19 janeiro 2010

Dayanita Singh




Manuel de Freitas

Fortinbras says


Que estão nus, não valem nada
os poetas aclamados pela plebe
- o que é, infelizmente, verdade.

Que já vai sendo hora de bebermos
juntos um Jim Beam Black
- o que é, de outra maneira, verdade.

Que a canalha crítica, académica,
jornaleira ou mediática muito dificilmente
se consegue furtar ao grande peido geral.

E é verdade, também,

que morreram príncipes e princesas,
que já não há palavras
no reino deserto das palavras.

É tudo tão verdade, Fortinbras,
que nos apaetece mentir com dignidade,
espancar sem decoro as bestas que progridem.

E esquecer, de vez, que a vida
é um riso inútil,
sem máscara nem chicote.

Morre apenas, a vida,
torna-se verdadeiramente extinta,
insinuando, em cada grito, o silêncio
de que já não fomos capazes.

[in "Telhados de Vidro", nº. 13, págs. 31-32]

18 janeiro 2010

Abraçados para a eternidade


No Campo de Hockey de San Fernando (Cádiz), houve lugar a um achado arqueológico pouco comum: dois esqueletos abraçados há seis mil anos, frente a frente, com os membros inferiores e superiores entrelaçados, no que se designa como motivo dos namorados.
Há três anos, em Itália, um grupo de arqueólogos italianos descobriu na cidade de Mântua uma sepultura com dois esqueletos abraçados, que dataram de há mais de seis mil anos. Pelas ossadas concluiu-se que o par era ainda jovem. Ao achado denominaram-no "Os amantes de Valardo".
No caso do achado espanhol, estamos em presença de um esqueleto de uma rapariga à roda dos 12 anos e do esqueleto de um adulto (ainda não se determinou o género) entre os 35 e os 40 anos. Tanto pode ser um casal como uma dupla parental ou maternal, já que ambas as hipóteses encaixam nas vivências da época (neolítico).

Fonte: ABC

17 janeiro 2010

Luis García Montero

V

Tú me llamas, amor, yo cojo un taxi,
cruzo la desmedida realidad
de febrero por verte,
el mundo transitorio que me ofrece
un asiento de atrás,
su refugiada bóveda de sueños,
luces intermitentes como conversaciones,
letreros encendidos en la brisa,
que no son el destino,
pero que están escritos encima de nosotros.

Ya sé que tus palabras no tendrán
ese tono lujoso, que los aires
inquietos de tu pelo
guardarán la nostalgia artificial
del sótano sin luz donde me esperas,
y que, por fin, mañana
al despertarte,
entre olvidos a medias y detalles
sacados de contexto,
tendrás piedad o miedo de ti misma,
vergüenza o dignidad, incertidumbre
y acaso el lujurioso malestar,
el golpe que nos dejan
las historias contadas una noche de insomnio.

Pero también sabemos que sería
peor y más costoso
llevárselas a casa, no esconder su cadáver
en el humo de un bar.

Yo vengo sin idiomas desde mi soledad,
y sin idiomas voy hacia la tuya.
No hay nada que decir,
pero supongo
que hablaremos desnudos sobre esto,
algo después, quitándole importancia,
avivando los ritmos del pasado,
las cosas que están lejos
y que ya no nos duelen.

[in Diario cómplice, Hiperión, 1987]

Luis Alberto de Cuenca

Mal de Ausencia

Desde que tu te fuiste, no sabes quê despacio
pasa el tiempo en Madrid. He visto una película
que ha terminado apenas hace un siglo.
No sabes quê lento corre el mundo sin ti, novia lejana.

Mis amigos me dicen que vuelva a ser el mismo,
que pudre el corazón tanta melancolía,
que tu ausencia no vale tanta ansiedad inútil,
que parezco un ejemplo de subliteratura.

Pero tu te has llevado mi paz en tu maleta,
los hilos del telefono, la calle en a que vivo.
Tú has mandado a mi casa tropas ecologistas
a saquear mi alma contaminada y triste.

