07 julho 2011

Oliveira com 2850 anos


Está situada em Santa Iria da Azóia, concelho de Loures, no que resta de um antigo olival próximo das ruínas do castelo de Pirescouxe, com um perímetro que mede, na base, 10,15 metros, uma altura de 4,40 metros e um diâmetro de copa com 7,60 por 8,40 metros.

Fonte: Público

OaKoAk e as Invenções Urbanas


OaKoAk é francês e olha para as cidades de um modo divertido. Aproveita detalhes para intervenções que fotografa e de que deixa memória num blogue.



Buracos, calçadas, sinais de trânsito, contentores de lixo, becos, portas e portões, tudo lhe serve para inventar a cidade, seja Saint-Etienne, Marseille, Lyon ou Paris.
Um sorriso, um pouco de humor e de cor surpreendem o transeunte que, assim, olha para o seu espaço doutra maneira.


OaKoAk é uma espécie de Baudelaire dos nossos dias.

Marja van Bijsterveldt - Holanda - Educação, Cultura e Ciência

Michèle Alliot-Marie - França - Interior e Territórios Ultramarinos

Fadila Laanan - Bélgica - Cultura e Audiovisual

05 julho 2011

WU LYF





Abençoado Tadeu

Raramente me apetece tirar o chapéu, até porque é coisa que já poucos usam e, por certo, escapa-lhes o sentido de saudação da coisa. Que se lixe! Ao ler o artigo de Pedro Tadeu, no DN, foi isso mesmo que me apeteceu fazer.

Deixo-vos a parte que me soube bem:

«Há uma espécie de decreto-lei informal que, ainda no tempo de Sócrates, na sequência das imposições da troika, passou a entrar em vigor. Esse decreto, editado e publicado por opinadores do regime, "especialistas" em economia, grandes empresários, gestores ao serviço destes, banqueiros, políticos do "centrão", iludidos do neoliberalismo, académicos conformados e burocratas dependentes da eurocracia, resume-se numa frase: "Protestar contra as medidas de austeridade é antipatriótico".

A teoria desenvolve-se no pressuposto de que não haveria outro caminho para "salvar Portugal" (sic) que não seja este que actualmente trilhamos. Pelo que, para bem da Pátria, qualquer manifestação, greve, marcha, abaixo-assinado ou simples comentário contra o que se está a passar é, na sua essência, um acto de traição.

Isto faz-me lembrar o meu tempo do ensino primário, quando a minha cabeça era encharcada pelo chavão "a Pátria não se discute", para justificar a guerra no Ultramar. Essa guerra, lia-se em todos os jornais, via-se na televisão e ensinava-se na escola, não só era inevitável como necessária. Além do mais, dizia-se, do ponto de vista económico, que Portugal não sobreviveria à perda das colónias. Quem protestava era declarado traidor à Pátria e ia preso.

Pois quando cheguei ao liceu, anos depois do 25 de Abril, já não havia Ultramar, a Pátria até estava de melhor saúde, prosperava, e os traidores da véspera eram os heróis da nova época. Como vêem, as certezas absolutas e indiscutíveis são todas muito relativas...»



Humor negro


Há por aí muitos jornais a darem sugestões para enfrentar a crise. Quase todos com a mesma receita e com a mesma linguagem floreada.
Quando se trata de dar conselhos, até o tom de voz muda, como se fosse uma flauta.
Transcrevemos umas frases de um jornal, para todos nos podermos rir um pouco:

«Prevenir é mesmo o melhor remédio para lidar com a subida dos juros e dos efeitos negativos da crise. Mesmo que a sua situação financeira actual seja saudável, os especialistas deixam alguns conselhos. Afinal, uma situação de desemprego ou uma doença poderá facilmente desequilibrar as finanças de uma família. Para prevenir tais imprevistos deverá ter guardada uma almofada financeira equivalente a seis salários do agregado familiar. Esta poupança deverá ainda estar alocada em aplicações financeiras de elevada liquidez (como os depósitos a prazo ou fundos de tesouraria) de forma a facilitar a sua movimentação em caso de uma emergência.»

«Segundo os dados compilados pela Deco, existem pelo menos cinco depósitos a 12 meses que oferecem taxas brutas acima dos 4%. O melhor depósito para este prazo é o DP TOP II do banco BiG que tem uma taxa de 4,75%. O único inconveniente é que exige um montante mínimo de investimento de 60.000 euros. Quem tivesse este dinheiro disponível e o aplicasse neste depósito chegaria ao fim de um ano com uma mais-valia líquida de 2.238 euros. Mas não são apenas os depósitos que beneficiam da alta das taxas de juro.»

Gastos


As prestações das casas aumenta e continuará a aumentar.
A subida generalizada do preço das matérias-primas, sobretudo das agrícolas, deixa antever um aumento substancial do peso do cabaz alimentar das famílias.
O aumento do preço dos combustíveis é outra realidade - que por sua vez também pesa no custo do transporte das matérias-primas e se reflecte no aumento dos preços dos produtos apresentados ao consumidor.
Em resumo: cortam-se salários e benefícios sociais, aumentam-se os preços de bens e serviços e o resultado é: a alegria de quem ganha muito, por poder ganhar mais ainda. E assim a economia faz abdominais. Nada como uma economia musculada para satisfação de todos.

Investimentos


Desde que o Euromilhões foi criado, em Outubro de 2004, os portugueses investiram a módica quantia de 6,4 mil milhões de euros.

O exemplo vem sempre de cima


Aos pequenos dizem: cortar, cortar, cortar. E têm de cortar onde já há quase nada. Aos grandes aumentam, porque precisam de, dizem, manter "um nível de vida apropriado à sua posição de directora-geral e às necessidades de representação do fundo”.
Falamos dos abonos de Christine Lagarde, nova directora-geral do FMI, que incluem 467 940 dólares (323 000 euros) e 83 760 dólares (cerca de 58 000 euros) para cobrir gastos de representação. Além disso, Lagarde irá receber ainda um complemento diário e terá pagas várias despesas, nomeadamente com hotéis.
Os portugueses acharão, por certo, muito bem e continuarão, felizes a apertar o cinto da pobreza.

A mais antiga imagem de rei egípcio


Arqueólogos norte-americanos e italianos descobriram uma inscrição com o desenho mais antigo de um faraó egípcio. O achado ocorreu em Al Hamdulab, a noroeste da cidade de Asuan, 800 kms a sul do Cairo. E faz parte de uma série de escrituras e imagens que mostram os rituais dos faraós na antiguidade, bem como cenas de combates, festas, pesca, sinais de poder político e animais.

04 julho 2011

Angela Merkel - Alemanha - Primeiro-Ministro

Ana de Hollanda - Brasil - Ministra da Cultura

Beatrice Ask (Suécia) - Ministra da Justiça

Maria Carfagna - Ministra italiana da Igualdade

Johanna Sigurdardottir - Primeiro-Ministro da Islândia

Assunção Cristas - Ministra da Agricultura, do Mar, do Ambiente e do Ordenamento do Território

Carme Chacón - Ministra da Defesa espanhola

Yingluck Shinawatra - Primeiro-Ministro da Tailândia

29 junho 2011

Para memória futura 2

O Governo compromete-se com a mudança de paradigma que permite ter uma visão integrada do território e dos recursos naturais, vivos e não vivos, e com a promoção de um desenvolvimento sustentável que aumente o potencial produtivo agrícola, dinamize o mundo rural, permita realizar o valor potencial do mar português e encontre na protecção e valorização do meio ambiente eixos sólidos para o crescimento.

Aumentar a produção nacional com vista a contribuir para a auto-suficiência alimentar medida em termos globais, ou seja, em valor;

Promover um território inteligente, actualizando as políticas de urbanismo e ordenamento do território;

Visando o acréscimo da competitividade, o Governo procurará gradualmente criar condições concorrenciais competitivas com os nossos parceiros europeus; investir nas produções vegetal e animal, agro-industrial e indústrias de base florestal; apostar no desenvolvimento rural resistindo às pressões de desenvolvimento assimétrico. Será por isso valorizada a multifuncionalidade, designadamente novos usos e explorações sustentadas da terra, como são os exemplos de produções de alta qualidade (agricultura biológica e produtos tradicionais) e a produção de biomassa, assim como a preservação das paisagens típicas, dos recursos naturais, da biodiversidade, dos habitats rurais, discriminando de modo positivo as regiões desfavorecidas.

