23 janeiro 2010

Sexo e poesia


Com o título Sexo na rua: onde é que eles têm a cabeça? pode ler-se no i-online uma breve reportagem sobre quem gosta de ter relações sexuais no cinema, em vestiários de lojas, em parques de estacionamento, em transportes públicos e noutros lugares públicos. O que me fez recordar um poema que LP traduziu e postou por estes dias no seu Do trapézio, sem rede e que transcrevemos com a devida vénia. Às vezes, a vida e a poesia espelham-se. Às vezes, a poesia é apenas um vazio imenso, que procura transformar a língua numa matéria viscosa, afim da merda. Infelizmente, quer por cá, quer em muitos outros países há quem entenda a poesia como puro experimentalismo, assim algo afim do onanismo. Nós por cá preferimos outro tipo de prazeres.

Encontro na cidade

Eles estavam a defecar em público, disse ele,
e outro disse,
e a copular também,
e eu pensei, quantos, mil?
Todos os sem-abrigo estavam a coupular em público? Que espectáculo.
Então alguém disse,
não eram todos os sem-abrigo,
e nós pudemos respirar melhor,
só uns quinze, se tantos, e eu pensei
que mesmo assim eram uns quantos para fazerem aquilo em público,
mas quando já estávamos no fim
parecia
que só tinha sido uma de cada:
uma cópula, uma defecação,
e então alguém acabou por dizer,
não é preciso ser um sem-abrigo para se fazer isso.

Poema de Doug Anderson, traduzido por LP, a partir de original reproduzido em Poetry like Bread, poets of the political imagination, selecção de Martín Espada, Curbstone Press, 4ª edição, 2007, p. 42).

Walton Ford





Sorte grande

Detido sob acusação de esfaqueamento, o homem pensou que os deuses são, de facto, doidos. Estava ele na esquadra quando viu que estava milionário. Tinha-lhe acabado de sair o euromilhões. Milionário é uma forma de dizer, pois a ele apenas lhe coube um prémio de seis mil euros. Mas para quem acabara de assaltar um empresário, a fim de lhe sacar uma pasta com dinheiro e cheques, a coisa soou-lhe a piada. A história real pode ser lida aqui.


22 janeiro 2010

Joaquim Manuel Magalhães

Teorias Literárias

3

O poeta era brasileiro e de turismo.
Na meia língua dos dois ensaboou-me
com um baião de galanteria .
Loas de grasnar a tolo e, é claro, o
talmente verdade a sua ladainha.

Emplumei-me de rubores a consentir
tudo o que requeria: introduções,
selecções, montras de livraria. Um festim
de recalques borbulhava compensado:
«Faça o que quiser. A sei eu autorizo.»

O brasileiro resfolegava de elogios.
Ganhara as férias, tinha pronta a lista
da antologia e mesmo em editora de segunda
já palmara em troca agradecida um
piqueno florilégio luso de versos seus.

Aviões passavam para bem mais longe
às seis da tarde desse dia.
Calcados pela vigarice, no super
mercado de abraços, esgueirámo-nos
cada um para a sua maravilha.

[in Alguns livros reunidos, Contexto, 1987, pág. 117]

Jorge de Sena

«Ser um grande poeta»


Ser um grande poeta
morto e nacional
é atrair as moscas
como idiotas e
os idiotas como
moscas.

Ser um poeta medíocre
vivo e universal
é atrair os catedráticos
de literatura como
idiotas e moscas.

Ser um poeta apenas
nem vivo nem morto
ou nacional ou universal
é atrair apenas os poetas
como moscas idiotas.

Moralidade: não há saída.

Maio/1970

[in Visão Perpétua, edições 70, 1989, pág. 116]

21 janeiro 2010

A justiça em Portugal é uma farsa


«Infelizmente em Portugal existe o segredo de justiça para dar cobertura à negligência e incompetência e para fazer julgamentos na praça pública. É melhor acabar com essa farsa.»

O segredo de justiça «é uma farsa» que tem servido para «dar cobertura à negligência e à incompetência e para fazer julgamentos na praça pública.»

«a divulgação de conteúdos em segredo de justiça serve para criar alarme social para efeitos processuais e é instrumento para criar juízos de culpabilidade na opinião pública.»

Marinho Pinto, bastonário da Ordem dos Advogados

Fonte 1 e 2

A saúde em Portugal é um luxo


Há muita gente que gasta mensalmente fortunas em medicamentos. Mas não são essas que usam a net para adquirir a posologia necessária ao seu bem-estar.
Recorre à net quem a domina e sabe onde procurar ou os que se deixam seduzir pelos anúncios que aparecem nos motores de pesquisa, disfarçados de informação (o que ajuda a perceber o grande negócio que é o Google).
Mas nem por isso deixa de se colocar a questão de os remédios serem abusivamente caros para a grande maioria dos cidadão portugueses. Aliás, a saúde é, em geral, coisa para os ricos, pois apenas os ricos podem pagar médicos privados, clínicas, exames (TACs, endoscopias, ecografias, etc.) e tratamentos em tempo útil. O resto da população sobrevive ao ritmo dos prazos alargados de marcação de consultas, a clínicos gerais apressados, a muitas horas passadas em filas de espera, em triagens e noutras quantas peripécias que procuram conferir ao atendimento uma aparência de funcionalidade.
A ideia geral é, claro, a de que a medicina funciona mal e é cara. Quem pode, tenta contorná-la recorrendo à net, onde abundam os sítios com informação médica (verdadeira? falsa? perigosa?).
A saúde é um grande negócio em qualquer parte do mundo. E se já não há tanta gente a acreditar em feiticeiros, muitos haverá que ainda olham para o médico como um primo afastado, capaz de resolver tudo só por ter o paciente diante de si.
O papel paliativo e mágico da net surge aos olhos de uns quantos como uma boa alternativa às consultas onerosas, excessivamente rápidas e aborrecidas dos consultórios ou clínicas das especialidades. Além disso, algumas pessoas ficam embaraçadas em ter que expor os seus problemas a um estranho. Não espanta que cerca de 46 por cento dos medicamentos comprados online se destinem ao emagrecimento ou que 16,7 por cento sejam anti-depressivos. Ou que haja procura de medicamentos para aumentar a massa muscular (15 por cento), dos que se destinam a curar a disfunção eréctil (seis por cento) ou dos destinados às doenças do foro oncológico (quatro por cento).

