11 abril 2010

Gilles Lipovetsky

A cultura-mundo é constituída por cinco grandes lógicas: o mercado, a ciência, a informação, a indústria cultural e as novas tecnologias de comunicação e a individualização. Cinco vectores que estão a presentes em todo o planeta, em graus diferentes, e que fucionam como vectores de unificação planetária, uma vez que aproximam as sociedades (...)

É uma cultura mundial, que obedece aos mesmos princípios que a economia. Hoje em dia, a cultura vende-se, compra-se, exporta-se.

Uma marca, hoje, não vende apenas um produto, vende uma cultura, um estilo de vida. Contratam-se designers, publicitários, criativos, que investem mais na marca do que no produto.

Hoje, vivemos o capitalismo das marcas, do hiperconsumo, onde há tanta escolha entre produtos semelhantes.

Se por um lado, a cultura-mundo aproxima as sociedades – porque têm as mesmas marcas, os mesmos produtos -, por outro, contibui para a diversificação dos indivíduos. O colectivo assemelha-se, mas o indivíduo diferencia-se nesse colectivo.

É um vector de aceleração do individualismo, da individualização, que existe mesmo nos países que se mostrem hostis à mundialização. É o caso do mundo islâmico.

A cultura-mundo acelera a desorientação. Desde o século XIX, que os grandes pensadores ocidentais assinalam este fenómeno, de que a modernidade desorienta.

Do ponto de vista material, atingimos o bem-estar, mas no plano interior não. Vivemos deprimidos, ansiosos...

Mais: aqui.

Shag bands ou pulseiras de sexo


Parecem um simples acessório de moda, mas há quem as use com fortes conotações eróticas. São pulseiras coloridas e cada cor tem o seu código próprio. As Shag Bands surgiram no Reino Unido e logo se espalharam pelo mundo. Quem as usa com esse propósito predispõe-se a que a pulseira seja partida para que se concretize o desejo.
A pulseira amarela significa que se deseja um abraço; a cor-de rosa: mostrar os seios; a cor de laranja: chupão no pescoço; a roxa: beijos com língua; a vermelha: fazer um lap dance (strip-tease); a azul escuro: sexo oral; a azul claro: sexo anal; a verde: masturbação; a preta: fazer sexo; a branca: escolhe-se o que se quer; a cinzenta: sexo ao ar livre; a dourada: fazer todas as anteriores.

Fonte: Urban Dictionary

08 abril 2010

Malcolm McLaren (1946-2010)


Malcolm McLaren foi o "inventor" dos Sex Pistols.
Em 1971, McLaren abriu em Londres uma loja de roupas com a estilista Vivienne Westwood chamada Let It Rock (depois rebaptizada de Sex). Diz-se que os Sex Pistols nasceram precisamente nessa loja, onde McLaren encontrou os quatro membros da banda que passavam ali muito tempo, pois eram funcionários da loja, excepto o vocalista, embora fosse frequentador assíduo da loja.
A banda despoletou o movimento punk em Inglaterra, causando polémica, pois esta era o ingrediente necessário para o sucesso.
Malcolm McLaren esteve a partir de 1975 na crista da onda e soube farejar o que que ia estar na moda. Fosse música ou performance.

04 abril 2010

Portugal por São José Almeida

Ninguém parece ter estranhado que a aprovação parlamentar do plano que irá reger a economia estatal nos próximos anos estivesse a ser aprovada sob pressão de empresas privadas que representam interesses financeiros, como se fosse normal que a gestão política dos Estados esteja submetida à lógica do mercado.

(...)

Se dúvidas houvesse de que o representante da Fitch estava a esticar a real capacidade de influência de uma empresa privada sobre o poder político democraticamente eleito em Portugal, o ministro das Finanças veio desfazê-las com o alerta para que os deputados - que supostamente são independentes de influências e devem agir de acordo com o que entendem ser os interesses do país - não se atrevessem a chumbar o PEC (...)