Sensibilizar os cidadãos para os custos associados à prestação de cuidados de saúde através da disponibilização da informação sobre o custo suportado pelo Estado em cada acto prestado;

Criar as condições legislativas e técnicas para o avanço da dispensa de medicamentos em dose individual;

Criar condições para a desmaterialização da receita médica em todo o tipo de receituário com comparticipação pública, implementando um sistema ágil de monitorização do consumo de medicamentos que promova a clareza na contabilização dos encargos do Estado e do cidadão com os medicamentos.

O desenvolvimento social em Portugal enfrenta poderosos constrangimentos, entre os quais se destacam, além do comportamento medíocre da economia portuguesa na última década, a fraca evolução demográfica, o isolamento dos mais velhos, a pobreza persistente, o desemprego, a injustiça no mercado de trabalho, o aumento das desigualdades sociais, a dificuldade em assegurar a sustentabilidade do sistema de pensões, o florescimento duma cultura de dependência em que cada vez menos se reconhece o mérito e o valor do trabalho e do esforço.

A redução das desigualdades sociais deve começar, por um lado, pelo combate à apropriação indevida da riqueza, à fraude e evasão fiscal, à delapidação de recursos públicos, à economia informal, ao abandono escolar precoce e pela adopção de medidas de apoio à família e, por outro lado, pelo justo reconhecimento do mérito e do esforço de cada um.

Acautelar um serviço eficiente no ensino e divulgação da língua portuguesa no mundo.

Para memória futura 1

O Governo tomará iniciativas para que o País tenha um sistema eficaz de combate à corrupção, à informalidade e a posições dominantes, e que seja dotado de um sistema de regulação mais coerente e independente.

O Governo compromete-se também a “despartidarizar” o aparelho do Estado e a promover o mérito no acesso aos cargos.

Revisão dos mecanismos de prevenção e controlo que impeçam deslizamentos de custos e prazos inaceitáveis, na concepção, contratação e execução das obras públicas, acima de um determinado montante;

A política económico-financeira do Governo será orientada para restaurar a credibilidade financeira do País, para reduzir o endividamento nacional e o défice externo, para retomar o crescimento económico, fomentar a produtividade e a competitividade e para promover uma sustentada criação de emprego e a solidariedade.

Propor à Assembleia da República a adopção de alterações às Leis de Finanças Regionais e Locais de forma a compatibilizá-las com a nova Lei de Enquadramento Orçamental, nomeadamente no que respeita à inclusão de entidades no respectivo subsector, à adopção de um quadro plurianual orçamental e às regras de endividamento;

O bem-estar das pessoas e a competitividade das empresas e da economia portuguesa no actual contexto de globalização exige, acima de tudo, uma legislação laboral que fomente a economia e a criação de emprego, que diminua a precariedade laboral e que esteja concentrada na protecção do trabalhador e não do posto de trabalho.

Publicar a lista de profissões em que é previsível virem a verificar-se maiores necessidades de mão-de-obra;

Introduzir incentivos salariais para investigadores em função da capacidade de mobilizar recursos, desenvolver investigação de alta qualidade, licenciamento de patentes e impacto numa lógica de cooperação empresarial;

O Governo compromete-se a implementar uma estratégia destinada a inverter a desindustrialização do país registada nos últimos anos e promover uma reindustrialização centrada na competitividade. Neste sentido, o Governo entende que Portugal tem condições para continuar o processo de subida na escala da cadeia de valor das actividades tradicionais e para desenvolver novas actividades em certos segmentos da indústria transformadora.

No domínio do transporte ferroviário de mercadorias será, ainda, dada prioridade às ligações aos portos e centros de produção orientados para o comércio externo, analisando-se o desenvolvimento potencial da infra-estrutura em bitola europeia, nos corredores de tráfego internacional. Por outro lado, é urgente prosseguir e intensificar a modernização das infra-estruturas portuárias e aeroportuárias, designadamente numa óptica que privilegie a competitividade externa e atractividade do País. Os investimentos em portos, transportes terrestres, transportes aéreos e infra-estruturas aeroportuárias serão prioritariamente decididos em regime de concessão ao sector privado, de modo a minimizar o esforço financeiro do Estado e a aumentar a respectiva eficiência.

Reduzir a dependência petrolífera do País, objectivo que será alcançado através do reforço da utilização de biocombustíveis, da aposta no transporte colectivo de qualidade, e o investimento nos modos ferroviário e marítimo no transporte para a Europa;

Reforçar a atractividade do Turismo, nomeadamente pela articulação de políticas com o ordenamento do espaço, o ambiente, os transportes, a saúde, o mar e a cultura;

Promover novos conteúdos de valorização do destino Portugal em cooperação com as indústrias criativas, com base na história, valores partilhados e autenticidade do produto turístico.

Encher chouriços com economês


Pelos anos 80 havia o costume de ridicularizar as pessoas que falavam de cultura, por usarem termos complicados. Hoje, assistimos à algaraviada diária do economês e, inversamente, as pessoas consideram fino apropriarem-se desse jargão.
O pior é que, depois, aparecem notícias como esta, onde se gastam imensos caracteres para nada dizer. O essencial aparece no lead. O resto, é palha. Ora veja:
«O défice público no primeiro trimestre ficou em 3177 milhões de euros em contabilidade nacional (a que interessa a Bruxelas), o que representa 7,7 por cento do PIB, ficando ainda distante do objectivo de 5,9 por cento definido para o conjunto deste ano, segundo as contas nacionais trimestrais por sector institucional divulgadas hoje pelo INE.
O valor hoje anunciado é substancialmente pior que o divulgado pela Direcção-Geral do Orçamento (DGO), mas que reflecte a lógica da contabilidade pública, que regista as receitas e despesas do Estado num dado período. A contabilidade nacional regista os compromissos de receita e despesa do Estado, e é esta a que vale para as autoridades europeias verificaram a conformidade com os objectivos definidos no pacto que instituiu o euro. Por outro lado, os dados da DGO não entram em conta com os saldos das emrpesas públicas.
A Direcção-Geral do Orçamento tinha divulgado um défice do Estado de 1019,1 milhões de euros no trimestre terminado em Março, com um excedente de 871 milhões de euros nos fundos e serviços autónomos, o que pressupunha um défice de 148 milhões de euros na administração central. O excedente da Segurança Social foi de 580 milhões de euros.
O valor hoje divulgado pelo INE compara com os 9,5 por cento registados primeiros três meses de 2010, e com os 9,3 por cento registados no último trimestre do ano passado. O défice de 2010 ficou em 9,1 por cento após o Eurostat ter obrigado a uma revisão de critérios estatísticos que levou à inclusão de algumas empresas públicas antes não consideradas e ao défice do BPN, ficando muito acima do objectivo inicial do Governo de José Sócrates, de 7,3 por cento do PIB.
O afastamento do saldo do Estado no primeiro trimestre face ao objectivo para este ano deverá servir de justificação para o novo Governo antecipar algumas medidas previstas no acordo de resgate financeiro com a UE e o FMI. Na Sexta-feira, o primeiro-ministro disse que pretendia apresentar em breve medidas na área da reforma do Estado e das privatizações, de modo a não pôr em causa o objectivo do défice público para este ano.
Os dados hoje divulgados pelo INE diferem das contas nacionais trimestrais não são ajustados dos efeitos de sazonalidade, um efeito que é minorado pela apresentação de dados com as médias dos últimos quatro trimestres. Nesta óptica, o défice do primeiro trimestre seria de 8,7 por cento, reflectindo os défices trimestrais mais elevados registados ao longo do ano passado.»

Pergunta-se: que jornalista redige uma porcaria destas? Depois, queixam-se que os jornais perdem leitores.