20 janeiro 2010

Infantilidades do mundo moderno


Há milhares que sofrem de disfunção eréctil. Outros, estão bem. Tão bem que sofrem... por ser figuras públicas. Que o diga o golfista norte-americano, Tiger Woods, internado numa clínica especializada na cura da "adicção sexual", de Hattiesburg, Mississippi.
Inventam-se adições como quem inventa novas funcionalidades informáticas: para fazer negócio. O problema, estamos em crer, é a diferença entre o homem e a máquina. Um dia, estas manias de agora afectar-nos-ão a todos. O que será uma grande oportunidade de negócio para psicólogos e clínicos. Mas convém não esquecer que a fertilidade nos países desenvolvidos está em acentuado declínio e que a eugenia é um assunto muito perigoso (pelo menos, ao tempo dos nazis era; se calhar agora, com o selo das clínicas especializadas, já deixou de ser).

19 janeiro 2010

Dayanita Singh




Manuel de Freitas

Fortinbras says


Que estão nus, não valem nada
os poetas aclamados pela plebe
- o que é, infelizmente, verdade.

Que já vai sendo hora de bebermos
juntos um Jim Beam Black
- o que é, de outra maneira, verdade.

Que a canalha crítica, académica,
jornaleira ou mediática muito dificilmente
se consegue furtar ao grande peido geral.

E é verdade, também,

que morreram príncipes e princesas,
que já não há palavras
no reino deserto das palavras.

É tudo tão verdade, Fortinbras,
que nos apaetece mentir com dignidade,
espancar sem decoro as bestas que progridem.

E esquecer, de vez, que a vida
é um riso inútil,
sem máscara nem chicote.

Morre apenas, a vida,
torna-se verdadeiramente extinta,
insinuando, em cada grito, o silêncio
de que já não fomos capazes.

[in "Telhados de Vidro", nº. 13, págs. 31-32]

18 janeiro 2010

Abraçados para a eternidade


No Campo de Hockey de San Fernando (Cádiz), houve lugar a um achado arqueológico pouco comum: dois esqueletos abraçados há seis mil anos, frente a frente, com os membros inferiores e superiores entrelaçados, no que se designa como motivo dos namorados.
Há três anos, em Itália, um grupo de arqueólogos italianos descobriu na cidade de Mântua uma sepultura com dois esqueletos abraçados, que dataram de há mais de seis mil anos. Pelas ossadas concluiu-se que o par era ainda jovem. Ao achado denominaram-no "Os amantes de Valardo".
No caso do achado espanhol, estamos em presença de um esqueleto de uma rapariga à roda dos 12 anos e do esqueleto de um adulto (ainda não se determinou o género) entre os 35 e os 40 anos. Tanto pode ser um casal como uma dupla parental ou maternal, já que ambas as hipóteses encaixam nas vivências da época (neolítico).

Fonte: ABC

17 janeiro 2010

Luis García Montero

V

Tú me llamas, amor, yo cojo un taxi,
cruzo la desmedida realidad
de febrero por verte,
el mundo transitorio que me ofrece
un asiento de atrás,
su refugiada bóveda de sueños,
luces intermitentes como conversaciones,
letreros encendidos en la brisa,
que no son el destino,
pero que están escritos encima de nosotros.

Ya sé que tus palabras no tendrán
ese tono lujoso, que los aires
inquietos de tu pelo
guardarán la nostalgia artificial
del sótano sin luz donde me esperas,
y que, por fin, mañana
al despertarte,
entre olvidos a medias y detalles
sacados de contexto,
tendrás piedad o miedo de ti misma,
vergüenza o dignidad, incertidumbre
y acaso el lujurioso malestar,
el golpe que nos dejan
las historias contadas una noche de insomnio.

Pero también sabemos que sería
peor y más costoso
llevárselas a casa, no esconder su cadáver
en el humo de un bar.

Yo vengo sin idiomas desde mi soledad,
y sin idiomas voy hacia la tuya.
No hay nada que decir,
pero supongo
que hablaremos desnudos sobre esto,
algo después, quitándole importancia,
avivando los ritmos del pasado,
las cosas que están lejos
y que ya no nos duelen.

[in Diario cómplice, Hiperión, 1987]

Luis Alberto de Cuenca

Mal de Ausencia

Desde que tu te fuiste, no sabes quê despacio
pasa el tiempo en Madrid. He visto una película
que ha terminado apenas hace un siglo.
No sabes quê lento corre el mundo sin ti, novia lejana.

Mis amigos me dicen que vuelva a ser el mismo,
que pudre el corazón tanta melancolía,
que tu ausencia no vale tanta ansiedad inútil,
que parezco un ejemplo de subliteratura.

Pero tu te has llevado mi paz en tu maleta,
los hilos del telefono, la calle en a que vivo.
Tú has mandado a mi casa tropas ecologistas
a saquear mi alma contaminada y triste.

Y, para colmo, sigo soñando con gigantes
y contigo, desnuda, besándoles las manos.
Con dioses a caballo que destruyen Europa
y cautiva te guardan hasta que yo esté muerto.

[in Los mundos y los días. Poesía 1972-1998, Visor, pág. 132]

Voy a escribir un libro

Voy a escribir un libro que hable de las (poquísimas)
mujeres de mi vida. De mi primera novia,
que me enseñó el amor y las puertas secretas
del cielo y del infierno; de Isabel, que se fue
al país de los sueños con el pequeño Nemo,
porque aquí lo pasaba fatal; de Margarita,
recordando unos jeans blancos y unos lunares
estratégicamente dispuestos; de Ginebra,
que dejó a Lanzarote plantado por mi culpa
y fundó una familia respetable a mi costa;
de Susana, que sigue tan guapa como entonces;
de Macarena, un dulce que me amargó la vida
dos veranos enteros; de Carmen, que era bruja
y veía el futuro con ojos de muchacho;
de la red que guardaba los cabellos de Paula
cuando me enamore de su melancolía;
de Arancha, de Paloma, de Marta y de Teresa;
de sus besos, que izaron la bandera del triunfo
sobre la negra muerte, y también de su helado
desdén, que recluyó tantas veces mi espíritu
en la triste mazmorra de la desesperanza.
Voy a escribir un libro que hable de las mujeres
que han escrito mi vida.