Y, para colmo, sigo soñando con gigantes
y contigo, desnuda, besándoles las manos.
Con dioses a caballo que destruyen Europa
y cautiva te guardan hasta que yo esté muerto.

[in Los mundos y los días. Poesía 1972-1998, Visor, pág. 132]

Voy a escribir un libro

Voy a escribir un libro que hable de las (poquísimas)
mujeres de mi vida. De mi primera novia,
que me enseñó el amor y las puertas secretas
del cielo y del infierno; de Isabel, que se fue
al país de los sueños con el pequeño Nemo,
porque aquí lo pasaba fatal; de Margarita,
recordando unos jeans blancos y unos lunares
estratégicamente dispuestos; de Ginebra,
que dejó a Lanzarote plantado por mi culpa
y fundó una familia respetable a mi costa;
de Susana, que sigue tan guapa como entonces;
de Macarena, un dulce que me amargó la vida
dos veranos enteros; de Carmen, que era bruja
y veía el futuro con ojos de muchacho;
de la red que guardaba los cabellos de Paula
cuando me enamore de su melancolía;
de Arancha, de Paloma, de Marta y de Teresa;
de sus besos, que izaron la bandera del triunfo
sobre la negra muerte, y también de su helado
desdén, que recluyó tantas veces mi espíritu
en la triste mazmorra de la desesperanza.
Voy a escribir un libro que hable de las mujeres
que han escrito mi vida.

[in Los mundos y los días. Poesía 1972-1998, Visor, pág. 281]

Cuando vivías en la Castellana

Cuando vivías en la Castellana
usabas un perfume tan amargo
que mis manos sufrían al rozarte
y se me ahogaban de melancolía.
Si íbamos a cenar, o si las gordas
daban alguna fiesta, tu perfume
lo echaba a perder todo. No sé dónde
compraste aquel extracto de tragedia,
aquel ácido aroma de martirio.
Lo que sé es que lo huelo todavía
cuando paseo por la Castellana
muerto de amor, junto al antiguo hipódromo,
y me sigue matando su veneno.

[in Los mundos y los días. Poesía 1972-1998, Visor, pág. 114]

Amor fou

Los reyes se enamoran de sus hijas más jóvenes.
Lo deciden un día, mientras los cortesanos
discutensobre el rito de alguna ceremonia
que se olvidó y que debe regresar del olvido.
Los reyes se enamoran de sus hijas, las aman
con látigos de hielo, posesivos, feroces,
obscenos y terribles, agonizantes, locos.
Para que nadie pueda desposarlas, plantean
enigmas insolubles a cuantos pretendientes
aspiran a la mano de las princesas. Nunca
se vieron tantos príncipes degollados en vano.

Los reyes se aniquilan con sus hijas más jóvenes,
se rompen, se destrozan cada noche en la cama.
De día, ellas se alejan en las naves del sueño
y ellos dictan las leyes, solemnes y sombríos.

[in Los mundos y los días. Poesía 1972-1998, Visor, pág. 79]

16 janeiro 2010

Aguarelas de Emanuel Bernstone


Para que serve uma fundação?


Era uma vez um poeta. Arranjaram-lhe uma casa com vista para o mar, criaram-lhe uma fundação, deixaram-no viver sossegado (mais ou menos) durante os últimos anos da sua vida. Agora, os imbróglios da coisa vêm ao de cima.
O problema, como é da praxe, são os negócios. Negócios onde talvez houvesse mais olhos que barriga. Por exemplo o da edição dos livros do poeta na Quasi. A editora faliu. E a Fundação perdeu dinheiro por causa disso. Acontece. Se a Fundação era a editora, por vontade do poeta, por que raio haviam de ter passado a edição à Quasi? O editor da Quasi pouco mais era do que um oportunista de meia tigela, além de manifestamente ser semi-analfabeto.
Para ver o quadro geral, dar um passeio por aqui e por aqui.