[As principais agências de rating são a Fitch, a Standard & Poor's e a Moody's] não é segredo para ninguém que estas agências têm interesses no mercado que avaliam, são propriedade de grupos financeiros e funcionam também como consultoras de empresas, para quem elaboram pareceres. Ou seja, são avaliador e avaliado, pois aconselham aqueles que avaliam.

(...) é bom não esquecer que os famosos bancos que faliram em 2008 estavam avaliados precisamente por estas excelentes agências de rating (...)

(...) é suposto um Estado democrático de direito ser gerido por um governo de representantes políticos, eleitos pelo voto soberano popular, e escolhido entre o escol que é apresentado a sufrágio pelos partidos. Aliás, os partidos são mesmo a estrutura de representação popular no exercício do poder, em que os eleitores delegam a função de gerir o Estado de acordo com o interesse geral e em obediência ao princípio de igual tratamento de todos perante a lei. E é também suposto que os partidos e os seus eleitos sejam independentes e não cedam a interesses privados, antes defendam o interesse de todos.

Só que o que esta manchete do PÚBLICO e o destaque do jornal de dia 25 de Março mostram é que afinal a realidade é outra. O que é verdade é que quem manda no Estado português e decide sobre as orientações políticas que são dadas à governação não é o soberano representado pelos deputados eleitos, mas os interesses económicos internacionais, obscuros porque não democraticamente eleitos.

Artigo completo aqui

02 abril 2010

Desastre

Ele ia numa maca, em ânsias contrafeito,
Soltando fundos ais e trémulos queixumes;
Caíra dum andaime e dera com o peito,
Pesada e secamente, em cima duns tapumes.

A brisa que balouça as árvores das praças,
Como uma mãe erguia ao leito os cortinados,
E dentro eu divisei o ungido das desgraças,
Trazendo em sangue negro os membros ensopados.

Um preto, que sustinha o peso dum varal,
Chorava ao murmurar-lhe: "Homem não desfaleça!"
E um lenço esfarrapado em volta da cabeça
Talvez lhe aumentasse a febre cerebral.

Flanavam pelo Aterro os dândis e as cocottes,
Corriam char-à-bancs cheios de passageiros
E ouviam-se canções e estalos de chicotes,
Junto à maré, no Tejo, e as pragas dos cocheiros.

Viam-se os quarterões da Baixa: um bom poeta,
A rir e a conversar numa cervejaria,
Gritava para alguns: "Que cena tão faceta!
Reparem! Que episódio!" Ele já não gemia.

Findara honradamente. As lutas, afinal,
Deixavam repousar essa criança escrava,
E a gente da província, atónita, exclamava:
"Que providências! Deus! Lá vai para o hospital!"

Por onde o morto passa há grupos, murmurinhos;
Mornas essências vêm duma perfumaria,
E cheira a peixe frito um armazém de vinhos,
Numa travessa escura em que não entra o dia!

Um fidalgote brada a duas prostitutas:
"Que espantos! Um rapaz servente de pedreiro!"
Bisonhos, devagar, passeiam uns recrutas
E conta-se o que foi na loja dum barbeiro.

Era enjeitado, o pobre. E, para não morrer,
De bagas de suor tinha uma vida cheia;
Levava a um quarto andar cochos de cal e areia,
Não conhecera os pais, nem aprendera a ler.

Depois da sesta, um pouco estonteado e fraco,
Sentira a exalação da tarde abafadiça;
Quebravam-lhe o corpinho o fumo do tabaco
E o fato remendado e sujo da caliça.

Gastara o seu salário- oito vinténs ou menos-
Ao longe o mar; que abismo! e o sol, que labareda!
"Os vultos lá em baixo, oh! como são pequenos!"
E estremeceu, rolou nas atrações da queda.

O mísero, a doença, as privações cruéis
Soubera repelir - ataques desumanos!
Chamavam-lhe garoto! E apenas com seis anos
Andara a apregoar diários de dez-réis.