[in Los mundos y los días. Poesía 1972-1998, Visor, pág. 281]

Cuando vivías en la Castellana

Cuando vivías en la Castellana
usabas un perfume tan amargo
que mis manos sufrían al rozarte
y se me ahogaban de melancolía.
Si íbamos a cenar, o si las gordas
daban alguna fiesta, tu perfume
lo echaba a perder todo. No sé dónde
compraste aquel extracto de tragedia,
aquel ácido aroma de martirio.
Lo que sé es que lo huelo todavía
cuando paseo por la Castellana
muerto de amor, junto al antiguo hipódromo,
y me sigue matando su veneno.

[in Los mundos y los días. Poesía 1972-1998, Visor, pág. 114]

Amor fou

Los reyes se enamoran de sus hijas más jóvenes.
Lo deciden un día, mientras los cortesanos
discutensobre el rito de alguna ceremonia
que se olvidó y que debe regresar del olvido.
Los reyes se enamoran de sus hijas, las aman
con látigos de hielo, posesivos, feroces,
obscenos y terribles, agonizantes, locos.
Para que nadie pueda desposarlas, plantean
enigmas insolubles a cuantos pretendientes
aspiran a la mano de las princesas. Nunca
se vieron tantos príncipes degollados en vano.

Los reyes se aniquilan con sus hijas más jóvenes,
se rompen, se destrozan cada noche en la cama.
De día, ellas se alejan en las naves del sueño
y ellos dictan las leyes, solemnes y sombríos.

[in Los mundos y los días. Poesía 1972-1998, Visor, pág. 79]

16 janeiro 2010

Aguarelas de Emanuel Bernstone


Para que serve uma fundação?


Era uma vez um poeta. Arranjaram-lhe uma casa com vista para o mar, criaram-lhe uma fundação, deixaram-no viver sossegado (mais ou menos) durante os últimos anos da sua vida. Agora, os imbróglios da coisa vêm ao de cima.
O problema, como é da praxe, são os negócios. Negócios onde talvez houvesse mais olhos que barriga. Por exemplo o da edição dos livros do poeta na Quasi. A editora faliu. E a Fundação perdeu dinheiro por causa disso. Acontece. Se a Fundação era a editora, por vontade do poeta, por que raio haviam de ter passado a edição à Quasi? O editor da Quasi pouco mais era do que um oportunista de meia tigela, além de manifestamente ser semi-analfabeto.
Para ver o quadro geral, dar um passeio por aqui e por aqui.

14 janeiro 2010

Várzea da Rainha Impressores


O negócio dos livros tem nichos por explorar. Zita Seabra, servindo-se de programas comunitários, tenta partir na linha da frente e assegurar o seu negócio: "é possível editar poucos exemplares a custos mais baratos". "Actualmente, o custo de 100 exemplares é igual ao custo de mil".
Além de livros, a cores ou a preto e branco, o novo equipamento imprime cartazes, cartões de visita, teses de doutoramento ou mestrado e catálogos de exposições de leilões. "A edição é o nosso mercado principal, mas também aquilo a que chamamos dados variáveis, ou seja, impressão de facturas de água, luz, gás e bancos, entre outros".
Não importa o que se edita, apenas corresponder aos anseios dos clientes. A edição não está moribunda, confirma que foi e é um negócio e que taxas especiais de IVA e outras deveriam acabar. Apenas a edição de obras científicas e de certos géneros literários deveriam beneficiar dessas benesses. Senão, está-se a enganar o consumidor.
A VRI é uma empresa de Print on Demand que sabe haver muita gente a sonhar com ter um livro publicado. E que sabe outras coisas. Importa que o Estado também saiba promover o livro e deixar de dar apoios directa ou indirectamente a coisas cuja vocação nada tem de cultural, embora viva à sombra desse prestígio.

Fonte: JN

13 janeiro 2010

Memórias de visitas






Dura lex sed lex


Sal Esposito foi convocado por um tribunal de Boston para ali comparecer na qualidade de jurado. Acontece que Sal Esposito é um animal de estimação, um gato. Como vive em casa dos Esposito, a dona, aquando de um recenseamento, inscreveu-o como membro da família.
Os gatos, bem como outros animais de estimação, são membros de muitas famílias. E nem vale a pena dizer que são tratados como príncipes.
O pior é quando acontecem estes imbróglios. Anna Esposito, a dona de Sal, pediu que o seu gato fosse dispensado de ter de se apresentar em tribunal como jurado, alegando que não o podia fazer já que não falava inglês. O pedido foi negado.
Podem ver toda a história aqui. E aqui.

12 janeiro 2010

Amores tardios


O amor sempre foi perigoso. Refractário, ilegal, proibido, escandaloso, jocoso - vários adjectivos se lhe colam para descrever os perigos da paixão, do amor assolapado.
Muitas pessoas passam a vida atrás do amor. Outras tropeçam nele e deixam-se levar pela tempestade. Outras ainda fogem, com medo de perderem a cabeça.
O amor não olha a credos, idades, cores de pele nem a outros pormenores. Embora tudo isso influencie, e de que maneira, a tomada de posição de alguns amadores. Já os amantes sabem que o amor é tirano, quando chega exige tudo e não se interessa por mais nada que não seja a satisfação, o prazer, o encantamento.
Que o diga Iris Robinson, mulher do chefe do governo autónomo da Irlanda do Norte, deputada em Westminster e na Assembleia de Ulster, famosa pela sua personalidade e tendência em apelar para a Bíblia, num extremismo e puritanismo que agora se voltam contra ela.
Em 2008, caiu de amores por um rapaz de 19 anos, Kirk McCambley. Iris disse que se aproximou de McCambley para o ajudar a recuperar da morte do pai e que a relação se foi tornando mais séria com o tempo. Tão séria que a deputada do DUP arriscou não só o casamento, mas também o seu lugar na política para facilitar a vida ao namorado. Além disso, a mulher do primeiro-ministro Peter Robinson vê-se acusada de manipular um concurso público, em 2008, colocando o amante como o único candidato a reunir todos os requisitos para assumir a gerência de um café num parque municipal de Belfast. E de ter convencido dois promotores imobiliários da cidade a atribuir 50 mil libras (55,7 mil euros) para o namorado abrir o estabelecimento comercial numa das mais caras zonas da cidade.
A trapalhada é de tal ordem que Peter Robinson se viu obrigado a auto-suspender de funções para dar apoio à família. A família sempre teve esta função, de defender os indivíduos dos ataques de fora, mesmo quando os ataques vêm de dentro. E numa família que se alimenta publicamente do seu fundamentalismo religioso, o divórcio é proibido.
O extremismo religioso tem dessas coisas. E mostra como entre o blá blá da moralzinha e as pulsões do corpo, este sai sempre vencedor - Freud ganhou fama a falar do assunto.