14 janeiro 2010

Várzea da Rainha Impressores


O negócio dos livros tem nichos por explorar. Zita Seabra, servindo-se de programas comunitários, tenta partir na linha da frente e assegurar o seu negócio: "é possível editar poucos exemplares a custos mais baratos". "Actualmente, o custo de 100 exemplares é igual ao custo de mil".
Além de livros, a cores ou a preto e branco, o novo equipamento imprime cartazes, cartões de visita, teses de doutoramento ou mestrado e catálogos de exposições de leilões. "A edição é o nosso mercado principal, mas também aquilo a que chamamos dados variáveis, ou seja, impressão de facturas de água, luz, gás e bancos, entre outros".
Não importa o que se edita, apenas corresponder aos anseios dos clientes. A edição não está moribunda, confirma que foi e é um negócio e que taxas especiais de IVA e outras deveriam acabar. Apenas a edição de obras científicas e de certos géneros literários deveriam beneficiar dessas benesses. Senão, está-se a enganar o consumidor.
A VRI é uma empresa de Print on Demand que sabe haver muita gente a sonhar com ter um livro publicado. E que sabe outras coisas. Importa que o Estado também saiba promover o livro e deixar de dar apoios directa ou indirectamente a coisas cuja vocação nada tem de cultural, embora viva à sombra desse prestígio.

Fonte: JN

13 janeiro 2010

Memórias de visitas






Dura lex sed lex


Sal Esposito foi convocado por um tribunal de Boston para ali comparecer na qualidade de jurado. Acontece que Sal Esposito é um animal de estimação, um gato. Como vive em casa dos Esposito, a dona, aquando de um recenseamento, inscreveu-o como membro da família.
Os gatos, bem como outros animais de estimação, são membros de muitas famílias. E nem vale a pena dizer que são tratados como príncipes.
O pior é quando acontecem estes imbróglios. Anna Esposito, a dona de Sal, pediu que o seu gato fosse dispensado de ter de se apresentar em tribunal como jurado, alegando que não o podia fazer já que não falava inglês. O pedido foi negado.
Podem ver toda a história aqui. E aqui.

12 janeiro 2010

Amores tardios


O amor sempre foi perigoso. Refractário, ilegal, proibido, escandaloso, jocoso - vários adjectivos se lhe colam para descrever os perigos da paixão, do amor assolapado.
Muitas pessoas passam a vida atrás do amor. Outras tropeçam nele e deixam-se levar pela tempestade. Outras ainda fogem, com medo de perderem a cabeça.
O amor não olha a credos, idades, cores de pele nem a outros pormenores. Embora tudo isso influencie, e de que maneira, a tomada de posição de alguns amadores. Já os amantes sabem que o amor é tirano, quando chega exige tudo e não se interessa por mais nada que não seja a satisfação, o prazer, o encantamento.
Que o diga Iris Robinson, mulher do chefe do governo autónomo da Irlanda do Norte, deputada em Westminster e na Assembleia de Ulster, famosa pela sua personalidade e tendência em apelar para a Bíblia, num extremismo e puritanismo que agora se voltam contra ela.
Em 2008, caiu de amores por um rapaz de 19 anos, Kirk McCambley. Iris disse que se aproximou de McCambley para o ajudar a recuperar da morte do pai e que a relação se foi tornando mais séria com o tempo. Tão séria que a deputada do DUP arriscou não só o casamento, mas também o seu lugar na política para facilitar a vida ao namorado. Além disso, a mulher do primeiro-ministro Peter Robinson vê-se acusada de manipular um concurso público, em 2008, colocando o amante como o único candidato a reunir todos os requisitos para assumir a gerência de um café num parque municipal de Belfast. E de ter convencido dois promotores imobiliários da cidade a atribuir 50 mil libras (55,7 mil euros) para o namorado abrir o estabelecimento comercial numa das mais caras zonas da cidade.
A trapalhada é de tal ordem que Peter Robinson se viu obrigado a auto-suspender de funções para dar apoio à família. A família sempre teve esta função, de defender os indivíduos dos ataques de fora, mesmo quando os ataques vêm de dentro. E numa família que se alimenta publicamente do seu fundamentalismo religioso, o divórcio é proibido.
O extremismo religioso tem dessas coisas. E mostra como entre o blá blá da moralzinha e as pulsões do corpo, este sai sempre vencedor - Freud ganhou fama a falar do assunto.