Anoitecia então. O féretro sinistro
Cruzou com um coupé seguido dum correio,
E um democrata disse: "Aonde irás, ministro!"
Comprar um eleitor? Adormecer num seio?"

E eu tive uma suspeita. Aquele cavalheiro,
-Conservador, que esmaga o povo com impostos-,
Mandava arremessar- que gozo! estar solteiro!-
Os filhos naturais à roda dos expostos....

Mas não, não pode ser... deite-se um grande véu...
De resto, a dignidade e a corrupção... que sonhos!
Todos os figurões cortejam-no risonhos
E um padre que ali vai tirou-lhe o solidéu.

E o desgraçado? Ah! Ah! Foi para a vala imensa,
Na tumba, e sem o adeus dos rudes camaradas:
Isto porque o patrão negou-lhes a licença,
O inverno estava à porta e as obras atrasadas.

E antes, ao soletrar a narração do facto,
Vinda numa local hipócrita e ligeira,
Berrara ao empreiteiro, um tanto estupefacto:
"Morreu!? Pois não caísse! Alguma bebedeira!"

Cesário Verde

01 abril 2010

Gil Vicente


De Gil Vicente (1465?-1537?) pouco se sabe. Desconhece-se o local e a data exactos do nascimento e da morte. Alguns documentos dão-no como ourives, além de dramaturgo.
Sabe-se que no dia 8 de Junho de 1502 apresentou um monólogo à rainha D. Maria. Que transcrevemos abaixo.
É provável que tenha nascido em Guimarães, ou algures na Beira, cedo se fixando em Lisboa. Na capital, a sua principal ocupação parece ter sido a de escrever e representar autos nas cortes do rei D. Manuel e do rei D. João III.
É considerado o pai do teatro português.
De 1502 a 1536, Gil Vicente produziu mais de quarenta peças de teatro, chegando a publicar em vida algumas delas. Colaborou no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende. No entanto, só em 1562 o filho, Luís Vicente, publicou toda a sua obra com o título Compilaçam de todalas obras de Gil Vicente, a qual se reparte em cinco livros. Da compilação, destacamos as peças mais conhecidas: Auto da Índia (1509), Exortação da Guerra (1513), Quem Tem Farelos? (1515), Auto da Barca do Inferno (1517), Auto da Fama (1521), Farsa de Inês Pereira (1523), Auto da Feira (1528) e Floresta de Enganos (1536).


Ouve-se, fóra de scena, o vozeio dos guardas do paço, e entra logo, vestido de briche e ceifões de pele, manta do Alentejo ao hombro, e cajado de azambujeiro na mão, o


Vaqueiro:

Apre!, que sete impurrões
me ferrarram á entrada,
mas eu dei uma punhada
num de aqueles figurões.
Porém, se de tal soubera,
não viera;
e, vindo, não entraria;
e se entrasse, eu olharia
de maneira
que nenhum me chegaria.
Mas, está feito, está feito;
e, se se fôr a apurar,
já que entrei neste lugar
tudo me sae em proveito.
Té me regala ver coisas
tão formosas,
que se fica parvo a vê-las!
Eu remiro-as, porém ellas,
de lustrosas,
a nós outros são danosas.

«Fala á Rainha»

Meu caminho não errou?
Deus queira que seja aqui,
que eu já pouco sei de mi,
nem deslindo aonde estou.
Nunca vi cabana tal
em especial
tão notavel de memória:
esta deve ser a glória
principal
do paraiso terreal!

Seja que não seja, embora,
quero dizer ao que venho,
não diga que me detenho
a nossa aldeia já agora.
Por ella vim saber cá
se certo é
que pariu Vossa Nobreza?
Crei' que sim, que Vossa Alteza
tal está
que de isto mesmo dá fé.

Mui alegre e prazenteira,
mui ufana e esclarecida,
mui perfeita e mui luzida,
muito mais que de antes era.
Oh!, que bem tão principal,
universal!
Nunca se viu prazer tal!
Por minha fé--vou saltar!
Eh!, zagal,
diz' lá, diz' lá:--saltei mal?

