15 dezembro 2009

João Miguel Fernandes Jorge


XIX

Também tenho uma história do meu
pai para contar. Aos nove anos levou-
me a ver um doente. Era
inverno e a casa, meio derruída, ficava
na Tapada. Trazia ainda a húmida presença
das águas do rio. Aos nove anos
o eu funde-se com o presente vivido
com o dentro e o fora. Por isso o Tejo
foi para mim desde essa manhã
a casa da parede larga de adobe, o
quarto escuro sobre um enxergão
mal distingui um corpo
por inteiro reduzido à dor –

«Espera-me lá fora.» Mas fiquei junto à
sombra esboroada da parede. Trouxeram a
luz de um candeeiro
e o rosto não era o esperado com os traços rudes e
nobres de um homem do campo,
a face vivia um tempo feroz e gratuito. Daquele
homem guardo um estranho rumor
que suponho ser idêntico ao do ferido de morte
no chão de um massacre

oiço subir as águas do Tejo nos confins de
pedra; e todo o olhar vazio era, é
o enorme sítio do esquecimento
e toda a sua dor, a eternidade.

[in Mãe-do-Fogo, Relógio d'Água, 2009, pág. 30]

Renata Correia Botelho

Vai estar hoje na livraria Solmar (Ponta Delgada) com o seu livro Um Circo no Nevoeiro (edição Averno). Os gastos da apresentação correm a cargo de Rosa Goulart, professora da Universidade dos Açores. Às 20h30, para quem estiver em S. Miguel e goste de preciosidades.
Um Circo no Nevoeiro é o segundo livro da autora.

Renata Correia Botelho fala sobre o seu livro - Um Circo no Nevoeiro from ARTilharia TV on Vimeo.



"Um Circo no Nevoeiro" livro de poesia de Renata Correia Botelho lançado na livraria Solmar from ARTilharia TV on Vimeo.

14 dezembro 2009

Os mãos largas


Tadinhos, são tão contidos no aumento. Mais dez euritos por mês. Coisa assim para cinco almoços, vinte copos de água e um café aos fins de semana. Os patrões portugueses são uns mãos largas, essa é que é essa.
Isso que para o empregado é nada, para o patrão é a ruína. Como as empresas portuguesas têm uma média de 200 a 300 empregados (as mais pequeninas, claro, pois se forem grandes como as fábricas de televisores - onde Portugal é rei, como todos sabemos - estamos a falar de um universo de milhares), mais 15 euros era muito: já o patrão não podia comer a sua lagosta mensal ou o seu leitão de fim de semana.
E depois dizem que a produtividade em Portugal é baixa. Pois é, com patrões destes admira que Portugal não esteja lá mais para ocidente, assim no meio de uma fazenda brasileira.

Imagens





10 dezembro 2009

A água, o mar - perigos


Há mais de 5,33 milhões de anos, o Mar Mediterrâneo estava isolado do Oceano Atlântico. Era, por então, um lago salgado, entre 150 e 2700 metros abaixo do actual nível. E foi assim durante um longo período. Na altura, não havia estreito de Gibraltar, Europa e África estavam unidas.
Contudo, há cerca de 5,33 milhões de anos, as águas do oceano extravasaram aquele estreito – por causa de um levantamento tectónico - e provocaram, num período de dois anos, uma cheia repentina que implicou elevações no nível do Mar Mediterrâneo de mais de dez metros diários.
Num futuro não muito distante, pode haver mais mudanças de paisagem. Não por levantamentos tectónicos (que esses não se podem prever, por enquanto), mas devido a alterações climáticas. Portugal é um dos territórios que sofrerá bastante, dada a sua longa costa marítima. Viana do Castelo, Aveiro, Vila Franca de Xira, linha de Cascais e a Península de Setúbal são alguns dos lugares que podem vir a ser mais afectados.

Fonte i (1 e 2). Também aqui.

