29 agosto 2009

António Ramalho (1858-1916)



João Miguel Fernandes Jorge - Pickpocket

Pela minha parte


Pela minha parte ofereço o meu próprio
corpo, os golpes sofridos na sólida casa
de pilastras de prata
de lintéis de ouro
e jardins abertos ao comércio do fumo e
ao gosto do sono sob um manto de palavra
tecida de mirto e beladona

ofereço o navio negro, cofre banhado pelas
libações ao longo da vida
carvão aceso à vez no festim das vestais e
no canto sem fim, fio de aço nos lábios do aedo.

[in Pickpocket, Cinemateca Portuguesa, Fevereiro 2009, p.37]

27 agosto 2009

Henrique Pousão (1859-1884)



Miguel Agudo


... de Universo

Al principio
-eran las cuatro y cuarto de la tarde-,
se levantó Dios de la mesa
y creó un café solo.
Y pensó que sabría demasiado fuerte
y creó Dios un terrón de azúcar.
Y, parafraseando a Arquímedes, se dijo:
«dadme una cucharilla y ...»
y removió el terrón
-sin sudor de su frente
ni usar azada alguna-,
y quiso sorber
y sin querer besó
esta negrura...

[in Cuando Herodes La Tierra, p.9, Sevilha, 2009]

La verdad interior

Tengo algunas palabras preferidas.
No son las que más uso.
No son rebuscadas.
No son las que te guardo.
No son las importantes.
No recuerdo cuándo las aprendí.
No creo que nos hagan mejores.
Pero son como tus gestos.
No sé qué significan.
No las olvido.


Opus 55

Por favor,
déjame ya
dormir
que tengo ganas
de soñar contigo.

[poemas encontrados no sítio do poeta]


14 agosto 2009

Férias

Esta imagem de Angra do Heroísmo chegou-nos por e-mail sem indicação de autor. Se alguém souber, digam que nós logo o identificamos.
Agora vamos de férias. Até daqui a uns dias.

12 agosto 2009

A diferença entre os líderes e os psicopatas


Diz a notícia: "Os psicopatas que matam e violam têm ligações defeituosas entre a parte do cérebro que lida com as emoções e uma área que gere o processo de tomada de decisões, anuncia uma equipa de investigadores britânicos. Como se fossem buracos numa estrada. A descoberta pode ajudar a encontrar formas de os reparar."

Uns têm buracos na estrada mental, outros têm pontes e viadutos feitos de ouro, prata fina e quanta riqueza há por í.
Estudar psicopatas parece fácil, mas estudar milionários é que não.
Agora digam lá, se pudessem escolher, que preferiam saber? Como deixar de ser um psicopata ou como tornar-se um líder?

Mona Lisa


Sim, chamam-me mona lisa porque sou careca. Há uns tempos, não sei se por causa disso, se porque o meu patrão teve de dar uma casa à namorada, fui despedido. Desatei a beber. Para todo o lado para onde vou levo a minha taça de estimação. O vinho, o bagaço (ou o vodka) sabem-me que nem euros. Ora domingo passado fui com a minha pequena ver o Louvre e no saco a tiracolo lá estava a botelha e a taça. Ia-me a sentar para ver que semelhanças há entre mim e o quadro do Leonardo da Vinci e deu-me uma sede terrível. Tirei a taça... A X ao ver aquilo correu para mim para não passar uma vergonha e quis tirar-me a taça, mas fê-lo com tanta força e eu fui tão dócilao abrir a mão que a taça voou e se fez em mim bocadinhos depois de embater no vidro que protege o quadro. Oh, deus, que susto. Fugi. Ela ficou e foi presa.
Agora, estão para aí a dizer que "A cidadã russa responsável pelo ataque visitou o museu do Louvre, em Paris, no primeiro domingo do mês e levou consigo uma taça que, a determinado momento, arremessou contra a obra, numa acção de protesto pelo facto de as autoridades gaulesas não lhe terem concedido a nacionalidade francesa."
Acção de protesto? Cá nada. Ela quis foi poupar-me a um embaraço e aconteceu o que aconteceu. Mas os cagões dos franciús tiveram que inventar aquilo do protesto, para fazerem de conta que são bons. Qui merde de nation làquèle, que não sai da cepa torta e tem um presidente que anda por aí a rivalizar com o Putin e o Berlusconi.

