22 outubro 2008

Com algum atraso chegamos lá


dos filhos da puta

texto de Fernanda Câncio


«sempre me fez muita confusão que para chamar um nome a alguém — no caso, para dizer que alguém não presta — se optasse por qualificar a respectiva mãe. ora não só me parece de manifesto mau gosto partir do princípio de que uma pessoa é má rês por alguma coisa que a mãe fez ou deixou de fazer, como não me é minimamente óbvio que o trabalho sexual deva ser associado à geração de más índoles. mas o mais curioso de tudo será a espécie de desculpabilização do facínora implícita na designação. como quem diz que o problema não é bem dele, é da mãe.
se me estivesse a dar um acesso de feminismo diria que é a velha mania, pelo menos tão velha quanto o livro do génesis, de atribuir a culpa de tudo às mulheres. como, pensando bem, se calhar não há momento nenhum em que não tenha acessos de feminismo, vou mais longe: fazer coincidir o epíteto ‘filho da puta’ com uma pessoa sem princípios é também dizer (entrando no subtexto da coisa, naturalmente) que é alguém sem pai conhecido, ou seja, fazendo um pouco de arqueologia cultural (sem grande esforço, basta mergulhar nas caixas de comentários deste blogue), alguém ’sem figura da autoridade’, assim a modos que sem ninguém que lhe explicasse o certo e o errado (coisa para a qual, como é sabido, as mulheres em geral não servem e as putas ainda menos).
aqui temos pois o filho da puta como vítima do destino, como mau por afinidade: tadinho, não podia fazer diferente, não podia ser diferente. never had a chance.
ora parece-me tal coisa uma insuportável afronta ao verdadeiro filho da puta, o escroque de primeira, que não se esconde atrás de ninguém nem pede desculpa de nada. o gajo que faz mal por gosto, por desfastio. um gajo que se pode respeitar, até. o contrário do sonso — ai, o que eu odeio sonsos e sonsices.
está pois na hora de arranjar umas palavras velhas para substituir esta desprimorosa, inexacta e facilitadora expressão. sobretudo porque estamos sempre a precisar dela, quando e onde menos se espera.
nos próximos capítulos da série, debruçar-me-ei sobre as expressões ‘vai para o caralho’, ‘vai-te foder’ e quejandas, numa aprofundada reflexão sobre o paradoxo de a linguagem venal fazer coincidir o que parece ser o desejo de (quase) toda a gente (ter sexo/foder) com o pior dos impropérios.
isto, claro, se amanhã quando acordar ainda me apetecer.»


Dias felizes


Diário de Bernfried Järvi


13 de Outubro de 1977

Manhã cedo. Levanto-me e dirijo-me à casa-de-banho. Fito o meu rosto no espelho. Olhos nos olhos. Faço um minuto de silêncio em memória de mim mesmo. Dura aproximadamente trinta e cinco anos. Pronto, está feito. Fecho os olhos e sigo para o trabalho.


Nausea-Creators den to Supermarket Shelf, de N. S. Harsha


[Detalhe]
Fonte: El País

Alfred Cheney, fotógrafo das belezas do jazz




Alfred Cheney (1885-1971)
Mais fotos podem ver vistas aqui.

Anos 20 por Alfred Cheney


A arte

“A arte teve sempre um papel de liderança no mundo, transformando-o e transformando-se, mas neste momento parece que não está a ter uma resposta para os acontecimentos”. (Carlos Cabral Nunes)

Amazónia: de floresta a savana


As florestas tropicais precisam de muita chuva para sobreviver. A subida das temperaturas provenientes do aquecimento global, juntamente com os incêndios florestais, a diminuição de chuvas, a mortalidade e o abate de árvores causam-lhes danos que podem transformá-las em savanas.

A Amazónia corre esse risco, segundo opinião de Carlos Nobre, considerado um dos maiores especialistas no Brasil em mudanças ambientais globais.

Diz ele que há o perigo de quase metade da Amazónia desaparecer até ao final do século. Para que isso aconteça, basta a subida da temperatura em quatro graus centígrados ou mais até o final do século.

Para o investigador, a perda de florestas tropicais "potencia a erosão da biodiversidade" e pode ter consequências para o resto do mundo. Ainda não se sabe o alcance dos resultados, mas admitiu que "pode haver a perda de um terço das espécies do planeta". E avançou que já há espécies de animais e vegetais que desapareceram nos últimos 15 anos devido da subida da temperatura nas regiões tropicais.

21 outubro 2008

Sócrates amigo as famílias não estão contigo

Também não é preciso esse fado todo

Diz ele: “Neste momento todas as famílias precisam da ajuda do Estado”.
Sócrates é amigo.
Sócrates é um pai.
Sócrates é o mundo.
Se não fosse Sócrates que seria de nós?