08 dezembro 2009

Mitos urbanos


O triângulo das Bermudas devora aviões e barcos, qual Adamastor do século XX. Com a mesma fé há quem defenda que jamais o homem deixou pegadas em solo lunar e que tudo não passou de uma engenhosa encenação americana. Se lhes acrescentarmos umas quantas descobertas que se vieram a revelar puras aldrabices, vemos quanto a falsa ciência é bem aceite pelos homens de todas as épocas. Embora seja cada vez mais difícil aos mistificadores aguentarem-se muito tempo.
O Triângulo das Bermudas remonta a Dezembro de 1945, depois do desaparecimento de cinco bombardeiros norte-americanos e do hidroavião que fora à procura desses aviões desaparecidos. Começou então a desenhar-se a lenda de que o Triângulo das Bermudas era uma área com pouco mais de 1 milhão de km², situada no Oceano Atlântico entre as ilhas Bermudas, Porto Rico e Fort Lauderdale (Florida), governada por forças do mal.
Sabe-se que por imperativos militares, as rotas eram para cumprir à risca. Isso fizeram os pilotos que tinham saído da base americana de Fort Lauderdale, na Florida, rumo aos céus das Bahamas, para uma prova que consistia em voar apenas com um bússola como instrumento de navegação. Perderam-se, pois as bússolas, fruto das condições electromagnéticas do local, deixaram de funcionar e como apenas tinham combustível para as provas de treino, que se previa simples, acabaram por cair e desaparecer em pleno mar. O hidroavião Martin Marimer que saiu em resgate incendiou-se e explodiu, fazendo jus ao modo como o designavam: tanque volante de gasolina.
A partir desses acontecimentos, começou a circular a lenda e como quem conta um conto acrescenta um ponto, cada história passou a incluir dezenas de falsos desaparecimentos. Estava lançado um dos mitos dos nossos tempos. Charles Frambach Berlitz escreveu mesmo um livro sobre o assunto pelos idos de 1974, que lhe trouxe fortuna.
O certo é que a zona é tão segura como outra qualquer, apesar de ser uma das que mais tráfego aéreo e marítimo regista.

06 dezembro 2009

Renata Correia Botelho


ponho entre aspas o teu nome,
metáfora arisca,
tão inútil como um circo
no nevoeiro.

[in Um circo no nevoeiro, Averno, 2009, pág. 27]

os teus lábios hasteados
numa manhã de julho.

soalheira visão
da morte.

[pág. 52]

Juan Marqués


Nocturno (un prólogo)

Detrás de tres de cada cuatro puertas
habita el sufrimiento
mientras sobre la noche reina
media rodaja de limón.

Siempre ha sido así
y así lo será siempre.

Ven a dormir conmigo.

Voy a cantarte un cuento.

Principio

No finjas que no sabes
que este minuto en el que todo cambia
es diario pero es irrepetible.

Sé valiente y levanta la cabeza:
acepta lo que ves
y agradece la vida mientras puedas.

Es el amanecer sobre la tierra,
y es la primera vez.

Lo has visto. Lo has perdido. Lo has ganado.

Sobre una carta de Rilke

Las baldosas nos aman, los raíles
desean lo mejor para nosotros.
Todo viene con buena voluntad.

El oxígeno está de nuestra parte.
También los minerales, dentro y fuera:
el calcio de los huesos, los desiertos de plata.
Un mar de clorofila.

Las estrellas conocen nuestro idioma
y lo hablan muy despacio.

Nos dicen que escuchemos,
que no nos dicen nada.

* *

Pisca internacional 2


Umberto Eco


"Como se sente uma pessoa quando olha para o céu? Pensa que não tem línguas suficientes que descrevam o que vê. Mesmo assim, as pessoas nunca deixaram de descrever o céu, recorrendo ao simples expediente de enumerarem o que vêem. Com os amantes passa-se o mesmo. Sentem uma deficiência na linguagem, uma falta de palavras que exprimam os seus sentimentos. E será que alguma vez os amantes desistem de o tentar fazer? Fazem listas: os teus olhos são tão belos, a tua boca também, e o teu colo... É possível ser muito pormenorizado."

"Nós temos um limite, um limite muito desanimador e humilhante: a morte. Por isso gostamos de tudo o que para nós não tem limites e que, portanto, não tem fim. É uma fuga que nos distrai de pensar na morte. Gostamos de listas porque não queremos morrer."

"As listas podem ser anárquicas."

"Os meus interesses mudam constantemente, tal como a minha biblioteca."

"Fiquei fascinado com Stendhal aos 13 anos e com Thomas Mann aos 15 e, aos 16, adorava Chopin. A seguir, passei a vida a tentar conhecer o resto. Neste momento, Chopin voltou a estar no topo da lista. Quando interagimos com as coisas da nossa vida, tudo muda. Se nada mudar, somos idiotas."