11 agosto 2009

Destruição de património

O que são pinturas rupestres? Que representam para as populações das aldeias ou até das cidades? Que formação cultural se recebe na escola?
Mesmo que as razões da destruição tenham sido ocasionais (alguém pode ter querido pôr a pedra mais limpinha), a verdade é que tudo acontece fruto da ignorância. E se o intuito partiu da inveja ou da vingança, a conclusão é a mesma: ignorância.
Um dos painéis de granito com pinturas rupestres, com cerca de cinco mil anos, encontrado há sete anos na área da freguesia de Malhada Sorda, concelho de Almeida, foi destruído. A figura pré-histórica foi completamente destruída, tendo sido lavada e repicada com a clara intenção de a fazer desaparecer, o que de facto foi conseguido. Apagou-se assim mais de cinco mil anos de História.
Que importância tem isso para as populações? As poses e prosápias culturais não colhem junto de quem se está nas tintas para riscos e lajes. É preciso que expliquem às pessoas do que se trata e que lhes digam que isso pode estimular o turismo na localidade e contribuir de forma indirecta para a melhoria da aldeia ou da localidade.

10 agosto 2009

John Lennon - Jealous Guy

Do album Imagine editado em 1971

«Are we getting away from the property concept of relationships?»

(Estamos a livrar-nos do conceito de posse nas relações sentimentais?)

08 agosto 2009

AL BERTO (1948-1997)

Al Berto, 1996

© Luísa Ferreira

CASA

.

.

durante a noite

a casa geme agita-se aquece e arrefece

no interior frio do olho da tua sombra sentada

na cadeira aparentemente vazia

.

esperas acordado sem sono

que a temperatura da casa se funda

com a temperatura incerta do mundo

depois

escreves exactamente isto: o horror dos dias

secou contra os dentes – e rouco

dobrado para dentro do teu próprio pensamento

ferido

atravessas as sílabas diáfanas do poema.

.

levantas-te tarde

atordoado

para extinguires o lume ateado

junto à memória da casa – respiras fundo

para que o gelo derreta e afogue

a vulgar noite do mundo.

.

olhas-te no espelho

atribuis-te um nome um corpo um gesto

dormes

com a árvore de saliva das ilhas – com o vento

que arrasta consigo esta chuva de fósforo e

estes presságios de tranquilos ossos

.

.

Al Berto, O medo


Mediterranean Sundance

Paco de Lucia, Al Di Meola e John McLaughlin tocam no Concerto de Pavarotti & Friend for War Child de 2006.

06 agosto 2009

Dylan Thomas (1914-1953)


That sanity be kept
That sanity be kept I sit at open windows,
Regard the sky, make unobtrusive comment on the moon,
Sit at open windows in my shirt,
And let the traffic pass, the signals shine,
The engines run, the brass bands keep in tune,
For sanity must be preserved.

Thinking of death, I sit and watch the park
Where children play in all their innocence,
And matrons on the littered grass
Absorb the daily sun.

The sweet suburban music from a hundred lawns
Comes softly to my ears. The English mowers mow and mow.

I mark the couples walking arm in arm,
Observe their smiles,
Sweet invitations and inventions,
See them lend love illustration
By gesture and grimace.
I watch them curiously, detect beneath the laughs
What stands for grief, a vague bewilderment
At things not turning right.

I sit at open windows in my shirt,
Observe, like some Jehovah of the west
What passes by, that sanity be kept.
in Poetry Pearls

Joaquim Sorolla Y Bastida, um pintor apaixonado pela luz - outros quadros

05 agosto 2009

O PSD é sempre um lamentável déjà vu


Manuela Ferreira Leite surge aos olhos dos mais míopes como uma dama de ferro. Que não é. E as suas passagens pelos diversos ministérios já mostrou isso mesmo. De resto, o PSD é uma nódoa repetitiva, aquilo é o partido por excelência das negociatas. E pouco democrático. O PS sempre incluiu nas suas listas os opositores internos. Mas o PSD não consegue. O medo de perder é muito e são tantos a querer assegurar o seu tachinho.
Como é que um partido assim pode marcar a diferença em relação ao PS?

04 agosto 2009

Frederick Carl Frieseke (1874-1939)





Frederick Carl Frieseke é um pintor norte-americano, que passou uma temporada em França, deixando-se contaminar pela luz e pelas técnicas que aí apreendeu.