26 junho 2011

Os dislates do senhor Medina


Gosta de chamar a atenção e é extremamente crítico das finanças públicas, como se dissesse, Depois de mim o dilúvio.
É, como tantos outros, a prova provada de que quem muito fala de economia pouco acerta. Diz ele que Salazar "era um bom gestor". Era, era. Tão bom que Portugal, à época, tinha altos níveis de emigração (grande parte para fugir à fome, outra para fugir à guerra), um atraso crónico relativamente aos outros países europeus (nalguns domínios conseguimos recuperar, embora com custos que o senhor Medina escamoteia, porque lhe dá jeito para a algaraviada em que tem andado entretido), além de uma educação que ainda hoje percorre transversalmente a sociedade portuguesa e afecta sobremaneira economistas e gestores: pensarem que a vida se limita a números, ao deve e haver burocrático e banqueiro.
O raciocínio do homem é tão distinto que mistura "pessoal, prestações sociais e juros", como se se tratasse de uma receita caseira. Para ele, gente e juros é tudo a mesma coisa. Talvez pense que essa gentinha que trabalha para o Estado o devia fazer de graça e viver de ar e vento. O importante é satisfazer os conselhos de administração e a distribuição de dividendos nos finais de ano, o resto são amendoins.
Medina não gosta que as pessoas tenham carro e casa de campo (algo que, como todos sabemos, é comum à maior parte da população portuguesa) e também não deve gostar que as pessoas tenham conforto e vivam razoavelmente (no tempo de Salazar é que era bom, arranjava-se criadagem por tuta e meia e um doutor era um senhor doutor).
Medina Carreira continua sem perceber que Portugal tem muito para dar (e colher), mas precisa de uma classe dirigente distanciada dos tiques e das muletas de Salazar. Que ponha de lado esse gosto bacoco pelas tradições (recriadas pelo Estado Novo) e pelos desfiles alegóricos ao jeito do Admirável Mundo Português e comece de facto a estudar e a colher dividendos de iniciativas que capitalizem a nossa História, a nossa capacidade de estar no mundo.
Portugal, felizmente, tem muitos Medinas Carreiras, mas não tem só isso. Se assim fosse, Portugal seria um pouco a Madeira.

24 junho 2011

Do Japão para a China. Ainda no ar. Com beijo.



Diz o DN: "Uma rapariga impediu esta sexta-feira um jovem chinês de 16 anos de se suicidar. O rapaz pretendia atirar-se de uma ponte quando uma desconhecida se aproximou dele, depois de ter pedido autorização às autoridades. Começaram por falar e, a dado momento, a rapariga beijou-o. Foi o tempo suficiente para os bombeiros e as autoridades presentes no local agarrarem-no e impedirem a tragédia."

Natsumi Hayashi






Apodaram-na de a fotógrafa que levita. É japonesa e o seu blogue faz sucesso por causa desses auto-retratos em que aparece a "levitar". O sucesso parece justificar-se pelo inesperado da suspensão num ambiente agitado, urbano, onde as pessoas andam sempre apressadas.

Manias que estragam a nossa língua

A língua portuguesa tem sido vítima de atentados. E mesmo gente tão preocupada com a economia usa e abusa de expressões como "portugueses e portuguesas".
A propósito da histeria manifestada pela viúva de Saramago com o termo "presidenta" e do seu uso posterior, Luís Miguel Queirós assina uma reportagem memorável no Público de hoje. Com a devida vénia, transcrevemos alguns excertos:

«Na terça-feira, o novo ministro dos Assuntos Parlamentares, Miguel Relvas, aderiu à moda e referiu-se a Assunção Esteves, que acabava de ser eleita presidente da Assembleia da República, como "presidenta".»

«Afinal, "presidenta" - o Dicionário da Academia não regista a palavra, mas o da Porto Editora aceita-a como neologismo - é ou não português correcto? O professor António Emiliano, do departamento de Linguística da Universidade Nova de Lisboa, não tem a menor dúvida: ""Presidenta" não é português". Dado que "presidente" é um substantivo de terminação invariável, comum aos dois géneros, quando queremos precisar se o presidente em causa é um homem ou uma mulher devemos recorrer ao artigo (o/a), esclarece o linguista, ou a um outro qualquer determinante (aquele/aquela; esse/essa).»

«Emiliano acrescenta que a eventual adopção oficial da forma "presidenta" para designar a nova presidente do Parlamento "seria absolutamente lamentável", já que, observa, "as instituições do Estado devem dar exemplo de correcção e rigor". O linguista alerta ainda para o risco de se estar a "abrir a porta" a outros "barbarismos" afins, como "tenenta", "agenta", "comandanta" ou... "ignoranta".»

«O argumento invocado por Pilar del Río parece sugerir que, por detrás da tentativa de vulgarizar o termo "presidenta", estará o propósito de garantir a igualdade de géneros também em matéria de língua. Mas pode contrapor-se que impor um fhttp://www.blogger.com/img/blank.gifeminino a uma palavra que não distingue géneros é, pelo contrário, um gesto sexista, que cria uma diferença onde ela não existia. Em termos estritamente gramaticais, tratar Assunção Esteves como "presidenta" é exactamente tão arbitrário como chamar "presidento" a Cavaco Silva.»

«Como ninguém diz "agenta" ou "agento", "adolescenta" ou "adolescento", "clienta" ou "cliento", "presidenta" - e o mesmo sucederia com "presidento" - surge como uma excepção sem precedentes e que, por isso mesmo, nos soa mal. E não será descabido argumentar que este "soar mal" tem consequências semânticas, emprestando à palavra um tom ligeiramente achincalhante.»

Fonte: Público

Just one more thing

Morreu Peter Falk (1927-2011), actor que fez de Colombo um caso especial nas séries policiais, a par de Sherlock Holmes, Hércule Poirot e Miss Marple. O tenente desajeitado e feio que resolvia os casos segundo um peculiar interrogatório, além de ser um tipo completamente vulgar, como se pode ver pelo excerto que incluímos a seguir.



Uma amostra do peculiar interrogatório




Falk ganhou quatro Emmys pela sua interpretação na série Colombo: um inspector de gabardina bege, humor mordaz e cigarro ao canto da boca, com gestos muito próprios e as referências à sua mulher que nunca aparecia na série.
Essa série seria, a partir de 1968 e durante cerca de 35 anos, o seu grande trabalho como actor. Refira-se que o primeiro episódio foi realizado pelo jovem Steven Spielberg.

19 junho 2011

Notícias do meu país


Diz a caixa alta: "Vai a tribunal por não pagar os três gelados que comeu". Segue-se o lead: "Por não ter pago 2,40 euros por três gelados, no IKEA (Matosinhos), um homem arrisca a pagar 100 euros de multa no tribunal. Este é apenas um dos uitos furtos diários nas grandes superfícies, que lhes causam perdas anuais de 340 milhões e entopem os tribunais." JN
A notícia faz eco das preocupações estatísticas: o número de processos que entopem os tribunais.
Ao contrário dos casos de pequeno furto, que acontece quando as quantias são astronómicas? Os casos arrastam-se. Os advogados enchem os tribunais de papelada. Aí, claro, trata-se de outra coisa. Mas a pergunta não deixa de brilhar: QUANTOS SÃO DE FACTO PRESOS?
Caso BPN - quem paga o furto?
BPP - quem paga?
Atrasos nas construções públicas?

Quem rouba uma carteira ou vende unidoses... vai para a cadeia


Quem rouba milhões, empobrece o país, obriga a generalidade da população a sacrifícios terríveis vive no melhor dos confortos e olha de alto para a "populaça". Pudera, é a populaça que, com o seu silêncio e indiferença, permite que isso aconteça, que ninguém seja punido.

Aquilo que só alguns sabem salta para a praça pública


Portugal é um país pequeno para uns e grande para poucos. Que o digam quantos enchem os bolsos à custa da indigência nacional.
Paulo Morais ousa tornar público aquilo que só alguns sabem: "o centro de corrupção em Portugal tem sido a Assembleia da República, pela presença de deputados que são administradores ou gestores de empresas que têm directamente negócios com o Estado".
Diz, PM o parlamento português "parece mais um verdadeiro escritório de representações, com membros da comissão de obras públicas que trabalham para construtores e da comissão de saúde que trabalham para laboratórios médicos." Há outros casos, claro.
Os deputados a soldo criam "legislação perfeitamente imperceptível", com "muitas regras para ninguém perceber nada, muitas excepções para beneficiar os amigos e um ilimitado poder discricionário a quem aplica a lei".
A coisa é levada a cabo do seguinte modo: "A legislação vem dos grandes escritórios de advogados, principalmente de Lisboa, que também ganham dinheiro com os pareceres que lhes pedem para interpretar essas mesmas leis e ainda ganham a vender às empresas os alçapões que deixaram na lei".
A quantidade de empresas que se alimenta à custa do Estado é enorme. O Estado, como é da praxe, queixa-se dos salários que paga aos seus funcionários e depois gasta três, quatro vezes mais em obras, pareceres, negócios que enriquecem meia dúzia mas empobrecem o país.
A democracia é um exercício complicado, pois exige da parte dos cidadãos alguns cuidados: formação, interesse em acompanhar os assuntos, voz para reclamar quando as regras não são cumpridas.
Estamos num ponto rebuçado em que facilmente se aceita que candidatos a juízes sejam aldrabões, em que deputados nacionais e locais, presidentes de câmara e vereadores, directores gerais, assessores, secretários de estado, ministros funcionem segundo uma trama de cumplicidades e silêncio que mina a democracia.
Por isso, voltamos a insistir num ponto já aqui várias vezes reiterado: o estado do país não tem a ver com a produtividade dos trabalhadores, mas sim com a gestão danosa, senão mesmo mafiosa, de empresários e dirigentes.

