20 outubro 2009

Nicanor Parra

Advertencia al lector

El autor no responde de las molestias que puedan ocasionar sus escritos:
Aunque le pese,
El lector tendrá que darse siempre por satisfecho.
Sabelius, que además de teólogo fue un humorista consumado,
Después de haber reducido a polvo el dogma de la Santísima Trinidad
¿Respondió acaso de su herejía?
Y si llegó a responder, ¡cómo lo hizo!
¡En qué forma descabellada!
¡Basándose en qué cúmulo de contradicciones!

Según los doctores de la ley este libro no debiera publicarse:
La palabra arco iris no aparece en él en ninguna parte,
Menos aún la palabra dolor,
La palabra torcuato.
Sillas y mesas sí que figuran a granel,
¡Ataúdes!, ¡útiles de escritorio!
Lo que me llena de orgullo
Porque, a mi modo de ver, el cielo se está cayendo a pedazos.

Los mortales que hayan leído el Tractatus de Wittgenstein
Pueden darse con una piedra en el pecho
Porque es una obra difícil de conseguir:
Pero el Círculo de Viena se disolvió hace años,
Sus miembros se dispersaron sin dejar huella
Y yo he decidido declarar la guerra a los cavalieri della luna.

Mi poesía puede perfectamente no conducir a ninguna parte:
"¡Las risas de este libro son falsas!", argumentarán mis detractores
"Sus lágrimas, ¡artificiales!"
"En vez de suspirar, en estas páginas se bosteza"
"Se patalea como un niño de pecho"
"El autor se da a entender a estornudos".
Conforme: os invito a quemar vuestras naves,
Como los fenicios pretendo formarme mi propio alfabeto.

"¿A qué molestar al público entonces?", se preguntarán los amigos lectores:
"Si el propio autor empieza por desprestigiar sus escritos,
¡Qué podrá esperarse de ellos!"
Cuidado, yo no desprestigio nada
O, mejor dicho, yo exalto mi punto de vista,
Me vanaglorio de mis limitaciones
Pongo por las nubes mis creaciones.

Los pájaros de Aristófanes
Enterraban en sus propias cabezas
Los cadáveres de sus padres.
(Cada pájaro era un verdadero cementerio volante)
A mi modo de ver
Ha llegado la hora de modernizar esta ceremonia
¡Y yo entierro mis plumas en la cabeza de los señores lectores!


[in Páginas en blanco, X Premio Reina Sofía de Poesía Iberoamericana, Ediciones Universidad Salamanca, 2001, pp.130-131]


Epitafio


De estatura mediana,
Con una voz ni delgada ni gruesa,
Hijo mayor de profesor primario
Y de una modista de trastienda;
Flaco de nacimiento
Aunque devoto de la buena mesa;
De mejillas escuálidas
Y de más bien abundantes orejas;
Con un rostro cuadrado
En que los ojos se abren apenas
Y una nariz de boxeador mulato
Baja a la boca de ídolo azteca
-Todo esto bañado
Por una luz entre irónica y pérfida-,
Ni muy listo ni tonto de remate
Fui lo que fui: una mezcla
De vinagre y aceite de comer
¡Un embutido de ángel y bestia!

[idem, pág. 129]


Autorretrato


Considerad, muchachos,
esta lengua roída por el cáncer:
Soy profesor en un liceo obscuro,
He perdido la voz haciendo clases.
(Después de todo o nada
Hago cuarenta horas semanales).
¿Qué os parece mi cara abofeteada?
¡Verdad que inspira lástima mirarme!
Y qué decís de esta nariz podrida
por la cal de la tiza degradante.

En materia de ojos, a tres metros
No reconozco ni a mi propia madre.
¿Qué me sucede? –Nada.
Me los he arruinado haciendo clases:
La mala luz, el sol,
La venenosa luna miserable.
Y todo ¡para qué!
Para ganar un pan imperdonable
Duro como la cara del burgués
Y con olor y con sabor a sangre.
¡Para qué hemos nacido como hombres
Si nos dan una muerte de animales!