Quem queres que não rebente
de alegria e gasalhado!
De todos tão desejado,
este príncepe excelente,
oh!, que rei terá de ser!
A meu ver,
deviamos pôr em gritos
a alegria e a esperança,
que até os nossos cabritos
desde hontem, co'a folgança,
não cuidam já de pascer.

E todo o gado retouça,
toda a tristeza se quita;
com esta nova bemdita
todo a mundo se alvoroça.
oh!, que alegria tamanha,
a montanha
e os prados refloriram,
porque agora se cumpriram
cá nesta mesma cabana
todas as glórias de Espanha.

Que grão prazer sentirá
a grão côrte castelhana!
Quão alegre e quão ufana
a vossa mãe não estará,
e, á uma, toda a nação!
Com razão,
que de tal rei procedeu
o mais nobre que nasceu:
seu pendão
não sofre comparação.

Que pai, que filho, e que mãe!
Oh!, que avó, que avós os seus!
E suas tias, tambem!
Bemdito o Senhor dos céus
porque ell' tal familia tem!
Viva o príncepe logrado
que é o bem aparentado!

Se agora vagar tivera
e depressa não viera,
maldito seja eu então
se aqui a conta não dera
de esta sua geração.
Será rei Dom João Terceiro,
o herdeiro
da fama que nos deixaram,
nos tempos em que reinaram,
o Segundo e o Primeiro
e ind'outros que passaram.

Mas ficaram-me lá fóra
uns trinta ou mais companheiros,
pastores, zagaes, porqueiros,
e vou chamá-los agora;
elles trazem p'ra o nascido
esclarecido,
ovos e leite fresquinhos,
e um cento de bolinhos;
mais trouxeram
queijos, mel--o que puderam...

E ora os quero ir chamar,
mas, por via dos puxões,
agarrem os figurões
p'ra gente poder entrar.


Ouve-se ao longe, uma gaita de foles.

«Entram certas figuras de pastores e oferecem ao príncepe os ditos presentes.»

Os patrões têm, em média, menos escolaridade


A formação escolar dos empregadores portugueses é substancialmente inferior à da população empregada, e também à dos seus colegas espanhóis e à da média dos empregadores dos 27 Estados-membros da União Europeia, segundo dados relativos a 2008.
As qualificações dos empregadores nacionais – que coincide com o de empresários ou de patrões – perde para a da população empregada (vulgarmente designada por “trabalhadores”) em todas as categorias consideradas pelo Instituto Nacional de Estatística de Portugal e pelo de Espanha, que divulgaram hoje a publicação “A Península Ibérica em Números – 2009”, onde constam estes dados.

in Público

27 março 2010

Joaquim Manuel Magalhães


Num livro com menos de 200 páginas está tudo aquilo que Joaquim Manuel Magalhães pretende ser, agora, enquanto poeta. Um toldo vermelho é nada menos nada mais do que uma obra de síntese. Onde o autor rasurou e reescreveu o que havia publicado.
Joaquim Manuel Magalhães chega à idade da reforma com um fôlego e um ímpeto que fazem lembrar os idos de 1970. O único senão é haver já quem saiba de memória alguns dos poemas e tenha levado a mal o fundo trabalho de limpeza a que o autor os submeteu, alterando-os radicalmente.
A prosódia acima de tudo? Quase. Mantém-se uma intensidade laminar que sempre caracterizou a sua poesia. Acentuou-se a propensão barroca que havido ficado contida em livros anteriores. Criou-se uma nova tensão, que aposta mais na linguagem e menos no sentido. E há um claro afastamento da ideia de partilha, seja por via do enriquecimento vocabular, seja pela rasura dos fios narrativos.
Joaquim Manuel Magalhães aproxima-se de um filão posto de lado há já algumas décadas, onde brilham nomes como Aquilino Ribeiro ou Tomás da Fonseca e que também chegou a seduzir poetas como Vasco Graça Moura.
O resultado é: vazio. Um vazio cheio de palavras, cheio de nervo, mas vazio. Cujo sentido, como assinalou e bem Luís Miguel Queirós, apenas funciona em contraponto com os poemas anteriores.
Verbos e conectores podem ser postos de lado - nada disso é novo. A mecânica interna pode ser uma paixão - há pessoas que adoram desmontar relógios. A arte contemporânea pode ser culturalmente bem remunerada e contaminar o espaço público - mas inevitavelmente o croché será arrumado na prateleira respectiva.
Resta-nos pois o desassossego, a inquietação e a insatisfação de ver uma obra poética reduzida a um colorido quadro de ladrilhos e mosaicos bizantinos e a certeza de que as bibliotecas existem por alguma razão.