01 junho 2011

Paula Rego em HD (alta definição)


«Através do projecto Deep Zoom Paula Rego Anos 70, uma parceria entre a Microsoft Portugal e a Casa das Histórias, é possível desde ontem ter acesso online ao importante conjunto de trabalhos que Paula Rego produziu na década de 1970 e que esteve reunido pela primeira vez na exposição Paula Rego Anos 70 - Contos Populares e Outras Histórias até Janeiro passado, em Cascais.

Durante a exposição, as obras foram fotografadas, digitalizadas e trabalhadas em alta definição com recurso à tecnologia Deep Zoom e Silverlight ("que permite a interacção com imagens em alta resolução, possibilitando aproximações e distanciamentos rápidos dentro das obras, sem se perder a elevada definição") e estão agora disponíveis online para consulta gratuita.»

O único senão é necessitar-se do Internet Explorer para poder ver a coisa em HD.


28 maio 2011

Alejandro Zambra

Inverness

II

No quisiera quedarse, ni salir
Ezra Pound



Cuatro paredes cuando sopla
el viento:

sin movimientos
o con el solo movimiento de los ojos
un hombre pone su atención
en el suelo

Mañana hablaremos del mar
Mañana cambiaremos el lugar
de esa ventana.


Poema en un libro vacío

Y, con todo, el cuerpo es un lugar donde nada muere
Paul Auster


Observo una de las cuatro paredes
Cuando alce una mano
esa sombra será mi sombra
Hace dos horas es tarde
También es tarde en la pared.

Tomo la posición de un cuerpo cansado
Decido que el viento golpea intensamente en la ventana
Decido la situación de mis ojos
Pienso en una fotografía
En la mesa hay un vaso con agua hasta la mitad
Beberlo es lo único que está pendiente.

Observo una de las cuatro paredes
Cuando pienso, esa sombra es sólo una sombra
con bordes exactos e inevitables
una imagen parecida a un cuerpo
Hace dos horas llegué a este cuarto
Al cerrar la puerta sentí el ruido
que hace algo al destruirse
Quizás era la última nuez
o una fotografía difícil
o los restos de un espejo.
Si abriera la puerta no miraría hacia el suelo.
Para qué.

Observo una de las cuatro paredes
Propongo las orillas de mi sombra
Mi sombra se refiere a la pared
Todo se refiere a la pared
En la pared es tarde
Hace dos horas el viento insiste contra la ventana
Traspaso papeles de una caja a otra
No son recuerdos, son fragmentos
que anticiparon esta hora equívoca.

Miro una fotografía
La oculto en un libro
Si alguien lo abriera
pensaría que marqué la página
en que dejé de leer
o que quise recordar ese poema,
este poema.

Puedo asegurar que no es así.
No es así.

No necesito mirar mis manos
Sé que las tengo cerradas
Miro, en cambio, hacia el lugar
donde está la mesa
Veo el vaso y no veo el agua
Veo el agua y no veo el vaso
Es como si pudiera jugar con las palabras.

Observo una de las cuatro paredes
Si alzo una mano esa sombra será la mía
Si hago el menor movimiento
ocurrirá la sombra de alguien
que toma un vaso de agua
y piensa en sí mismo
como en un extraño.

in Bahía inútil (Ediciones Stratis, 1999)

26 maio 2011

Os velhos tiques dos possidónios

Há pessoas que sempre se têm em muito boa conta. Tanto que olham para os outros como se antes deles não houvesse nada e fossem eles os criadores do mundo.
Portugal está cheio de gente assim. Então quando se trata de economistas, a coisa sabe mesmo a ranço. Depois de vir alguém dizer que há uma receita, põem-se em fila e mal chegam à boca de cena repetem a mesma algaraviada como se estivessem a dizer uma grande coisa.
Nota-se que essa gente não gosta que os portugueses vivam condignamente. Eles querem ter carros de luxo, botões de punho, fazer férias no estrangeiro, comer bem, beber melhor, jogar golfe a custo reduzido (e à pala dos portugueses que vivem para pagar prestações ao banco - da casa, do carro, das férias, dos electrodomésticos - ou dos que nem sequer isso têm), mas não querem que a "gentinha" lhes faça sombra. Eles, cuja acção se tem traduzido em nada. Que riqueza criaram? Que empregos proporcionaram? Que salários pagam?
Muito blá-blá com um único propósito: chegar à mesa do banquete.
Eles têm acções, ganham bem ou muito bem, podem levar uma vida regalada e "investir". Os concidadãos, a "gentinha", chegam ao fim do mês sem tusto. Eles são poluidores natos, com os seus topos de gama a gasóleo. A gentinha usa autocarros, metro, comboios, cacilheiros. Os remediados usam os seus popós, claro. Afinal, o modelo de vida que têm é o dos linguarudos.
Os que falam em apertar o cinto, usam fatos que custam aquilo que a maior parte dos tugas não ganha em dois meses. São capazes de deixar numa refeição (uma!) metade do salário mínimo. E vêm com a ladainha da poupança.
Ai como é bom poupar... Se eles poupassem muito e fossem criadores de riqueza, Portugal não estaria no ponto em que está.

19 maio 2011

Enquanto os sábios brincam aos comunicados

o Banco de Portugal diz preto no branco que a recessão prolongada que a economia sofrerá nos próximos anos em consequência do acordo com a troika será acompanhada de uma queda sem precedentes no rendimento disponível das famílias e de aumento do desemprego.
E por lá acredita-se que as medidas propostas pela troika conduzam o país a bom porto. Algo que só será sentido daqui a cinco anos, caso o mundo não venha a dificultar o crescimento económico de um país periférico e muito dependente das importações.

Os sábios que repetem o que já se sabe

Há em Portugal um conjunto de individualidades que tem estado ligado à governação do país depois do 25 de Abril de 1974. E apesar de terem estado em diversos governos e pouco ou nada terem feito, são tão vaidosos que nunca perdem uma oportunidade de se porem em bicos de pés e dizerem que existem. Veja-se o caso da SEDES, que se dá ao luxo de vir repetir o que tem sido dito em todo o lado depois da acção da troika. Primeiro, desviando para canto: toma a história por uma coutada que lhe serve para fazer propaganda. Depois, olha para Espanha como se os espanhóis estivessem no melhor dos mundos, quando todos sabemos que estão também com a corda ao pescoço. A seguir dá-se ao luxo de enviar recados directos, num sinal claro de ressentimentos que existem entre os redactores e líderes partidários. E finalmente, o que propõem tão doutos senhores resume-se a nada. Ou a papaguear o que se diz em todos os jornais, rádios e TVs do país. Convenhamos que é pouco e que mostra bem que esta geração não soube liderar nem possui nada para dizer aos portugueses, excepto uma notória preocupação em manter a posição dourada que conservam.
Espanta-me que não haja uma palavra sobre o esforço que os portugueses fazem há anos para sustentar gente tão vazia que se alimenta da pátria, enchendo a boca com banalidades, mas que nada digno de registo por ela tem feito. Já quanto à defesa de interesses particulares e chorudos, aí, esses senhores são, de facto, dignos representantes de quem tem atirado o país para o descalabro em que se encontra.
Acho que ainda está para nascer o português que tenha representatividade e não seja vaidoso e meio enfatuado. Os signatários da "Tomada de posição" são isso mesmo: vaidosos, enfatuados e ressentidos. Anseiam por protagonismo na nova conjuntura política, certamente para enobrecer Portugal.

