13 fevereiro 2010

Vivemos no melhor dos mundos

Há coisas que caem no momento certo. O das escutas é um deles. Mina a confiança do país num homem que obteve maioria absoluta depois de ter concorrido contra Santana e que ficou tão inchado com o poder que abusou e abusou. Houve eleições e esse homem voltou a ganhar, perdendo no entanto a maioria absoluta e ficando à mercê de acordos de bastidores.
Se bem leram as notícias dos últimos dias, o PSD não sai bem no retrato. Os acordos entre o PS e o PSD em questões de grandes empresas são frequentes e datam, talvez, do tempo em que se coligaram para "salvar a nação". Isso de salvar a nação proporciona sempre bons negócios. Há uns quantos que passam a ganhar milhões. Ganhar milhões é o objectivo de quase todos os portugueses, embora a grande maioria esteja longe de perceber como se chega lá.
O caso das escutas não passa, se virmos bem as opiniões dos diferentes protagonistas, Moniz e companhia incluídos, de um grande negócio que se cozinha entre os meandros do escândalo. E parece haver uma mãozinha africana no meio disto. À qual se juntam as mãozinhas daqueles que dentro e fora do PS têm perdido dinheiro ou tachos.
O problema talvez esteja no excesso de promiscuidade entre a política e os negócios. Mas isso para os tugas é nada. Maldizer os políticos é um desporto nacional. Esquecendo-se que sem políticos não há governo e sem governo as coisas não funcionam. Ou seja, estas trapalhadas abrem caminho fácil a populismos. Basta olhar para Itália e ver como gente execrável se instala no poder com o voto dos cidadãos que julgam estar a "castigar" os corruptos.
Vai sendo tempo de criar estruturas para formação de quadros políticos que não dependam directamente dos partidos. Gente com formação literária (histórica, filosófica, política) e económica que tenha estudado casos antigos e recentes da vida nacional e internacional e que mobilize a opinião pública para projectos nacionais, sejam eles de direita ou de esquerda, com maior ênfase nas empresas ou na equidade social, nas leis do mercado ou no tipo e peso de impostos. Gente que ganhe bem, muito bem, porque a democracia tem custos. A não ser que os portugueses prefiram viver subjugados, debaixo de uma qualquer pata fedorenta que mais não faz do que exalar retórica relambida.
Os melhores momentos da nossa história são aqueles que foram protagonizados por novos quadros: os dos fundadores; os do início da segunda dinastia; os liberais; os republicanos.

12 fevereiro 2010

Prova provada de que não há liberdade de expressão

é este post ter sido censurado pelo senhor Pinto de Sousa himself que veio aqui e usou tinta invisível, impedindo a leitura do resto.
O semanário Sol teve o que queria: publicidade e as vendas vão de vento em popa. O pior é que mal se acabe o "escândalo" voltam a baixar drasticamente. Será que o destino lhe reserva o mesmo que a O Independente? Ao tempo de Paulo Portas também se alimentou de escândalos. O problema é que quem lê não quer apenas escândalos, quer investigação e isso custa mais e exige jornalistas bem preparados.

10 fevereiro 2010

O PSD sem ideias

repete chavões e tiques de há tempos. No tempo de Guterres falou-se em pântano e foi por aí que o PSD recuperou o poder. O problema desse partido é que não só não tem líderes como não tem ideias capazes de apresentar soluções. Por isso, ao pântano sucedeu-se a choldra, o lodaçal, a pantominice. A coisa foi tal que o PS, pela primeira vez em trinta anos, conseguiu uma maioria absoluta.

Marques Mendes, esse líder brilhante que conseguiu chegar e sair da liderança do PSD sem resultados, vem agora mostrar porque é que esse partido não sai da cepa torta: “Eu acho que Portugal vive num pântano como já há muito tempo eu já não imaginava. Esta situação pantanosa vai acabar. É uma questão de tempo. Provavelmente mais cedo do que mais tarde”.
Em vez de apresentar soluções gerais, Marques Mendes opta pela politiquice, que é muito afim do trauliteirismo que caracteriza Paulo Portas, cujas ideias são luminosas: reduzir os salários dos políticos. Não bastava ser o Paulinho das feiras, quer ser o Feirinhas de Portugal e arengar com a mesma falta de argumentos de que se serve o zé povo na sua douta sabedoria etílica ou reumática.
Já aqui o dissemos várias vezes: Portugal tem dirigentes medíocres e empresários do mesmo calibre. Enquanto assim for, é difícil dar o salto. Um país precisa de ideias, de projectos, de uma visão. E é precisamente aí que as coisas se complicam. Nada. O vazio é de bradar aos céus. Muito blá blá para agradar aqui e ali, de resto os negócios de sempre, os esquemas do costume.
Isso de "apertar o cinto" que custou votos e popularidade a Mário Soares é inevitável. Mas não chega. Portugal precisa que a população seja mais exigente, que leia e discuta programas e que vote depois em função desse conhecimento. Votar porque se é da cor X ou Z nada resolve. Votar porque se está zangado com Fulano ou Beltrano dá no mesmo. Não é isso que dá força anímica ao país. O país precisa de ideias. Precisa que cada sector apresente propostas para revitalizar uma nação que embora pareça perdida, apenas está expectante.
Gastar dinheiro em estádios de futebol e em obras de fachada é um crime. Mas como a história já mostrou não é menos crime encher os cofres do estado com ouro e ter a população moribunda.

Taxistas ou ladrões?


Há alguns anos, à saída de Santa Apolónia, carregado com malas, um bebé nos braços e em cima da hora para chegar à Portela, apareceu-me um taxista a perguntar se queria táxi. A fila era medonha, aquele aparecia pela porta do lado, onde tinha acabado de deixar um passageiro. Tudo cheirava a esquema. Mas a necessidade e a ingenuidade puseram na minha boca um sim veloz e lá fomos apara o aeroporto. Quando chegámos, o taxímetro marcava o quádruplo do que era habitual. Não havia tempo para regatear. Pagámos e pedimos factura. Quisemos, depois, apresentar queixa, mas estávamos longe e a polícia disse que só com a factura não podia fazer nada.
Conhecemos casos semelhantes. Ocorridos em Lisboa e noutras cidades. Há taxistas que são pulhas e há-os até que são piratas.
A notícia de que a PSP está atenta é saudável. Em tais casos devia-lhes ser retirado imediatamente a licença de condução de carros de aluguer. Todos os que fossem apanhados com o dispositivo chamado "acelerador de Taxímetro", que visa aumentar as tarifas em função dos quilómetros, deveriam pagar multas exemplares e ficar sem carta. O mesmo deveriam fazer aos que especulam e tomam os clientes por parvos.

O embaixador e a burka


Há mulheres com excesso de pêlo. Algumas chegam mesmo a ter barba e bigode. Quando os costumes obrigam as mulheres a andar tapadas, há quem se sirva disso para encontrar um bom marido para a filha peluda... e com outros problemas estéticos. Que o diga um embaixador árabe dos Emirados Árabes Unidos que descobriu que a noiva era vesga e tinha barba pouco antes do casamento. Ao levantar o véu para a beijar, constatou, que era vesga e tinha barba. Sentiu-se defraudado. A futura sogra mostrara-lhe fotos da outra filha, que não possuía tais atributos. Desiludido e enganado, pediu a anulação do contrato de casamento e exigiu à ex-noiva o pagamento de cerca de 92 mil euros, montante que diz ter gasto para presentear a ex-futura mulher com roupas, jóias e outros prendas.
A burka e o niqab podem ter a vantagem, da perspectiva machista, de proteger a mulher da cobiça alheia. Mas também podem ser usados contra esse mesmo machismo.

Fonte: JN

09 fevereiro 2010

Uma excepção


Karl Rabeder tem 47 anos e é um rico homem de negócios austríaco, com uma fortuna pessoal avaliada em quase quatro milhões de euros. Um homem banal, portanto.
Este homem descobriu certo dia que as relações que tinha eram falsas. Como se as pessoas que o rodeavam fossem actores. Actores cuja função era proporcionar-lhe uma existência de cinco estrelas. "Foi o maior choque da minha vida, quando me apercebi quão horrível, sem alma e vazia era o estilo de vida cinco estrelas". Então, tomou uma decisão. Desfazer-se de grande parte dos bens que possui. "Venho de uma família em que as regras eram trabalhar duro para arrecadar o mais possível", contou. Um modo de vida que seguiu durante muitos anos, mas que, gradualmente, o foi consumindo por dentro. "Durante muitos anos não fui suficientemente corajoso para fugir das armadilhas de uma existência confortável". Agora, basta-lhe o amor e uma cabana e certamente um certo pecúlio para subsistência e outras coisas que tem em vista. O dinheiro da venda das mansões, viaturas e outros luxos será para obras de caridade na América do Centro e do Sul. A fortuna vai apoiar soluções de microcrédito em países como El Salvador, Honduras, Bolívia, Peru, Argentina e Chile.
O homem está feliz. Ora vejam.