11 janeiro 2010

Podem chamar-me Roxxxy


Oi, cara. Sou a Roxxxy e tenho um corpo de modelo - 174 cm e 54,5 quilogramas - e pele sintética que se assemelha à de uma mulher. Falo de futebol e de carros. O tamanho dos meus seios e a cor de cabelo é a que você desejar. Sou uma boneca insuflável, a que chamam o primeiro robô do sexo. Ouço, falo, reajo ao toque e chego mesmo a ter orgasmos (artificiais, claro, cara).
Não posso aspirar nem sei cozinhar, mas de resto posso fazer quase tudo, se é que me faço entender. Tenho um esqueleto articulado, que me permite fazer movimentos como uma mulher de carne e osso e até tenho um coração artificial que... bombeia um líquido refrigerante.
Contigo posso "conversar" do que você mais gosta. Através da internet posso fazer actualizações do software, solicitar apoio técnico e mandar emails ao meu mais-que-tudo lá de casa.
Meu papai é o inventor, Douglas Hine, engenheiro da área da inteligência artificial. Que diz: "É uma companhia. Tem personalidade. Ouve, toma atenção, fala. Sente o toque e dorme. Estamos a tentar replicar a personalidade de uma pessoa".


Éric Rohmer (1920-2010)

Morreu o realizador francês. Tinha 89 anos.
Figura da Nova Vaga do cinema gaulês, colaborou nos «Cahiers du Cinema» entre 1957 e 1963 e notabilizou-se por filmes como «Ma nuit chez Maud» e os Contos das quatro estações (Outono, de 1998; Verão, de 1996; Inverno, de 1991 e Primavera, de 1990).

09 janeiro 2010

Prémio de comportamento


José Sócrates, assinou ontem um despacho em que nomeia Maria de Lurdes Rodrigues para o cargo de presidente da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD).
O prémio é compreensível: Marilu cumpriu o objectivo de Sócrates, demonizar os professores, mostrando que a educação é uma coisa inútil se não alinhar pela bitola de propaganda do governo.
A senhora foi exemplar e conseguiu aguentar o embate sem ter de passar pelo psiquiatra. A sua cultura de esquerda deve ter sido muito útil.
A FLAD, que em tempos foi uma espécie de segunda Gulbenkian, vive há mais de uma década discretamente, à custa dos acordos da Base das Lajes. Teve um papel importante na divulgação e apoio das artes plásticas e de alguns projectos de investigação científica.
Com Marilu à frente da instituição, dado o seu profundo conhecimento da área, confirma-se a menoridade da FLAD, cada vez mais um bom tacho para meia dúzia de nadas.

