31 dezembro 2009

Balanço de ano

Andamos por aqui há algum tempo, mas ainda não passamos da infância. A infância é boa, autoriza muito disparate e até dizer coisas que de outro modo seriam intoleráveis (socialmente falando).
Por exemplo, conhecemos vários engenheiros e médicos cujo nível mental se fica pelas revistas de celebridades e de TV, que lêem e comentam com a mesma paixão de pessoas semi-analfabetas. Vivem para os automóveis, os trapos que põem sobre o corpo, viagens de plástico e mais umas quantas coisas que põem a nu o tédio e a miséria.
É triste ver que uma parte das élites financeiras do nosso país está nesse baixo nível. É por causa desta gente que Portugal é um país baço. E nada faz prever que os próximos anos tragam novidades.
A coisa é tal que nem sequer conseguem perceber que isso destrói a alma de um país. Até porque são exemplo para muitos.
Tentaremos no próximo ano ser um pouco mais acutilantes e divulgar aquilo que se nos afigure digno de registo. Gostamos de aprender e de descobrir. Gostamos de nos rir.
Rir é o melhor remédio contra tudo.
Esperemos que o próximo ano seja de boas gargalhadas.
Até lá.

30 dezembro 2009

Acordo ortográfico - mais do mesmo

A pouco e pouco será letra de lei e à medida que os miúdos crescerem, a pensar e a redigir segundo as regras do acordo, estará instalado. O que não significa que venha a haver alguma vantagem para Portugal. Porque para tirarmos vantagens precisamos de investir muito na promoção da língua e da cultura. Ora, com este governo não há sinais de que tal seja uma prioridade. E quem anda por fora constata quanto Portugal é nada. O pouco que há é fado.
Já quanto ao Brasil, o caso muda de figura. Investe e bem. E se se aprende Português na Europa, aprende-se à custa dos brasileiros. Portugal é nada. Prosápia interna e pouco mais.

28 dezembro 2009

Ludwik Zamenhof (1859-1917), criador do esperanto


O esperanto era supostamente uma língua de muito fácil aprendizagem, que serviria de língua franca internacional para toda a população mundial. Mas, apesar dos ideais de Zamenhof o esperanto nunca foi essa língua. O inglês, sim. Porque a língua depende mais da cultura e da economia do que da boa vontade dos homens.
Bem, este mês celebraram-se os 150 anos da criação do esperanto. E nós juntamo-nos às comemorações com este pequeno post.

Vem aí o novo filme de Clint Eastwood, Invicitus

Um filme sobre o poder de alma do futebol (ou afim). Ou como animar uma nação destroçada, unindo-a à volta de um sonho comum. O filme bem podia ser sobre Portugal, embora nós não tenhamos um Nelson Mandela.


26 dezembro 2009

A criatividade... ou o negócio


Portugal corre o risco de se tornar uma anedota quando o assunto é a literatura. Não acredita? Veja o prémio que o inenarrável José Rodrigues dos Santos acaba de receber de um clube que se chama Clube Literário do Porto.
O Porto foi, em tempos, uma cidade de escritores. Actualmente é uma parvónia cheia de tiques, como todas as parvónias. Como se não bastasse essa coisa que eram os poetas do Porto (meia dúzia de medíocres ligados ao PC), há agora um clube que dá um prémio literário que visa "galardoar o autor que mais criatividade teve no domínio da ficção" ao apresentador do Telejornal.
A mediocridade também é assim, pomposa, cheia de chavões.
Talvez a gentinha desse clube confunda vendas com criatividade. Afinal, para que servem os clubes senão para passear os trapinhos e fazer e conta que se é muito culto?
José Rodrigues dos Santos é muito criativo, ah pois é. Tomara o mundo ter muitos escritores assim. Cada livro dele é uma obra-prima. Nós aqui no Pisca até estamos a pensar em criar uma petição para propor o homem a Prémio Nobel.