Fonte: JN

Técnicas de controlo


De avaliação se falou muito por causa dos professores. Quem não é professor tem uma opinião. Quem é professor pensa de maneira quase oposta. É um bocado como botar faladura sobre matemática sem se saber sequer as regras elementares da aritmética. A avaliação é hoje prática corrente no mundo empresarial e tem um propósito claro: controlar as pessoas, constrangê-las a fazer o que a empresa quer e poder descartá-las quando muito bem a empresa quiser. Sem custos económicos. O lado negro da coisa, é que o trabalho passa a ser um faz de conta permanente, sobretudo se se quiser sobreviver com o menor número de danos colaterais.

Christophe Dejours, psiquiatra, psicanalista e professor no Conservatoire National des Arts et Métiers, em Paris, dirige ali o Laboratório de Psicologia do Trabalho e da Acção, onde se estuda a relação entre trabalho e doença mental. Esteve em Portugal e disse:
«A avaliação individual é uma técnica extremamente poderosa que modificou totalmente o mundo do trabalho, porque pôs em concorrência os serviços, as empresas, as sucursais – e também os indivíduos. E se estiver associada quer a prémios ou promoções, quer a ameaças em relação à manutenção do emprego, isso gera o medo. (...) Muito rapidamente, as pessoas aprendem a sonegar informação, a fazer circular boatos e, aos poucos, todos os elos que existiam até aí – a atenção aos outros, a consideração, a ajuda mútua – acabam por ser destruídos. As pessoas já não se falam, já não olham umas para as outras. E quando uma delas é vítima de uma injustiça, quando é escolhida como alvo de um assédio, ninguém se mexe…»
Conta algumas histórias arrepiantes. Uma, a do modo como se formam os quadros superiores, preparando-os para cumprir os objectivos das empresas (mesmo que ilegais). Ensinam-lhes técnicas de assédio e constrangimento: «Há estágios para aprenderem essas técnicas [de assédio]. Posso contar, por exemplo, o caso de um estágio de formação em França em que, no início, cada um dos 15 participantes, todos eles quadros superiores, recebeu um gatinho. O estágio durou uma semana e, durante essa semana, cada participante tinha de tomar conta do seu gatinho. Como é óbvio, as pessoas afeiçoaram-se ao seu gato, cada um falava do seu gato durante as reuniões, etc.. E, no fim do estágio, o director do estágio deu a todos a ordem de… matar o seu gato.» Apenas uma mulher reagiu mal à dita ordem. Os outros 14 mataram os seus. A mulher não conseguiu e teve de receber tratamento psicológico.

E os sindicatos?
«Penso que os sindicatos foram em parte destruídos pela evolução da organização do trabalho. Não se opuseram à introdução dos novos métodos de avaliação. Mesmo os trabalhadores sindicalizados viram-se presos numa dinâmica em que aceitaram compromissos com a direcção. Em França, a sindicalização diminuiu imenso – as pessoas já não acreditam nos sindicatos porque conhecem as suas práticas desleais.»

Vale a pena reflectir sobre o que este psiquiatra diz:

«Acontece que, quando se faz a avaliação individual do desempenho, está-se a querer avaliar algo, o trabalho, que não é possível avaliar de forma quantitativa, objectiva, através de medições. Portanto, o que está a ser medido na avaliação não é o trabalho. No melhor dos casos, está-se a medir o resultado do trabalho. Mas isso não é a mesma coisa. Não existe uma relação de proporcionalidade entre o trabalho e o resultado do trabalho.
É como se em vez de olhar para o conteúdo dos artigos de um jornalista, apenas se contasse o número de artigos que esse jornalista escreveu. Há quem escreva artigos todos os dias, mas enfim... é para contar que houve um acidente de viação ou outra coisa qualquer. Uma única entrevista, como esta por exemplo, demora muito mais tempo a escrever e, para fazer as coisas seriamente, vai implicar que o jornalista escreva entretanto menos artigos. Hoje em dia, julga-se os cientistas pelo número de artigos que publicam. Mas isso não reflecte o trabalho do cientista, que talvez esteja a fazer um trabalho difícil e não tenha publicado durante vários anos porque não conseguiu obter resultados.
Passados uns tempos, surgem queixas a dizer que a qualidade [da produção ou do serviço] está a degradar-se. Então, para além das avaliações, os gestores começam a controlar a qualidade e declaram como objectivo a “qualidade total”. Não conhecem os ofícios, mas vão definir pontos de controlo da qualidade. É verdadeiramente alucinante.»

A entrevista pode ser lida na íntegra aqui.

08 fevereiro 2010

A internet, o novo papão?

Enquanto em Portugal se fala do que os jovens fazem ou deixam de fazer na net, mais uma vez com a tónica nos fantasmas, nos desconhecidos, há quem ponha o dedo em mazelas muito sérias. Por exemplo, a falta de privacidade de todos ou certo tipo de software que permite vigiar o que faz, o que diz, por onde anda cada cibernauta, seja novo ou velho. Alguns países são campeões na coisa: Irão, China, Cuba, Egipto, Coreia do Norte, Síria, Arábia Saudita, Vietname e outros do antigo bloco de leste, mas também os EUA. Basta pensar que a Google ou a PT (sapo, meo, tmn), ou outras empresas que fornecem net, lêem o correio electrónico que se envia e recebe através dos seus serviços de email. Assim, quer o Gmail quer outras extensões entram no correio e incluem publicidade. Com autorização de quem?
Mas isso que interessa aos investigadores da Faculdade de Ciências e Tecnologias da Universidade de Coimbra e Instituto Pedro Nunes (FCTUC/IPN)? Eles ainda estão na fase do papão (a, b, c), quiçá com a esperança de que a net deixe de ser uma teia e se torne tão-só numa cadeia.

07 fevereiro 2010

Turquia, 2010


Na Turquia de hoje há crimes que se cometem em nome de tradições, de mitos, de medos ancestrais. Que o diga a família de Medine Memi, adolescente de 16 anos que enterraram viva por ter amigos rapazes.
Dada como desaparecida, Medine foi encontrada morta por baixo de um galinheiro no quintal da sua casa [imagem acima]. Morreu sufocada, com os pulmões e o estômago cheios de terra.
Tudo aconteceu em Kahta, na provínvia de Adiyaman. Aos olhos da família, uma rapariga não pode falar com rapazes. Medine esqueceu-se disso e o pai e o avô não estiveram com meias medidas, enterraram-na viva.
Ao que se sabe, a rapariga tentou a ajuda da polícia dias antes, dizendo que pai e avô a tinham espancado. Em vão. Fê-lo por três vezes. E três vezes a polícia a mandou para casa sem fazer nada.
Os chamados "crimes de honra" continuam a causar cerca de 200 mortes por ano na Turquia. Em 2004, pressionado pela União Europeia, o governo turco acabou por alterar o código penal do país retirando o artigo que reconhecia atenuantes nos crimes de honra. Mas metade dos homens condenados por crimes de honra não se arrependem - atitude partilhada pelos outros membros da família.

Fonte: Telegraph

06 fevereiro 2010

José Luis García Martín

Com o título de Festival de poesía, García Martín recorda um episódio das suas andanças de trota-mundos com a poesia às costas. Só agora demos por isso. E ainda sob o efeito dalgumas gargalhadas transcrevemo-lo aqui.