13 maio 2011

Zenet - Ella era mala, No lo dudes e Soñar contigo






ZENET - Soñar Contigo

ZENET | Vídeo do Myspace

E, já agora, "pentelhos"

Palavras... blá... blá...




Jardim no seu melhor. O que, já se sabe, é do agrado do povo.



O povo, unido, jamais será vencido... (repetir até sorrir).

Depois, outras pérolas. Guterres, digo, Gondomar...


Ou os comentários (mudos) de Sócrates para Rangel (o c... pá), termo que um deputado do PSD também usa no mesmo órgão de soberania, acompanhado de um molinete e de uma expressão facial peculiar.





E mais, em resumo:


11 maio 2011

Choisir son école


Agnès van Zanten, Choisir son école, Strategies familiales et médiations locales, Le lien social, Puf,2009, 284 págs.

O que leva os pais a escolherem uma escola em detrimento de outra? O renome da instituição? A proximidade de casa? A integração dos alunos? O seu bem-estar? O elitismo? Um tipo diferenciado de pedagogia?
Os clichés abundam. A propaganda tem efeitos nocivos sobre a coesão social. A socióloga Agnès van Zanten responde a algumas questões a propósito desse livro.
A entrevista encontra-se aqui e tomamos a liberdade de a transcrever, pelo que diz.

Votre ouvrage s'appuie sur 160 entretiens avec des familles des classes moyennes de quatre communes franciliennes. Qu'est ce qui justifie ce choix? Est-il représentatif de cette catégorie?

C’est vrai qu’il y a un facteur de commodité. C’est plus facile pour moi, qui vit en Ile-de-France, de travailler sur cette région. Mais le choix de ces communes correspond aussi à deux hypothèses de recherche. La première est que la possibilité de faire un choix d’établissement est plus importante en milieu urbain et métropolitain car l’offre est plus diversifiée et accessible, ce qui alimente les ambitions des familles. La deuxième est que les pratiques des parents sont liées à plusieurs médiations locales : les politiques éducatives, l’offre d’établissements et la composition sociale de la population. J’ai donc choisi quatre contextes différents avec deux villes privilégiées (Rueil, Vincennes) et deux communes plus mélangées (Nanterre et Montreuil). Cela permet aussi d’avoir une bonne représentativité des différentes fractions des classes moyennes. Dans la lignée des travaux de Pierre Bourdieu et de Louis Chauvel, j’ai distingué quatre groupes à partir d’un découpage sur un axe vertical (fractions supérieures et intermédiaires) et sur un axe horizontal (pôle économique et pôle culturel).

Vos interlocuteurs ce sont plutôt les mères de famille ou les pères ? Qui décide des choix éducatifs dans ces milieux?

On ne peut proposer qu’une réponse nuancée sur la question de la décision. Déjà parce que certaines familles ne décident pas, le choix de l’établissement allant de soi, mais aussi parce qu’il n’y a pas toujours un moment que l’on peut isoler car la décision se construit dans le temps. Le plus souvent, les deux parents interviennent de façon plus ou moins importante dans la sélection finale d’un établissement. Mais ce sont les mères qui se chargent du travail d’information préalable et des démarches liées au choix. Les pères, quand ils s’impliquent dans la construction des choix, sont plus nombreux à se référer à des données de type statistique. Les mères, elles, cherchent des éléments plus qualitatifs auprès notamment auprès d’autres parents.

On a souvent l'impression que ce qui motive les choix éducatifs des familles c'est leur rentabilité la plus apparente : atteindre l'établissement le plus prestigieux à tout prix. Est ce vraiment la règle?

Mon ouvrage déconstruit cette vision que l’on a communément des «consommateurs d’école». Certes, les évolutions du marché du travail ainsi que les modalités d’orientation dans le système scolaire poussent beaucoup de parents à se soucier particulièrement de la capacité des établissements à améliorer le «niveau» de leurs enfants et à leur permettre d’accéder à de «bons» établissements de niveau supérieur. Par ailleurs, parce que la seule source apparente de différenciation entre les établissements publics a trait aux résultats scolaires les parents tendent à percevoir l’offre publique de façon bipolaire avec, aux deux extrêmes, des «bons» et des «mauvais» établissements et, au milieu, un ensemble flou d’autres établissements. Ce phénomène est plus fort dans les grandes villes qu’ailleurs en raison de la forte ségrégation urbaine et scolaire et de ses effets sur l’adaptation des établissements au profil scolaire et social de leurs publics.

Pourtant les parents des classes moyennes ne font pas que des choix «instrumentaux». Ils font aussi des choix «expressifs», c’est-à-dire orientés vers le bien-être, le bonheur et le développement global de leur enfant, en procédant à des appariements entre les exigences des établissements publics et le profil scolaire et psychologique de leurs enfants, mais surtout en ayant recours à des établissements privés. Ces derniers ont en effet réussi à développer des «niches» dans le système d’enseignement en proposant une offre qualitativement beaucoup plus diversifiée que celle des établissements publics. On constate ainsi que le choix de collèges publics hors secteur est souvent justifié par les parents, dans les quartiers plus mélangés, en mettant en avant le potentiel scolaire de l’enfant qu’il serait dommage de «sacrifier» en le laissant dans le collège du secteur, alors que le choix du privé est souvent légitimé par référence aux goûts et aux traits de personnalité des enfants ou aux valeurs des parents.

De ce point de vue toutes les familles de classe moyenne ont-elle les mêmes stratégies et la même efficacité ? Peut-on tracer des portraits types qui pourraient aider les enseignants à décrypter les attentes des familles?

Il est clair que si les classes moyennes se distinguent globalement des classes populaires par une plus grande propension et facilité à choisir et par des choix plus réfléchis, les différentes fractions ne font pas des choix identiques. Les classes moyennes supérieures qui combinent un capital économique et un capital culturel élevés et que je désigne dans mon livre avec le terme de «technocrates» font des choix prioritairement guidés par des visées instrumentales et par le désir de récréer un «entre soi» social au travers principalement de deux stratégies : les choix résidentiels et le choix du privé. Les classes moyennes supérieures à haut capital culturel, ceux que j’appelle les «intellectuels», combinent «instrumentalisme» et «réflexivité». Ils cherchent des environnements scolaires caractérisés par la qualité du personnel enseignant, mais aussi par l’entre soi de «bons» élèves et ont pour cela principalement recours au choix à l’intérieur du secteur public ou à la «colonisation» interne des établissements du secteur, par exemple en faisant pression en faveur du regroupement de leurs enfants dans des classes de niveau.

S’il existe donc des différences qualitatives non négligeables au sein des classes moyennes supérieures, la fracture est plus importante avec les classes moyennes intermédiaires. Ces dernières donnent plus de place à des considérations d’ordre expressif, de même qu’elles sont plus sensibles aux effets ségrégatifs des choix d’un autre établissement public ou privé hors secteur. Ces deux tendances, couplées avec des ressources économiques et culturelles moins importantes, les conduisent à envoyer leurs enfants plus souvent dans les établissements du quartier que les classes moyennes supérieures, non sans mettre en place cependant relativement souvent, eux aussi, des stratégies de «colonisation». Ceci est notamment le cas des membres des classes moyennes intermédiaires ayant un capital culturel ou relationnel élevé, comme les professeurs des écoles ou les travailleurs sociaux que je range dans la catégorie des «médiateurs», mais c’est moins le cas des classes moyennes intermédiaires moins diplômées du secteur privé dont les pratiques se rapprochent davantage de celles des parents de milieu populaire.

Vous montrez aussi que l'attente de "l'entre soi" peut aller jusqu'au racisme. Avez-vous l'impression que ces conceptions s'atténuent ou cela s'aggrave-t-il?

Une des surprises de cette enquête c’est la spontanéité de certains propos sur les enfants et les parents immigrés. C’est délicat de dire que le racisme s’aggrave faute de travaux permettant des comparaisons dans le temps. Généralement on associe les propos racistes à la proximité avec les classes populaires selon le schéma traditionnel du «petit blanc» craignant une dégradation de son statut et de son identité liée à la cohabitation avec d’autres perçus comme très différents voire comme inférieurs. On retrouve des réflexes de ce type chez certains parents des classes moyennes intermédiaires dans les communes où il existe une forte mixité sociale et ethnique. Mais on trouve des propos du même ordre, parfois plus brutaux encore, chez des parents appartenant aux classes moyennes supérieures et vivant dans des «gated communities», ces quartiers totalement fermés, comme on en trouve à Rueil. Car l’entre soi n’empêche pas la peur des autres. Bien au contraire il la renforce et la légitime.