11 janeiro 2010

Podem chamar-me Roxxxy


Oi, cara. Sou a Roxxxy e tenho um corpo de modelo - 174 cm e 54,5 quilogramas - e pele sintética que se assemelha à de uma mulher. Falo de futebol e de carros. O tamanho dos meus seios e a cor de cabelo é a que você desejar. Sou uma boneca insuflável, a que chamam o primeiro robô do sexo. Ouço, falo, reajo ao toque e chego mesmo a ter orgasmos (artificiais, claro, cara).
Não posso aspirar nem sei cozinhar, mas de resto posso fazer quase tudo, se é que me faço entender. Tenho um esqueleto articulado, que me permite fazer movimentos como uma mulher de carne e osso e até tenho um coração artificial que... bombeia um líquido refrigerante.
Contigo posso "conversar" do que você mais gosta. Através da internet posso fazer actualizações do software, solicitar apoio técnico e mandar emails ao meu mais-que-tudo lá de casa.
Meu papai é o inventor, Douglas Hine, engenheiro da área da inteligência artificial. Que diz: "É uma companhia. Tem personalidade. Ouve, toma atenção, fala. Sente o toque e dorme. Estamos a tentar replicar a personalidade de uma pessoa".


Éric Rohmer (1920-2010)

Morreu o realizador francês. Tinha 89 anos.
Figura da Nova Vaga do cinema gaulês, colaborou nos «Cahiers du Cinema» entre 1957 e 1963 e notabilizou-se por filmes como «Ma nuit chez Maud» e os Contos das quatro estações (Outono, de 1998; Verão, de 1996; Inverno, de 1991 e Primavera, de 1990).

09 janeiro 2010

Prémio de comportamento


José Sócrates, assinou ontem um despacho em que nomeia Maria de Lurdes Rodrigues para o cargo de presidente da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD).
O prémio é compreensível: Marilu cumpriu o objectivo de Sócrates, demonizar os professores, mostrando que a educação é uma coisa inútil se não alinhar pela bitola de propaganda do governo.
A senhora foi exemplar e conseguiu aguentar o embate sem ter de passar pelo psiquiatra. A sua cultura de esquerda deve ter sido muito útil.
A FLAD, que em tempos foi uma espécie de segunda Gulbenkian, vive há mais de uma década discretamente, à custa dos acordos da Base das Lajes. Teve um papel importante na divulgação e apoio das artes plásticas e de alguns projectos de investigação científica.
Com Marilu à frente da instituição, dado o seu profundo conhecimento da área, confirma-se a menoridade da FLAD, cada vez mais um bom tacho para meia dúzia de nadas.

07 janeiro 2010

Programa de Bolsas para Criação Artística dos Açores

Nos Açores acontecem coisas estranhas. Em Outubro de 2009, o governo regional criou, através da presidência, o Programa de Bolsas para Criação Artística. Os termos da coisa constam do despacho n.º 1134/2009, de 29 de Outubro de 2009.
A redacção do dito cujo tem aspectos peculiares, que enformam de vícios colturais muito em voga nos dias que correm e que confirmam o quanto a cultura estatal se aproxima da propaganda.
Diz-se, em jeito de preâmbulo que "O objecto do Regulamento do Programa de Bolsas para a Criação Artística é fomentar, no âmbito regional, o desenvolvimento de projectos individuais de criação e de pesquisa de linguagens nas áreas artísticas, criando condições materiais para que artistas e profissionais residentes nos Açores desenvolvam e produzam obras inéditas e de qualidade, ampliando a produção e a difusão das Artes." São contempladas as seguintes áreas: Artes Visuais, Criação Literária, Dança (Coreografia), Dramaturgia, Fotografia, Música (Composição Erudita) e Música (Composição para Bandas Filarmónicas).
Vejamos o caso da criação literária. Diz o texto "Desenvolvimento de projecto de criação literária individual nos seguintes géneros narrativos: contos, novela ou romance - , que resulte numa obra ou num conjunto de pequenas obras (série ou colecção), destinado a público juvenil ou a público adulto, com conteúdo de ficção baseado em factos históricos, personagens verídicas ou lendas, originárias na história ou imaginário imaterial açorianos, resultando em obras inéditas para publicação."
Primeiro reparo, a poesia fica esquecida. Porquê? A gente olha para os grandes nomes da literatura "açoriana" e só encontra poetas: Roberto de Mesquita, Antero de Quental, Armando Cortes Rodrigues, Vitorino Nemésio, Pedro da Silveira, Natália Correia, Emanuel Félix (para só nos referirmos aos mortos). Mas para quem andou às voltas com a redacção do dito despacho, a poesia pareceu-lhes coisa de somenos. Quiçá por ignorância?
Segundo reparo, em nenhuma das outras áreas a sanha dirigista alcança os requintes alcançados na criação literária. No entendimento do legislador, a literatura só é válida quando afim do folclore? Ou quando limitada a um entendimento neo-socialista da literatura? Ou será que o legislador, secreto admirador dos pastiches de Dan Brown e afins, desconhece que a criação literária se orienta pelas mesmas regras das outras artes? (Não se vê o pedido de criação e composição inédita em Música Erudita com temática histórica açoriana; tão-pouco se faz o mesmo pedido em relação à Dramaturgia ou à Fotografia - e a história mostra que o romantismo, época da criação do folclore, contaminou essas expressões artísticas).
Não será possível encontrar um discurso urbano e contemporâneo nos Açores?
Enfim, trapalhadas, para não dizer idiotices governamentais, que mais fazem lembrar os dislates do Estado Novo do que um governo democrático dos nossos dias.
Gabriela Canavilhas foi a responsável pela coisa. Carlos César foi e é, pois assinou-a e vem da Presidência toda a trapalhada.
Esperemos que o novo titular da Direcção Regional da Cultura, Jorge Bruno, possa reparar algo que ainda não começou e já cheira mal.