«¿Nunca te han invitado al Festival de Poesía de Bogota? Pues no sabes lo que te pierdes. Pídeselo a Manolo Borras. Allí tiene mucha mano porque a todos los colombianos les ha dado por publicar en Pre-Textos. Cuando yo estuve, un empresario petrolero -o eso decía él- nos ofreció un cóctel en su casa. Allá fuimos en diez taxis. Al entrar, alucinamos: todas las paredes estaban cubiertas con enormes fotos de adolescentes desnudas. Todas, literalmente todas, incluso los baños. Había dos pequeñas excepciones. En el salón principal, las fotos rodeaban unas cartas autógrafas. Eran del presidente de la república, Álvaro Uribe. También había un pequeño grupo de fotografías en las que el presidente abrazaba al dueño de la mansión. Vestía como un gánster de película, no le faltaba ni una aparatosa cadena de oro. Cuando apareció, sin apenas saludarnos, se subió a una tarima y comenzó a declamar sus poemas. Me entraron unas ganas tremendas de reír. También Eduardo Moga y Ledo Yvo, que estaban cerca de mí, parecía que iban a estallar en carcajadas. A mí se me quitaron las ganas en cuanto vi el pistolón de un guardaespaldas. Aplaudimos mucho. Luego nos fue saludando uno a uno. “¿No es injusto que sea Gabo quien represente a Colombia en el mundo y no yo? ¡El mercantilismo de la novela siempre por encima de la pureza de la poesía!”. Yo le insinué mi asombro ante la decoración. Se quitó el puro de la boca, sonrió y dijo: “Yo he tenido más de dos mil mujeres. Esta es solo una pequeña muestra”. Cuando me dejó, me acerqué a un pequeño estante lleno de libros. El dueño, al darse cuenta de mi interés explicó: “En esta casa hay pocos libros, pero los que hay son obras maestras”. Y así era, efectivamente: se trataba de los libros que él había escrito, en ediciones normales y en ediciones de lujo para amigos. Aquel narco-poetastro –no te voy a decir su nombre, que luego todo lo cuentas y no quiero que peligre mi vida- era una mezcla de Berlusconi, Corleone y Justo Jorge Padrón.»

Nichos de mercado




Um museu de Roterdão propõe dormidas dentro de uma obra de arte: o "Quarto de hotel giratório"(Revolving Hotel room), do artista alemão Carsten Höller. O "quarto" pode ser alugado por valores entre os 275 a 450 euros por noite. Cada "cliente" pode entrar às 18h30 e deve libertar o quarto até ao meio-dia seguinte.
Uma noite dentro do museu alicia as pessoas? Alicia. Até ao fim da exposição, as encomendas estão preenchidas. Quem quiser, pode beneficiar de pequeno-almoço, casa de banho de luxo na cave do museu, mini bar e serviço de mordomo.
A instalação faz parte da exposição "Divided divided" de Höller, sendo composta por quatro plataformas circulares em vidro, que giram sobre elas próprias e nas quais se encontram uma cama, uma mesa, duas cadeiras, um mini bar e um cabide. A plataforma da cama, a mais rápida, dá uma volta completa numa hora.
Já em Toronto, no Canadá, um restaurante, o Mildred’s Temple Kitchen, está a oferecer a possibilidade de se usar a casa de banho para sexo no dia de S. Valentim. Parte da adrenalina fica de fora, claro, pois sendo permitido já não há aquela excitação que alguns clientes do restaurante já comprovaram.

Fontes: JN e i

04 fevereiro 2010

L´Homme Qui Marche = 74 milhões de €



O quadro de Picasso "Rapaz com Cachimbo", leiloado em 2004 pela Sotheby's de Nova Iorque, deixou de ser a obra de arte mais cara do mundo. Na noite passada, um anónimo comprou a obra-prima do suíço Alberto Giacometti (1901-1966), "L'Homme Qui Marche", por um preço recorde de 74,1 milhões de euros (104,3 milhões de dólares). Tudo aconteceu entre Londres e algures noutro ponto do globo.
A escultura de bronze data de 1961 e foi uma encomenda para a Chase Manhattan Plaza de Nova Iorque. Giacometti criou várias peças para este projecto de arte pública, mas acabaria por abandoná-lo por ser demasiado demorado.
Há mais de 20 anos que não aparecia no mercado uma peça do escultor de tão grandes dimensões. A obra "L'Homme Qui Marche" tem 1,83 metros e pertencia ao Commerzbank alemão.

China nos dias de hoje


Um taxista chinês, de 42 anos, acorrentou o filho de dois anos a um poste, em frente a um centro comercial, porque tinha medo de o perder enquanto ia trabalhar. É que a filha, de quatro anos, desapareceu no mês passado e ainda não deu sinais de vida. "Nem sequer tenho uma fotografia da minha filha para pôr um anúncio, para a procurar. Não posso perder o meu filho também", disse o homem à imprensa chinesa.
Podia deixá-lo numa creche? Podia, se o estado chinês deixasse, mas não deixa. É que ele e a mulher vivem ambos em Pequim, mas não são naturais de lá. E como tal, aos olhos dos chineses, não têm direito a inscrever os filhos numa creche do estado. O homem ganha 5 euros por dia e a mulher e mãe das crianças é deficiente mental. Assim, para poder trabalhar como taxista e sustentar a família, tem vindo a acorrentar o menino há já vários dias.

Fonte: JN

Guia Ilustrado das Macroalgas


Com a chancela da Imprensa da Universidade de Coimbra, a obra “é o primeiro guia que tenta mostrar toda a flora portuguesa”, reunindo entre 80 a 90 por cento das espécies existentes em Portugal Continental, deixando de fora as “mais pequeninas”, disse o botânico marinho Leonel Pereira, autor do Guia Ilustrado das Macroalgas.
Segundo Leonel Pereira, professor no Instituto Botânico da Universidade de Coimbra, este guia, em formato de bolso, com cerca de 90 páginas, começou por ser uma publicação destinada aos seus alunos, e depois adaptada para “introduzir as pessoas no tema”, sejam académicos, empresários, gastrónomos interessado em conhecer as espécies, ou técnicos de autarquias e instituições, ajudando-as a conhecer melhor esses vegetais marinhos e a promover o seu uso nas suas diversas facetas: a sua biodiversidade, como fertilizante agrícola, na alimentação e nos seus múltiplos usos industriais.
Partindo de uma “organização taxonómica”, o autor apresenta os grupos de algas, as vermelhas, verdes e castanhas, e insere um capítulo apresentado alfabeticamente com a descrição das algas, as suas aplicações e o local onde foram encontradas, com as respectivas fotografias.
Nesta recolha estão incluídas as espécies nativas e não nativas. Uma das que já se encontra nas costas portuguesas é a “predadora” chinesa denominada de “Undaria”, utilizada na gastronomia daquele país, e que é cultivada comercialmente nas costas europeias.
Leonel Pereira, também editor responsável pelo MACOI - portal português da macroalgas (http://macoi.ci.uc.pt) - tem em preparação um guia destinado às macroalgas do arquipélago dos Açores.
As algas macroscópicas que se encontram habitualmente nas costas rochosas portuguesas, durante a baixa-mar, exibem grande diversidade de cores, formas e tamanhos. Podem ter apenas alguns milímetros de comprimento e um aspecto frágil, ou atingir tamanhos gigantes, superiores a 50 metros, e formar verdadeiras florestas aquáticas nalgumas zonas costeiras. Apresentam colorações extremamente variadas, resultantes da combinação dos diferentes pigmentos fotossintéticos presentes nas suas células. Distinguem-se três grandes grupos, essencialmente com base na cor: macroalgas verdes (Filo Chlorophyta), macroalgas castanhas (Filo Heterokontophyta ou Ochrophyta) e as macroalgas vermelhas (Filo Rhodophyta).

Fonte: A União

La Palice e os blogues


A América produz estudos em barda. Não há dia em que a imprensa não traga as brilhantes conclusões a que chegaram certos cientistas norte-americanos. A coisa é de tal ordem que já nem sequer provocam um esgar. A princípio, a gente ria-se. E até comentava. Agora, tende a ficar indiferente. É que os estudos que vêm a público limitam-se a constatar o óbvio.
Este que aqui nos traz é sobre a fraca adesão que os blogues encontram junto dos adolescentes norte-americanos. O que é algo muito assustador. A capacidade de um adolescente expor pontos de vista e ter algo a dizer é, como se sabe, imensa. Os maiores escritores são sempre os adolescentes. Conseguem dizer muito em poucas palavras. Isto para não falarmos de erros ortográficos ou de construções frásicas quase hilariantes. O que não quer dizer que não haja um ou outro capaz de se expressar, de defender ideias e pontos de vista ou de tomar partido sem se limitar a ser básico. Mas para um quantos são absolutamente primários?
A necessidade de pertença a um grupo e a unanimidade de "opiniões" caracteriza-os, juntamente com um conjunto de valores que julgam seus e quase sempre são apenas modas. As redes sociais que dão voz a esse tédio grupal só podem ter sucesso junto deles. Como as têm gente dos carentes afectivos aquelas que se destinam a supostos encontros românticos ou de amizade.
Segundo um gestor de redes sociais na Mayo Clinic, citado pela edição online do "USA Today e traduzido pelo Público, "o Twitter é uma seca" e o Facebook tem mais sucesso entre os mais jovens porque permite que os utilizadores conversem em tempo real, através das salas de chat. As opiniões desse indivíduo, que partilha com o seu filho de 15 anos, mostram como o negócio dos adolescentes é altamente apetecido, quiçá por lucrativo nos EUA, quer para quem o disponibiliza, quer para quem dele se serve.