É tão bom termos um primeiro-ministro que se preocupa realmente em fazer propaganda e que atira areia para os olhos dos eleitores como se fosse um medíocre escritor português.

O verniz já começa a estalar

É impressão minha ou o verniz começa a estalar entre os suçalistas?
Quando o presidente da Assembleia da República, Jaime Gama, se dá ao luxo de advertir os deputados socialistas isso quer dizer que:
a) está preocupado com o seu lugar;
b) está preocupado com os resultados eleitorais do PS;
c) quer que os deputados façam o trabalho de casa com o partido e com os seus eleitores.
Os deputados enfiaram a carapuça? Ou puseram-se a assobiar?
Alguns parece que afinaram e quais divas vieram gritar aqui d'el-rei.
Veja-se o que disse o açoriano vice-presidente da bancada socialista, Ricardo Rodrigues: que o presidente da Assembleia da República "usou humor britânico". "Seguramente que o dr. Jaime Gama não ignora que, se quiser ser reeleito presidente da Assembleia da República na próxima legislatura, tem como primeira condição ser eleito deputado". Ou seja, segundo Ricardo Rodrigues, as palavras que Gama dirigiu aos deputados "também se aplicam a ele, porque ele também é deputado".

Património da humanidade


O diário da viagem de Vasco da Gama à Índia, em 1497, atribuído a Álvaro Velho do Barreiro, mora na cidade do Porto. Na Biblioteca Municipal. É um tesouro precioso e pode ser visto numa exposição que foi inaugurada há pouco.

O diário, que andou em digressão por vários países europeus, raramente pode ser visto pelo público. Mas nos últimos tempos quis arejar um pouco e depois desse périplo lá está ele no Porto, juntamente com a Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto, de 1614; o Foral da Cidade do Porto, datado de 1517; edições antigas de Os Lusíadas e manuscritos religiosos, militares e musicais, autógrafos e exemplares de cartografia.

Contra o frio

O frio é uma chatice. Mas não se pode coçar. Por isso, Daniel Rodan, um estilista alemão, resolveu propor couro e látex.
Chamou à sua colecção Noite Negra II - Segredos de Couro. Soutiens, cuecas, suspensórios e outras coisas mais.
Aqui fica uma amostra.

20 outubro 2008

Mau tempo no canal


Via Arrastão, por Pedro Vieira

OVNIs


OVNI ou UFO é um objecto que voa e cuja origem se desconhece. Se é ou não extra-terrestre é coisa que pouco importa.

Ou se calhar é tudo o que interessa. Bem, no dia 20 de Maio de 1957, em plena Guerra Fria, Milton Torres, um piloto americano de combate recebeu ordens para abater um OVNI que se movia erraticamente e, segundo o radar, tinha o tamanho de um porta-aviões. O estranho objecto pôs-se em fuga a uma velocidade de 12 mil km/h.

Segundo testemunha, mal se preparava para descarregar os mísseis, o OVNI desapareceu.

Tudo se terá passado em espaço aéreo britânico.

Biblioteca José Cardoso Pires


Dantes os poetas e escritores portugueses acabavam com uma placa nalgum beco ou rua manhosa. Agora, alguns dos melhores dão o nome a bibliotecas, aviões e escolas.

Em Vila de Rei, no distrito de Castelo Branco, vai ser inaugurada a Biblioteca Municipal José Cardoso Pires.

A biblioteca conta com algum espólio do autor, cedido pela família. Por exemplo, obras oferecidas (com dedicatória) por escritores como Alves Redol, Ferreira de Castro, Carlos de Oliveira, António Lobo Antunes, Eugénio de Andrade, António Alçada Baptista, Mário de Carvalho, Mário Cláudio, Luísa Dacosta ou Jacinto Prado Coelho.

José Cardoso Pires tinha alma de conservador, pois guardava muita tralha. Mas não será esse o espólio que poderá ser visto em Vila de Rei. Haverá sim uma sala com mais de 3 mil volumes, um quadro original de Victor Palla representando o escritor e a máquina de escrever que o acompanhou até quase ao final da sua vida.

A inauguração está agendada para 26 de Outubro, dia em que se assinala 10 anos sobre a morte do escritor nascido em Vila de Rei.

Problemas da História de Portugal


Todos os que passaram pela escola recordarão as crises políticas de 1383-85, a da União Ibérica, a das lutas liberais, a da implantação da República. Mais recente, temos o 25 de Abril de 1974.

Sobre este último ponto, alguns dos protagonistas do depois ainda estão vivos e querem deixar registo das suas opiniões e do modo como o viveram.

António Pires Veloso, general do Exército na reforma, é um deles. Decidiu escrever um livro de memórias que sairá em breve. Aí afirma que o 25 de Novembro de 1975 foi uma espécie de renovação do 25 de Abril. Porque o Partido Comunista Português estava apostado em conquistar o poder pela força das armas. Ou seja, através de um golpe.