26 março 2010

Fumar mata


Chama-se Tane Koleci, é albanesa e tem 113 nos. Vive numa casa nos arredores da cidade de Durrës. Quase surda e com dificuldades de visão, Tane passa grande parte do dia deitada numa cama, o único móvel que existe no quarto. Não tem luz eléctrica. Vive na miséria, com uma ajuda social de 20 euros por mês, que gasta em cafés e quase um quilo de tabaco por mês. Após acordar, a centenária toma quatro cafés, sem açúcar, e outros quatro ao longo do dia. Os amigos mais próximos são um velho cachimbo e uma caixa metálica, presente do marido, Veli, que morreu há 39 anos.
Durante muito tempo, viveu abandonada na aldeia até que um primo, Mexhid, e a sua mulher, Zahide, de 72 anos, a acolheram em casa, há três anos. "Tane não sofre de nenhuma doença. De vez em quando damos-lhe um remédio para dormir. Nada mais", diz o primo.

Fonte: JN

24 março 2010

Quando não há mais nada, lá volta o cigarro à baila


O cigarro é um criminoso. Logo, deve ser eliminado? Não. Apenas proibido. O importante é proibir. E vigiar. A vigiar é que a gente se entende. E depois, ah, depois... A saúde está primeiro. A saúde... Cada época tem as suas taras. A dos finais do século passado virou-se para o grande negócio que é a saúde. Sobretudo no mundo ocidental. Ou seja, nos países "desenvolvidos". O desenvolvimento é assim: saúde. Qualquer português sabe que por cá a saúde sempre foi o mais importante. Por isso somos um país saudável, apesar dos salários baixos e de gestores e patrões e políticos medíocres. Mas no que toca à saúde estamos bem, obrigado. E podemos ficar melhor, se proibirmos que se fume dentro dos automóveis. Liberdade, sim, mas devagar. O Estado precisa de pessoas saudáveis. Reparem que os especialistas não dizem que há excesso de automóveis (movidos quase todos a combustíveis fósseis) e que isso é prejudicial à saúde. Não. Isso é secundário. O importante é o cigarro. Porque o cigarro mata. E a morte não existia se não houvesse cigarros.
Se não houvesse cigarros, acabavam os problemas do mundo ocidental. Éramos logo todos mais felizes e saudáveis.
Vou, por isso, em homenagem aos clínicos britânicos acender um cigarro e fumá-lo em sua honra.

21 março 2010

Da coisa


Não sei se já vos aconteceu o mesmo. Ouço falar da coisa e dá-me náuseas. A afectação domina. As poses, os tiques, a vaidade. De resto, o vazio. Muito vazio. Vazio que atiram para cima do imenso vazio que é já a vida quotidiana de muitos, de milhões.
A mediocridade está, de facto, bem distribuída e é universal. Mas custa-me sempre suportá-la. Sobretudo quando teimam em associar duas coisas tão opostas como poesia e a coisa.
A coisa é o que é por muitas razões. Desde logo por um velho hábito feudal de quem sabe ler parecer mais em terra de iletrados. E Portugal é um país de iletrados. Lê-se mal. Depois por um velho hábito clerical, de não saber falar, de encher a boca com algodão e arrastar as sílabas como se fossem pastilha elástica.
A coisa é deprimente. Sabe a ranço e repete-se todos os anos no dia da coisa. A coisa pode ser o Dantas, pode ser outra merda qualquer. O pior são as moscas, sempre tantas. Amostras por aqui (1 e 2)