23 dezembro 2009

22 dezembro 2009

A fome é um problema


Um padre anglicano aconselhou os fiéis a roubar caso estejam a passar necessidades. Devem fazê-lo em grandes cadeias de lojas e não em pequenos estabelecimentos. O padre Tim Jones explicou: "Eu não faço esta recomendação porque acho que furtar é uma coisa boa, ou porque acho que não faz mal, pois faz”.
Ainda há padres que valem a pena e Tim Jones [na foto] é, sem dúvida, a prova provada. O problema é que isso não cai bem em ninguém, nem na hierarquia nem nos gerentes das grandes cadeias de lojas. O padre Tim Jones ainda vai ser enxovalhado. E os paroquianos que passam fome terão de ponderar se assaltam lojas ou se ameaçam ir mais longe.

Fonte: i. Mais informações: 1, 2, 3

21 dezembro 2009

O sexo é um problema


Os deputados franceses (577 deputados e 345 senadores) receberam uma peculiar prende de Natal: preservativos, brinquedos sexuais e um gorro de pai natal.
As prendas foram distribuídas pela empresa Sexyprive, especializada na venda de produtos sexuais na Internet, como protesto por a câmara de Paris, para onde foram enviados também presentes semelhantes no início de Dezembro, ter proibido a distribuição de 6 mil vibradores nas ruas do bairro de “Le Marais”.

Fonte: JN

Será que tudo não passou de farsa orquestrada pelo próprio


Lembram-se de Mário Soares e da Marinha Grande? Aquela agressão mudou o sentido da campanha. Um gesto impulsivo de alguém e Mário Soares começou a caminhar para a vitória.
Berlusconi estava em baixo. Eram umas atrás das outras as notícias escandalosas. O nojo. Mesmo um povo iletrado e medroso como o italiano já começava a não gostar.
Berlusconi levou no focinho, como diz o povo. E o povo não gosta de ver os chefes a levar no focinho. Ficam com pena. Dizer mal é um exercício de bílis, sabe bem. A violência não. E “il Cavalieri”começa a trepar nas sondagens. Tão óbvio que levanta suspeitas. Não terá Berlusconi mais a sua trupe orquestrado tudo?

20 dezembro 2009

O país das autarquias por VPV

"As Câmaras estão hoje misteriosamente persuadidas de que lhes compete espantar e divertir a populaça: com "acrobacia aérea" ou o Rock in Rio, com festas, com feiras, com o que for. Pior ainda: pensam que só por si a publicidade (qualquer publicidade) do seu canto do mundo o beneficia. A ignorância e a grosseria tomaram pouco a pouco conta do país. Não temos, de facto, emenda."

Vasco Pulido Valente no Público de hoje.

19 dezembro 2009

Questões de semântica


A política, a publicidade e grande número de pessoas já perceberam que o fosso entre a realidade e o que se diz é enorme. Porque a realidade é a realidade e a comunicação faz-se entre pessoas, e os rituais em que se processa essa comunicação há muito deixaram de se pautar pela sinceridade. O que importa, agora, é parecer que está tudo bem.
O mesmo deve acontecer com estudos como o de que fala esta notícia. O autor de "A Indisciplina em Sala de Aula: Uma Abordagem Comportamental e Cognitiva", Luís Picado, especialista em psicologia da educação, afirma: "Os professores são os responsáveis pelos problemas de indisciplina em sala de aula".
Luís Picado, no estudo em apreço, expõe os pressupostos que o norteiam e o modo como olha o tema da indisciplina. Para ele, trata-se de ter professores que sejam super-homens. Professores que, além de possuírem conhecimentos científicos, sejam também capazes de entender a "organização psicológica" dos alunos com problemas de comportamento. Repare-se: Luís Picado é um estudioso e sabe que, para chegar a conclusões, precisa de dados concretos e de enquadrar esses dados em termos aceites pela comunidade científica em que está inserido. Mas, quiçá por não ser comum os estudiosos terem a mínima noção do que é uma sala de aula, partem dos lugares comuns das suas comunidades para o estabelecimento de normas. O enfoque (como gostam de dizer) está no aluno e no princípio (doce e cândido) de que o aluno sabe o que é melhor para ele. Pena que estas belas teorias não sejam transpostas para o mundo do trabalho ou para o universo de qualquer relação de dependência.
O que está em causa é, parece-nos, a falta de uma cultura científica que parta para o terreno e observe. Há muitas turmas espalhadas pelo país onde há imensos casos de indisciplina, tome esta a forma que tomar.
Se não há receitas prévias, também não há professores prévios e leccionar em condições de desgaste recorrente deixa graves lesões nesse corpo de profissionais que trabalha tantas vezes isolado, cada um por si, também por causa dos muitos dislates que os soit disant "especialistas em educação" redigem para justificar lugares e existência.
As prisões são bem a prova de que são muitos os que infringem as leis. Os comportamentos desviantes fazem parte da maneira de ser de alguns indivíduos, por razões que os especialistas deviam estudar e dar a conhecer a quem com eles tem de trabalhar no dia a dia.
Acreditar que os ditos "reforços positivos" resolvem as situações é estar desfasado da realidade.