On a eu récemment un débat sur la publicité éventuelle des résultats de CM2, un autre sur les indicateurs des lycées, les résultats des statistiques sur la violence scolaire. Ces éléments influent-ils sur les choix des familles? Sur quelles bases informatives le choix se fait-il?

Je montre que les familles des classes moyennes se méfient de ces données statistiques «froides», du moins pour le choix du collège. Elles préfèrent des jugements «chauds», puisés auprès d’autres parents. Elles se demandent si ces données reflètent la réalité des établissements. Elles ont l’impression que ces chiffres sont manipulés par les politiques et, davantage encore, par les établissements. Elles expriment également des doutes quant à la possibilité de déduire, à partir de ces données, si tel ou tel établissement convient à leur enfant. Du coup elles préfèrent chercher des parents qui ont des enfants aux profils similaires aux leurs pour pouvoir effectuer des choix «sur mesure». Aucun des parents que j’ai rencontré n’utilise ces indicateurs comme critère unique de choix. Ils servent de toile de fond à une recherche d’informations plus pointues auprès de leur entourage ou des enseignants ou à confirmer ou à nuancer certains jugements.

Certains pays (Etats-Unis, Angleterre etc.) donnent beaucoup d'informations sur chaque établissement. Faudrait-il plus de transparence en France?

Cela dépend de ce qu’on appelle «transparence». La publication de davantage de statistiques n’irait certainement pas dans le sens d’un meilleur outillage des choix parentaux. Ce qui est important c’est, pour les établissements locaux qui ont une réputation moyenne, de montrer et d’expliquer leur fonctionnement aux parents. Cela crée de la confiance non seulement dans l’honnêteté des professionnels de l’éducation mais aussi dans leur capacité à faire face aux problèmes posés par l’hétérogénéité des publics scolaires. Je cite l’exemple d’un collège de Montreuil qui a réussi à attirer des parents des classes moyennes grâce à une bonne politique de communication. Cela ne rassure pas tous les parents, mais souvent une partie de ceux appartenant aux classes moyennes supérieures et intermédiaires du pôle culturel. Bien sûr, communiquer ne suffit pas si l’amélioration des résultats n’est pas à moyen terme au rendez-vous. Mais quand davantage de parents des classes moyennes choisissent de rester cela contribue à améliorer les résultats, ce qui attire d’autres parents des classes moyennes et on entre ainsi dans un cercle vertueux. Aujourd’hui en France, nombre d’enseignants estiment qu’ils n’ont pas à communiquer sur le fonctionnement de leur établissement. Mais souvent cette politique nourrit la mauvaise réputation et la méfiance des parents.


Quelle place tiennent les politiques pédagogiques des établissements dans les choix parentaux?

Un des aspects de la crise de l’Ecole c’est que l’Ecole elle-même a trop joué de l’instrumentalisation. Elle a elle-même dévalorisé son rôle pédagogique. On le voit par exemple dans la création d’options qui sont plus liées à la volonté de sélection qu’à celle de diversifier le bagage culturel des élèves. C’est le cas par exemple de nombreuses sections européennes, des classes bi-langues et, à un moindre degré, des classes musicales (CHAM). On arrive à une situation où la qualité de l’éducation proposée ne semble dépendre pour les professionnels de l’éducation comme pour les parents que du public des élèves sans référence aux contenus d’enseignement ni au type de pédagogie.

Cela renvoie à un discours souvent entendu, chez certains enseignants et ailleurs, selon lequel «on a tout essayé en vain» sur le terrain pédagogique…

Or combien de politiques pédagogiques ont été réellement appliquées ? Combien ont été évaluées ? Quand ce discours désabusé est porté par les enseignants et par les responsables administratifs et politiques, comment attendre des familles autre chose ? Cela nourrit fortement les choix d’établissements dans la mesure où les parents font de moins en moins confiance à la capacité de l’institution et de ses agents à changer la donne sociologique dans les établissements comportant une proportion importante d’élèves en difficulté.

Les enseignants font aussi partie des classes moyennes. Quel est leur comportement de choix? Dans quelle mesure influent-ils sur les choix?

On sait que les enseignants sont la catégorie qui choisit le plus dans l’enseignement public. Ils sont mieux informés que les autres parents. Ils ont aussi un accès plus facile aux dérogations. Ces pratiques de choix sont perçues par les parents, notamment par ceux des milieux populaires pour lesquels les enseignants jouent un rôle de groupe de référence, comme des indications de la qualité des établissements. Quand les enseignants ne mettent pas leurs enfants dans le collège du quartier, c’est pour ces familles un signal très fort qui les encourage à procéder de la même façon. Par ailleurs, les enseignants jouent aussi un rôle plus direct de prescripteurs. On trouve ainsi souvent des instituteurs qui déconseillent aux parents des bons élèves d’envoyer leurs enfants au collège du quartier si ce dernier souffre d’une mauvaise réputation, car ils perçoivent leur mission comme celle de protéger la scolarité des meilleurs et leur ascension au sommet de la hiérarchie scolaire.

L'Etat s'est orienté vers un allègement de la carte scolaire. Vous dites qu'il relaie et appuie les stratégies de clôture des classes moyennes. Comment fait il cela? Que devrait-il faire?

J’ai écrit récemment, avec Jean-Pierre Obin, un «Que-sais-je?» sur la carte scolaire qui traite cette question. Je montre que le développement des marchés scolaires est antérieur à la politique de libéralisation de la carte scolaire et qu’il résulte de l’addition d’un certain nombre de choix étatiques et de pratiques d’établissements. Je fais allusion notamment au maintien d’un secteur privé où les établissements et les parents peuvent choisir, aux assouplissements officiels de la carte scolaire et à la tolérance à l’égard des dérogations de certaines administrations ainsi qu’aux pratiques de sélection de certains établissements de bonne réputation, de même qu’à la répartition inéquitable de l’offre d’options et à la prolifération des classes de niveau. De ce fait on ne peut pas dire qu’il y ait eu un «avant» et un «après» l’introduction d’une politique officielle de libéralisation. Il y a continuité avec les choix politiques effectués à partir des années 1980 avec une légitimité plus forte accordée aux demandes des familles, même si la libéralisation ira dans le sens d’une accentuation des phénomènes de ségrégation et donc des inégalités.

L’Etat et ses agents sont ainsi partie prenante, par des choix officiels et des pratiques officieuses, de la mise en marché des établissements. Ils relaient les attentes et les pratiques des parents, mais ils font plus que répondre à la demande: ils favorisent, canalisent et légitiment dans nombre de cas les choix des familles et ce au nom notamment de la préservation de parcours protégés pour les bons élèves.


Aujourd’hui l’Etat justifie l’allègement de la carte scolaire en mettant en avant les dérogations accordées aux boursiers.

C’est une question que je vais étudier prochainement. En regardant d’abord qui sont les bousiers. Il n’est pas sûr que ce soient toujours les élèves les plus défavorisés car certaines familles ne font pas de dossier de demande. Ensuite, on a déjà pu observer que la priorité accordée au critère «boursier» par rapport à d’autres critères de dérogation varie selon les administrations locales. Enfin on peut penser que ce sont les bons élèves qui vont bénéficier en priorité des dérogations. Or la perte de quelques bons élèves dans un collège défavorisé peut changer du tout à tout son climat et son fonctionnement.

Certes, l’Etat ne peut pas revenir aujourd’hui à un modèle fondé exclusivement sur la contrainte car le droit à choisir correspond à une demande profonde des familles et à un modèle de société. Comment faire alors pour éviter l’accentuation inévitable des inégalités sociales qu’entraînerait une politique de libre choix ? Ce qui semble se dégager des travaux internationaux, c’est qu’il faut que l’Etat régule les choix soit, sur le modèle américain ou britannique, par des quotas en fonction des caractéristiques sociales ou scolaires des élèves, soit en harmonisant les pratiques entre les établissements d’un même bassin et d’une même zone. Certes la situation idéale serait celle où le choix ne serait pas nécessaire car toutes les écoles seraient perçues comme «bonnes». Toutefois, s’il est effectivement indispensable de mettre en place une politique de discrimination positive vigoureuse pour limiter les écarts entre les établissements, il faut aussi tenir compte des limites que pose la concentration des publics en difficulté dans certains d’entre eux.