Por el exceso de trabajo, a veces
Veo formas extrañas en el aire,
Oigo carreras locas,
Risas, conversaciones criminales.
Observad estas manos
Y estas mejillas blancas de cadáver,
Estos escasos pelos que me quedan.
¡Estas negras arrugas infernales!
Sin embargo yo fui tal como ustedes,
Joven, lleno de bellos ideales
Soñé fundiendo el cobre
Y limando las caras del diamante:
Aquí me tienen hoy
Detrás de este mesón inconfortable
Embrutecido por el sonsonete
De las quinientas horas semanales.

[idem, pp. 125-126]

Com pequenas variantes, estes poemas podem ser encontrados aqui, a par de muitos outros.

Saramago tem o dom de incomodar o PSD


O cidadão Mário David pode ter as opiniões que quiser. O eurodeputado Mário David, ao falar, fá-lo em nome do seu estatuto, logo em nome do PSD. O PSD tem um historial de conflito com Saramago que abona pouco em favor do sentido democrático. Há anos, um ministro da cultura do PSD quis também ficar bem visto aos olhos católicos da nação e o tiro saiu-lhe pela culatra. Agora o eurodeputado sente-se lesado e ataca as opiniões iconoclastas de Saramago.
Saramago tem essa vantagem, é escritor, ganhou um prémio que amplificou o seu nome e o da sua obra e há muito faz gala das suas opiniões, que de quando em quando tempera com um grãozinho de polémica. Os escritores servem para isso mesmo. Abençoadas as pátrias que tais autores possuem.
Mário David é uma daquelas figuras que ninguém em Portugal conhece, apesar de ser vice-presidente do Partido Popular Europeu. É uma daquelas figuras que por relações familiares e de amizade entrou no viscoso mundo da carreira política sem que haja notícia de algum relevante contributo para o país que o elege. E que se envergonha de ser compatriota de Saramago.
Nós envergonhamo-nos de ter deputados tão medíocres. De um deputado espera-se que possua no mínimo capacidade de argumentação e habilidade retórica. Mário David não possui manifestamente nenhum desses dons. Os impropérios que diz de Saramago poderiam ter sido ditos por qualquer imbecil.
Não sabemos se Mário David é ou não imbecil. Parece-nos no entanto que se anda a esforçar muito.

19 outubro 2009

John de Andrea





Beleza e prazer, morte e orgasmo: escultura, pintura, fotografia e vídeo


A história do erotismo é a história da humanidade e é também, portanto, a história da Arte. Diz Ángeles García num artigo de hoje do El País.
"O erotismo está em todas as nossas relações e é a melhor forma de chegar a todo o mundo." Opinião de Guillermo Solana, conservador chefe do Museu Thyssen.

18 outubro 2009

Saramago dixit


José Saramago disse, em Penafiel, "a Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana".
"A Bíblia passou mil anos, dezenas de gerações, a ser escrita, mas sempre sob a dominante de um Deus cruel, invejoso e insuportável. É uma loucura!"
"O Corão, que foi escrito só em 30 anos, é a mesma coisa. Imaginar que o Corão e a Bíblia são de inspiração divina? Francamente! Como? Que canal de comunicação tinham Maomé ou os redactores da Bíblia com Deus, que lhes dizia ao ouvido o que deviam escrever? É absurdo. Nós somos manipulados e enganados desde que nascemos!"
"Deus só existe na nossa cabeça, é o único lugar em que nós podemos confrontar-nos com a ideia de Deus. É isso que tenho feito, na parte que me toca".