Pharrell Williams e a Perspective



Pharrell Williams, também conhecido como Skateboard P, é músico e o produtor que está por detrás de um bom número de êxitos de Britney Spears, Madonna, Mariah Carey, Janet Jackson, Snoop Dogg, Gwen Stefani, Nelly Furtado ou Justin Timberlake, entre outros.
Mas nem só de música vive o homem, por isso, resolveu dar uma perninha no design. E aí está a cadeira Perspective, criada em colaboração com a Domeau & Pérès, que se encarregou da produção.
A cadeira representa o amor entre um homem e uma mulher, dispõe de poucas cores (ver imagem) e terá produção limitada.

06 janeiro 2010

Fernando Ulrich

A Refer lidera a tabela das empresas com maiores compromissos adicionais, calculados pelos economistas do BPI, dentro do Sector Empresarial do Estado (SEE), com um peso de 26 por cento, correspondente a quase nove mil milhões de euros, com os transportes a dominarem a lista.
Segue-se o Metro de Lisboa (16,8 por cento, perto de 5,5 mil milhões de euros), o Parque Escolar (13,6 por cento, cerca de 4,5 mil milhões de euros), a Comboios de Portugal - CP (11 por cento, sensivelmente 3,8 mil milhões de euros), os Hospitais EPE (8,2 por cento, quase três mil milhões de euros), o Metro do Porto (7,5 por cento, 2,5 mil milhões de euros), a Empresa de Desenvolvimento e Infra-estruturas do Alqueva - EDIA (3,8 por cento, cerca de 1,2 mil milhões de euros), a Estradas de Portugal (2,8 por cento, quase mil milhões de euros), a RTP (2,7 por cento, perto de mil milhões de euros) e a Carris (1,8 por cento, cerca de 600 milhões de euros).
Os restantes 5,2 por cento estão repartidos pelas outras 25 empresas incluídas no estudo do BPI - entre as previsivelmente sustentáveis e as previsivelmente não sustentáveis.
Reconheço o papel social dos transportes públicos, mas faz-me um bocado impressão a dimensão que têm as responsabilidades actuais e futuras” das empresas, disse. “Choca-me que os dez milhões de portugueses tenham de gastar tanto para tão pouco. Será que houve má gestão e desperdício? Os números são tão grandes que me fazem impressão.

Paleio e mais paleio, de resto nada


É verdade, fica bem gastar uns milhares em publicidade para promover a natalidade. Mas já quando se trata de a proteger, o caso muda de figura.
Isto para não falarmos de uma tara comum aos governantes, seja qual for o partido ou o país. Gastam-se milhões do erário público em publicidade, em apoios aos ricos, em obras megalómanas, mas quando se trata de salários, o erário público sofre de urticária e coça-se tanto que seca.
Tanto faz que sejam trabalhadoras da TAP como quaisquer outros funcionários do Estado ou de empresas controladas pelo Estado.
"José Sócrates concordou com a opção da TAP de não pagar prémios de desempenho às dez trabalhadoras que estiveram de baixa por maternidade em 2007. A empresa defendeu que, como as 10 empregadas estiveram ausentes, não cumpriram os mínimos de trabalho para ter prémios, justificando a decisão com o Acordo de Empresa (AE)." [ i ]

05 janeiro 2010

Vale sempre a pena comparar


Grande parte dos lugares comuns de agora foram forjados entre o século XIX e o século XX. A coisa é particularmente exemplar no que respeita ao discurso social e político. Veja-se o que dizia Ramalho Ortigão há mais de um século, falando do Portugal da época: "A indisciplina geral, o progressivo rebaixamento dos caracteres, a desqualificação do mérito, o descomedimento das ambições, o espírito de insubordinação, a decadência mental da imprensa, a pusilanimidade da opinião, o rareamento dos homens modelares, o abastardamento das letras, a anarquia da arte, o desgosto do trabalho, a irreligião, e, finalmente, a pavorosa inconsciência do povo."
Muitos cairão na tentação de ler estas palavras como se fora um retrato do presente. Quando nem sequer são um retrato da época. Apenas a opinião inflamada de um autor dotado e zangado com o país.
O tom azedo e caricatural com que Ortigão fala diz muito dele próprio e da conta em que se tinha. Elevada, claro, acima da choldra infecta. O problema é que a suposta choldra era apenas e tão-só a choldra de um classe dirigente mal formada, gulosa, pouco apta a perceber o mundo à sua volta, embora fosse endinheirada e gozasse de boa vida.
O problema era que, como diz, Maria Alice Samara, investigadora do Instituto de História Contemporânea (IHC) da Universidade Nova de Lisboa e especialista na Primeira República: "Tal como julgavam os republicanos, assistiu-se a um abastardamento do regime liberal. Os homens que estavam no Governo não representavam o povo, eram criaturas do rei. O ambiente de crise permite aos republicanos a apresentação de uma resposta nova, de uma regeneração, que é também feita com outras sensibilidades políticas"(Público).
Os republicanos foram muito hábeis e veicularam ideias. Ideias que colhiam cada vez mais adeptos e venceram. Mas, como se viu depois, os problemas mantiveram-se, apesar de muitas boas obras. E mantiveram-se porque a classe empresarial e dirigente continuou igual a si mesma: medíocre.

A educação para que serve?


A educação é um termo vago, embora muitos o leiam como sinónimo de escola. Se a escola trata disso, eu tenho outras coisas para fazer. Os suíços são muito claros: Os fracos resultados escolares das crianças portuguesas devem-se "ao desinteresse total dos pais em acompanhar" a educação dos filhos e à "origem sócio-cultural modesta".
Mesmo que as generalizações possam fazer esquecer excepções, a norma é essa, lá fora ou cá dentro.
Os portugueses revêm-se muito nos contos de fadas. Acreditam que há um príncipe encantado que os vais resgatar da miséria. O número de apostadores no euromilhões (outrora no tolobola e depois no totoloto) é sintomático.
E se pensarmos na americanização do pequeno écrã, que mais é mostrado à população televisiva? Todo o idiota supostamente endinheirado é quase um deus por cá. As revistas de maior sucesso são aquelas que mostram os endinheirados. Espanha é outro exemplo. E lá como cá a educação pública anda pelas ruas da amargura.