03 agosto 2009

Bénédicte Houart

a minha avó dizia-me
querer é poder
era mentira
ela soube-o antes de mim

a minha mãe dizia-me
não se pode querer tudo
era mentira
ela nunca o soube

eu sempre quis tudo e pude pouco
daí em diante passei a não querer quase nada
eis a única lição maldita que a vida me terá dado




quase todos os tiros que damos são no escuro
alguns iluminam a noite
outros tornam-na mais obscura
não raras vezes, porém, acertamos na própria sombra
aquela em que nos fomos tornando sem dar por isso

morta a sombra, ficamos nós
ainda mais sós, cada vez mais perto

O consumo de cannabis afecta a memória


O processo de aquisição de memórias, seja de valores, experiências ou conhecimentos, divide-se em diferentes fases. Primeiro ficamos expostos ao que vamos aprender: como usar uma colher, qual a capital de Marrocos… De seguida o nosso cérebro inicia o processo de consolidação, 24 horas depois. Se este processo não acontece então não recordamos essas informações.
A investigação garante que a cannabis afecta precisamente este processo de consolidação, ou seja, afecta o hipocampo, parte do cérebro onde se encontram os circuitos de neurónios necessários para realizar as tarefas cognitivas relacionadas com a memória.

02 agosto 2009

Peder Severin Krøyer 2



Peder Severin Krøyer (1851-1909)





P. S. Kroyer, pintor norueguês e dinamarquês, é um dos nomes cimeiros do grupo de Skagen. Podem ver mais trabalhos dele aqui.
Algumas das imagens podem, como é costume, ser vistas em melhor definição, desde que abertas.

Os esquemas dos medicamentos


No reino dos medicamentos, como em quase todos os negócios, incluindo claro o das leis e da saúde, é preciso estar por dentro do negócio para não tomar gato por lebre. Mas mesmo que seja suposto o farmacêutico informar qual é o medicamento mais barato, eu sei de experiência própria que eles nada dizem. O que não admira, pois os mesmos vendedores que visitam os médicos, para os seduzirem para o medicamento X, Y ou Z, podem ser vistos nas farmácias em amena cavaqueira com funcionários e donos. Com medicamentos não se brinca, razão para tantos cuidados, obviamente. Mas ainda não percebemos porque tem de se comprar seis carteiras com dez comprimidos quando a própria posologia da bula indica serem necessários menos comprimidos. Os que vão para o lixo ou ficam nas farmácias domésticas a ocupar espaço fazem parte dos cuidados que têm para com connosco quantos se dedicam ao negócio dos remédios.
Já agora, vejamos alguns exemplos de genéricos que supostamente deveriam sair mais baratos aos consumidores e saem mais caros, pela simples razão de que não são comparticipados (outro esquema interessante, tanto mais que em muitos vem logo na embalagem que só podem ser vendidos mediante receita médica).

Ibuprofeno 600 granulado:
A marca do anti-inflamatório custa 4,91 euros e tem 69% de comparticipação. Fica por 1,42 euros. O genérico custa 3,93 euros e não tem comparticipação. Na versão comprimido de 600 mg, com o apoio do Estado a marca fica por 3,31 euros, enquanto alguns genéricos (não todos) custam 5,89 euros.

Omeprazol 20 mg:
As caixas de 28 unidades dos genéricos não subsidiados custam 19,77; o fármaco de marca sai ao utente a 9,42 euros. No Lanzoprazol, também para o estômago, as embalagens de 14 e 20 unidades saem ao dobro do preço. Isto em medicamentos cuja toma é, geralmente, prolongada.

Sinvastatina e Pravastatina (colesterol):
As embalagens de 30 unidades de Sinvastatina sem marca são duas vezes mais caras para o utente. As de 30 comprimidos de 20 mg de Pravastatina custam-lhe mais quatro ou cinco euros do que o original.

Fluoxetina:
É um antidepressivo cujo uso está a crescer em Portugal e que é de toma minimamente prolongada. Mas comprar um genérico de 56 ou 60 unidades sai mais caro do que optar pela marca.

Fonte: JN

01 agosto 2009

"Joven", 1955, um quadro de Víctor Manuel García a abeirar o cubismo?


No fim da carreira de Victor Manuel o seu trabalho modifica-se abeirando o abstraccionismo. Começa a pintar a guache quadros quase cubistas. A mulher dos seus quadros adquire um olhar diferente: as sobrancelhas estetizam-se e os olhos adquirem uma forma amendoada. Um olhar diferente do olhar da pintura “La Gitana Tropical“. Ver mais aqui.