17 outubro 2009

Meridianos, paralelos e novas teorias celestes


Maria de Lurdes Rodrigues podia ser uma gestora de topo na France Telecom. Tem ou desenvolveu dotes de terrorista. Fala e os subordinados reagem, alguns como se fossem militantes do PP, enfatizando a segurança.
Lurdes Rodrigues continua o seu trabalho de terror. Diz, entre outras coisas, que as escolas devem enfrentar o "desafio da qualidade das aprendizagens dos alunos", pelo que "serão cada vez mais solicitadas a responder pelos resultados obtidos pelos seus alunos". Ao dizê-lo está a querer passar a mensagem de que com a avaliação os professores serão directamente responsabilizados pelos resultados dos alunos, ou seja, está subrepticiamente a induzi-los a facilitar a vida aos alunos para que estes transitem sempre de ano. Mas não o faz, claro, com a mesma ingenuidade com que o fazia de início. Não. Coloca o enfoque na "qualidade". Termo vazio de sentido, pois em lado nenhum está definido o que seja qualidade. Mas como é um chavão que sindicatos e professores usaram contra as ditas políticas que ela e o governo em que estava traçaram, Marilu tenta voltar o feitiço contra o feiticeiro.
De facto, cada vez mais a educação é uma fachada. Interessa pouco o tipo de aprendizagem que se leva a cabo. Importa sobremaneira o resultado final: que os alunos passem sempre de ano e que Portugal possa apresentar taxas de sucesso muito elevadas. De resto, os pais que ainda se preocupam cada vez mais deslocam os seus filhos para escolas privadas, com pergaminhos e provas dadas, de forma a que eles possam estar habilitados a "grandes desafios".
Atente-se no modo como Marilu não esquece este pequeno mas significativo grupo: "Se aceitamos a escolaridade longa, precisamos de aceitar que todos podem aprender e ser ensinados, mesmo os que têm dificuldades ou menos motivação", uma incumbência que disse caber também às famílias e empresas, que devem ser mais exigentes em relação ao nível de educação dos jovens.
Ela aprendeu muito. Sabe agora como dizer as coisas, embora ainda não consiga que a sua comunicação seja eficaz. Dividiu demasiado para que isso seja possível.
Em Portugal ninguém é impedido de frequentar a escola, seja qual for o nível de ensino. Ainda que ao ouvir Marilu se seja levado a supor que isso acontece. No entanto, para cumprir a meta da obrigatoriedade de 12 anos de escolaridade, o grau de exigência do ensino vai ter de baixar ainda mais. Marilu sabe-o bem. Sabe que os professores do ensino secundário ainda resistem ao "eduquês". Mas vão ser obrigados a papaguear o "eduquês" com a mesma convicção com que Marilu o faz. Em Portugal vai-se descobrir uma maneira de pôr a população toda a gostar de óleo de fígado de bacalhau. Porque Sócrates e Marilu e muita outra gente assim o quer. Um querer que lhes vem de prestígios que desejam obter, de manias que tanto assimilaram que se tornaram incapazes de perceber que não passam de manias, senão mesmo de puros disparates. Mas, como sempre assim é, vamos andar uma geração a querer demonstrar que a Terra está no centro do universo e quando, depois de tanta cabeçada e dores de cabeça, se chegar lentamente à conclusão de que as premissas estavam erradas, vão inventar novas maneiras de demonstrar que a Terra é plana e paralelipípeda.
O terror é isto. Constranger as pessoas a tomar as ilusões pela realidade.

15 outubro 2009

O medíocre jornalismo cultural português


De cada vez que um escritor é notícia, esta aparece redigida à boa maneira dos tabeliães. Uma lista de prémios com meia dúzia de informações biobliográficas pelo meio.
Os escritores são apreciados nos jornais pela bitola do comércio: os que vendem muito (os muito bons) e os que vendem pouco (de que não se fala, a não ser que sejam estrangeiros e cheguem às redacções com press-release de editoras fortes (que vendem muito).
O resto é um imenso vazio. O espaço da crítica foi esvaziado em tudo o que é jornal e o gosto pela literatura é cada vez mais coisa de minorias.
A chatice é haver minorias altamente exigentes e influentes. Embora, reconheçamo-lo, cada vez menos influentes, pois as faculdades de Letras são cada vez mais lugares intragáveis que detestam tanto a literatura quanto os jornalistas (é uma generalização, claro, pois ainda há jornalistas que sabem ler e lêem).
Vejam como um jornal se refere a Agustina Bessa-Luís. A gente lê aquilo e dá vómitos. Parece que estão a falar de alguém desconhecido, quando se trata de um dos nossos melhores escritores vivos.
O que se passa aqui não é muito diferente do que sucede noutros países, quanto a jornais. A diferença é que noutros países as universidades funcionam melhor e há revistas da especialidade.