Tudo em i (traduzido do alemão)

Paul Valéry


Era um poeta sisudo e já em limite de idade quando se apaixonou por uma mulher bem mais nova. O enlevo durou algum tempo e acabou. Ele escreveu muito. Uma parte, cento e cinquenta poemas, apareceu em França, por alturas da Primavera, sob o título de Corona & Coronilla. Alguns dos poemas mais eróticos não foram publicados, por que razão não sabemos.
Jeanne Loviton foi a musa. Advogada divorciada, editora, escritora, mulher fatal, Jeanne assinava os seus livros como Jean Voilier. Diz Mauriac que ela foi a última personagem romântica da França de entre guerras. Entre os homens que a amaram contam-se Paul Valéry, Saint-John Perse, Jean Giraudoux, Bertrand e Jouvenel, Emile Henriot, Curzio Malaparte, Robert Denoël, Maurice Garçon, o Conde Grandi di Mordano (ministro mussoliniano dos negócios estrangeiros), dois embaixadores japoneses em Paris. Há até quem lhe chame um D. Juan de saias.


Em Espanha, pela mão do poeta e editor (Hiperión), Jesús Munárriz, sairá a edição bilingue. Alguns poemas traduzidos para castelhano podem ser lidos aqui. Como é domingo, transcrevemos um:

Le Beau Dimanche

Un jour mourant, mêlé de tonnerre et d'alerte,
Un Saule, tout tremblant de pluie, en robe verte,
Deux coqs, le blanc piteux, l'autre noir et vainqueur,
Et nous, tout attendris de nous faire un seul coeur
En qui la même amour s'aime, abonde et s'épanche,
Chère, cela compose un assez beau dimanche ;
Où ne manqua ce fruit de notre accord étroit :
La préparation sage des « Cours de Droit ».

04 dezembro 2009

Cem Mil Anos de Beleza


Pour la France, bien sur. Edita Gallimard. Cinco volumes, que na estante fazem uma pirâmide porque têm diferentes dimensões (vão aumentando de tamanho à medida que se vão aproximando do século XXI). Os custos correram a cargo da Fundação LOréal. 300 autores, de 35 nacionalidades e as perspectivas de, entre outros, historiadores, sociólogos, filósofos, psiquiatras, arqueólogos, antropólogos que procuram dar uma visão global do que é a beleza nas suas dimensões biológica, social e psicológica.
O objectivo é esclarecer o que significa o termo "beleza" em cada época e em cada civilização e também projectar o que poderá ser nas décadas vindouras, mas é também desconstruir os preconceitos de que a beleza é algo superficial, frívolo ou fútil, revela Elizabeth Azoulay, antiga professora da Universidade de Paris e actual gestora da empresa Babylone, em França. Segundo ela, "A beleza é como a língua. Toda a humanidade fala línguas diferentes e os cânones de beleza são diferentes de povo para povo; mas a necessidade de querer mudar o aspecto que se tem é universal".
"A beleza não é o resultado final, mas é a acção de transformação do nosso corpo, do nosso rosto", esta é uma definição universal, acredita Azoulay. E foi assim na Antiguidade. "A beleza tinha um papel importante em todas as sociedades, antes da invenção da escrita, e os grupos dependiam dela para se identificarem e serem reconhecidos pelos outros", explica. Essa necessidade de identificação, de reconhecimento, perdura até aos nossos dias e os exemplos vêm de todas as partes do mundo: as cortes europeias dos séculos XVII e XVIII desenvolvem um modelo estético em que a beleza é sinónimo de poder; na China, o poder de cada família traduz-se nos ornamentos, penteados e cores usadas.

Fonte: Público

03 dezembro 2009

A medíocre classe empresarial portuguesa

Já por várias vezes insistimos neste ponto: Portugal não está melhor porque as classes dirigentes são más. Nas classes dirigentes incluímos os empresários. As notícias confirmam: "ao contrário do que se passa noutros países, por cá parece não interessar ter um bom nível de literacia, porque esses valores têm pouco impacto no sucesso dos indivíduos no mercado de trabalho, avança o estudo [A Dimensão Económica da Literacia em Portugal: Uma Análise]. Dois terços dos empregadores optam por profissionais pouco qualificados."
Ou seja, os empresários portugueses não seguem as teorias da Inovação e Qualidade. O que lhes interessa realmente é gastar pouco em salários para poder gastar muito em automóveis e noutros objectos empresarialmente produtivos.
Por estas e por outras, quando ouço certa gentinha a dizer que são as empresas que criam riqueza, penso se viveremos no mesmo país. Há chavões que já cansam. Com a agravante de muitos desses empresários receber benesses estatais e se alimentarem à custa dos contribuintes que exploram à má fila.