"La Gitana Tropical", 1929, de Víctor Manuel García


Víctor Manuel García - mais alguns quadros



Auto-retrato de Victor Manuel García (1897-1969)


Com Víctor Manuel García (Habana, 1897-1969) nasce a pintura moderna em Cuba. Aos seis anos, começa a pintar. Aos 12, inicia os estudos de pintura, na Escola de Artes de San Alejandro. Estuda com Romañac e aos dezanove revela o seu talento, como ele próprio confessa. A primeira exposição data de 1924, em Havana, em "Las Galleries".
Viaja para França, em 1925, país onde um grupo de artistas de Montparnase o passa a chamar apenas por "Victor Manuel", nome com que assina muitos quadros.
Abre nova exposição, em 1927, nos salões das Associações de Pintura e de Escultura. Um dos primeiros passos para a era da pintura moderna cubana.
A partir da primeira viagem a Paris e do contacto com o pós-impressionismo, o seu estilo transforma-se, como se verifica, em 1929, quando pinta, na sua cidade natal, a famosa e melancólica Cigana tropical, que passou a ser o símbolo de toda a sua arte. Desde essa altura aborda temas que passam a ser recorrentes: rostos femininos e paisagens.
Manuel Manuel García é um artista para quem a arte não era considerada um refúgio, mas sim uma forma de expressão.

31 julho 2009

A incultura generalizada


O fotógrafo Paulo Nozolino viu, com espanto, que o n.º 19 da revista Artes & Leilões trazia na capa a fotografia Lagos 1979, de que é autor. Publicada sem autorização e desconfigurada, a fotografia representa a mãe do seu filho "na água de um Algarve infelizmente perdido."
O fotógrafo protestou junto do director da publicação e a resposta foi: que Nozolino deveria “estar contente com a publicação em capa da imagem” e que o mesmo facto “faria subir a sua cotação no mercado”.
Bem ao jeito alarve dos burgessos que atravancam tudo o que é lugar soit disant cultural e que serve para sacar uns quantos euros, maioritariamente ao erário público.
O episódio vem num post da frenesi, intitulado Os azeiteiros da "Artes & Leitões".

Hoje estou que não atino


Às vezes é assim, o prato com os restos vai parar ao frigorífico e a meia garrafa de vinho branco quase vai parar ao lixo. Ou então é o pano do pó que vai parar à gaveta dos condimentos... Isto para não falar da troca de letras, dos nomes trocados ou de querer arrancar em terceira.
Segundo Rui Costa (coordenador do departamento de Neurobiologia da Acção da Fundação Champalimaud), nos nossos neurónios que parecem árvores cheias de ramos o stress crónico decepa galhos nas duas regiões ligadas aos comportamentos intencionais e faz nascer novos ramos no campo cerebral da rotina. Na luta de equilíbrios, a rotina parece sair vencedora.
Há diferentes tipos de stress. Sabe-se por exemplo que, nalgumas situações, o stress agudo pode até ser benéfico para a eficácia na execução de uma tarefa. Daí que existam pessoas que dizem que funcionam melhor em stress, mas o stress crónico é diferente: "Uma coisa é estarmos stressados porque temos uma apresentação no dia seguinte ou um artigo importante para apresentar. Outra coisa é ter isso todos os dias, durante meses", diz Rui Costa.
Pessoas que sofrem de stress crónico, na hora de decidir têm maior probabilidade de reagir de forma mecânica, por hábito, sem analisar as consequências da acção.
Tudo num estudo, publicado na revista "Science" e realizado por uma equipa coordenada por Nuno Sousa, do Instituto de Investigação em Ciências da Vida e da Saúde (ICVS) da Universidade do Minho, e Rui Costa, na altura nos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos Estados Unidos e actualmente investigador no programa de Neurociência da Fundação Champalimaud.