14 outubro 2009

Dedipix o novo fenómeno





Os adolescentes em França inventaram uma nova moda: escrever dedicatórias no peito ou nas nádegas em troca de comentários nos blogues.
O fenómeno denominado "dedipix" (expressão que junta as palavras "dedicatória" e "pixel") alastrou entre os mais jovens, essencialmente na faixa etária dos 15 aos 25 anos.
O desejo de popularidade é a principal razão que leva a este tipo de exibicionismo. O que recebem em troca? Comentários nos seus blogues. É uma espécie de toma lá, dá cá digital. As jovens escrevem os nomes dos “anunciantes” no corpo e em troca eles deixam comentários. Quanto mais ousada é a parte do corpo em que escrevem a dedicatória, mais comentários recebem. É um ciclo que se alimenta a si próprio.
Há pouco tempo, alguém se lembrou de espicaçar o desejo de popularidade com mensagens deste tipo: “envia-me uma fotografia de uma parte do teu corpo na qual escrevas o meu nome e eu encho o teu blogue de comentários”. Estava assim criado o princípio do dedipix, a moda que está a dar brado nos media franceses e a dar dores de cabeça às autoridades.
Há um coleccionista de dedipix que oferece 35 comentários se a dedicatória for inscrita nas nádegas ou 40 de estiver sobre o peito. Há quem ofereça 300 comentários para inscrições em corpos nus.
Essa busca por notoriedade online, aliada ao facto de, segundo uma psiquiatra citada pelo Le Nouvel Observateur, os jovens terem uma relação "descomplexada" com o seu corpo, explica o crescimento do fenómeno.
Depois do sexting (palavra inglesa que junta sex com texting e que, em termos gerais, quer dizer que os jovens do século XXI andam por aí a escrever mensagens picantes e a tirar fotografias a eles próprios, nus ou seminus, enviando-as de seguida para os telemóveis de namorados e amigos) eis o dedipix.

Cambalhotas e piruetas



O homem, que passa a vida queixar-se de que a sua obra literária não é apreciada e que sempre revela um baixo sentido de humor, sai agora em defesa de Maitê Proença. E chama aos seus compatriotas saloios e provincianos. Porque o faz? Por ressentimento, claro. Como disse há tempos, "estou muito zangado com Portugal." E a suposta zanga é tanta que dizia querer emigrar para... o Brasil. Porque não emigrou ainda? Será porque o plim lhe é dado pelos seus compatriotas?
Miguel Sousa Tavares, que passa a vida a fazer pastiche de discursos que abundaram em Portugal no século XIX, tem-se na conta de muito bom. Muito bom em quê? A vender livros? Mas isso faz dele um autor ou apenas um vendedor? Qualquer figura televisiva vende muitos livros. Isso apenas mostra que ele é um privilegiado. E como quase todos os privilegiados tugas o seu comportamento público reflecte tiques e afectações de gente "bem": parecem padres a pregar uma moral que na prática desdenham e não cumprem.
Quanto a Maitê, viu-se obrigada a gravar um pedido público de desculpas.

13 outubro 2009

Nós

Obrigado pelas mensagens que têm chegado ao nosso email. Antecipamo-nos aos jornais, rádios e televisões portugueses. Não é a primeira vez. Não trabalhamos com a LUSA nem com qualquer agência noticiosa, mas lemos o que se passa lá fora.