03 fevereiro 2010

Chopin no espaço

A música do compositor polaco Fryderyk Franciszek Chopin irá para o espaço a bordo do vaivém espacial americano Endeavour, no próximo dia sete de Fevereiro do Cabo Canaveral (Florida, Estados Unidos).
A coisa acontece sob os auspícios da embaixada da Polónia nos Estados Unidos, que entregou um CD com música de Chopin à tripulação do Endeavour, dirigida por um astronauta de origem polaca, George Zamka. O objectivo é pôr em órbita algumas das composições do pianista, a fim de comemorar o bicentenário do nascimento do compositor (1810-1849). Em Março haverá outra cerimónia, desta feita em Varsóvia, com a inauguração de um museu que lhe é dedicado e de uma rota turística pela cidade, com os lugares que lhe serviram de inspiração.


02 fevereiro 2010

Caius Maecenas

Caio Mecenas, etrusco que foi conselheiro e homem da confiança do imperador Octávio Augusto, é sobretudo recordado como patrocinador de escritores: Virgilio, Horácio, Propércio, Vario, entre outros. Diz-se que a Virgilio lhe sugeriu o tema das suas Geórgicas sob os auspícios do próprio imperador, que acabaria por retirar o seu apoio a Mecenas, num desses gestos magnânimos em que os imperadores sempre foram pródigos.
Mecenas foi também o homem que introduziu em Roma as piscinas de água quente. O homem cujo nome ficou para sempre como símbolo de apoio às artes.
Em sua honra, aqui fica este breve apontamento, a que havemos de voltar em breve.

FMI


O Fundo da Mentira Internacional é uma instituição humanitária que visa divertir-nos a todos, dizendo ao governo de cada país o que deve e não deve fazer para que a mentira continue.
Antes da crise internacional, o papel do FMI foi relevante quer na prevenção, quer no impedimento da mesma. A crise, maldosa, é que fintou a mentira e pôs-se a dar estouros que se fizeram ouvir no mundo inteiro.
O FMI ficou aborrecido, mas continua a ter de justificar a sua existência. E como nada pode fazer no país onde tem sede, adora mandar recados aos países que considera mais fracos. A debilidade sempre propaga melhor o ruído.
Ora, considera o FMI que Grécia, Portugal e Espanha têm de reduzir salários. Para quê? Para se tornarem mais competitivos. Nada como obrigar as pessoas a trabalhar de borla, tudo fica muito competitivo, que o digam países como a China e a Índia, onde a mão-de-obra é ao preço da chuva. São altamente competitivos. Em nenhum país se vivem tão bem como naqueles dois. Mesmo os do FMI têm lá casa.
Olivier Blanchard é um verdadeiro cómico. Para ele a riqueza é apenas o comércio. O trabalho já não prece corresponder a nada, exceto se for gatruito. O próprio Olivier Blanchard dá o exemplo: trabalha muito e de borla, contribuindo assim pata o enriquecimento do seu país.

Bebedeiras



Constataram em Coimbra que as raparigas bebem tanto quanto os rapazes. Mas nelas os efeitos são mais acelerados. Dizem que por causa da menor quantidade de água no organismo, do peso corporal e duma menor capacidade do fígado de degradar o álcool.

O perigo é bom e recomenda-se


Pode haver quem deite as mãos à cabeça ao pensar no assunto, mas a verdade é que precisamos de adrenalina. Nós e as crianças. Caso contrário tudo se torna num imenso vazio.
A mania da segurança e da higiene fragilizam-nos. Tornam-nos seres de estufa. As estufas são muito engraçadas enquanto duram. O pior é podermos ser confrontados, a qualquer momento, com situações e acontecimentos que vão pôr à prova a nossa resistência. Pode ser o clima, pode ser uma catástrofe, pode ser um conflito.
Não deixa de ser curioso ver que uma educadora de infância, Julie Spiegler, e o marido, Gever Tulley, informático, tenham escrito Fifty Dangerous Things (You Should Let Your Children Do). Um livro que desafia os pais a deixaram as crianças correrem riscos. Depois de ter sido recusado por 16 editoras receosas de eventuais processos levantados por pais cujas crianças se magoassem no seguimento das propostas do livro, o livro tem-se vendido bem nos EUA.
Pular a cerca é sempre uma aventura. Mesmo que apenas seja a cerca do politicamente correcto.

31 janeiro 2010

Rui Ramos ao Público

«[...] não é verdade, como escreve Nuno Monteiro, que mesmo no seu apogeu Portugal fosse uma grande potência. Tivemos sempre de jogar com os diferentes poderes e aproveitámos apenas uma janela de oportunidade. Mal apareceram concorrentes mais fortes deixámos de ser uma potência determinante no Oriente. Pensar que podíamos manter o domínio do Índico para lá do século XVI é pensar que tínhamos uma força que nunca tivemos.

Mas passou por cá uma enorme quantidade de riqueza que não criou raízes. Porquê?

Esse período não é a minha especialidade, mas muito provavelmente não criou raízes porque Portugal já era um país pobre, e já então quando se atirava dinheiro para cima de um país pobre ele desaparecia. E éramos um país pobre no sentido em que não possuíamos estruturas para produzir riqueza de forma auto-sustentada. O dinheiro que por cá passava era utilizado pelas elites para comprarem luxos onde eles eram manufacturados: no Norte de Itália, no Norte da Alemanha e nos Países Baixos. Regiões que são ricas hoje como o eram no século passado ou no século XVI. Ou mesmo no século XII. Basta olharmos para as nossas igrejas medievais e para as nossas obras do Renascimento e ver o que se fazia nesses países.

Como explicar a capacidade de outros países europeus que eram pobres, marginais e muito atrasados mas saltaram para o pelotão da frente?

O que a investigação de história económica mais recente nos mostra é que houve quase sempre limitações de recursos e de oportunidades em Portugal. Quando existiam oportunidades, os portugueses sabiam agarrá-las - quanto mais não fosse emigrando. Por outro lado, no momento decisivo do salto em frente no século XIX, Portugal não tinha um conjunto de recursos naturais muito importantes, a começar pela impossibilidade de produzir, a preços competitivos, os alimentos mais procurados. Só tínhamos o vinho, mais nada. Há também outras razões, algumas delas culturais: também não tínhamos gente preparada, gente letrada em quantidade suficiente.

Portugal foi um país que nunca estimulou os homens livres. Pelo contrário, sempre houve uma tendência para ricos e pobres se encostarem ao Estado. Porquê?

Uma explicação para isso tem a ver com a dimensão ultramarina de Portugal, que permitiu que o Estado se soltasse da sociedade. O Estado não necessitava de cobrar impostos nem de estimular o desenvolvimento, pois os proventos não lhe vinham da metrópole mas da pimenta das Índias ou do ouro do Brasil. Isso criou um poder político centrado em Lisboa, transformada quase em cidade-estado onde tudo se passava, à margem de um interior rural e pobre com que ninguém se preocupava. E quem queria pertencer à elite tinha de vir para a Corte. A nossa aristocracia, ao contrário da aristocracia inglesa ou da aristocracia prussiana, não era terratenente, vivia de rendimentos públicos. Houve sempre um Estado maior do que o país e do que a sociedade devido à realidade ultramarina. Quando se perde o Brasil, passamos a ter um Estado que desconfia da sociedade, que acha que ela não se sabe governar. Encontramos essa mentalidade nos liberais, nos republicanos e nos salazaristas. Todos entendem que têm a missão histórica de arrastar a sociedade para o que entendem por bem comum. Lutam os liberais e os republicanos contra uma sociedade que vêem como tradicionalista e reaccionária, lutam os salazaristas contra uma sociedade que vêem como individualista e anárquica.

Todo esse discurso aponta para um momento de corte, como se houvesse um Portugal do Antigo Regime e um Portugal pós-Revolução Liberal. É isso?

Sim, e esta é porventura uma das novidades desta "História de Portugal" para alguns leitores: a grande revolução em Portugal nos últimos 200 anos foi a Revolução Liberal, foi aquela que mudou realmente o mundo político e cortou todas as pontes com o passado.