30 julho 2009

O afundamento da escola


A culpa dos maus resultados nos exames só pode ser uma: dos alunos. Porque não fazem o que deviam fazer, estudar. E durante as aulas estão sempre a tentar que os profs não dêem matéria, mas que conversem.
Se houvesse sinais exteriores de que a escola não é para brincar, pois tem outra função, talvez alunos e pais percebessem que as explicações por si só não ajudam e que sem vontade dos alunos não se vai a lado nenhum.
Toda a gente quer que os médicos saibam as respostas para os problemas que têm. Já pensaram que se os médicos não estudarem, não se actualizarem pouco sabem? Ficam contentes quando encontram médicos assim?
Muitas outras profissões exigem rigor, conhecimentos, saber, mas, curiosamente, Portugal deve ser, juntamente com Espanha e Itália, dos poucos países em que pouco se valoriza a escola.
Qualquer emigrante de leste tem filhos bem preparados e que alcançam óptimos resultados, mesmo não sendo o português a língua materna. Como é que os autóctones são tão grunhos?
Atirar as culpas para cima do Ministério é atirar areia para os olhos das pessoas, embora este Ministério tenha dado demasiados sinais de paralisia mental e tenha contribuído para a ideia de que com eles tudo ia ser tão fácil como limpar o tutu ao Menino Jesus. Pelos vistos não foi. Mas será que aprenderam a lição ou será que apenas vão engrossar o grande número de ressentidos contra a escola?

Sobredotado


Juan Ramón Jiménez (1881-1958) é um poeta espanhol pouco conhecido deste lado da fronteira, quiçá por ter recebido o Prémio Nobel dois anos antes da morte. Mesmo no seu país natal, Espanha, pouca atenção lhe deram durante décadas. Ultimamente, tem vindo a ser resgatado e sucede-se a edição de livros seus ou de livros sobre a sua vida e obra.
Mais: de Juan Ramón Jiménez têm sido publicados novos títulos a um ritmo maior do que o de muitos escritores vivos. Porque o autor deixou muita coisa por publicar. Assim, depois das seis mil páginas da Espasa Calpe, com a sua obra poética em verso e em prosa, já vieram a público mais inéditos e estão para sair alguns livros, durante o corrente ano e nos próximos: dois livros de poemas inéditos, uma biografia em imagens, dois volumes de correspondência, a primeira reedição dos seus "cuadernos" e a versão definitiva de um livro seu sobre a Guerra Civil. Virá depois Monumento de amor, o volume que dedicou à sua mulher, Zenobia Camprubí, e Vida, a monumental autobiografia a que o autor dedicou os últimos anos da sua existência.
Quem quiser saber o resto, apenas tem de passear até este artigo de J. R.Marcos.

29 julho 2009

Baleias na Praia da Vitória


A baía da Praia recebeu a inesperada visita de quatro baleias de bico. Uma morreu e já foi removida do areal, as outras ainda há pouco se debatiam com o aparato dos meios da Marinha, que tentava a todo o custo salvá-las, levando-os para mar alto.
Entraram na baía ao final da tarde de ontem, terça-feira e, desde essa altura, têm resistido a todos os esforços feitos para as conduzir de novo para o oceano.
A baleia que morreu hoje foi retirada e transportada para o Matadouro Industrial da Terceira, onde será analisada por especialistas para determinar a causa da morte.

27 julho 2009

Coitado do pobre

Bastaram as eleições europeias para o pobre descobrir aquilo que já todos sabíamos: que governar à direita e ser do centro dá maus resultados.
Sócrates perdeu. O PS perdeu. A cosmética de última hora não engana ninguém. As autárquicas serão um parênteses para a grande derrota do PS. Partido que jamais chegara à maioria absoluta e que nunca mais a deve voltar a ter. Fica com tiques de arrogância e torna-se prepotente.
A democracia é uma máscara com que brinca, mas o maralhal não é tão parvo quanto o PS e Sócrates crêem.
Dizer mal ou bem de Sócrates é secundário. O que importa é o legado dele. E que legado é esse? Em que é que o país se transformou? Santana foi corrido do governo do país e por causa dele Sócrates alcançou a maioria absoluta. Prometeu reduzir o défice e fartou-se de brincar com a sua massa eleitoral de apoio. O défice aumentou e muito.
Prometeu criar emprego e o desemprego disparou.
Conseguiu que a classe profissional mais egoísta e desunida cerrasse fileiras contra o seu Ministério da Educação.
Mostrou como ter sucesso educativo: ser militante de carreira e fazer o curso com cartões, depois de ter tacho público de relevo.
E aos poucos os portugueses que tinham dúvidas perceberam quem é que Sócrates estava a defender, a quem é que ele dava o dinheiro dos contribuintes. Os que trabalham têm de apertar o cinto, receber menos reforma (quando lá chegam e se chegam). Os que vivem da especulação recebem salários opíparos, refastelam-se com as prebendas públicas (dinheiro dos contribuintes - dos que trabalham e não são familiares de Sócrates, fugindo ao fisco ou adquirindo propriedades 10 vezes superiores ao vencimento que declaram auferir).
Isto não é dizer mal, é apenas contribuir para o bem-estar de um país em que pouco mais se pode fazer além de gastar uns tiros de pólvora seca. Enquanto não chegam as eleições, claro.
Quanto a Sócrates, quem se lembrará dele na próxima legislatura?