Do tempo, dos homens, da arte


Sabia-se que as impressões digitais eram boas para capturar criminosos. O que não se sabia é que também servem para atribuir autoria de obras de arte. Mas foi o que aconteceu com o quadro Jovem de Perfil com Vestido do Renascimento, atribuído a um artista alemão que tinha estudado em Itália, onde se havia familiarizado com a obra de Leonardo da Vinci.
A impressão digital do indicador foi descoberta no topo esquerdo do pequeno quadro (33 X 23 cm) por Peter Paul Biro, um perito em arte forense, através de uma câmara revolucionária multi-espectral. Biro afirma à “Antiques Trade Gazette”, uma revista sobre arte, que a marca é "altamente comparável” a uma impressão digital do pintor encontrada no quadro São Jerónimo no Vaticano.
Volta e não volta, os quadros servem para compensar o pé de meia dos proprietários. E quem adquiriu este quadro, em 2007, foi Peter Silverman, especialista em arte renascentista. Vai daí submeteu o quadro a análises periciais. A análise efectuada com a técnica do carbono-14 permitiu datar o pergaminho de entre 1440 e 1650. A análise com raios infravermelhos revelou paralelismos com outras obras de Leonardo. E depois descobriu-se a impressão digital.
Agora, Martin Kemp, professor emérito de História de Arte da Universidade de Oxford, está convencido de que se trata de una obra de Da Vinci. E já rebaptizou o quadro com o nome de La Bella Principessa, depois de a ter identificado com Bianca Sforza, filha de Ludovico Sforza (1452-1508), duque de Milão, e da sua amante Bernardina de Corradis.
Sendo realmente obra de Leonardo, como afirma Kemp, trata-se do único trabalho que se lhe conhece sobre pergaminho.

12 outubro 2009

Michael Jackson - “This Is It”

A versão anterior tem som mais límpido. Mas aqui fica também esta, para os fãs do cantor. A música foi hoje posta à disposição dos internautas, para promover o álbum duplo com o mesmo nome do filme/documentário ("This is it"), que sairá no dia 26 de Outubro.
Ninguém o admite, mas a música agora posta a circular soa a antiga, a produção de Quincy Jones, Diz-se que é um 'outtake', uma gravação descartada de 'Off the wall', o primeiro álbum que Jackson fez com Jones. Consta ainda que a canção foi escrita por Michael com Paul Anka e já terá sido editada em 1991, por um cantor chamado 'Saphire'.

Michael Jackson - “This Is It”

Par de pistolas da Casa Real Portuguesa


Corria o ano de 1973 e as pistolas levaram sumiço. Andaram a passear pela Europa, entre negócio e negócio. Tantos anos depois, regressam ao nosso país. Num caso todo ele digno de pistoleiros, embora nos nossos dias as pistolas sejam mais coisas de gangs ou então de gente meio avariada do juízo que pega em caçadeiras e põe fim a questiúnculas miúdas, tirando a avida a alguém e indo morar para algumas das belas cadeias nacionais.
As ditas pistolas são exemplares únicos, com canos de desenroscar para carregamento, fechos de “caixa” e rica ornamentação com finos embutidos de ouro e prata. Foram fabricadas em 1817 para uso pessoal do Rei D. Pedro IV, pelo famoso mestre armeiro do Arsenal Real de Lisboa, Thomás Jozé de Freitas.
Segundo descrição da casa leiloeira onde foram encontradas a apreendidas, trata-se de exemplares muito raros. Com as seguintes características "Canos de desenroscar, para carregamento, com fina decoração embutida a ouro de motivos vegetalistas estilizados e aves. Fechos centrais de pederneira, ditos 'de caixa', com decoração embutida a ouro, semelhante à dos canos, tendo, de cada lado das caixas, reservas ovais, envoltas por serpentes embutidas a ouro, o nome do mestre armeiro 'Thomás Jozé de Freitas', de um lado, e do outro, 'Arcenal Real do Exercito Lx.ª 1817', nas partes inferiores das caixas, junto aos canos, ovais, em ouro, com o nome do mestre gravador 'António Joaquim de Figueiredo'. Cães do tipo 'de argola', igualmente embutidos a ouro assim como os fuzis e tampas das caçoletas, tendo estas ultimas, pequenos rodízios em latão, para diminuir a fricção aumentando assim a velocidade do disparo, patilhas de segurança aos cães, igualmente embutidas a ouro, que não permitiam a colocação, acidental, dos cães na posição de disparo, evitando, também, a abertura da tampa da caçoleta. Coronhas em madeira, profusa e finamente decoradas a fio de prata embutido, com motivos vegetalistas estilizados e cabeças de dragões e as Armas do Reino Unido de Portugal e Brasil, igualmente em prata. Chapas de couce em aço, azulado, com decoração embutida em ouro, de motivos vegetalistas e mascarões. Alguma oxidação nos canos, pequeníssimas faltas de fio de prata nas coronhas e fechadura do estojo com defeito. Peças únicas."
Thomás Jozé de Freitas trabalhou no Arsenal Real de Lisboa entre 1813 e 1836. Foi um dos maiores vultos da armaria portuguesa. Uma pistola de bolso, feita por ele em 1829, com duas baionetas basculantes, uma navalha e um saca-rolhas, na coronha, encontra-se no Museu Militar, em Lisboa. António Joaquim de Figueiredo, gravador e cinzelador, trabalhou, também, no Arsenal Real de Lisboa entre 1773 e 1817.

