06 julho 2009

ONE AND OTHER ou o Plinto vazio


Em Trafalgar Square começou hoje a primeira escultura viva, com "esculturas" humanas, ou com pessoas que se voluntarizaram para estar de pé no plinto vazio durante uma hora. Ao todo, serão 2400, que se irão revezando de hora em hora, durante cem dias. Enquanto permanecerem no plinto podem fazer o que quiserem (logo que a lei o permita). A escultura é ideia de Anthony Gormley.
Ligado à geração dos novos escultores dos anos oitenta, Anthony Gormley tornou-se conhecido através de uma série de esculturas modeladas a partir do seu próprio corpo, em tamanho natural, colocadas em espaços interiores e exteriores, que estabelecem diversos tipos de relações com o espaço circundante. O chumbo é o material mais utilizado por Gormley. As folhas de chumbo revestem inteiramente a forma dos corpos e estão soldadas entre si de forma evidente e deliberada, de tal modo que as juntas formam um desenho reticular. Estas esculturas têm um carácter arcaico e interrogam a noção do ser dentro de um corpo, o homem fechado dentro da sua pele e a relação que existe com o mundo que o rodeia.

Max Roach and Randy Weston - Duo

Exuma - Damn Fool

Exuma - African Rhythm

Arre burra!


A aldeia de Carpinteiro, Guarda, organiza todos os anos uma concentração de burros. O burro doméstico (Equus asinus, Lin.) é animal de uma sobriedade notável, come pouco e contenta-se com forragem e grãos de inferior qualidade que outros animais rejeitariam. A água, porém, tem de ser límpida e sem qualquer cheiro, preferindo sempre as dos regatos e ribeiros já seus conhecidos.
Era muito utilizado como animal de carga e nos trabalhos agrícolas, sendo comum na paisagem portuguesa até aos anos 70 do século passado. Aos poucos, foi desaperecendo e hoje restam poucos.
O poeta espanhol Juan Ramón Jiménez cantou-o em Platero e eu (1917): "Platero é pequeno, peludo, suave; tão macio, que dir-se-ia todo de algodão, que não tem ossos. Só os espelhos de azeviche dos seus olhos são duros como dois escaravelhos de cristal negro."

05 julho 2009

Laureano Barros, leitor 3

Além de coleccionador de livros raros, Laureano Barros foi um genuíno leitor. Amigo de muitos escritores, como Eugénio de Andrade ou Luiz Pacheco, a sua biblioteca incluía numerosos manuscritos e dactiloscritos que lhe foram sendo oferecidos por estes e outros autores. "Ao Laureano, com uma amizade que chega ao ponto de lhe oferecer isto", escreve Eugénio num raríssimo exemplar do seu primeiro livro, Narciso, que publicou aos 16 anos, ainda com o seu verdadeiro nome de José Fontinhas, e que depressa veio a rejeitar.

O facto de Laureano Barros não se ter regido apenas por critérios de coleccionismo deu à sua biblioteca uma abrangência pouco vulgar. Quem colecciona primeiras edições de Fernão Mendes Pinto, de António Vieira ou de Luís António Verney não costuma ter também o mítico O Amor em Visita de Herberto Helder ou os primeiros livros de João Miguel Fernandes Jorge. Laureano Barros tinha tudo isto e ainda arranjou tempo e dinheiro para compor uma boa biblioteca de historiografia portuguesa, para lá de livros dedicados a vários outros temas que o interessavam, como, por exemplo, a botânica.
Um dos núcleos mais importantes da colecção de Laureano, era um exaustivo conjunto de edições portuguesas e estrangeiras dos cancioneiros medievais. Outro, o das principais revistas literárias portuguesas, desde as oitocentistas, como Ave Azul, passando pelas mais importantes publicações do primeiro modernismo - Orpheu, Centauro, Exílio, Portugal Futurista, Byzancio ou Athena -, até às que saíram já na segunda metade do século XX.
Havia, depois, primeiras edições dos poetas quinhentistas Diogo Bernardes e Frei Agostinho da Cruz, uma segunda edição das poesias de Sá de Miranda, a edição original dos Apólogos Dialogais de Francisco Manuel de Melo e a segunda da sua Carta de Guia de Casados, ou ainda as primeiras edições de diversas obras do pedagogo iluminista Luís António Verney, incluindo o Verdadeiro Método de Estudar.