04 janeiro 2010

Lhasa de Sela (1972-2010)



A sacrossanta mania do sucesso


Por terras lusas há muito boa gente a acreditar que sem ovos se fazem omeletas. E a coisa está de tal maneira que os responsáveis políticos pela educação querem à viva força sucesso. Nem que para isso tenham de aldrabar tudo. O importante é o sucesso, são as estatísticas.
O termo sucesso, desde que foi vulgarizado ao tempo do santo Cavaco, afigura-se-me viscoso. Tão viscoso que quando aplicado à educação legitima disparates e abandalha aquilo que devia ser a preocupação do estado: a formação dos cidadãos.
O problema dos portugueses é, como sempre foi, a má formação das classes dirigentes (empresários, políticos, doutores e afins). É uma péssima relação com tudo o que tenha a ver com raciocínio e intelecto. E, como se não bastasse, os muitos anos de ditadura ainda nos afastaram mais de um patamar de equilíbrio que existe noutros países europeus. Não que não se tenha realizado um trabalho meritório em muitos aspectos da educação. Passámos de um país cheio de analfabetos para um país escolarizado. mas ainda vai demorar até que essa escolarização traga resultados substanciais, pois, enquanto a miséria for o pão nosso de cada dia, são poucos os que ascendem socialmente fruto do seu nível de escolaridade. E, muito mais grave, menos ainda os que ficam de facto apetrechados para ler o mundo que os rodeia.
Que um em cada quatro alunos que abandona a escola secundária no Luxemburgo seja português, segundo um estudo do Ministério da Educação daquele país, só mostra que a relação que os portugueses têm com a escola ainda está cheia de alçapões, de buracos negros, de medos, de falhas.
Hoje há o culto do corpo. E são muitos os que se preocupam com o exercício e com a indumentária. Mas são poucos os que sabem que o cérebro precisa de ser exercitado para dar frutos. Mesmo que esses frutos signifiquem uma substancial melhoria da qualidade de vida.
De resto, baixa escolaridade corresponde quase sempre a baixos salários e os empresários adoram mão-de-obra barata.

02 janeiro 2010

Desejos


Há coisas que todos pensam, mas ninguém diz? Não sei. Há coisas que tenho a vaga impressão de perceber, por já as ter sentido. Ou porque alguém que conheço me ter falado disso.
Assim, ao ler que "29,1% das mulheres britânicas acreditam que se voltassem a caber num velho par de calças de ganga, sentiriam mais prazer do que se tivessem sexo", sorri. Percebo-as bem. A imagem que temos de nós próprios é mais importante do que algo tão indefinido como o sexo.
As relações sexuais podem ser arrebatadoras, mas também podem ser insípidas. E as mulheres que preferiam voltar a caber nuns jeans revelam que andam mal consigo mesmas e, como tal, dificilmente devem dar prazer a alguém ou sentir-se à vontade para poderem usufruir de algo que à partida se diz que é bom.
São mulheres que nunca foram amadas pelo que realmente são e que sempre sucumbiram às imagens que outros criaram e disseram dever ser.
Para essas mulheres é importante que apareçam campanhas como a do fat pride, de revolta contra a ditadura da magreza, lutando pelo início de uma era em que gordura volta ser formosura.
Mas quem diz mulheres pode dizer homens, pois e cada vez maior o número de homens que sente a gordura como um obstáculo ao seu bem-estar psicológico. A cultura pop dominante serve-se de corpos altamente musculados e magros que os fazem sentir deslocados.
Estar deslocado do grupo in é, como se sabe, o pior que pode acontecer aos espíritos débeis. Isto se não pertencermos todos a esse grupo: pedindo aos carros, aos objectos, aos adereços que façam de penso rápido para o nosso vazio interior.

31 dezembro 2009

Balanço de ano

Andamos por aqui há algum tempo, mas ainda não passamos da infância. A infância é boa, autoriza muito disparate e até dizer coisas que de outro modo seriam intoleráveis (socialmente falando).
Por exemplo, conhecemos vários engenheiros e médicos cujo nível mental se fica pelas revistas de celebridades e de TV, que lêem e comentam com a mesma paixão de pessoas semi-analfabetas. Vivem para os automóveis, os trapos que põem sobre o corpo, viagens de plástico e mais umas quantas coisas que põem a nu o tédio e a miséria.
É triste ver que uma parte das élites financeiras do nosso país está nesse baixo nível. É por causa desta gente que Portugal é um país baço. E nada faz prever que os próximos anos tragam novidades.
A coisa é tal que nem sequer conseguem perceber que isso destrói a alma de um país. Até porque são exemplo para muitos.
Tentaremos no próximo ano ser um pouco mais acutilantes e divulgar aquilo que se nos afigure digno de registo. Gostamos de aprender e de descobrir. Gostamos de nos rir.
Rir é o melhor remédio contra tudo.
Esperemos que o próximo ano seja de boas gargalhadas.
Até lá.

30 dezembro 2009

Acordo ortográfico - mais do mesmo

A pouco e pouco será letra de lei e à medida que os miúdos crescerem, a pensar e a redigir segundo as regras do acordo, estará instalado. O que não significa que venha a haver alguma vantagem para Portugal. Porque para tirarmos vantagens precisamos de investir muito na promoção da língua e da cultura. Ora, com este governo não há sinais de que tal seja uma prioridade. E quem anda por fora constata quanto Portugal é nada. O pouco que há é fado.
Já quanto ao Brasil, o caso muda de figura. Investe e bem. E se se aprende Português na Europa, aprende-se à custa dos brasileiros. Portugal é nada. Prosápia interna e pouco mais.

28 dezembro 2009

Ludwik Zamenhof (1859-1917), criador do esperanto


O esperanto era supostamente uma língua de muito fácil aprendizagem, que serviria de língua franca internacional para toda a população mundial. Mas, apesar dos ideais de Zamenhof o esperanto nunca foi essa língua. O inglês, sim. Porque a língua depende mais da cultura e da economia do que da boa vontade dos homens.
Bem, este mês celebraram-se os 150 anos da criação do esperanto. E nós juntamo-nos às comemorações com este pequeno post.