07 janeiro 2010

Programa de Bolsas para Criação Artística dos Açores

Nos Açores acontecem coisas estranhas. Em Outubro de 2009, o governo regional criou, através da presidência, o Programa de Bolsas para Criação Artística. Os termos da coisa constam do despacho n.º 1134/2009, de 29 de Outubro de 2009.
A redacção do dito cujo tem aspectos peculiares, que enformam de vícios colturais muito em voga nos dias que correm e que confirmam o quanto a cultura estatal se aproxima da propaganda.
Diz-se, em jeito de preâmbulo que "O objecto do Regulamento do Programa de Bolsas para a Criação Artística é fomentar, no âmbito regional, o desenvolvimento de projectos individuais de criação e de pesquisa de linguagens nas áreas artísticas, criando condições materiais para que artistas e profissionais residentes nos Açores desenvolvam e produzam obras inéditas e de qualidade, ampliando a produção e a difusão das Artes." São contempladas as seguintes áreas: Artes Visuais, Criação Literária, Dança (Coreografia), Dramaturgia, Fotografia, Música (Composição Erudita) e Música (Composição para Bandas Filarmónicas).
Vejamos o caso da criação literária. Diz o texto "Desenvolvimento de projecto de criação literária individual nos seguintes géneros narrativos: contos, novela ou romance - , que resulte numa obra ou num conjunto de pequenas obras (série ou colecção), destinado a público juvenil ou a público adulto, com conteúdo de ficção baseado em factos históricos, personagens verídicas ou lendas, originárias na história ou imaginário imaterial açorianos, resultando em obras inéditas para publicação."
Primeiro reparo, a poesia fica esquecida. Porquê? A gente olha para os grandes nomes da literatura "açoriana" e só encontra poetas: Roberto de Mesquita, Antero de Quental, Armando Cortes Rodrigues, Vitorino Nemésio, Pedro da Silveira, Natália Correia, Emanuel Félix (para só nos referirmos aos mortos). Mas para quem andou às voltas com a redacção do dito despacho, a poesia pareceu-lhes coisa de somenos. Quiçá por ignorância?
Segundo reparo, em nenhuma das outras áreas a sanha dirigista alcança os requintes alcançados na criação literária. No entendimento do legislador, a literatura só é válida quando afim do folclore? Ou quando limitada a um entendimento neo-socialista da literatura? Ou será que o legislador, secreto admirador dos pastiches de Dan Brown e afins, desconhece que a criação literária se orienta pelas mesmas regras das outras artes? (Não se vê o pedido de criação e composição inédita em Música Erudita com temática histórica açoriana; tão-pouco se faz o mesmo pedido em relação à Dramaturgia ou à Fotografia - e a história mostra que o romantismo, época da criação do folclore, contaminou essas expressões artísticas).
Não será possível encontrar um discurso urbano e contemporâneo nos Açores?
Enfim, trapalhadas, para não dizer idiotices governamentais, que mais fazem lembrar os dislates do Estado Novo do que um governo democrático dos nossos dias.
Gabriela Canavilhas foi a responsável pela coisa. Carlos César foi e é, pois assinou-a e vem da Presidência toda a trapalhada.
Esperemos que o novo titular da Direcção Regional da Cultura, Jorge Bruno, possa reparar algo que ainda não começou e já cheira mal.

Pharrell Williams e a Perspective



Pharrell Williams, também conhecido como Skateboard P, é músico e o produtor que está por detrás de um bom número de êxitos de Britney Spears, Madonna, Mariah Carey, Janet Jackson, Snoop Dogg, Gwen Stefani, Nelly Furtado ou Justin Timberlake, entre outros.
Mas nem só de música vive o homem, por isso, resolveu dar uma perninha no design. E aí está a cadeira Perspective, criada em colaboração com a Domeau & Pérès, que se encarregou da produção.
A cadeira representa o amor entre um homem e uma mulher, dispõe de poucas cores (ver imagem) e terá produção limitada.