25 julho 2009

"Dos mujeres y un paisaje" de Víctor Manuel García, pintor cubano (1897-1969)


A entrevista do Ministro da Cultura



Bem vistas as coisas, o problema da cultura (nunca referido pelo ministro) é a falta de formação. Ou seja, um problema de educação. O ensino público não promove o gosto nem pela música, nem pelas artes plásticas (que tanto entusiasmam o senhor ministro), nem pelo teatro, nem pela dança, nem pela literatura. Sem público não há meios (lógica do discurso ministerial).
No entanto, o senhor ministro parece acreditar que o mais importante é o discurso (algo cada vez mais recorrente na retórica de diversos governos PSD e PS). Por isso, a excitação com o Museu da Viagem. E sempre tudo em Lisboa, claro, pois durante este ano e meio o senhor ministro já gastou muito com a província.
Claro que sem dinheiro não há milagres e o senhor ministro da cultura orgulha-se de ter feito bastante sem meios. A lógica centralista tem destas coisas, não se percebe que o "discurso" Portugal só começou a fazer sentido porque houve uma unidade linguística entre norte e sul, entre interior e litoral. Mas, mesmo para um ministro tão entusiasmado com discursos, isso parece ficar esquecido. É como se Portugal só fizesse sentido depois dos descobrimentos. Porque já há quem fala da primeira globalização e não há como estes chavões para entusiasmar a retórica política.
Numa coisa estamos de acordo com o senhor ministro: Portugal continua a ter uma élite cultural cujo discurso permanece contaminado pelos discursos oitocentistas. Ele próprio parece um exemplo cabal disso. Mal começou a falar do Douro viu-se que não tinha nada para dizer. Coisa estranha para um entusiasta dos discursos.
Tirem os políticos de Lisboa e levem-nos a passear pelo país. No mínimo, devem conhecer o território que vão gerir. Portugal não é apenas Lisboa.
Portugal pode produzir muitos discursos. Tem história para isso. Mas precisa que seja definida uma política: uma visão. Sem isso não há discursos que valham. E também precisa que a escola deixe de estar tão preocupada com a estatística e haja formação de formadores culturais, com circulação dos agentes pelo todo nacional. É preciso que o teatro circule, que a dança e o bailado façam o mesmo, que certas exposições nacionais, cheguem a todo o lado (e como deslocar obras é impossível, dado o custo, que as façam chegar virtualmente a todo o lado, como um desígnio político, como uma obrigação pública), para passarmos "da cultura do saber, a cultura dos doutores, para uma cultura do fazer".

23 julho 2009

Conduzir sem capacete


Quem é das ilhas já ouviu falar do "capacete", ou seja, do denso manto de nuvens que é frequente nos céus dos Açores, e pode julgar que é disso que se trata. Mas não é.
A Autoridade Nacional de Segurança Rodoviária (ANSR) enviou para a residência de um condutor bracarense um auto de de contra-ordenação por conduzir "o veículo ligeiro de mercadorias sem utilizar o capacete de modelo oficialmente aprovado". O dito condutor, no dia 9 de Maio de 2007, pelas 14.52 horas, na Rua Óscar da Silva, Matosinhos, conduzia veículo ligeiro de mercadorias e, que raio, não levava boné, nem quico, nem chapéu e muito menos capacete.
Conduzir de cabeça descoberta é grave. Por isso, diz o auto, "foi praticada a seguinte infracção: não utilização do capacete de modelo oficialmente aprovado pelo ocupante do veículo". "Tal facto constitui contra-ordenação ao disposto no art.º 82º, n.º 3 do Código da Estrada, sancionável com coima de 120 a 600 euros, nos termos do art.º 82º, n.º 6 do mesmo diploma".
Pelo ocorrido, reclama o Estado o pagamento de 228 euros.
Será que o agente que fez registo da ocorrência alucinou momentaneamente? Terá ocorrido alguma visita inter-estelar que interferiu com o normal funcionamento do organismo do tal agente? Ou será um indefectível da fórmula 1?