18 março 2010

Livros, esses objectos de desejo


O roubo de livros é moeda corrente. Mesmo gente à partida insuspeita não resiste à tentação. Disso se fala hoje numa pequena reportagem que pode ser lida aqui. O texto não é dos melhores, talvez por lhe terem roubado palavras. às vezes a economia dá nisto: perda de sentido. Assim, não se percebe qual a relação entre as marcas dos veículos e o modo como um livreiro recuperou mil livros roubados. Há mais coisas que não se percebem. Se calhar, o propósito é mesmo esse, não se perceber. E dar um ar de graça. Mas que graça pode haver em roubar bestsellers? Já alguém que rouba poesia e música erudita merece a nossa atenção. Será a reencarnação de Genet (autor de Diário de um ladrão) ou um moralista a coberto da Arte de Furtar?

Plumulitid machaeridian


Em Ottawa (Canadá) foi descoberto o fóssil com esqueleto completo de um Plumulitid machaeridian, um verme com 450 milhões de anos.
Os plumulitids foram anelídeos (vermes segmentados, com o corpo formado por "anéis"). O grupo inclui as minhocas e as sanguessugas que se podem encontrar em toda parte, no fundo do mar ou na terra de um quintal.
Quando o fóssil foi encontrado estava coberto por placas mineralizadas. As placas eram rígidas, mas permitiam que os anelídeos se movessem, proporcionando-lhes uma armadura protectora, muito semelhante às de metal flexível, inventada pelos seres humanos.

Mais, aqui e aqui.

16 março 2010

O fim das borboletas e demais espécies




Eis uma notícia que entristeceria Vladimir Nabokov: as borboletas da Europa estão ameaçadas. Um terço das 435 espécies tem visto o número de exemplares a diminuir e cerca de 9% encontra-se já em perigo de extinção.
O mesmo está a acontecer com os escaravelhos e com as libélulas. Causas? O homem apropria-se do habitat natural dessas espécies. Onze por cento dos escaravelhos 'saproyxylic' - que dependem da madeira podre - e 14% das libélulas estão também em vias de extinção. A Europa perde em toda a linha.
O turismo, os incêndios, novas técnicas agrícolas e as mudanças climáticas estão na origem do fenómeno.
Os ecossistemas estão a colapsar. Mas o homem continua impávido e sereno na senda do lucro, adepto de uma visão económica de grande produção, de cotações bolsistas, de especulações no imobiliário, etc. Há muito se ouvem gemidos letais. Mas enquanto a aparência de bem-estar se mantiver tudo isto parece coisa de biólogos lunáticos que, em vez de pensarem em criar cereais transgénicos continuam preocupados com a velha e arcaica natureza.

Para saber mais, dar um passeio até este sítio.

Gonja Sufi & The Gaslamp Killer

Curiosa forma de vida

O Estado gasta muito dinheiro com o salário dos seus funcionários. Precisa desses funcionários? Se precisa é uma despesa necessária. Se não precisa, tem que se libertar dessa mão-de-obra.
A eficiência consegue-se de muitas maneiras. Dizem que a melhor é envolvendo as pessoas nos projectos. Mas isso parece ser coisa que ao Estado pouco importa. O Estado é gerido por pessoas que são eleitas e escolhem as chefias. Auferem os vencimentos mais elevados, têm benesses e regalias impensáveis para o comum do funcionário. Mas para os governantes conservarem o poder há custos. Curiosamente, ninguém se preocupa com isso. Gasta-se em publicidade, outsourcing, projectos, estudos, pareceres e consultoria uma fortuna. Quase cem milhões de euros por ano.
A crise, já se sabe, é para o mexilhão. Que sofre na pele tudo e mais alguma coisa. E que paga. E bem. Paga as altas cilindradas e o combustível. Paga almoços, jantares, hotéis e outras despesas "de representação", paga flores, paga adereços, paga casas e palácios, paga contas astronómicas de telefone, de luz, de água; de papel, computadores, impressoras.
Quem reduz essas despesas?
Às vezes, ouve-se dizer que no museu X ou na biblioteca Y não há dinheiro para... papel higiénico. Pois.