Vem aí o novo filme de Clint Eastwood, Invicitus

Um filme sobre o poder de alma do futebol (ou afim). Ou como animar uma nação destroçada, unindo-a à volta de um sonho comum. O filme bem podia ser sobre Portugal, embora nós não tenhamos um Nelson Mandela.


26 dezembro 2009

A criatividade... ou o negócio


Portugal corre o risco de se tornar uma anedota quando o assunto é a literatura. Não acredita? Veja o prémio que o inenarrável José Rodrigues dos Santos acaba de receber de um clube que se chama Clube Literário do Porto.
O Porto foi, em tempos, uma cidade de escritores. Actualmente é uma parvónia cheia de tiques, como todas as parvónias. Como se não bastasse essa coisa que eram os poetas do Porto (meia dúzia de medíocres ligados ao PC), há agora um clube que dá um prémio literário que visa "galardoar o autor que mais criatividade teve no domínio da ficção" ao apresentador do Telejornal.
A mediocridade também é assim, pomposa, cheia de chavões.
Talvez a gentinha desse clube confunda vendas com criatividade. Afinal, para que servem os clubes senão para passear os trapinhos e fazer e conta que se é muito culto?
José Rodrigues dos Santos é muito criativo, ah pois é. Tomara o mundo ter muitos escritores assim. Cada livro dele é uma obra-prima. Nós aqui no Pisca até estamos a pensar em criar uma petição para propor o homem a Prémio Nobel.

23 dezembro 2009

22 dezembro 2009

A fome é um problema


Um padre anglicano aconselhou os fiéis a roubar caso estejam a passar necessidades. Devem fazê-lo em grandes cadeias de lojas e não em pequenos estabelecimentos. O padre Tim Jones explicou: "Eu não faço esta recomendação porque acho que furtar é uma coisa boa, ou porque acho que não faz mal, pois faz”.
Ainda há padres que valem a pena e Tim Jones [na foto] é, sem dúvida, a prova provada. O problema é que isso não cai bem em ninguém, nem na hierarquia nem nos gerentes das grandes cadeias de lojas. O padre Tim Jones ainda vai ser enxovalhado. E os paroquianos que passam fome terão de ponderar se assaltam lojas ou se ameaçam ir mais longe.

Fonte: i. Mais informações: 1, 2, 3

21 dezembro 2009

O sexo é um problema


Os deputados franceses (577 deputados e 345 senadores) receberam uma peculiar prende de Natal: preservativos, brinquedos sexuais e um gorro de pai natal.
As prendas foram distribuídas pela empresa Sexyprive, especializada na venda de produtos sexuais na Internet, como protesto por a câmara de Paris, para onde foram enviados também presentes semelhantes no início de Dezembro, ter proibido a distribuição de 6 mil vibradores nas ruas do bairro de “Le Marais”.

Fonte: JN

Será que tudo não passou de farsa orquestrada pelo próprio


Lembram-se de Mário Soares e da Marinha Grande? Aquela agressão mudou o sentido da campanha. Um gesto impulsivo de alguém e Mário Soares começou a caminhar para a vitória.
Berlusconi estava em baixo. Eram umas atrás das outras as notícias escandalosas. O nojo. Mesmo um povo iletrado e medroso como o italiano já começava a não gostar.
Berlusconi levou no focinho, como diz o povo. E o povo não gosta de ver os chefes a levar no focinho. Ficam com pena. Dizer mal é um exercício de bílis, sabe bem. A violência não. E “il Cavalieri”começa a trepar nas sondagens. Tão óbvio que levanta suspeitas. Não terá Berlusconi mais a sua trupe orquestrado tudo?

20 dezembro 2009

O país das autarquias por VPV

"As Câmaras estão hoje misteriosamente persuadidas de que lhes compete espantar e divertir a populaça: com "acrobacia aérea" ou o Rock in Rio, com festas, com feiras, com o que for. Pior ainda: pensam que só por si a publicidade (qualquer publicidade) do seu canto do mundo o beneficia. A ignorância e a grosseria tomaram pouco a pouco conta do país. Não temos, de facto, emenda."

Vasco Pulido Valente no Público de hoje.

19 dezembro 2009

Questões de semântica


A política, a publicidade e grande número de pessoas já perceberam que o fosso entre a realidade e o que se diz é enorme. Porque a realidade é a realidade e a comunicação faz-se entre pessoas, e os rituais em que se processa essa comunicação há muito deixaram de se pautar pela sinceridade. O que importa, agora, é parecer que está tudo bem.
O mesmo deve acontecer com estudos como o de que fala esta notícia. O autor de "A Indisciplina em Sala de Aula: Uma Abordagem Comportamental e Cognitiva", Luís Picado, especialista em psicologia da educação, afirma: "Os professores são os responsáveis pelos problemas de indisciplina em sala de aula".
Luís Picado, no estudo em apreço, expõe os pressupostos que o norteiam e o modo como olha o tema da indisciplina. Para ele, trata-se de ter professores que sejam super-homens. Professores que, além de possuírem conhecimentos científicos, sejam também capazes de entender a "organização psicológica" dos alunos com problemas de comportamento. Repare-se: Luís Picado é um estudioso e sabe que, para chegar a conclusões, precisa de dados concretos e de enquadrar esses dados em termos aceites pela comunidade científica em que está inserido. Mas, quiçá por não ser comum os estudiosos terem a mínima noção do que é uma sala de aula, partem dos lugares comuns das suas comunidades para o estabelecimento de normas. O enfoque (como gostam de dizer) está no aluno e no princípio (doce e cândido) de que o aluno sabe o que é melhor para ele. Pena que estas belas teorias não sejam transpostas para o mundo do trabalho ou para o universo de qualquer relação de dependência.
O que está em causa é, parece-nos, a falta de uma cultura científica que parta para o terreno e observe. Há muitas turmas espalhadas pelo país onde há imensos casos de indisciplina, tome esta a forma que tomar.
Se não há receitas prévias, também não há professores prévios e leccionar em condições de desgaste recorrente deixa graves lesões nesse corpo de profissionais que trabalha tantas vezes isolado, cada um por si, também por causa dos muitos dislates que os soit disant "especialistas em educação" redigem para justificar lugares e existência.
As prisões são bem a prova de que são muitos os que infringem as leis. Os comportamentos desviantes fazem parte da maneira de ser de alguns indivíduos, por razões que os especialistas deviam estudar e dar a conhecer a quem com eles tem de trabalhar no dia a dia.
Acreditar que os ditos "reforços positivos" resolvem as situações é estar desfasado da realidade.