Laureano Barros coleccionou sobretudo literatura portuguesa, mas a sua biblioteca incluía também autores brasileiros e algumas obras em línguas estrangeiras, entre as quais se destaca um raríssimo exemplar da primeira edição em volume de Madame Bovary, de Flaubert. Outra peça curiosa era um exemplar setecentista, em latim, do Index de livros proibidos pelo Vaticano.
A partir do início do século XIX, e no que respeita à poesia e ficção portuguesas, o mais simples seria assinalar o que falta, e não falta quase nada de significativo até ao final da década de 1950. Atendendo só aos autores mais relevantes, pode começar-se por Garrett, com primeiras edições dos poemas Camões ou D. Branca, que introduziram o romantismo em Portugal, ou as de Folhas Caídas e do drama O Alfageme de Santarém, a par de muitas outras obras menos conhecidas.
a raríssima primeira edição dos Sonetos de Antero de Quental, as duas primeiras edições de Claridades do Sul, de Gomes Leal, o invulgar Mysticae Nuptiae, que Guerra Junqueiro publicou aos 16 anos, ou ainda, para não alongar os exemplos, as primeiras edições de O Livro de Cesário Verde e do , de António Nobre. No caso da obra-prima de Nobre, Laureano Barros deu-se mesmo ao luxo de reunir as oito primeiras edições.
Na ficção oitocentista, imensas primeiras edições de Camilo e de Eça de Queirós, por exemplo de Os Maias. Mas podiam acrescentar-se muitos outros autores, entre os quais Júlio Dinis, de quem possuía, além dos livros de ficção e poesia, um raríssimo opúsculo intitulado Da Importância dos Estudos Meteorológicos para a Medicina, de que apenas se publicaram 100 exemplares.
Quanto a Fernando Pessoa e à geração de Orpheu, a coisa volta a poder resumir-se em três palavras: não faltava nada. Nem sequer a segunda edição de Mensagem, menos valiosa do que a primeira (que, claro, Laureano Barros também tinha), mas provavelmente mais rara. Tinha todas as edições que o poeta publicou em vida, dos volumes de poesia inglesa ao texto O Interregno. Defesa e Justificação da Ditadura Militar em Portugal. De Almada Negreiros, algumas das peças mais raras são as primeiras edições da Cena do Ódio e do Manifesto Anti-Dantas. Bastante difíceis de encontrar são também as edições originais de Confissão de Lúcio, Céu em Fogo e Dispersão, de Mário Sá-Carneiro. Alfredo Guisado não é um autor da mesma importância dos anteriores, mas, por isso mesmo, o facto de Laureano Barros ter conseguido reunir todos os nove livros que o poeta publicou mostra bem até que ponto era um coleccionador minucioso. Que dedicava particular atenção a Aquilino Ribeiro, Agustina Bessa-Luís, Miguel Torga, António Botto, Camilo Pessanha, Florbela Espanca, Raul Brandão, Wenceslau de Moraes, José Régio, Irene Lisboa, Ferreira de Castro, Vitorino Nemésio, Sophia, Jorge de Sena, Herberto Helder e por aí adiante. Do primeiro livro de Mário Cesariny, Corpo Visível, que muitos coleccionadores bem gostariam de ter, o matemático de Ponte da Barca dava-se ao luxo de ter dois exemplares.
E mais, muito mais, como pode verificar quem consultar o catálogo que
Manuel Ferreira organizou, com a minúcia que se lhe conhece, para o leilão que decorreu na cidade do Porto há tempos.

Texto ligeiramente modificado por nós, a partir daqui (não está assinado, mas supomos que é da autoria de Luís Miguel Queirós).