[...] Há um país antes de 1820, ou mais exactamente antes de 1832-34, e outro depois. Na República não mudam os paradigmas, com o triunfo da Revolução Liberal mudou tudo na relação dos portugueses com o Estado. Como disse Almeida Garret, foi nessa altura que um Portugal Velho acabou e começou um Portugal Novo. Todas as instituições, algumas delas seculares, desapareceram. Até acabou a velha relação das pessoas com a terra, que não correspondia à ideia de propriedade individual e absoluta dos dias de hoje. O mapa dos concelhos é todo alterado, na prática destruiu-se um poder municipal que vinha desde o nascimento do país. É também então que começa realmente a separação de poderes. Mas a "maior revolução social da história portuguesa", como se lhe referiu Alexandre Herculano, também destruiu as condições para um equilíbrio entre o Estado e a sociedade que permitisse a modernização, no contexto de uma sociedade tradicional que vai evoluindo sem destruir.

[...]

O que é que alguém que queira pensar Portugal hoje pode retirar desta História?

Pode perceber que Portugal não começou ontem, que existem condicionantes que vêm do passado, pode até verificar que algumas soluções já foram tentadas no passado, como os programas desenvolvimentistas de obras públicas, e que não deram resultado. Mas a história também é importante para percebermos a nossa inerradicável pluralidade. Não permite um discurso uniformizador sobre "o português"...

Então livros como "O Medo de Existir", de José Gil, não fazem sentido...

Tenho sempre uma enorme dificuldade em compreender as obras que passam por uma antropomorfização de Portugal, como se Portugal estivesse ali ao lado sentado a tomar café. Há dez milhões de portugueses, logo há dez milhões de maneiras diferentes de se ser português. A alternativa a esse discurso é uma História de Portugal que não procura uma explicação filosófica geral. Temos muitas coisas comuns, mas o fado é de Lisboa e o vinho verde tinto é do Norte Litoral. Não tentemos esconder a pluralidade nem substituí-la por uma qualquer leitura secular do velho providencialismo divino.»

Fonte: Y

30 janeiro 2010

Joaquim Manuel Magalhães

Benjoim


Regresso ao silêncio da sala,
à plana doçura do inverno,
a campainha que não vai tocar.

*

Com talos de couve e uma bola de pau
jogávamos (a quê?) quando um professor
faltava. Apenas os traidores.

*

Os elefantes são por natureza
melancólicos, têm medos,
torturados por sonhos ferozes.

*

É sempre a pior gente
que primeiro não acredita.
E sempre a pior gente
que depois não deixa de acreditar.

*

De noite, às escondidas.


[in Uma luz com toldo vermelho, Presença, 1990, pág. 60]

Jorge de Sena

Para bellum

Protestos, livros, poemas, sacrifícios,
a história analisada e desmascarada: a paz
e não a guerra desde sempre a guerra.
É velho tudo isto. Há malandros
para ganhar com as guerras, há patriotas
para mandar os outros morrer nelas, há
heróis ou não heróis que morrem nelas,
há multidões para serem massacradas.
Eu protesto, tu protestas, ele protesta, etc.
E nada muda, ou muda para mais.
Antigamente, os faraós ao contar os mortos inimigos
nunca os próprios mortos) exageravam - evidente.
Hoje, os comunicados cometem sempre esse exagero
e a mesma distracção discreta). Mas há sempre
humanidade com vocação para matar e multidões
com vocação vacum para cadáver.
E neste cheiro a podre milenário - vale a pena
sequer dizer que são filhos da puta?

Dec. 3/1970

[in Visão Perpétua, Edições 70, pág. 123]

Cultura e ex-ministra da pasta

"O primeiro-ministro identificou o pouco investimento em Cultura como um erro da sua governação, admitindo que talvez devesse ter investido em Cultura como fizera em Ciência."

"Ainda não será desta que a promessa "reforçar o orçamento da Cultura" será cumprida, apesar do simpático mas aparente aumento na estimativa global da despesa de 12,8%, anunciado sem detalhes por alguma comunicação social. Todavia esta informação do OE importa ser complementada por outra que faz o sector Cultura corresponder a 0,1% do PIB e a 0,4% do OE, crescendo 0,1%."

"Estamos nuns tímidos 0,4%; em 2005, estávamos em 0,6% [do Orçamento de Estado para a Cultura]."

"A Cultura continua, pois, não sendo alçada a prioridade política, facto incompreensível quando recente estudo independente revela que, em 2006, o sector cultural e criativo representou 2,8% da riqueza produzida em Portugal e criou 2,6% do emprego. Isto para só falarmos em números..."

"Replica-se a gasta e ultrapassada fórmula de, em época de vacas magras, não alimentar a Cultura, mesmo que o paradigma de desenvolvimento tenha mudado, revelando que o que ela produz é potenciador de energia criativa e económica na sociedade da inovação de hoje."

Isabel Pires de Lima no i online

Quer dar uma conferência na Gulbenkian?


Precisa apenas de duas coisas: 1ª ser americano; 2ª ser um perito em disparates.
Veja-se: Paul Pastorek, superintendente para a Educação no estado de Luisiana nos EUA afirmou que «se o aluno chumba o ano, a culpa é do professor; se o aluno desiste de estudar, a culpa também é do professor; e se o aluno falta às aulas, a culpa é outra vez do professor. O sucesso escolar de uma criança está sempre nas mãos do professor. Nem as origens socioeconómicas nem o contexto familiar servem de justificação - a culpa é sempre da escola, que não soube encontrar as estratégias certas para ensinar os seus alunos.»
O mais extraordinário é que há muita gente que precisa de ouvir disparates. Sobretudo se forem ditos em inglês. Soam muito melhor. Não é que uma tal audiência tenha sentido de humor. É que se sente muito menos diminuída.
Quem anda em transportes públicos ou frequenta cafés e ouve as explicações que os portugueses encontram, sabe que somos um povo especialmente dotado para acreditar em aparições, em bruxas e noutras maravilhas. Um português sempre descobre as razões secretas e é sempre capaz de explicar o inexplicável. Somos altamente dotados para as ciências e para a Verdade.
Voltando à escola, sabe quem por lá anda que a escola é o sítio onde se desenham saídas e prisões. Saídas para os que desenvolvem capacidades. Prisões para os que jamais conseguem sair do mundo fechado em que nasceram e onde vivem.
Em Portugal ainda há poucas escolas para ricos, mas são muitos os que querem que haja mais, pois o negócio é, de facto, apetecível. Na América, há a escola pública para os pobres e escolas para os endinheirados. Aos pobres há que alimentar a ilusão de pertença, conduzi-los, qual gado manso, ao redil e mantê-los entretidos. Serão aquela mão-de-obra barata de que precisam os empresários pequenos.
Sempre houve gente capaz de defender que a individualidade não existe, que apenas interessa a manada. E se a manada faz X, todos têm que fazer X. Porque isso é do alto interesse de meia dúzia de senhores.
Às vezes, ainda parece possível haver quem saiba que só se pode aprender quando se tem interesse, quando há uma motivação própria, individual. Mas isso será cada vez mais uma visão minoritária. O que é preciso, cada vez mais, é ter bem identificados os alvos a abater. Porque assim andamos todos mais seguros, mesmo que vivamos dentro de uma imensa mentira.
Que o diga o pastor Pastorek.

28 janeiro 2010

Jerome David Salinger (1919 - 2010)



Morreu (ver aqui) um ícone da literatura pop americana. Salinger há muito não publicava nada, mas periodicamente a imprensa americana servia-se dele para alimentar o mito. A editora precisava de continuar a vender o autor para lhe pagar o que havia sido acordado.
Era budista e detestava que o procurassem, que o fotografassem, que se metessem na sua vida. Os livros que escreveu e lemos não são grande coisa. O que lhe deu a fama (The Catcher in the Rye / À Espera no Centeio, 1951) teve o mérito de falar em linguagem de todos do que era um tabu na puritana sociedade americana e fazê-lo pela voz de um adolescente. Como a América é o país dos adolescentes, a coisa foi um sucesso. E quando os adolescentes chegam a velhos, recordam-se dos "anos loucos" da juventude e... um círculo que rendeu.
As anedotas são quase tão interessantes como as histórias do autor. Agora, veremos se a pouco e pouco saem livros que tenha deixados escritos que valham a pena ler.