Gregory Crewdson





Para saber mais do fotógrafo, pode ir aqui.

18 dezembro 2009

A cultura portuguesa em números


Em 2008, realizaram-se 30 581 sessões de espectáculos ao vivo, com um total de 11,1 milhões de espectadores. O número de bilhetes vendidos foi de 4,4 milhões, gerando receitas no valor de 72,1 milhões de Euros.
As galerias de arte e os espaços de exposições temporárias (840 espaços) promoveram 6 859 exposições e apresentaram 304 850 obras de 37 250 autores. O número de visitantes foi de 8 milhões, significando em média, 1 173 visitantes por exposição realizada.
Em 2008, 182 recintos de cinema com 572 ecrãs e 113 792 lugares exibiram 740 filmes (dos quais 234 corresponderam a estreias), em 644 778 sessões, para um total de 16 milhões de espectadores e de 68,9 milhões de Euros de receitas de bilheteira.

Em 2008, o valor das exportações de bens culturais foi superior a 72 milhões de euros. Os “livros, brochuras e impressos semelhantes”, foram os bens com maior valor de exportações (47,8 milhões de euros), seguidos dos “objectos de arte, de colecção ou antiguidades” com 8,9 milhões de euros. Os principais países de destino dos “livros, brochuras e impressos semelhantes” foram os Países Africanos de Língua Portuguesa, a União Europeia e o Brasil, que em conjunto concentraram 88% das exportações.

O valor das importações de bens culturais ultrapassou 277 milhões de euros.

Fonte: INE

Meteorito ou outro fenómeno?


Cientistas portugueses descobriram perto dos Açores uma depressão do fundo do Oceano Atlântico que acreditam ter origem no impacto de um meteorito. A depressão está localizada a dois quilómetros de profundidade e a certa de 150 quilómetros do arquipélago dos Açores.
A cratera é relativamente circular, com uma cavidade com seis quilómetros de largura e possui uma ampla cúpula central, tendo sido denominada "Ovo Estrelado".
Estima-se que a colisão tenha ocorrido há 17 milhões de anos, a provável idade máxima do fundo basáltico da rocha submarina onde está a cratera.
Três quilómetros a oeste do "Ovo Estrelado", há outra depressão que apresenta características homólogas, embora tenha dimensões menores.

Fontes: Açoriano Oriental, i e Ciência Hoje

17 dezembro 2009

James Elroy Flecker (1884 - 1915)


To a Poet a Thousand Years Hence

I who am dead a thousand years,
And wrote this sweet archaic song,
Send you my words for messengers
The way I shall not pass along.

I care not if you bridge the seas,
Or ride secure the cruel sky,
Or build consummate palaces
Of metal or of masonry.

But have you wine and music still,
And statues and a bright-eyed love,
And foolish thoughts of good and ill,
And prayers to them who sit above?

How shall we conquer? Like a wind
That falls at eve our fancies blow,
And old Mæonides the blind
Said it three thousand years ago.

O friend unseen, unborn, unknown,
Student of our sweet English tongue,
Read out my words at night, alone:
I was a poet, I was young.

Since I can never see your face,
And never shake you by the hand,
I send my soul through time and space
To greet you. You will understand.

Mais aqui.

Mariano Peyrou


Auto-retrato

O melhor auto-retrato que conheço é o de um
pintor que vê um ovo e pinta uma ave. Há
pessoas cujo melhor auto-retrato está nas suas
unhas. Dez anos atrás julgava que o meu melhor
auto-retrato seria afinal um beijo durante o qual se
pensa no futuro para que voem juntos
os sabores. Toda a magia é ingénua. Toda
a palavra é mágica. Cinco anos atrás pintei o meu
melhor auto-retrato: um coração e um
corpo que vibra dentro dele e o alimenta. Dez
minutos atrás comecei um poema
pensando que em todas as palavras vibra um desejo
de silêncio, uma consciência de esterilidade.
Como me arrisco a passar por imbecil.
Todos os auto-retratos implicam um risco semelhante.
Os sonhos suicidam-se com soníferos.

[in O Discurso Opcional Obrigatório, Averno, 2009, pág. 29, tradução de Manuel de Freitas]

Autorretrato

El mejor autorretrato que conozco es de un
pintor que mira un huevo y pinta un ave. Hay
gente cuyo mejor autorretrato está en sus
uñas. Hace diez años pensaba que mi mejor
autorretrato sería al fin un beso durante el que se
piensa en el futuro para que vuelen juntos
los sabores. Toda magia es ingenua. Toda
palabra es mágica. Hace cinco años pinté mi
mejor autorretrato: un corazón y un
cuerpo que late dentro de él y lo alimenta. Hace diez
minutos comencé un poema
pensando que en toda palabra late un deseo
de silencio, una conciencia de esterilidad.
Cómo me arriesgo a quedar como un imbécil.
Todo autorretrato implica un riesgo semejante
Los sueños se suicidan con somníferos.

15 dezembro 2009

João Miguel Fernandes Jorge


XIX

Também tenho uma história do meu
pai para contar. Aos nove anos levou-
me a ver um doente. Era
inverno e a casa, meio derruída, ficava
na Tapada. Trazia ainda a húmida presença
das águas do rio. Aos nove anos
o eu funde-se com o presente vivido
com o dentro e o fora. Por isso o Tejo
foi para mim desde essa manhã
a casa da parede larga de adobe, o
quarto escuro sobre um enxergão
mal distingui um corpo
por inteiro reduzido à dor –

«Espera-me lá fora.» Mas fiquei junto à
sombra esboroada da parede. Trouxeram a
luz de um candeeiro
e o rosto não era o esperado com os traços rudes e
nobres de um homem do campo,
a face vivia um tempo feroz e gratuito. Daquele
homem guardo um estranho rumor
que suponho ser idêntico ao do ferido de morte
no chão de um massacre

oiço subir as águas do Tejo nos confins de
pedra; e todo o olhar vazio era, é
o enorme sítio do esquecimento
e toda a sua dor, a eternidade.

[in Mãe-do-Fogo, Relógio d'Água, 2009, pág. 30]