


... de Universo
Al principio
-eran las cuatro y cuarto de la tarde-,
se levantó Dios de la mesa
y creó un café solo.
Y pensó que sabría demasiado fuerte
y creó Dios un terrón de azúcar.
Y, parafraseando a Arquímedes, se dijo:
«dadme una cucharilla y ...»
y removió el terrón
-sin sudor de su frente
ni usar azada alguna-,
y quiso sorber
y sin querer besó
esta negrura...
[in Cuando Herodes La Tierra, p.9, Sevilha, 2009]
La verdad interior
Tengo algunas palabras preferidas.
No son las que más uso.
No son rebuscadas.
No son las que te guardo.
No son las importantes.
No recuerdo cuándo las aprendí.
No creo que nos hagan mejores.
Pero son como tus gestos.
No sé qué significan.
No las olvido.
Opus 55
Por favor,
déjame ya
dormir
que tengo ganas
de soñar contigo.
[poemas encontrados no sítio do poeta]


«Are we getting away from the property concept of relationships?»
(Estamos a livrar-nos do conceito de posse nas relações sentimentais?)
Al Berto, 1996
© Luísa Ferreira
CASA
.
.
durante a noite
a casa geme agita-se aquece e arrefece
no interior frio do olho da tua sombra sentada
na cadeira aparentemente vazia
.
esperas acordado sem sono
que a temperatura da casa se funda
com a temperatura incerta do mundo
depois
escreves exactamente isto: o horror dos dias
secou contra os dentes – e rouco
dobrado para dentro do teu próprio pensamento
ferido
atravessas as sílabas diáfanas do poema.
.
levantas-te tarde
atordoado
para extinguires o lume ateado
junto à memória da casa – respiras fundo
para que o gelo derreta e afogue
a vulgar noite do mundo.
.
olhas-te no espelho
atribuis-te um nome um corpo um gesto
dormes
com a árvore de saliva das ilhas – com o vento
que arrasta consigo esta chuva de fósforo e
estes presságios de tranquilos ossos
.
.
Al Berto, O medo
Paco de Lucia, Al Di Meola e John McLaughlin tocam no Concerto de Pavarotti & Friend for War Child de 2006.





















algures aonde eu nunca viajei, alegremente além de
qualquer experiência, os teus olhos têm o seu silêncio:
no teu gesto mais frouxo há coisas que me prendem,
ou que não posso tocar de tão próximas que estão
o teu mínimo olhar há-de facilmente desprender-me
embora eu me tenha cerrado como dedos,
tu sempre me abres pétala a pétala como abre a Primavera
(tocando hábil, misteriosamente) a primeira rosa
mas se teu desejo for encerrar-me,eu e
minha vida fecharemos em beleza,de repente,
como quando o coração desta flor imagina
a neve em tudo cuidadosa descendo;
nada do que existe para ser sentido neste mundo iguala
o poder da tua extrema fragilidade: cuja textura
me submete com a cor dos seus domínios,
representando a morte e para sempre em cada alento
(eu não sei o que é que há em ti que fecha
e abre;apenas alguma coisa em mim entende
a voz dos teus olhos mais profunda que todas as rosas)
ninguém, nem mesmo a chuva, tem tão finas mãos
e.e. cummings, xix poems, tradução de Jorge Fazenda Lourenço