06 janeiro 2010

Fernando Ulrich

A Refer lidera a tabela das empresas com maiores compromissos adicionais, calculados pelos economistas do BPI, dentro do Sector Empresarial do Estado (SEE), com um peso de 26 por cento, correspondente a quase nove mil milhões de euros, com os transportes a dominarem a lista.
Segue-se o Metro de Lisboa (16,8 por cento, perto de 5,5 mil milhões de euros), o Parque Escolar (13,6 por cento, cerca de 4,5 mil milhões de euros), a Comboios de Portugal - CP (11 por cento, sensivelmente 3,8 mil milhões de euros), os Hospitais EPE (8,2 por cento, quase três mil milhões de euros), o Metro do Porto (7,5 por cento, 2,5 mil milhões de euros), a Empresa de Desenvolvimento e Infra-estruturas do Alqueva - EDIA (3,8 por cento, cerca de 1,2 mil milhões de euros), a Estradas de Portugal (2,8 por cento, quase mil milhões de euros), a RTP (2,7 por cento, perto de mil milhões de euros) e a Carris (1,8 por cento, cerca de 600 milhões de euros).
Os restantes 5,2 por cento estão repartidos pelas outras 25 empresas incluídas no estudo do BPI - entre as previsivelmente sustentáveis e as previsivelmente não sustentáveis.
Reconheço o papel social dos transportes públicos, mas faz-me um bocado impressão a dimensão que têm as responsabilidades actuais e futuras” das empresas, disse. “Choca-me que os dez milhões de portugueses tenham de gastar tanto para tão pouco. Será que houve má gestão e desperdício? Os números são tão grandes que me fazem impressão.

Paleio e mais paleio, de resto nada


É verdade, fica bem gastar uns milhares em publicidade para promover a natalidade. Mas já quando se trata de a proteger, o caso muda de figura.
Isto para não falarmos de uma tara comum aos governantes, seja qual for o partido ou o país. Gastam-se milhões do erário público em publicidade, em apoios aos ricos, em obras megalómanas, mas quando se trata de salários, o erário público sofre de urticária e coça-se tanto que seca.
Tanto faz que sejam trabalhadoras da TAP como quaisquer outros funcionários do Estado ou de empresas controladas pelo Estado.
"José Sócrates concordou com a opção da TAP de não pagar prémios de desempenho às dez trabalhadoras que estiveram de baixa por maternidade em 2007. A empresa defendeu que, como as 10 empregadas estiveram ausentes, não cumpriram os mínimos de trabalho para ter prémios, justificando a decisão com o Acordo de Empresa (AE)." [ i ]

05 janeiro 2010

Vale sempre a pena comparar


Grande parte dos lugares comuns de agora foram forjados entre o século XIX e o século XX. A coisa é particularmente exemplar no que respeita ao discurso social e político. Veja-se o que dizia Ramalho Ortigão há mais de um século, falando do Portugal da época: "A indisciplina geral, o progressivo rebaixamento dos caracteres, a desqualificação do mérito, o descomedimento das ambições, o espírito de insubordinação, a decadência mental da imprensa, a pusilanimidade da opinião, o rareamento dos homens modelares, o abastardamento das letras, a anarquia da arte, o desgosto do trabalho, a irreligião, e, finalmente, a pavorosa inconsciência do povo."
Muitos cairão na tentação de ler estas palavras como se fora um retrato do presente. Quando nem sequer são um retrato da época. Apenas a opinião inflamada de um autor dotado e zangado com o país.
O tom azedo e caricatural com que Ortigão fala diz muito dele próprio e da conta em que se tinha. Elevada, claro, acima da choldra infecta. O problema é que a suposta choldra era apenas e tão-só a choldra de um classe dirigente mal formada, gulosa, pouco apta a perceber o mundo à sua volta, embora fosse endinheirada e gozasse de boa vida.
O problema era que, como diz, Maria Alice Samara, investigadora do Instituto de História Contemporânea (IHC) da Universidade Nova de Lisboa e especialista na Primeira República: "Tal como julgavam os republicanos, assistiu-se a um abastardamento do regime liberal. Os homens que estavam no Governo não representavam o povo, eram criaturas do rei. O ambiente de crise permite aos republicanos a apresentação de uma resposta nova, de uma regeneração, que é também feita com outras sensibilidades políticas"(Público).
Os republicanos foram muito hábeis e veicularam ideias. Ideias que colhiam cada vez mais adeptos e venceram. Mas, como se viu depois, os problemas mantiveram-se, apesar de muitas boas obras. E mantiveram-se porque a classe empresarial e dirigente continuou igual a si mesma: medíocre.