De cada vez que abre a boca sai asneira



Que o engenheiro é vaidoso, todos sabíamos. Que sabe vender o seu peixe ,também. Que está tão inchado que mais parece um sapo... idem.
Ajudem-me a perceber como é que alguém supostamente responsável (e criador de tantos empregos - a demagogia da criação de empregos é tão doce nos nossos dias, que eu próprio estou a pensar criar uma empresa e empregar mil pessoas de cada vez, com salários adequados, assim coisa proporcional ao que paga Belmiro com os lucros que tem, ou seja, um euro por cabeça) tem necessidade de vir com as atoardas que a Visão publicou.
Soa-me a duas coisas, ressentimento e negócios em vista. Belmiro está-se nas tintas para o resto. Ou há muito teria aumentado os salários mais baixos, em época de vacas gordas. E não só não fez, como sempre foi pródigo em utilizar mão-de-obra barata, precária e tratada quase como gado. Repare-se que ele quer aumentar salários é aos gestores, pois são eles que sujam as mãos e encontram estratégias para contornar leis laborais e outras minudências.
Os patrões portugueses nunca defenderam senão o lucro próprio, o resto é fogo de vista para seduzir os papalvos que se babam de contentamento sempre que uma abécula maldiz a classe política.
Outro exemplo é o douto Ricardo Salgado, que considera que a tributação sobre bónus e rendimentos variáveis de administradores e gestores pode levar a que “gente muito valiosa” abandone Portugal para trabalhar noutro país.
As bandeiras cheias de fantasmas fazem lembrar os piratas. Será que Salgado deu em pirata?
Azevedo e Salgado, duas faces da mesma grandeza de Portugal: oportunismo.

27 janeiro 2010

Diopatra micrura, o novo verme marinho


De cor acastanhada, o verme tem à volta de seis centímetros de comprimento. Cinco antenas com umas riscas azuis servem de órgãos sensoriais, que detectam substâncias químicas no ambiente e funcionam também como sensores tácteis.
Ao longo de parte do corpo, apresenta uns esporos que se assemelham a árvores, os órgãos de respiração (as brânquias).
Este verme foi encontrado pela bióloga Adília Pires num dos braços principais da ria de Aveiro – o canal de Mira.
Até há pouco, apenas se conhecia um primo deste verme marinho na Europa, o Diopatra neapolitana, identificado em meados do século XIX, e conhecido pelo seu interesse económico, pois é vendido como isco na pesca. Desempenha um papel ecológico importante na cadeia alimentar: aves, peixes e outros animais comem-no. Na zona da ria de Aveiro, chamam-lhe “casulo”, porque constrói um tubo e vive dentro dele. Esse tubo é fabricado através do muco segregado pelo animal, ao qual aderem partículas de sedimentos, pedaços de conchas, algas, entre outras coisas. O tubo não se mexe, pois encontra-se preso ao chão. O animal sai dele para se alimentar.
O Diopatra micrura também constrói um tubo, só que um pouco mais pequeno.
Na mesma ria de Aveiro já os biólogos se tinham deparado com uma outra espécie de verme marinho, o Diopatra marocensis, até então apenas identificado na costa de Marrocos.

Fontes: 1, 2, 3

Para onde vai o dinheiro dos contribuintes?


Segundo o orçamento de 2010 vai em primeiro lugar para as Finanças (que leva quase 18 mil e 400 milhões de euros). Segue-se a Saúde, que fica com 9500 milhões. Ao ministério do Trabalho cabe-lhe quase 9 mil milhões. A Educação recebe 7275 milhões, sendo que parte disso é para obras, ou seja, deveria ter sido contabilizado na conta respectiva, que apenas recebe 413 milhões de euros. A Defesa e a Administração Interna recebem, respectivamente, 2440,5 milhões e 2016,2 milhões. À Justiça vão parar 1720,4 milhões, menos do que a Ciência que recebe 2559,7 milhões, mas mais do que a Agricultura, que tem direito a 1271,4 milhões.
A propaganda (Presidência do Conselho de Ministros) recebe mais do que a Cultura: 318,5 contra 236,3 milhões. O que mostra bem como este governo não descura o sector da informação (parte do bolo destina-se precisamente a encher os cofres de televisões, agências de publicidade, rádios, revistas e jornais).
Como diz Saldanha Sanches, o “Estado está recheado” de despesas supérfluas. E o que se faz para combater isso? “Foi-se para uma espécie de dieta geral, como alguém que tentasse emagrecer sem perder gordura”.

26 janeiro 2010

Achegas para o modernismo


Diz a notícia que «A ilustração foi o modo mais fácil para a entrada do modernismo em Portugal. A conclusão é da investigadora Theresa Lobo, que, ao longo de 20 anos, procedeu a um levantamento sobre ilustração portuguesa entre 1910 e 1940.»
No entanto, segundo se pode ler linhas abaixo, não foi bem assim. Diz-se que «os ilustradores portugueses recorreram muito aos magazines, aos jornais e aos cartazes. Estes suportes "eram imensos laboratórios, onde também realizaram as fórmulas de uma modernidade, que, dessa forma, penetrou lentamente na sociedade", refere a investigadora. Nesse sentido, " os magazines eram um campo de experimentação ideal para os novos ilustradores marcarem a sua estética".»
Ora o que se verifica é que os ilustradores, os artistas precisavam de sobreviver e os jornais, as revistas, os magazines foram o ganha-pão. Alguns, pelo seu talento, deixaram seguidores e contribuíram para divulgar o modernismo em Portugal. Mas será preciso ter em conta que Portugal viveu fechado ao mundo durante uma longa ditadura, o que impediu a livre circulação de pessoas e bens. Alguns, poucos, tinham oportunidade de sair do país ou de adquirirem informação proveniente de França.
Indiscutível é a aliança entre as melhores revistas literárias e um certo gosto gráfico. Mas sem objectos ricos como foi comum em França, na Bélgica, na Suíça e noutros países europeus.
Portugal não tinha nem uma burguesia culta nem uma classe média suficientemente letrada para voos maiores.
O modernismo foi coisa de minorias e ainda hoje perdura na sociedade portuguesa um entendimento das artes onde se mistura o naturalismo com o neo-realismo, caldeados com uns laivos de surrealismo serôdio, que configura um caldo requentado que torna difícil a vida a quantos procuram criar. Caldo que o Estado Novo divulgou com fervor, juntamente com o sector intelectual da altura do Partido Comunista.
A pouco e pouco as coisas foram mudando, mais pelo lado da literatura do que das artes plásticas, embora um ou outro nome tenha começado a marcar a diferença.

25 janeiro 2010

Falhas da medicina

Em muitos aspectos, a medicina é um jogo de possibilidades. Jogo que, nas mãos da indústria farmacêutica, permite encaixes de muitos milhões. Se a isso lhe associarmos medos primários e manipulação da opinião pública, temos o caldo ideal para o embuste perfeito.
Há quem grite aqui d'el-rei há muito. Há quem insista, depois de verificado o exagero, num escândalo. O presidente da comissão de Saúde da assembleia parlamentar do Conselho da Europa, Wolfgang Wodarg, considerou que no caso da gripe A se assistiu "ao maior escândalo médico do século" e acusou a OMS de ter "relações impróprias" com as empresas do sector farmacêutico. Na sua opinião, o alarme era escusado o e custou muito dinheiro aos governos - só na Europa, foram gastos 5 mil milhões de euros com as vacinas, nota, acrescentando que este investimento resultou da pressão da indústria farmacêutica.
Os governos abriram os cordões à bolsa para mostrar à população dos seus países que estavam empenhados em cuidar da saúde pública. O problema é terem gasto quantias exorbitantes com algo que se revelou um flop. Só em Portugal, os impactos financeiros directos da gripe A nos custos do Estado português ascendiam, em Outubro passado, a 67,5 milhões de euros com a compra de vacinas. Por apurar estão ainda os custos indirectos (perdas em IRS, as contribuições para a Segurança Social e subsídio de doença), dependendo da evolução da pandemia, mas um estudo efectuado pela Deloitte, em colaboração com a Intelligent Life Solutions, refere que os custos para o Estado estão estimados em 330 a 500 milhões de euros. Se se contar com o absentismo laboral, a Deloitte estima que a gripe A poderá originar uma redução do Produto Interno Bruto (PIB) nacional entre os 0,3 e os 0,45 por cento, ou seja, entre os 490 e os 740 milhões de euros.