Gregory Crewdson





Para saber mais do fotógrafo, pode ir aqui.

18 dezembro 2009

A cultura portuguesa em números


Em 2008, realizaram-se 30 581 sessões de espectáculos ao vivo, com um total de 11,1 milhões de espectadores. O número de bilhetes vendidos foi de 4,4 milhões, gerando receitas no valor de 72,1 milhões de Euros.
As galerias de arte e os espaços de exposições temporárias (840 espaços) promoveram 6 859 exposições e apresentaram 304 850 obras de 37 250 autores. O número de visitantes foi de 8 milhões, significando em média, 1 173 visitantes por exposição realizada.
Em 2008, 182 recintos de cinema com 572 ecrãs e 113 792 lugares exibiram 740 filmes (dos quais 234 corresponderam a estreias), em 644 778 sessões, para um total de 16 milhões de espectadores e de 68,9 milhões de Euros de receitas de bilheteira.

Em 2008, o valor das exportações de bens culturais foi superior a 72 milhões de euros. Os “livros, brochuras e impressos semelhantes”, foram os bens com maior valor de exportações (47,8 milhões de euros), seguidos dos “objectos de arte, de colecção ou antiguidades” com 8,9 milhões de euros. Os principais países de destino dos “livros, brochuras e impressos semelhantes” foram os Países Africanos de Língua Portuguesa, a União Europeia e o Brasil, que em conjunto concentraram 88% das exportações.

O valor das importações de bens culturais ultrapassou 277 milhões de euros.

Fonte: INE

Meteorito ou outro fenómeno?


Cientistas portugueses descobriram perto dos Açores uma depressão do fundo do Oceano Atlântico que acreditam ter origem no impacto de um meteorito. A depressão está localizada a dois quilómetros de profundidade e a certa de 150 quilómetros do arquipélago dos Açores.
A cratera é relativamente circular, com uma cavidade com seis quilómetros de largura e possui uma ampla cúpula central, tendo sido denominada "Ovo Estrelado".
Estima-se que a colisão tenha ocorrido há 17 milhões de anos, a provável idade máxima do fundo basáltico da rocha submarina onde está a cratera.
Três quilómetros a oeste do "Ovo Estrelado", há outra depressão que apresenta características homólogas, embora tenha dimensões menores.

Fontes: Açoriano Oriental, i e Ciência Hoje

17 dezembro 2009

James Elroy Flecker (1884 - 1915)


To a Poet a Thousand Years Hence

I who am dead a thousand years,
And wrote this sweet archaic song,
Send you my words for messengers
The way I shall not pass along.

I care not if you bridge the seas,
Or ride secure the cruel sky,
Or build consummate palaces
Of metal or of masonry.

But have you wine and music still,
And statues and a bright-eyed love,
And foolish thoughts of good and ill,
And prayers to them who sit above?

How shall we conquer? Like a wind
That falls at eve our fancies blow,
And old Mæonides the blind
Said it three thousand years ago.

O friend unseen, unborn, unknown,
Student of our sweet English tongue,
Read out my words at night, alone:
I was a poet, I was young.

Since I can never see your face,
And never shake you by the hand,
I send my soul through time and space
To greet you. You will understand.

Mais aqui.