La solution est alors davantage à trouver dans une politique urbaine?

Le désenclavement urbain ne peut pas lui non plus produire des miracles car s’il est difficile de réduire la concentration des populations défavorisées, il est encore plus ardu de limiter les pratiques d’agrégation des catégories favorisées. Par ailleurs, les situations locales sont très diversifiées. Pour étudier leurs effets sur les établissements d’enseignement, il faudrait pouvoir les suivre de façon très précise et constante. Or les administrations locales sont souvent débordées et manquent des données et des compétences nécessaires pour ce travail de longue haleine sur le terrain.



A escola hoje II


Quels défis pour l'école ? (5) por SEM-Production


Quels défis pour l'école ? (6) por SEM-Production

A escola hoje

A escola anda novamente nas bocas do mundo. Por causa da crise. Porque é necessário poupar e os resultados não correspondem às expectativas de quem governa.
Não se trata, agora, de reflectir sobre a ausência de uma política de educação, transversal à maioria dos partidos políticos, mas de deixar pistas para um debate que tem sido adiado sobre escola pública versus escolas privadas e sobre razões para as falhas que tanto se apregoam, mas sobre as quais pouco de pensa.
Pedimos desculpa aos que não dominam o francês, mas não encontramos os vídeos legendados. Chamamos a atenção para os vídeos 3,4, e 5.



Quels défis pour l'école ? (1) por schellerp


Quels défis pour l'école ? (2) por SEM-Production


Quels défis pour l'école ? (3) por SEM-Production


Quels défis pour l'école ? (4) por SEM-Production

07 maio 2011

António Barreto opina sobre a justiça em Portugal

"A justiça sabe segredos de muita gente. Sabe segredos da vida pessoal, da vida económica, da vida empresarial e da vida política e partidária. Quando formos capazes de analisar e investigar seriamente o que se passou em vários processos, ao longo dos últimos dez ou 20 anos, há processos que são incompreensíveis. Da Casa Pia ao Freeport, à Face Oculta e ao Apito Dourado. Há muitos fenómenos incompreensíveis nestes processos."

"Muitos deles envolveram personalidades políticas, personalidades dos partidos, dinheiros, autorizações, adjudicações, concursos ou escutas telefónicas, e vemos que em todos estes casos houve fugas de informação, houve quebra do segredo de justiça. Houve informação dada deliberadamente por operadores de justiça e eu estou convencido que os responsáveis são obviamente os procuradores e os juízes. Mas é muito curioso que todos estes episódios lamentáveis, obscenos, tenham sempre envolvido políticos ou ex-políticos, ou empresas que financiam os partidos ou estão a eles ligadas ou a empresas ou instituições que estão interessadas em adjudicações e concursos. Há um universo que era necessário investigar em conjunto. Pegar em dez ou 15 destes processos e ver como a justiça capturou a política. A capacidade de lóbi, de chantagem ou de ameaça que alguns corpos ligados à justiça têm de exercer sobre o governo é enorme."

"A Constituição deveria proibir a organização de sindicatos ou associações sindicais dos órgãos de soberania. Ou então permitiria a todos. Um sindicato de ministros, um sindicato de secretários de Estado, um sindicato de generais, sindicatos de tudo. Os juízes, eles próprios, se puseram na posição de funcionários públicos ao criar sindicatos. Têm exigências e ameaças de greve como se fossem funcionários públicos, mas depois dizem nós não somos funcionários públicos, nós somos órgãos de soberania. Querem o melhor de dois mundos e é o grupo profissional que em Portugal melhor conseguiu isso e é por isso que a justiça está refém destes aparelhos da justiça."

Fonte: i

Portugal e Finlândia

Portugal... é uma nação.
Poderia tratar-se de uma piada futebolística, mas não. É apenas um vídeo caseiro para consumo estrangeiro. Um modo de fazer cócegas a quem vive no meio do gelo.
E um modo também de nos mostrar que não somos tão maus quanto pensamos. Não é que isso mude nada. Os problemas económicos da pátria portuguesa repetem-se há muito. As crises têm sido uma constante da nossa história. Saímos delas sempre sob a direcção de elites bem preparadas. Algo que, manifestamente, parece faltar nos dias de hoje.
As elites andam divididas. Falta-lhes formação filosófica e histórica. Falta-lhes, portanto, política, esse termo maldito, sem o qual não se percebe como pode um país ser orientado, impulsionado, governado.


28 abril 2011

Eles comem tudo e...

Tenho assistido com gáudio às opiniões de quantos se chegam à boca de cena para apresentarem à nação as suas propostas. Um dos dados que mais se repete e mais me agrada é o daqueles que do alto do seu conforto propõem cortes nos salários e nos direitos sociais.
Curiosamente, quando se trata de defender o grupo, dizem, sem pejo, que é preciso pôr de lado demagogias e pagar bons salários aos gestores, advogados e demais masters.
Ou seja, quem ganha pouco pode e deve ver o seu salário amputado. Já quem ganha bem, deve ganhar ainda melhor. E não se pense que quem diz isto hesita em falar em "justiça social".
O problema de Portugal é, como se vê, os salários. E as pensões. Quem mais grita aqui d'el-rei é quem aufere pensões altas a que junta salários chorudos, juntamente com esses mestres da economia que usam fatos que custam três ou quatro salários mínimos, botões de punho, sapatos de igual valor.
Infelizmente, o nível de escolaridade da população é ainda baixo e são muitos os que acreditam piamente na douta opinião desses senhorinhos que há anos se alimentam do erário público com pareceres, gestão de obras, incentivos fiscais e outras mordomias, sem que se veja qual o seu contributo para o PIB nacional.
Aliás, nota-se que durante os últimos anos foram decisivos para chegarmos onde chegámos.
Claro que quando se tratados seus próprios onerários, estes são intocáveis e sempre acrescidos não só dos valores da inflação como doutros factores, sempre no sentido demais valia. Mas o que é válido para eles não o é para os milhões de outros que se limitam a ganhar o apertado vencimento mensal que eles designam de "zona de conforto".
Ver aqui e aqui.

07 abril 2011

A crise é uma coisa. Outra, bem mais importante, a imagem

“Ó Luís, vê lá na... como é que fico a olhar pròs...”

Falinhas mansas

Há uma mania instalada nos partidos portugueses: a de acreditarem que por dizerem que o branco é preto, as pessoas vão passar a ver preto. Passos Coelho, como Sócrates, são cultores dessas habilidades. “Ninguém pede ajuda para ficar pior”, afirmou Passos Coelho numa conferência na Universidade Lusófona, em Lisboa.
Ou está a brincar connosco ou ainda não estudou bem os dossiês. Os apertos em curso são insuficientes para colmatar o buraco nas contas públicas. E quem nos vai emprestar dinheiro, não vai olhar para as questões sociais, mas para as operações financeiras. Vão cortar onde acham que devem para que o país possa pagar o que deve.
Seria bom que em vez de dizer banalidades começasse a mostrar como é que o PSD vai cortar. Daqui lhe deixamos um memorando: as autarquias são sorvedouros de dinheiro. Há freguesias e concelhos a mais. Há demasiadas benesses para funcionários superiores do Estado. Quem não pode não tem luxos. Um país em crise não pode ter tantos hotéis, cartões de crédito dourados, passagens aéreas em executiva, despesas com ornamentação, empresas que dão prejuízo e pagam ordenados opíparos a administradores, vogais, assessores, ... A banca nacional não colabora como deve. A fuga ao fisco continua ser elevada.
Querer ganhar eleições não chega. É preciso ter coragem de falar claro e dizer onde e como se vai buscar o dinheiro que é necessário para tapar o buracão.
Falinhas mansas e blá blá só afasta as pessoas. Só aumenta o descrédito e acelera o caminho para o abstencionismo.

Quem lucra com a crise?


Que "aperto de cinto" vai ter de se fazer? Quem vai ter de "apertar o cinto"? Que lucros apresentará a banca no final deste ano? Que dividendos serão divididos pelo PS, PSD e CDS-PP? Que medidas proporá o BE para resolver a crise? E o PCP?
Perguntas que não terão resposta imediata. Mas que a pouco acabarão por ser do conhecimento de quantos as fazem.
Por enquanto, todos parecem concordar que quem vai pagar a factura serão, como sempre, os remediados e os pobres. O nível de vida, que regrediu para níveis de há 8/9 anos, terá tendência para regredir ainda mais? O desemprego vai aumentar? As insolvências triplicarão? E quem vai encher os bolsos com tudo isso?