24 janeiro 2010

Angola, Angola


Segundo a Organização pela Transparência Internacional, a República angolana faz parte da lista dos 18 países mais corruptos do mundo.
Nos países corruptos, a manutenção do poder faz-se a todo o custo. Angola resolveu o assunto de um modo simples, para fazer de conta que é um país democrático: «O parlamento angolano aprovou ontem uma nova Constituição que vai acabar com as eleições directas para o cargo do presidente de Angola. O novo texto entra em vigor já em Março e prevê que o presidente do país passe a acumular funções de chefe de Estado e de governo, congregando na sua figura a totalidade do poder executivo.»
Ou seja, a nova Constituição angolana garante liderança vitalícia a José Eduardo dos Santos e aumenta-lhe os poderes.
Angola mantém-se no ranking dos países com menor índice de desenvolvimento humano, mas denuncia um dos maiores níveis de crescimento económico do mundo. Quase imune à crise mundial, prevê-se que o país cresça 6,5% este ano, acelerando até 8,7% em 2011, adianta o Banco Mundial.
O crescimento económico, claro, vai parar aos bolsos de meia dúzia. De resto, cerca de 116 mil pessoas morrem anualmente em Angola devido às más condições ambientais, principalmente da água e ar, de acordo com um estudo divulgado nesta quarta-feira pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Isto para não falarmos das centenas de pessoas que continuam a morrer de fome por dia. Entretanto, alguns sorriem...

23 janeiro 2010

Sexo e poesia


Com o título Sexo na rua: onde é que eles têm a cabeça? pode ler-se no i-online uma breve reportagem sobre quem gosta de ter relações sexuais no cinema, em vestiários de lojas, em parques de estacionamento, em transportes públicos e noutros lugares públicos. O que me fez recordar um poema que LP traduziu e postou por estes dias no seu Do trapézio, sem rede e que transcrevemos com a devida vénia. Às vezes, a vida e a poesia espelham-se. Às vezes, a poesia é apenas um vazio imenso, que procura transformar a língua numa matéria viscosa, afim da merda. Infelizmente, quer por cá, quer em muitos outros países há quem entenda a poesia como puro experimentalismo, assim algo afim do onanismo. Nós por cá preferimos outro tipo de prazeres.

Encontro na cidade

Eles estavam a defecar em público, disse ele,
e outro disse,
e a copular também,
e eu pensei, quantos, mil?
Todos os sem-abrigo estavam a coupular em público? Que espectáculo.
Então alguém disse,
não eram todos os sem-abrigo,
e nós pudemos respirar melhor,
só uns quinze, se tantos, e eu pensei
que mesmo assim eram uns quantos para fazerem aquilo em público,
mas quando já estávamos no fim
parecia
que só tinha sido uma de cada:
uma cópula, uma defecação,
e então alguém acabou por dizer,
não é preciso ser um sem-abrigo para se fazer isso.

Poema de Doug Anderson, traduzido por LP, a partir de original reproduzido em Poetry like Bread, poets of the political imagination, selecção de Martín Espada, Curbstone Press, 4ª edição, 2007, p. 42).

Walton Ford





Sorte grande

Detido sob acusação de esfaqueamento, o homem pensou que os deuses são, de facto, doidos. Estava ele na esquadra quando viu que estava milionário. Tinha-lhe acabado de sair o euromilhões. Milionário é uma forma de dizer, pois a ele apenas lhe coube um prémio de seis mil euros. Mas para quem acabara de assaltar um empresário, a fim de lhe sacar uma pasta com dinheiro e cheques, a coisa soou-lhe a piada. A história real pode ser lida aqui.


22 janeiro 2010

Joaquim Manuel Magalhães

Teorias Literárias

3

O poeta era brasileiro e de turismo.
Na meia língua dos dois ensaboou-me
com um baião de galanteria .
Loas de grasnar a tolo e, é claro, o
talmente verdade a sua ladainha.

Emplumei-me de rubores a consentir
tudo o que requeria: introduções,
selecções, montras de livraria. Um festim
de recalques borbulhava compensado:
«Faça o que quiser. A sei eu autorizo.»

O brasileiro resfolegava de elogios.
Ganhara as férias, tinha pronta a lista
da antologia e mesmo em editora de segunda
já palmara em troca agradecida um
piqueno florilégio luso de versos seus.

Aviões passavam para bem mais longe
às seis da tarde desse dia.
Calcados pela vigarice, no super
mercado de abraços, esgueirámo-nos
cada um para a sua maravilha.

[in Alguns livros reunidos, Contexto, 1987, pág. 117]

Jorge de Sena

«Ser um grande poeta»


Ser um grande poeta
morto e nacional
é atrair as moscas
como idiotas e
os idiotas como
moscas.

Ser um poeta medíocre
vivo e universal
é atrair os catedráticos
de literatura como
idiotas e moscas.

Ser um poeta apenas
nem vivo nem morto
ou nacional ou universal
é atrair apenas os poetas
como moscas idiotas.

Moralidade: não há saída.

Maio/1970

[in Visão Perpétua, edições 70, 1989, pág. 116]

21 janeiro 2010

A justiça em Portugal é uma farsa


«Infelizmente em Portugal existe o segredo de justiça para dar cobertura à negligência e incompetência e para fazer julgamentos na praça pública. É melhor acabar com essa farsa.»

O segredo de justiça «é uma farsa» que tem servido para «dar cobertura à negligência e à incompetência e para fazer julgamentos na praça pública.»

«a divulgação de conteúdos em segredo de justiça serve para criar alarme social para efeitos processuais e é instrumento para criar juízos de culpabilidade na opinião pública.»

Marinho Pinto, bastonário da Ordem dos Advogados

Fonte 1 e 2

A saúde em Portugal é um luxo


Há muita gente que gasta mensalmente fortunas em medicamentos. Mas não são essas que usam a net para adquirir a posologia necessária ao seu bem-estar.
Recorre à net quem a domina e sabe onde procurar ou os que se deixam seduzir pelos anúncios que aparecem nos motores de pesquisa, disfarçados de informação (o que ajuda a perceber o grande negócio que é o Google).
Mas nem por isso deixa de se colocar a questão de os remédios serem abusivamente caros para a grande maioria dos cidadão portugueses. Aliás, a saúde é, em geral, coisa para os ricos, pois apenas os ricos podem pagar médicos privados, clínicas, exames (TACs, endoscopias, ecografias, etc.) e tratamentos em tempo útil. O resto da população sobrevive ao ritmo dos prazos alargados de marcação de consultas, a clínicos gerais apressados, a muitas horas passadas em filas de espera, em triagens e noutras quantas peripécias que procuram conferir ao atendimento uma aparência de funcionalidade.
A ideia geral é, claro, a de que a medicina funciona mal e é cara. Quem pode, tenta contorná-la recorrendo à net, onde abundam os sítios com informação médica (verdadeira? falsa? perigosa?).
A saúde é um grande negócio em qualquer parte do mundo. E se já não há tanta gente a acreditar em feiticeiros, muitos haverá que ainda olham para o médico como um primo afastado, capaz de resolver tudo só por ter o paciente diante de si.
O papel paliativo e mágico da net surge aos olhos de uns quantos como uma boa alternativa às consultas onerosas, excessivamente rápidas e aborrecidas dos consultórios ou clínicas das especialidades. Além disso, algumas pessoas ficam embaraçadas em ter que expor os seus problemas a um estranho. Não espanta que cerca de 46 por cento dos medicamentos comprados online se destinem ao emagrecimento ou que 16,7 por cento sejam anti-depressivos. Ou que haja procura de medicamentos para aumentar a massa muscular (15 por cento), dos que se destinam a curar a disfunção eréctil (seis por cento) ou dos destinados às doenças do foro oncológico (quatro por cento).

20 janeiro 2010

Infantilidades do mundo moderno


Há milhares que sofrem de disfunção eréctil. Outros, estão bem. Tão bem que sofrem... por ser figuras públicas. Que o diga o golfista norte-americano, Tiger Woods, internado numa clínica especializada na cura da "adicção sexual", de Hattiesburg, Mississippi.
Inventam-se adições como quem inventa novas funcionalidades informáticas: para fazer negócio. O problema, estamos em crer, é a diferença entre o homem e a máquina. Um dia, estas manias de agora afectar-nos-ão a todos. O que será uma grande oportunidade de negócio para psicólogos e clínicos. Mas convém não esquecer que a fertilidade nos países desenvolvidos está em acentuado declínio e que a eugenia é um assunto muito perigoso (pelo menos, ao tempo dos nazis era; se calhar agora, com o selo das clínicas especializadas, já deixou de ser).

19 janeiro 2010

Dayanita Singh




Manuel de Freitas

Fortinbras says


Que estão nus, não valem nada
os poetas aclamados pela plebe
- o que é, infelizmente, verdade.

Que já vai sendo hora de bebermos
juntos um Jim Beam Black
- o que é, de outra maneira, verdade.

Que a canalha crítica, académica,
jornaleira ou mediática muito dificilmente
se consegue furtar ao grande peido geral.

E é verdade, também,

que morreram príncipes e princesas,
que já não há palavras
no reino deserto das palavras.