A história de um leitor compulsivo 2

Em Ponte da Barca, Laureano era amado e odiado, e retribuía ambos os sentimentos. As eminências locais tinham a noção de ter ali uma personalidade de craveira nacional, e tentavam aproveitar-se, oferecendo-lhe cargos e medalhas. Laureano nunca aceitou, alegando que nada fizera pela terra, o que não podia ser mais verdade.
Limitava-se a ser um exemplo, o que nem sempre era devidamente apreciado. Para desconforto de muita gente, a legalidade fiscal era uma das obsessões de Laureano. Quase uma doença. Pagava tudo antes do tempo e até mais do que devia, para não correr o risco de errar. Não admitia a mínima batota. Nas transacções de propriedades, era comum assinar-se a escritura por um valor inferior ao real, para pagar menos imposto. Laureano recusava-se, o que lhe impediu alguns negócios. Mas não cedia. Uma vez, quis vender uma das terras da família por 100 mil euros. O comprador aceitava o preço, desde que se fizesse escritura por 10 mil. Laureano fez um acordo: pagaria ele próprio o montante do imposto de transacção correspondente a 90 mil euros, que era devido ao outro. Foi aceite e o negócio fez-se.
Intransigente em relação à dignidade das pessoas, Laureando comia com os seus trabalhadores à mesma mesa, o que muitos consideravam esquisito.
Foi também o primeiro, na região, a fazer descontos para a reforma e segurança social dos trabalhadores. Os outros agricultores sentiram-se prejudicados com este precedente e nomearam um representante para interceder junto de Laureano. Quando aquele chegou à quinta sugerindo, com falinhas mansas, que o "senhor doutor", pelo menos, descontasse para a segurança social apenas um dia ou dois, e não a semana inteira, foi corrido com insultos.
A Quinta da Fonte da Cova era um oásis de legalidade. E de alguma loucura também.