Para já, saiba-se que a Grécia continua mergulhada numa imensa crise: "O desemprego atinge cerca de um milhão e meio dos seus cerca de 11 milhões de habitantes, o produto interno bruto (PIB) caiu 8,9 pontos percentuais e a imagem que o país transmite para o exterior é desoladora: milhares de lojas fecharam portas, o nível de vida dos gregos desceu abruptamente e milhares de reformados fugiram para os campos em consequência do corte nas pensões." (i)

Quanto à Irlanda, a coisa não está melhor: "O desemprego atingiu o nível histórico de 13,4%, o triplo do de 2008. Os juros da dívida pública irlandesa, um dos motivos que levaram o país a solicitar o resgate, mantêm-se elevadíssimos, indiferentes à ajuda externa. Os de longo prazo estão nos 10%." (i)

Registe-se também isto: "os maiores bancos nacionais ganharam 347 milhões de euros na sessão de hoje, em termos de capitalização bolsista, impulsionados pelo anúncio de que Portugal vai recorrer ao Fundo de Estabilização Europeu." (Diário Económico)

Nota positiva, só conheço esta: "Neste momento, as três [Moody’s, a Fitch e a Standard and Poor’s] mais importantes agências de notação financeira (...) noticiam e divulgam, diariamente, classificações de ‘rating’ que, com manifesto exagero e sem bases rigorosamente objectivas, penalizam os interesses portugueses, estimulando uma subida constante dos juros da dívida soberana”. Daqui decorrem “comportamentos presumivelmente criminais”, indiciadores, nomeadamente, do crime de manipulação do mercado. O alerta vem de três economistas - José Reis e José Manuel Pureza, da Universidade de Coimbra, e Manuela Silva e Manuel Brandão, do ISEG – que vão apresentar uma denúncia ao Procurador-geral da República (PGR), Pinto Monteiro, no início da próxima semana. [...] Em Espanha e nos Estados Unidos foram também já desencadeados processos semelhantes, mas ainda não há qualquer decisão judicial transitada em julgado. A actuação das agências de ‘rating’ tem sido, aliás, alvo de várias polémicas, tendo o próprio FMI alertado já para o facto de que “estas agências usam e abusam do poder que têm”. (Jornal de Negócios)

06 abril 2011

E o anúncio foi feito

O homem tem cronometrado a coisa com mestria. O homem é o primeiro-ministro demissionário de Portugal e líder do PS. O anúncio feito há instantes usa um conjunto de efeitos retóricos que apenas Francisco Louçã foi capaz de desmontar (o que se percebe, dada a sua formação económica).
A estratégia de Sócrates passa, como há tempos se percebeu, por atirar o ónus do pedido de ajuda sobre a oposição, que boicotou o PEC IV. Ora como lembrou Louçã, o Estado injectou milhões na economia para apoiar bancos (os mesmos que assobiaram para o lado nestes dois dias), para cumprir obrigações com objectos cuja eficácia se afigura diminuta, mas que faz as alegrias de meia dúzia de altas patentes, que já podem estar entretidos a brincar à defesa nacional, e para suster esse produtos tóxicos que dão pelo nome de BPN e BPP.
A pressão dos mercados há muito se fazia sentir e sempre Sócrates recusou a necessidade de solicitar ajuda à CE. Mais, pensava-se até que conseguiria resistir até estar definido o novo plano de ajuda que por lá se tem estado a desenhar mas só estará pronto nos inícios do verão.
O modo como Sócrates soube associar o PEC IV a um acordo com a UE e a recusa do parlamento à inevitabilidade do pedido de ajuda, mostra bem como sabe passar a mensagem e torná-la credível aos olhos da opinião pública (as mais recentes sondagens dão já sinais disso mesmo).
No entanto, o que continua a estar em causa é a vida dos portugueses, nomeadamente dos que auferem menos de 2 mil euros mensais e que assistem impotentes à degradação do seu nível de vida, sem que percebam uma saída a curto prazo.
Ora aí reside o busílis da questão, que Passos Coelho percebeu, embora sem ter ainda um discurso suficientemente claro e eficaz que galvanize o eleitorado e lhe garanta um maioria confortável.
Os próximos dois meses serão ricos em peripécias. E serão terríveis para quem já tem a corda ao pescoço. Recorde-se que as taxas de juro estão a subir e as taxas euribor não param de aumentar. Avizinham-se momentos de grande tensão social e os partidos políticos movimentam-se como se a apatia dos portugueses fosse um dado garantido. Embora nos últimos anos tenha havido vários sinais (pontuais) de que já não é assim.
Enquanto pudermos, assistiremos ao folclore. Mas, como se dizia no tempo da velha senhora, "qualquer dia... qualquer dia..."

04 abril 2011

A impunidade dos gestores tugas


A uns falta dinheiro para pagar despesas fixas e essenciais (casa, alimentação). E logo a voz sábia se levanta e fala em poupança. A culpa é das pessoas que não pouparam. Com os salários de merda que recebem ainda têm que poupar, claro.
Já os administradores das empresas públicas dormem melhor para o lado da dívida. Podem ter buracos astronómicos que ainda se dão ao luxo de alugar carros topo de gama. Até porque sabem que tal gestão não lhes acarretará absolutamente nada. Veja-se o desplante: «A Carris alugou no ano passado quatro novas viaturas topo de gama para o seu presidente e administradores, suportando um valor de cerca de 4500 euros mensais com o aluguer dos veículos. A empresa pública, que tem 2010 teve capitais negativos de 776,6 milhões de euros, explica que a decisão cumpre o estabelecido pela Comissão de Fixação de Vencimentos.» A juntar a isto, recorde-se que mesmo com o buracão, deram-se ao luxo de aumentar os seus vencimentos, no ano santo de 2010.
Prontos...
Falta dizer o nome de tão ilustres personagens: o presidente da Carris, José Manuel Silva Rodrigues; os vogais da administração Fernando Jorge Moreira da Silva, Maria Isabel Antunes e Joaquim José Zeferino e a administradora Maria Adelina Rocha.

02 abril 2011

Para memória futura

Diogo Leite Campos é vice-presidente do PSD. As frases que transcrevemos abaixo fazem parte de uma entrevista publicada hoje (já não é dia das petas) no i.

«O futuro governo do PSD, em quatro anos, vai pôr o país a crescer, não sei se a 3%, a 3,5% ou a 2%. Mas vai pôr claramente o país a crescer acima dos 1,5%.»

«Tem de se fazer uma vaquinha entre três entidades: as famílias, o Estado e os bancos. A situação de cada família tem de ser analisada, se for caso disso - se se provar que a família é viável, trabalha, está decidida, tem empenho - tem de ser apoiada. A dívida dessa família ao banco tem de ser reestruturada, tem de ser prolongada e o Estado tem de suportar uma parte dos custos. O Estado tem de assumir a sua responsabilidade pelo facto de ter colocado um certo número de famílias na insolvência pelo corte de ordenados e pelo aumento dos impostos.»

«Todos os ordenados até 2500 euros/mês têm de ser revistos e apoiados.»

«No prazo de quatro anos vamos baixar a carga fiscal. Baixarão impostos, preferencialmente aqueles que têm significado para as famílias e o desenvolvimento económico.»

Depois destas afirmações, veja-se como há pequenas nuances que evidenciam as estratégias de marketing usadas e as atenuam, quais caracteres mínimos (corpo 2 ou 3), quando no fim da entrevista diz:

«Não vamos prometer coisas que não podemos, eu não digo que a carga fiscal vai baixar de 40 para 20. Não. Digo que o nosso objectivo a quatro anos é ter reduzida a carga fiscal, e essa redução passará pelos mais necessitados e pelas empresas que criam emprego. O nosso objectivo é apoiar as famílias que estão a perder a casa, mas não lhe sei dizer se vamos apoiar 20 mil ou 40 mil. Vamos ajudar o maior número possível. Talvez não seja possível, daqui a quatro anos estarmos a crescer acima dos 2% , mas chegar aos 2% é possível. Temos 700 mil desempregados, esperamos ao final de quatro anos ter conseguido diminuir em 200 mil o número. Seria uma maravilha. Um feito.»