Fonte: JN

22 julho 2009

Wynton Marsalis



Barulho e outras pechas


Comecemos por um excerto da notícia do Local/Lisboa do Público de hoje, que reza assim:

«Os gases e o barulho dos autocarros estão a condenar o café predilecto de Fernando Pessoa. O dono da bicentenária casa diz que já não aguenta a situação criada pelas alterações de trânsito. Diz António Sousa, o proprietário do café Martinho da Arcada, no Terreiro do Paço: "Isto tornou-se insuportável. Corremos o risco de fechar porque nos meteram num colete de forças feito de autocarros da Carris. Chegam a ser 180 por hora. Isto tornou-se insuportável."»

Quem está num café ou num restaurante gosta de estar sossegado e de falar normalmente e não aos gritos. Se ainda há grunhos que não conseguem pensar em espaços de lazer e divertimento sem excesso de ruído, a verdade é que as pessoas preferem a qualidade ambiental ao lixo. Seja este lixo visual ou sonoro.
Autocarros constantemente a passar ou amplificações sonoras altíssimas produzem o mesmo efeito: repugnância.

21 julho 2009

Gotan Project





Para que serve a escola?


É bom que estas coisas [aluno que passa de ano com 9 negativas] sejam do conhecimento alargado da população. Portugal gasta muito dinheiro com brincadeiras. Para fazer de conta que é europeu, moderno, de esquerda.
A lei é muito clara: a escoloridade é obrigatória até ao 9.º ano e até aos 15 anos de idade. Não tarda sê-lo-á até ao 12.º ano. Por causa das metas estatísticas. Os alunos, mesmo que refractários, têm de estar na escola. E a escola procura maneiras de os reter até ao limite legal.
Há um problema de educação geral. Que não tem a ver directamente com a escola, mas com a imagem que se tem da escola e do que dela se pretende. Considera-se, por exemplo, que é melhor ter os adolescentes ocupados dentro da escola do que à solta na rua. Em nome da segurança, do bem comum, blá blá. Mas a verdade é que os comportamentos de risco sempre existiram e continuarão a existir e que por mais boas intenções há um razoável número de pessoas que detesta a escola. O problema não está aí. O problema é querer a todo o custo baixar o nível para que esse tipo de alunos seja absorvido pelo sistema. Mesmo quando as mundividências são opostas aos princípios da escola.
Há já muitos estudos sobre os aparelhos repressores do Estado e sobre os valores que a escola defende. Como há muitos mais sobre a infantilização do ensino público. Mas ainda são poucos os estudos que abordam as consequências dessa infantilização na democracia.
Há já problemas graves no que respeita ao domínio da língua portuguesa. Lê-se mal, não se percebe o que se lê e passa-se adiante como se isso não fosse muito grave. Forma-se gente que terá 9 ou 12 anos de escolaridade e mal sabe ler. Que está, portanto, ao nível dos mais velhos que apenas fizeram os 4 anos de escola primária. Com a agravante de nesse tempo não se considerar nunca os alunos com dificuldades na aprendizagem e de eles serem, actualmente, o cerne das políticas educativas. Ou seja, quando não se gastava um chavo com apoios, com equipas multidisciplinares a escola afastava muitos que eram absorvidos pelo mercado de trabalho. Agora, que se gastam fortunas com essas coisas, os que completam 12 ou mais anos de escolaridade saem para o desemprego. E são educados no princípio de que têm o direito a receber ajudas. A mendicidade é geral e promovida pelo próprio Estado, leia-se, pelo dinheiro dos contribuintes. O país paga para que a fachada se mantenha e ainda contribui para os colégios e escolas particulares que rejeitam os alunos com dificuldades. E olha-se para os diversos programas eleitorais dos aprtidos que concorrem a eleições e não se vislumbra uma ideia que seja para contrariar este tipo de coisas. Andam todos obecados com as estatísticas.
A escola é apenas um parente pobre numa cadeia onde quem decide o faz a pensar na sua vidinha particular ou na sua elegibilidade, repetindo chavões que há muito esgotaram o prazo de validade.
Urge pôr de lado esquerdismos educativos que fizeram sentido nas décadas de 1970 e 1980 e discutir o que é a escola, qual a sua função, como deve estar organizada e como pode responder aos desafios do agora. Não é com computadores em miniatura nem com contenções salariais que se vai chegar a algum lado.