O patrão achava que devia iniciar os empregados no mundo da bibliofilia e da cultura. Lia para eles, convocava-os para sessões temáticas nos aposentos por onde se distribuía a biblioteca: a sala, a salinha, o quartinho ou mesmo a saleta. Por vezes, anunciava-lhes que iam dar um passeio. Chamava então Arlindo, o seu taxista de serviço, e partiam para um tour literário pelas aldeias do Gerês. No fim, jantavam todos no Restaurante Elevador, no Bom Jesus de Braga. Previamente informado, o gerente reservava uma mesa num recanto discreto, para que o grupo (de "secretários", como Laureano os apresentava) não assustasse os clientes normais do luxuoso restaurante. E lá iam, o Nelinho, o Carlos, o Nuno, o Gi e todos os jornaleiros da quinta, incluindo o lenhador José Corga, que carecia de uma indicação especial à cozinha do restaurante. Corga era um fenómeno: só comia batatas (em dias de festa, com bacalhau - era a sua única concessão), mas não em doses normais. Precisava de um prato especial, de Viana, onde coubesse "meia quarta" (o equivalente a três quilos) de batatas cozidas. Repudiava, aliás, a ideia de que alguém conseguisse comer mais do que ele.
Laureano, que se maravilhava com os prodígios da Natureza, gostava de encorajar e exibir este apanágio do empregado. Por isso, no Elevador, o senhor Corga tinha direito ao seu prato especial de batatas.
O "senhor" Corga. Laureano tratava toda a gente por "senhor". Até um pobre que ia lá a casa levar a carne do talho merecia sempre um "Obrigado, senhor Manuel". Para o Nelinho, isto era pura magia. Nunca tinha visto nada assim. Laureano tinha o estranho poder de elevar as pessoas. De transformar um zé-ninguém num senhor.
"O doutor foi a pessoa mais honesta e culta que conheci à face da terra", diz Manuel Rocha, a quem Laureano chamava Nelo, ou Nelinho, que hoje tem 36 anos, mas está na quinta desde criança. "Ele para mim era tudo. Sempre pensei: com este homem, não preciso de mais nada."
Nelo era uma das várias crianças que trabalhavam ou habitavam na Quinta da Fonte da Cova, tais como o seu irmão, Carlos, o Nuno Leitão ou o Moisés Cerqueira (conhecido como o "Gi"), ou os sobrinhos mulatos de Laureano (filhos dos seus meios-irmãos de Angola), que lá iam passar férias.
O pai de Nelo fora jornaleiro na quinta. Levava-o para lá na época da apanha da maçã, trabalho que requeria gente pequena e leve. Mas um dia emigrou para França e deixou com o "doutor" os filhos, Nelo e Carlos. O "doutor Manuel" e o "engenheiro Carlos", como Laureano passou a designá-los, celebrando o talento para a conversa de um e o jeito de mãos do outro.
Carlos, com efeito, acabaria por arranjar emprego como mecânico de máquinas, e passou a ir à quinta apenas às quartas-feiras, almoçar. Nelo continuou a viver lá, até à morte de Laureano, no ano passado. Encarregava-se de vários trabalhos na quinta, mas também tomava conta da biblioteca e, acima de tudo, tornou-se discípulo, amigo e confidente do patrão. "Nelinho, hoje o dia já está ganho, vamos conversar", chamava Laureano. "Nelinho, comprei um livro novo, vamos vê-lo". E Nelo interrompia o trabalho na quinta, sentava-se na salinha. "Isto, Nelinho, fica só entre nós. Não sai daqui", dizia-lhe Laureano, depois de contar uma visita a um alfarrabista ou a um leilão para adquirir um certo livro raro.
Nelo percebera que a biblioteca se tornara muito valiosa, e não convinha que isso constasse. Era um segredo que guardava. "Nelinho, hoje vamos tirar os livros daquela prateleira. Vamos vê-los." Ou então: "Vai ali à saleta, à segunda prateleira da estante do meio, encostada à janela, tira o terceiro livro a contar do lado norte para sul. Abre na página 153..."
Nelo abria e Laureano, da outra sala, começava a dizer o texto de cor, excertos enormes de Camilo ou Pessoa. Conhecia ao pormenor cada um dos seus livros e sabia exactamente onde se encontrava.
Um dia, Nuno Leitão, que trabalhou na quinta mas depois estudou Informática de Gestão, ofereceu-se para catalogar toda a biblioteca em computador. Laureano agradeceu, mas não precisava: tinha os ficheiros todos na cabeça.
Nuno chegou a viver na Fonte da Cova, mas acabou por ir estudar, encorajado por Laureano. O "Gi", que foi criado na quinta, sairia para casar e arranjar emprego como serralheiro.
A família dele, muito pobre, vivia numa casa em frente. Eram oito irmãos, que cedo se fizeram aos caminhos do fracasso ou do crime. Para lhe dar um futuro alternativo, a mãe de "Gi" pô-lo a viver na quinta, aos seis anos.
Ele e o Nelo, bem como o Carlos e o Nuno, eram como filhos de Laureano. Os seus "meninos", dizia ele. Todos falam do "doutor", hoje, com incondicional afecto e uma orgulhosa emoção. A exaltação quase fanática, possessiva, de quem sente ter tocado uma esfera superior da existência. "Faço questão de ser como ele, na minha vida", diz o Nelinho. "Em cada situação, penso: se o senhor doutor fosse vivo, faria assim. E tento fazer igual."
Não é fácil entender que tipo de influência Laureano exerceu sobre os espíritos destes jovens. Mas basta falar um pouco com eles para perceber que ainda lhe estão submetidos. Têm uma transparência comovente no olhar, que nos faria confiar-lhes a própria vida, sem hesitação.
Não que Laureano tenha sido condescendente com eles. Mas talvez por isso mesmo. "Gi" não teve uma relação fácil com o "doutor", que se zangava, e lhe batia, se ele chegava tarde a casa. Para o punir, mandava a Mariquinhas cozinhar favas com carne, o prato que "Gi" detestava. Uma vez, por ele ter ido ver as cheias do rio e não comparecer a horas no trabalho, deu-lhe uma bofetada. "Gi" fugiu para casa dos pais. No dia seguinte, Laureano telefonou-lhe a pedir que voltasse.
Acima de tudo, irritava-se por o seu "menino" não levar os estudos a sério. Ele ia, no entanto, concluir com êxito o secundário, não tivesse Laureano, que era na altura director da escola, irrompido pela reunião de professores, expressamente para não os deixar aprovar o "Gi". "Eu estou com ele em casa e vejo que ele não estuda", garantiu o director. "Gi" chumbou e foi trabalhar como serralheiro. Mas não ganhava o suficiente e teve de emigrar para Andorra, porque o "doutor", com os seus rígidos princípios, se recusou a meter uma cunha para lhe arranjar um emprego.
Já o Nelo não quis continuar os estudos, nem empregar-se, para ficar com Laureano. "No meu íntimo, eu sentia que não podia deixar o doutor. Achava que ele precisava de mim", explica o Nelo, que ainda continua na quinta, sem saber que ela vai ser vendida. "A minha filosofia de vida era: enquanto o doutor for vivo, eu fico com ele."
Parece que os dois competem pela maior dedicação a Laureano. "Gi" conta que passou muitos Natais sozinho com ele, quando nem os filhos o vinham visitar. E que, pouco antes da sua morte, era ele quem lhe dava banho.
Nelo e "Gi" contam cheios de vaidade estas compassivas intimidades, como se defendessem um fundamental património humano.
Laureano dissera à empregada: "Maria, se eu morrer, chama os meninos, para virem ajudar." Foi nessa altura que escreveu a lista de quem deveria ser avisado e as regras para o funeral, que incluíam ser enterrado sem caixão, sem discursos e sem cerimónia religiosa, de preferência na quinta (vontade que, obviamente, não pôde ser cumprida).
Nos últimos tempos de vida, aliás, depois de ter ficado doente, Laureano começou a preocupar-se com a posteridade. Não teve nenhuma fraqueza religiosa - manteve-se agnóstico até ao fim - mas passou a tomar disposições. Uma delas fora o divórcio com Maria José Caleijo, para não causar aos filhos problemas com a herança. Margarida, aliás, que só soube pelos jornais do casamento do pai, foi convidada formalmente para um almoço de divórcio.
Depois, Laureano doou todos os bens aos filhos. Quis poupá-los a burocracias e eventuais contendas. Organizado e precavido como era, passou os últimos anos a preparar o seu desaparecimento. Distribuiu as casas e os terrenos pelos três filhos, mas a sua grande preocupação eram, obviamente, os livros.
"Este ficará para a minha filha", ia dizendo ao Nelinho, "esta colecção para o Carlos...", mas à medida que se aproximava do fim, e ia perdendo o interesse por tudo excepto pelos livros, apercebia-se também de que os filhos não queriam a biblioteca. Pensou em várias soluções - doar as obras a uma instituição, criar uma fundação (ideia do filho Carlos). Mas nenhuma lhe agradou. Por fim, deixou de pensar no assunto. Mergulhou numa estranha apatia, uma inconsciência meticulosa e desesperada, que apenas aos seus "meninos" era visível. E os fazia sofrer.
Como pôde aquele homem que tudo calculava e tudo prevenia ter cometido um erro tão grosseiro? No seu afã de tudo medir pela beleza dos livros, de sublimar neles os seus dias e o seu futuro, nunca lhe passou pela cabeça que a biblioteca pudesse não ser eterna.
Mas não deixou, mesmo sabendo (e decerto aceitando) que em breve tudo aquilo seria vendido em leilão, de folhear, tratar e acariciar os seus livros, com a leveza confiante com que uma criança diz adeus a quem ama. A mesma com que, pouco depois, as mãos grossas e calejadas do "Gi" lhe seguraram o rosto que partia.