02 dezembro 2009

Segredos da ilha Terceira por Ruben Tavares


Manuel de Freitas

2007, Aldina Duarte

O Sr. Vinho fazia apenas mais
um ano do que tu. São coisas que
acontecem, tão exactas e por vezes
belas como a tristeza de saber
que «tudo aquilo que hoje
existe / um dia há-de morrer».

Aquele corpo, de olhos fechados,
pedia com as mãos que não
o fotografassem esta noite,
sujando uma alegria que até na dor
prevalece e ficou, durante alguns
segundos, encostada aos nossos ombros.

Só quando ouviram Ai Meu Amor
se Bastasse as pedras de gelo
aceitaram desfazer-se no meu copo,
muitos anos depois de termos gasto a morte:
agora que nenhum esquecimento basta
e se reacende, todavia, a vela frágil do amor.

[in Jukebox 1 & 2, Teatro de Vila Real, 2009, pág. 39]

Anthony Braxton, Duo part I

A miséria mental dos nossos dias


Por alguma razão os julgamentos na praça pública configuram um atentado aos direitos dos indivíduos. Mas... os jornais precisam de vender papel, as rádios e televisões precisam de espectáculo para aumentar audiências e receber dividendos publicitários. E a populaça, mesmo que não esteja por dentro do assunto, logo que lhe cheire a sangue, vem a terreiro com as suas facas e foices e gritos e dedos acusadores. Mesmo gente que devia ter mais algum juízo não deixa passar a a oportunidade de vender o seu peixe.
E se isto é assim com o zé-ninguém, calcula-se como é quando o indivíduo é "famoso". Já aqui fizemos uma breve referência ao caso das escutas a Sócrates. Agora, chega-nos a notícia do linchamento moral de um espanhol acusado de matar e violar a filha da mulher com quem vai casar. Que, afinal, não passou de erro médico grosseiro amplificado pelos media. O homem, de 24 anos, está dopado e já não reage. Que raio de tempo este, hã?
"Tudo começou na sexta-feira passada, com a morte de Aitana, uma menina de três anos que vivia com a mãe na ilha de Tenerife. No domingo anterior, Aitana tinha sofrido uma queda violenta num parque infantil e foi levada ao hospital pela mãe e por Diego P. O médico afirmou não haver fracturas e receitou um analgésico. “Em três dias estará a correr como se não fosse nada”, terá dito ao casal.
A criança continuou a queixar-se de dores na cabeça e na terça-feira seguinte, dia 24, desmaiou. Diego levou-a ao médico, onde foi diversas vezes reanimada. O médico que a observou achou que pequenas marcas na pele poderiam ser queimaduras causadas intencionalmente e levantou a possibilidade de agressão sexual. Diego foi de imediato detido e na sexta-feira, após a morte da criança, a detenção foi confirmada por um juiz.
As reacções foram imediatas. “Que caia sobre ele todo o peso da lei”, afirmou a advogada María Dolores Pelayo. A porta-voz do Forum contra a Violência, Magalines Rosales, recordava que os maus tratos e abusos sexuais a crianças são uma das formas de violência de género “mais escondidas na sociedade”."
Mais aqui, aqui e aqui.

01 dezembro 2009

Rir até às lágrimas


Às vezes a gente apenas quer que o mundo seja um lugar limpo, bem vestido, certinho, com risca ao meio. Às vezes a gente está no grau zero da imbecilidade e quase quase feliz. Mas, pouco depois, seja por causa dos trocos que se foram, ou por causa de alguém que nos fez sentir medíocres, abre-se em nós uma raiva fortíssima e só nos apetece declinar adjectivos e mandar todos os diminutivos para aquela parte (o eufemismo come tudo, o eufemismo come tudo). O mais engraçado é que nem o mundo se desvia um milímetro nem Portugal deixa de ser Portugal. Apenas nós nos sentimos mais e menos, menos e mais, numa ondulação que acaba por enjoar.
Assim, cansam-nos todos os tiques urbanos e bem-pensantes, tal como nos cansam os arrotos e as palavras demolhadas em lugar-comum dos bêbebos.
O que nos vale é haver quem olhe para nós com simpatia e nesse instante o desarranjo sossega. E quando o desarranjo sossega até o discurso do D. Duarte Pio parece uma anedota bem contada. E rimos, rimos às gargalhadas, até às lágrimas.
"Numa época conturbada como a que se vive hoje em Portugal, prepara-se, com grande despesismo, a comemoração, em 2010, do centenário da República". Há despesas que incomodam os monárquicos, pois claro.