Mariano Peyrou


Auto-retrato

O melhor auto-retrato que conheço é o de um
pintor que vê um ovo e pinta uma ave. Há
pessoas cujo melhor auto-retrato está nas suas
unhas. Dez anos atrás julgava que o meu melhor
auto-retrato seria afinal um beijo durante o qual se
pensa no futuro para que voem juntos
os sabores. Toda a magia é ingénua. Toda
a palavra é mágica. Cinco anos atrás pintei o meu
melhor auto-retrato: um coração e um
corpo que vibra dentro dele e o alimenta. Dez
minutos atrás comecei um poema
pensando que em todas as palavras vibra um desejo
de silêncio, uma consciência de esterilidade.
Como me arrisco a passar por imbecil.
Todos os auto-retratos implicam um risco semelhante.
Os sonhos suicidam-se com soníferos.

[in O Discurso Opcional Obrigatório, Averno, 2009, pág. 29, tradução de Manuel de Freitas]

Autorretrato

El mejor autorretrato que conozco es de un
pintor que mira un huevo y pinta un ave. Hay
gente cuyo mejor autorretrato está en sus
uñas. Hace diez años pensaba que mi mejor
autorretrato sería al fin un beso durante el que se
piensa en el futuro para que vuelen juntos
los sabores. Toda magia es ingenua. Toda
palabra es mágica. Hace cinco años pinté mi
mejor autorretrato: un corazón y un
cuerpo que late dentro de él y lo alimenta. Hace diez
minutos comencé un poema
pensando que en toda palabra late un deseo
de silencio, una conciencia de esterilidad.
Cómo me arriesgo a quedar como un imbécil.
Todo autorretrato implica un riesgo semejante
Los sueños se suicidan con somníferos.

15 dezembro 2009

João Miguel Fernandes Jorge


XIX

Também tenho uma história do meu
pai para contar. Aos nove anos levou-
me a ver um doente. Era
inverno e a casa, meio derruída, ficava
na Tapada. Trazia ainda a húmida presença
das águas do rio. Aos nove anos
o eu funde-se com o presente vivido
com o dentro e o fora. Por isso o Tejo
foi para mim desde essa manhã
a casa da parede larga de adobe, o
quarto escuro sobre um enxergão
mal distingui um corpo
por inteiro reduzido à dor –

«Espera-me lá fora.» Mas fiquei junto à
sombra esboroada da parede. Trouxeram a
luz de um candeeiro
e o rosto não era o esperado com os traços rudes e
nobres de um homem do campo,
a face vivia um tempo feroz e gratuito. Daquele
homem guardo um estranho rumor
que suponho ser idêntico ao do ferido de morte
no chão de um massacre

oiço subir as águas do Tejo nos confins de
pedra; e todo o olhar vazio era, é
o enorme sítio do esquecimento
e toda a sua dor, a eternidade.

[in Mãe-do-Fogo, Relógio d'Água, 2009, pág. 30]

Renata Correia Botelho

Vai estar hoje na livraria Solmar (Ponta Delgada) com o seu livro Um Circo no Nevoeiro (edição Averno). Os gastos da apresentação correm a cargo de Rosa Goulart, professora da Universidade dos Açores. Às 20h30, para quem estiver em S. Miguel e goste de preciosidades.
Um Circo no Nevoeiro é o segundo livro da autora.

Renata Correia Botelho fala sobre o seu livro - Um Circo no Nevoeiro from ARTilharia TV on Vimeo.



"Um Circo no Nevoeiro" livro de poesia de Renata Correia Botelho lançado na livraria Solmar from ARTilharia TV on Vimeo.

14 dezembro 2009

Os mãos largas


Tadinhos, são tão contidos no aumento. Mais dez euritos por mês. Coisa assim para cinco almoços, vinte copos de água e um café aos fins de semana. Os patrões portugueses são uns mãos largas, essa é que é essa.
Isso que para o empregado é nada, para o patrão é a ruína. Como as empresas portuguesas têm uma média de 200 a 300 empregados (as mais pequeninas, claro, pois se forem grandes como as fábricas de televisores - onde Portugal é rei, como todos sabemos - estamos a falar de um universo de milhares), mais 15 euros era muito: já o patrão não podia comer a sua lagosta mensal ou o seu leitão de fim de semana.
E depois dizem que a produtividade em Portugal é baixa. Pois é, com patrões destes admira que Portugal não esteja lá mais para ocidente, assim no meio de uma fazenda brasileira.