11 outubro 2009

Saia Justa

Maitê Proença Gallo é mais conhecida como Maitê Proença. Dizem que além de ser actriz, escreve livros, posa para revistas como a Playboy e gosta de ser engraçada. Uma das suas piadas é imitar a maneira de falar dos portugueses (nada mais engraçado para um brasileiro). Outra é mostrar que é ignorante e, como é do conhecimento geral, nada como a ignorância para se ser atrevido. Ora, Maitê numa das vezes que esteve em Lisboa fez umas filmagens para um desses programas de TV que põe a nu o lado mais in do tédio. O resultado é, como se pode ver, revelador. Maitê faz alarde da sua ignorância. Rio Tejo? O que é isso? Ah, sim, o Oceano Atlântico. Que engraçado, né? e logo pra mim que estou num hotel de cinco estrelas e não percebo peva de informática, mas sou muito boa a fazer beicinho.
A gente ri-se. Se uma celebridade não for assim um bocadinho a pender para o grunho não tinha tanta graça.


10 outubro 2009

José María Fonollosa (1922-1991)

Doyers Street

No vendrá. De verdad. No vendrá nunca.

Mi cuarto es muy modesto para el éxito.
Ni hallaría la casa tan siquiera.

Mi cuarto es muy austero para amigos.
Nadie viene a reunirse entre estos muros.

Mi cuarto es también frío y muy pequeño.
¿Cómo cobijar, pues, un gran amor?

No es lógico esperar. No vendrá nunca
un éxito, un amigo, un gran amor.

Debiera de una vez cerrar la puerta.

[in Ciudad del hombre: New York, El Acantilado, 2000, pág. 34. Há tradução do livro, editado pela Antígona, 1993]

Rambla de Canaletes 2

Soy insignificante. No soy alto
ni apuesto. No soy rico. Ni siquiera
despertaría envidia mi salud.

Por eso cuando estoy con gente extraña
hablo estupendamente de mí mismo,
de mis grandes proyectos, de mi gran
capacidad -"Veréis"- al realizarlos.

Edifico en las plazas y jardines
-mentalmente, se entiende- pedestales.
-"Lo veis -diría-. Aquel busto allí arriba
es el mío. Y mi nombre está aquí. Leedlo"-
Y digo "Amigo", "Tú"... Bueno, esas cosas.

Me temo, sin embargo, que no engaño
a nadie, pues se callan o responden
con un discurso igual a mi discurso.
Pero tengo que hacerlo, pues no soy

como veo a los otros desde mi óptica:
altos, apuestos, ricos, saludables...
¿O, acaso, no lo son y cual no fingen?

[in Ciudad del hombre: Barcelona, DVD, 1996, pág. 68]


14.

Los nudillos golpean los cristales
de un bar en una esquina. Hasta mí arriba
mi nombre que me busca entre la lluvia.