É tudo tão verdade, Fortinbras,
que nos apaetece mentir com dignidade,
espancar sem decoro as bestas que progridem.

E esquecer, de vez, que a vida
é um riso inútil,
sem máscara nem chicote.

Morre apenas, a vida,
torna-se verdadeiramente extinta,
insinuando, em cada grito, o silêncio
de que já não fomos capazes.

[in "Telhados de Vidro", nº. 13, págs. 31-32]

18 janeiro 2010

Abraçados para a eternidade


No Campo de Hockey de San Fernando (Cádiz), houve lugar a um achado arqueológico pouco comum: dois esqueletos abraçados há seis mil anos, frente a frente, com os membros inferiores e superiores entrelaçados, no que se designa como motivo dos namorados.
Há três anos, em Itália, um grupo de arqueólogos italianos descobriu na cidade de Mântua uma sepultura com dois esqueletos abraçados, que dataram de há mais de seis mil anos. Pelas ossadas concluiu-se que o par era ainda jovem. Ao achado denominaram-no "Os amantes de Valardo".
No caso do achado espanhol, estamos em presença de um esqueleto de uma rapariga à roda dos 12 anos e do esqueleto de um adulto (ainda não se determinou o género) entre os 35 e os 40 anos. Tanto pode ser um casal como uma dupla parental ou maternal, já que ambas as hipóteses encaixam nas vivências da época (neolítico).

Fonte: ABC

17 janeiro 2010

Luis García Montero

V

Tú me llamas, amor, yo cojo un taxi,
cruzo la desmedida realidad
de febrero por verte,
el mundo transitorio que me ofrece
un asiento de atrás,
su refugiada bóveda de sueños,
luces intermitentes como conversaciones,
letreros encendidos en la brisa,
que no son el destino,
pero que están escritos encima de nosotros.

Ya sé que tus palabras no tendrán
ese tono lujoso, que los aires
inquietos de tu pelo
guardarán la nostalgia artificial
del sótano sin luz donde me esperas,
y que, por fin, mañana
al despertarte,
entre olvidos a medias y detalles
sacados de contexto,
tendrás piedad o miedo de ti misma,
vergüenza o dignidad, incertidumbre
y acaso el lujurioso malestar,
el golpe que nos dejan
las historias contadas una noche de insomnio.

Pero también sabemos que sería
peor y más costoso
llevárselas a casa, no esconder su cadáver
en el humo de un bar.

Yo vengo sin idiomas desde mi soledad,
y sin idiomas voy hacia la tuya.
No hay nada que decir,
pero supongo
que hablaremos desnudos sobre esto,
algo después, quitándole importancia,
avivando los ritmos del pasado,
las cosas que están lejos
y que ya no nos duelen.

[in Diario cómplice, Hiperión, 1987]

Luis Alberto de Cuenca

Mal de Ausencia

Desde que tu te fuiste, no sabes quê despacio
pasa el tiempo en Madrid. He visto una película
que ha terminado apenas hace un siglo.
No sabes quê lento corre el mundo sin ti, novia lejana.

Mis amigos me dicen que vuelva a ser el mismo,
que pudre el corazón tanta melancolía,
que tu ausencia no vale tanta ansiedad inútil,
que parezco un ejemplo de subliteratura.

Pero tu te has llevado mi paz en tu maleta,
los hilos del telefono, la calle en a que vivo.
Tú has mandado a mi casa tropas ecologistas
a saquear mi alma contaminada y triste.

Y, para colmo, sigo soñando con gigantes
y contigo, desnuda, besándoles las manos.
Con dioses a caballo que destruyen Europa
y cautiva te guardan hasta que yo esté muerto.

[in Los mundos y los días. Poesía 1972-1998, Visor, pág. 132]

Voy a escribir un libro

Voy a escribir un libro que hable de las (poquísimas)
mujeres de mi vida. De mi primera novia,
que me enseñó el amor y las puertas secretas
del cielo y del infierno; de Isabel, que se fue
al país de los sueños con el pequeño Nemo,
porque aquí lo pasaba fatal; de Margarita,
recordando unos jeans blancos y unos lunares
estratégicamente dispuestos; de Ginebra,
que dejó a Lanzarote plantado por mi culpa
y fundó una familia respetable a mi costa;
de Susana, que sigue tan guapa como entonces;
de Macarena, un dulce que me amargó la vida
dos veranos enteros; de Carmen, que era bruja
y veía el futuro con ojos de muchacho;
de la red que guardaba los cabellos de Paula
cuando me enamore de su melancolía;
de Arancha, de Paloma, de Marta y de Teresa;
de sus besos, que izaron la bandera del triunfo
sobre la negra muerte, y también de su helado
desdén, que recluyó tantas veces mi espíritu
en la triste mazmorra de la desesperanza.
Voy a escribir un libro que hable de las mujeres
que han escrito mi vida.

[in Los mundos y los días. Poesía 1972-1998, Visor, pág. 281]

Cuando vivías en la Castellana

Cuando vivías en la Castellana
usabas un perfume tan amargo
que mis manos sufrían al rozarte
y se me ahogaban de melancolía.
Si íbamos a cenar, o si las gordas
daban alguna fiesta, tu perfume
lo echaba a perder todo. No sé dónde
compraste aquel extracto de tragedia,
aquel ácido aroma de martirio.
Lo que sé es que lo huelo todavía
cuando paseo por la Castellana
muerto de amor, junto al antiguo hipódromo,
y me sigue matando su veneno.

[in Los mundos y los días. Poesía 1972-1998, Visor, pág. 114]

Amor fou

Los reyes se enamoran de sus hijas más jóvenes.
Lo deciden un día, mientras los cortesanos
discutensobre el rito de alguna ceremonia
que se olvidó y que debe regresar del olvido.
Los reyes se enamoran de sus hijas, las aman
con látigos de hielo, posesivos, feroces,
obscenos y terribles, agonizantes, locos.
Para que nadie pueda desposarlas, plantean
enigmas insolubles a cuantos pretendientes
aspiran a la mano de las princesas. Nunca
se vieron tantos príncipes degollados en vano.

Los reyes se aniquilan con sus hijas más jóvenes,
se rompen, se destrozan cada noche en la cama.
De día, ellas se alejan en las naves del sueño
y ellos dictan las leyes, solemnes y sombríos.

[in Los mundos y los días. Poesía 1972-1998, Visor, pág. 79]

16 janeiro 2010

Aguarelas de Emanuel Bernstone


Para que serve uma fundação?


Era uma vez um poeta. Arranjaram-lhe uma casa com vista para o mar, criaram-lhe uma fundação, deixaram-no viver sossegado (mais ou menos) durante os últimos anos da sua vida. Agora, os imbróglios da coisa vêm ao de cima.
O problema, como é da praxe, são os negócios. Negócios onde talvez houvesse mais olhos que barriga. Por exemplo o da edição dos livros do poeta na Quasi. A editora faliu. E a Fundação perdeu dinheiro por causa disso. Acontece. Se a Fundação era a editora, por vontade do poeta, por que raio haviam de ter passado a edição à Quasi? O editor da Quasi pouco mais era do que um oportunista de meia tigela, além de manifestamente ser semi-analfabeto.
Para ver o quadro geral, dar um passeio por aqui e por aqui.

14 janeiro 2010

Várzea da Rainha Impressores


O negócio dos livros tem nichos por explorar. Zita Seabra, servindo-se de programas comunitários, tenta partir na linha da frente e assegurar o seu negócio: "é possível editar poucos exemplares a custos mais baratos". "Actualmente, o custo de 100 exemplares é igual ao custo de mil".
Além de livros, a cores ou a preto e branco, o novo equipamento imprime cartazes, cartões de visita, teses de doutoramento ou mestrado e catálogos de exposições de leilões. "A edição é o nosso mercado principal, mas também aquilo a que chamamos dados variáveis, ou seja, impressão de facturas de água, luz, gás e bancos, entre outros".
Não importa o que se edita, apenas corresponder aos anseios dos clientes. A edição não está moribunda, confirma que foi e é um negócio e que taxas especiais de IVA e outras deveriam acabar. Apenas a edição de obras científicas e de certos géneros literários deveriam beneficiar dessas benesses. Senão, está-se a enganar o consumidor.
A VRI é uma empresa de Print on Demand que sabe haver muita gente a sonhar com ter um livro publicado. E que sabe outras coisas. Importa que o Estado também saiba promover o livro e deixar de dar apoios directa ou indirectamente a coisas cuja vocação nada tem de cultural, embora viva à sombra desse prestígio.

Fonte: JN