Mais: a guerra civil só não aconteceu porque o general Costa Gomes chamou Álvaro Cunhal e conseguiu influenciá-lo a desistir. Esta atitude, arrancada a Cunhal com muito esforço de Costa Gomes, surtiu um efeito muito negativo junto de alguns militantes comunistas que estavam no interior das sedes à espera das armas.

De resto, podemos ver que Pires Veloso tem alguns ódios de estimação: Ramalho Eanes e Melo Antunes. Sobre o primeiro diz «Sei que é uma pessoa sem carácter, que deixou Portugal à beira da guerra civil. Acreditei nele, ajudei-o no primeiro mandato de presidente e ele traiu-me, enganou todos, principalmente a região Norte. Quem controlava, ou seja, quem mandava no Eanes, era o Melo Antunes, que fazia o jogo do PCP.»

Sobre o segundo não é menos dócil: «a sua obsessão pelo comunismo era uma coisa doentia, era de um esquerdismo total e, para ele, quem fosse amigo do Sá Carneiro, já era fascista.»

O livro faz referência a muita outra gente que interveio na História: Mário Soares, Sá Carneiro, Cunhal, Vasco Lourenço e muitos outros.


Fonte: JN

19 outubro 2008

Ave Caesar, morituri te salutant


E pronto


Agora que já se sabe tudo, ainda não se sabe nada. Depois da nova Assembleia entrar em funções e de se conhecerem as novas caras do governo veremos se há surpresas.

Para já uma dúvida: a Cultura fica na Terceira ou vai de vez para S. Miguel?

Fala-vos o vidente

Camaradas e amigos é com grande infelicidade que assistimos a mais uma maioria absoluta de Carlos César e legionários. Serão certamente os piores quatro anos que vamos viver em termos de governação. Porque vai começar a caça ao lugar de Carlos César. Porque vamos assistir à prepotência e abuso em vários sectores dependentes do governo regional. Porque o PSD se vai entregar a uma luta intestina à procura do novo líder e vai continuar a esquecer-se de fazer oposição. Porque a crise vai dar azo a muita mendicidade e consequentes abusos. Porque o resto da oposição deixa de contar com os holofotes e se vai limitar a fazer barulhos pontuais.
O fosso entre S. Miguel e Terceira vai alargar-se mais e mais. As outras ilhas assistirão impotentes à partida dos seus filhos que não poderão regressar senão em férias, já que emprego será uma miragem. Embora subsistam os lugares de esmola e as subsidio-dependências.
Fala-vos o vidente, aquele que lê nas folhas de chá.

Dormir pouco faz mal à saúde


Os portugueses estão a dormir cada vez menos. Nas últimas décadas, o sono passou para segundo plano, estando confinado às horas que restam de dias cada vez mais agitados. Paradoxalmente, quanto mais se corta no sono, menos se produz. Estudos sobre a causa-efeito desta nova realidade demonstram resultados ainda mais preocupantes: a redução crónica do sono é um factor de risco para o aumento dos casos de hipertensão, diabetes, obesidade, doenças cardiovasculares, depressão e de mortes ao volante.

"Dormir é mais importante que comer", alerta Teresa Paiva, neurologista e investigadora responsável pelo laboratório do sono do Hospital de Santa Maria em Lisboa. "A privação crónica do sono tem consequências graves para a saúde física, para o equilíbrio emocional e para as capacidades cognitivas", sublinha.

Um estudo da Universidade de Chicago demonstrou que dormir pouco durante alguns dias interfere de tal forma no metabolismo do açúcar que o corpo deixa de processar a glucose no sangue e aumenta a produção de insulina.

A falta de sono dificulta a execução de tarefas, a concentração, o processo decisional e leva a comportamentos de risco para a segurança pessoal e dos outros.

Finalmente, a classe médica encontra cada vez mais ligações entre a privação do sono e a irritação, agressividade, ansiedade e depressão. Assim, mesmo com falta de tempo, o sono deve ser colocado no topo das nossas prioridades.


Fonte: DN

A política das seguradoras ameaça a saúde pública


Há anos não havia bicho careta que não espumasse de alegria com a iniciativa privada. Todos queriam que fossem as leis do mercado a regular tudo. A saúde não fugia à voragem.

Assim conseguiram as seguradoras uma boa parte do seu negócio. Mas...

Já começam a vir a lume as vantagens do negócio: "qualidade duvidosa" dos tratamentos; "materiais de menor qualidade e sobretratamento"; constrangimento dos médicos.

O alerta vem do bastonário da Ordem dos Médicos Dentistas, Orlando Monteiro da Silva: com montantes que não chegam para cobrir todos os custos de uma consulta, há dentistas que começam a recorrer "a expedientes inaceitáveis em termos éticos, deontológicos e, sobretudo, em termos de qualidade", com elevados riscos para a saúde pública, nomeadamente no que diz respeito à transmissão de doenças.