Es grato oír el nombre que uno lleva.

Es grato descubrir que uno aún importa.
Que importa a sus amigos que le llaman
cuando pasa uno andando por la calle.

[in Destrucción de la mañana, DVD, 2001, pág. 35]

Vivir no es, en verdad, muy complicado.
Entre todas las cosas que ambiciono
una me atrae más que cualquier otra.

Si ahora me interrogaran, me saldría
que lo que más deseo, en este instante,
es que Delia me quiera. Es tan perefecta...

[in Poetas en la noche, Quaderns Crema, 1997, pág. 176]

08 outubro 2009

No mar dos Açores


As aventuras vividas por quem vai a bordo do navio oceanográfico Almirante Gago Coutinho, da Marinha portuguesa (cuja missão é o cruzeiro científico do robô submarino português Luso no mar dos Açores) são relatadas aqui e aqui.
O cruzeiro é da Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental (EMEPC), um grupo científico incumbido pelo Ministério da Defesa de alargar o solo e o subsolo português para lá das 200 milhas naúticas em torno de Portugal continental e das ilhas.

Herta Müller

As razões que levaram à atribuição do prémio Nobel.

Nobel da literatura 2009


Cada vez simpatizo mais com o prémio Nobel da literatura. Tem recaído sucessivamente sobre autores pouco conhecidos e fortes. O deste ano parece-me muito sugestivo. Por mais uma vez mostrar o carácter político das letras.
Herta Müller tem dois livros traduzidos entre nós, mas, como é da praxe, é uma perfeita desconhecida. A Cotovia que teve a ousadia de lhe publicar uma dessas traduções (terá vendido pouco, claro) nem sequer a inclui já no seu catálogo online.
Ler é uma actividade minoritária, quando se trata de literatura. Por isso, dá vontade de rir o que diz a soit disant crítica literária Mafalda LC.

07 outubro 2009

Brevemente a leitura vai disparar em Portugal


Porquê? Por causa do Kindle. Por um lado, o preço (quase 250 euros). Por outro, o ser electrónico. Ora se há coisa de que os tugas gostam é dessa mistura: ostentação e tecnologia. Por isso, é de esperar que os níveis de leitura sofram um aumento significativo. E o mais extraordinário é que o povo vai começar a ler melhor e vai fazê-lo em inglês.
Na imagem vemos um tuga com o aparelho nas mãos muito feliz a ler um texto velhinho, quase com dois anos.
Por alguma razão, o kindle é já um sucesso entre essa nobre classe leitora, o jornalista. Vejamos uma amostra do entusiasmo pela coisa: "O Kindle 2 deixou de ter aspecto tosco (de costas, até parece um produto da Apple): a posição das teclas mudou, tem um novo mini-joystick que se desloca em várias direcções e tem as funções de um rato, o ecrã a preto e branco passou a ter 16 tons de cinzento, a passagem de uma página para a outra é mais rápida (embora ainda fique com o ecrã a preto uns segundos, fica menos tempo que o seu concorrente Sony Reader) e dá para guardar 1500 livros. Tem menos de um centímetro de espessura (0,91cm), as dimensões de 20 cm por 13 cm e pesa 289 gramas.
Lê livros em formato Kindle (AZW, uma variante de HTML), Mobipocket (se não tiverem DRM - Digital Rights Management) e Text (TXT). Lê também ficheiros Word, PDF, JPEG, PNG, BMP, HTML, mas só se forem enviados para o Kindle por e-mail depois de convertidos pela Amazon (este serviço não é grátis se for utilizado o envio para o aparelho através da Whispernet, que funciona com a rede 3G).
(...)
O dono de um Kindle transforma-se rapidamente num viciado, levando-o para todo o lado. Arrisca-se a comprar livros compulsivamente. Na loja on-line da Amazon.com estão disponíveis mais de 311 mil títulos em língua inglesa em formato Kindle, que incluem quase todos os livros que estão na lista de best-sellers do The New York Times, 40 jornais, 31 revistas e 5900 blogues."
Bué de fixe, não é?