20 julho 2009

Influência do Impressionismo

"Reading" de Kuroga Seiki, 1891. Período Meiji, Japão.
Ver mais aqui.

Size matter


Segundo a revista “Proceedings of the National Academy of Sciences”, as diferentes espécies de peixes dos rios europeus, do Mar do Norte e do Mar Báltico perderam em média 50 por cento da sua massa corporal nos últimos 20 ou 30 anos. Além disso, a massa total dos peixes que vivem nas águas europeias baixou 60 por cento.
As espécies mais pequenas tendem a assumir um lugar mais importante nos mares e nos rios e as consequências para a cadeia alimentar podem ser perigosas. É que os peixes mais pequenos têm menos crias e constituem presas mais pequenas para os seus predadores, incluindo o homem.

19 julho 2009

E. E. Cummings ou Edward Estlin Cummings (1894-1962)


algures aonde eu nunca viajei, alegremente além de
qualquer experiência, os teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frouxo há coisas que me prendem,
ou que não posso tocar de tão próximas que estão

o teu mínimo olhar há-de facilmente desprender-me
embora eu me tenha cerrado como dedos,
tu sempre me abres pétala a pétala como abre a Primavera
(tocando hábil, misteriosamente) a primeira rosa

mas se teu desejo for encerrar-me,eu e
minha vida fecharemos em beleza,de repente,
como quando o coração desta flor imagina
a neve em tudo cuidadosa descendo;

nada do que existe para ser sentido neste mundo iguala
o poder da tua extrema fragilidade: cuja textura
me submete com a cor dos seus domínios,
representando a morte e para sempre em cada alento

(eu não sei o que é que há em ti que fecha
e abre;apenas alguma coisa em mim entende
a voz dos teus olhos mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem tão finas mãos

e.e. cummings, xix poems, tradução de Jorge Fazenda Lourenço

18 julho 2009

Bocejo, um grande bocejo

É curioso que um documento assinado por gente que se auto-intitula de intelectual parta de considerações genéricas abertas para propostas conservadoras e que enfermam de um entendimento passadista da vida. E sobretudo que o faça no jargão meio bacoco do politicamente correcto.
Quem maltrata a língua e a distorce para corresponder a manias, esquecendo que a simplicidade e a economia são sempre essenciais, só pode estar a brincar. Ou estar tão cheio de si que se esquece do quão irrelevante é. Dizer que, «de um modo geral, o texto formula interrogações que implicam escolhas e admite que as diferentes forças políticas assumam posições distintas e até antagónicas» é mostrar que o tal documento não passa de um amontoado de banalidades onde se perdem as poucas ideias interessantes que aqui ou ali se encontram.
Os intelectuais nunca tiveram muito jeito para servir. São mais do tipo de se servir, de se alimentarem da mesa do orçamento. Amontoar generalidades sem propostas concretas é algo ao alcance de qualquer pessoa. Os cafés estão cheios disso. E como texto humorístico tem palavras a mais, é enxundioso.
Esperava-se que cada questão fosse teoricamente fundamentada. Mas isso era pedir qualidade. Não. O que ali está é generalidade, banalidade, lugar comum.

17 julho 2009

Reciclagem


Na Terceira, as autarquias, depois de tantos anos de mentira, começaram finalmente a separar resíduos. Dizemos mentira, porque durante quase uma década a separação de lixo era feita pelos cidadão para ter o destino a lixeira. Porque, ao que se sabia, os custos de envio do lixo separado para reciclagem era muito elevado. Mas bastou haver um X número de câmaras da mesma cor do governo regional para o que era um senão deixar de o ser.
E agora capitaliza-se a coisa. E fica bem. Pois as pessoas há muito se habituaram a separar o lixo e a levá-lo aos ecopontos. Agora basta porem-no, em certos dias da semana, à porta de casa, que aparece o camião para o recolher. Os resultados estão à vista. A ilha Terceira, nos Açores, foi a região do país que recolheu mais embalagens de papel e de vidro para reciclagem a nível nacional, por habitante, no primeiro semestre deste ano.