivinho. É um país de peixeiros, perdão, de economistas.

(ver frase aqui)

Ao roubo organizado

chama-se comércio e tem muitas marcas, nenhuma delas doce, embora haja uma que, poeticamente, se auto-denomine pingo doce.
Ao roubo desorganizado chama-se a polícia e envia-se o caso para tribunal, mesmo que as custas processuais e advogados sejam superiores ao furto (assim como assim quem paga tudo isso é o contribuinte e não os pingos, lidls ou afins).
Os ladrões são pouco criativos, roubam uma embalagem de polvo e outra de champô (seria para lavar o polvo?) ou apenas pastas de chocolates (por exemplo meia-dúzia, que até um sem-abrigo tem estas preocupações poéticas com os números redondos).

Visão deturpada ou obstruída?

Diz a revista Visão que «O Presidente português está entre os que recebem abaixo da média». Que média? Que raio de cálculo fazem estes jornalistas? Muito ganha o homem se tivermos em conta o salário médio português. Ganha 10 vezes mais. Muito ganha se tivermos em conta a relevância do que diz.
Segundo este expert do ridículo, Cavaco ganha demais. O melhor é ver o que ele diz: «Numa altura em que se fala tanto de corte de custos, Cavaco sugere, com o seu discurso, que a figura do Presidente pode ser substituída por um gravador. De cinco em cinco anos, os cidadãos votariam na marca de pilhas a colocar no aparelho. E, no primeiro dia de cada ano, a maquineta anunciava dificuldades difíceis, sem cobrar salário nem auferir reforma. E ainda dizem que Cavaco Silva não aponta caminhos e soluções.»

14 janeiro 2012

O mapa da poesia portuguesa cheira a peixe?

Espera-se que não a peixe seco ou podre. Mas quem pode esclarecer a coisa é Maria da Conceição Caleiro, que fala de novas editoras de poesia no Ípsilon. Diz «Nos últimos anos, a emergência de uma série de médias, pequenas e pequeníssimas editoras reconfigurou o mapa da edição de poesia em Portugal.»
Era do que estávamos a precisar, de reconfigurar o mapa de Portugal, mesmo que poeticamente. «& etc, Vendaval, Tea for One, Averno, Mariposa Azual, Língua Morta, Edições Mortas, 50Kg, Oficina do Cego, Mia Soave, 7 Nós, e a lista poderia continuar: é um mapa em expansão, o da edição de poesia em Portugal.»
Maria dá conselhos: «É (...) indispensável profissionalizar alguns aspectos. Se não possuírem ISBN, nenhuma biblioteca se obriga a ter, nenhum historiador sensível que esteja por vir os conhecerá.»
A lista de poetas é, segundo a jornalista, «fastidiosa, incompleta e heterogénea», por isso poupamos os dois ou três clientes cá da casa a tal fardo.
Anotamos, a caneta (com um pedido de desculpas), este parágrafo: «O livro como objecto, como matéria gráfica semipreciosa, reclama um novo perfil de leitor: aquele que não sublinha, que não instrumentaliza o livro, que não lê de lápis na mão. Silvina Rodrigues Lopes não ama menos, mas sublinha e empresta; Manuel de Freitas diz, sorrindo, que chega a ter dois exemplares do mesmo livro. Macular o livro parece ser por vezes uma temeridade. Como aproximar um traço, mínimo que seja de "Gatos e Homens" de Rui Caeiro e dos desenhos nele espalhados por Bárbara Assis Pacheco sob a chancela de Luís Gomes (ed. Livraria Artes e Letras)? Felizmente alguns pensaram nisso... é o caso da Mariposa Azual, que reserva para o fim dos seus livros umas páginas em branco.»
Por último, assinale-se o modo como vê estes novos editores: «A distribuição é "manual". O editor feito mula no seu carro.»

Loucuras

"Não há luz no fim do túnel da crise. E isso está a enlouquecer as pessoas" - diz o escritor grego Petros Markaris.
Os portugueses são de outra fibra, sempre foram loucos e sabem muito bem que a luz pode ser um pau de fósforo, o coto de uma vela, um copo de tinto, meia dúzia de minis (estas modernidades) ou até um incêndio. E agora têm luz low cost, ou luz made in china, embora importada de outros lados, pois depende do petróleo e o petróleo é muito poluidor e etc que não vale a pena chatear os gregos com estas merdas e assim como assim já estão gregos.

Companheiros, toca a exportar lata, muita lata

Quando os chineses vieram cá assinar a papelada, as televisões mostraram o encontro nos exteriores entre os convidados. Pôde-se ver como Eduardo Catroga estava a representar o papel de quem está à vontade. Ou seja, não havia qualquer familiaridade entre ele e os chineses. É preciso ter muita lata para dizer que “Fiquei muito agradado com a lista. Porque a lista tinha lógica. Do ponto de vista dos chineses, além deles estavam a pôr caras que eles já conhecessem. Foi esse o critério”.
A lata é um material muito português, pelo que daqui sugerimos ao Álvaro que se exporte em regime de franchising.

A solução para a economia desse país que é Portugal

Hipótese a) em que ninguém acredita: "mais investimento e melhor organização do lado das empresas."
Hipótese b), que parece difícil: "salários mais baixos do lado dos trabalhadores."
Hipótese c) que muitos desejam: "sair do euro, regressar ao escudo e proceder a uma brutal desvalorização. Os salários caem no mínimo para metade."

Autor da proposta: Daniel Amaral