Olhos de Morder Lembrar e Partir

ou ouvido

Frases que não querem dizer nada
Enquanto não as soubermos dizer. Sábado
Fechou as persianas, deixou-se dormir.

Dissimuladas em máximas e sorrisos
Frases como 'não matarás', morremos logo
Atiram-nos sangue amizade candura.

Parece impossível a boca, a desculpa
Pequenos descuidos como bolor ou
As cortinas, a tanta literatura

O teatro e poder dessa fome
Que se alimenta do não sair à rua.


genealogia

Escarnecem-se a si próprios quando escarnecem dos outros
Heráldica de heróis e monstros
Com que desde a infância
Os olhos frios
A falta de carinho.
Ah se a chuva não fosse, os vizinhos aos gritos
As mãos umas nas outras, interiores
Os rasgados cartazes dos muros
O lado iluminado das montras
O não sair à rua
Nem saber estar com os outros.

[in Carlos Luís Bessa, Olhos de morder lembrar e partir, Black Sun Editores, 2000]

15 março 2010

Agustín Víctor Casasola (1874-1938)



Ilustração da página 319 (Fortino Samano antes de ser fuzilado e no momento do seu fusilamento) de Troppo Vero (Pre-Textos, 2009), de Andrés Trapiello e uma foto mais, do assassinato de Pancho Villa (30 de Julho de 1923).

12 março 2010

Do oito para o oitenta

No espaço de duas décadas passamos de uma escola onde a autoridade do professor era real para uma escola que legitima a insolência, a preguiça, a má-criação dos alunos.
As campanhas reiteradas, até por gente que tem tutelado a pasta da Educação, contra os professores há muito deram frutos, razão pela qual foi criada a linha telefónica SOS Professor ou razão que levou o Procurador Geral a insistir há não muito tempo que atentar contra a pessoa do professor é crime e a ter explicado porque o é.
Portugal é um país com défices estruturais medonhos em todos os sectores. O do ensino não foge à regra. Com a agravante de os professores terem interiorizado muito rapidamente todos os tiques e chavões do eduquês, esse caldo requentado que legitima um abaixamento brutal nas competências alcançadas pela generalidade dos alunos no fim de cada ciclo de ensino.
Paralelamente, a legislação foi sendo orientada para objectivos fictícios, que passam pelos quadros estatísticos e pelas piscadelas de olho aos pais, essa entidade amorfa que, no seu pior, usa e abusa da escola com efeitos nefastos (antidemocráticos, de laxismo e no sentido de impedir que os filhos saiam da cepa torta, embora possam chegar a licenciados).
Tudo junto faz com que a sociedade portuguesa seja confrontada quase todos os dias com casos complicados que saltam das escolas para os noticiários.
Com Maria de Lurdes Rodrigues assistiu-se a um fenómeno inédito no corpo docente do ensino básico e secundário: a união. E a sensação de que algo estava a mudar. Mas a mudança é meramente fictícia.
Não nos esqueçamos que nestas duas décadas quer ao nível da formação de professores, quer ao nível geral tudo se tem feito para permitir situações lamentáveis, cuja factura social se começará a pagar de forma dramática em breve (o número de licenciados no desemprego é apenas uma gota de água).
Como sempre acontece quando as coisas dão para o torto, todos sacodem a água do capote. Mas é preciso não esquecer que as políticas têm rostos e nomes.