Texto de Paulo Moura in Público

A história de um leitor compulsivo 1


Era uma vez... Laureano Barros (1921-2008). Planeava tudo. Era organizado, previdente e perfeccionista. Inflexível com a verdade, a liberdade, a independência, o rigor e a pontualidade, exigia-os de si e dos outros. Tinha, portanto, poucos amigos.
Esta é a história de um leitor, tal como vem aqui. Um luxo dominical.

Foi quando foi viver para o Porto, para frequentar o liceu, que o jovem Laureano Barros começou a comprar livros. Frequentava os alfarrabistas e iniciou uma colecção, tal como fazia com os paliteiros, bengalas, relógios, louças, antiguidades ou alfaias agrícolas. Mas ao contrário de toda a traquitana que sempre gostou de trazer para casa, aos livros ergueu uma fidelidade. Não os vendia, não desistia nem se esquecia deles. Começou a acumulá-los na moradia que o pai lhe comprou para se instalar na cidade, na Foz, continuou a ampliar a colecção enquanto viveu nessa casa com a primeira mulher, Leonor, e depois quando se divorciou dela e das seguintes. De cada vez que se separava da mulher com quem vivia (e foram mais mulheres do que os três casamentos), deixava-lhe tudo: a casa, os móveis, as antiguidades. Mas levava consigo a biblioteca. Eram livros de Matemática, de Filosofia, de Botânica, mas acima de tudo de Literatura Portuguesa, e, cada vez mais, volumes curiosos e raros, obras pouco conhecidas, primeiras edições. Por alguns autores tornou-se obcecado e comprava tudo. Depois estendeu a obsessão a todos os escritores. Comprava e lia, várias vezes, os livros de Camilo, Eça, Pessoa, Torga. Sempre teve insónias, e passava-as a ler. Dono de uma memória prodigiosa, sabia páginas e páginas de cor. Perdia horas a arrumar os livros, a manuseá-los, a acariciá-los.
Para ele, eram um salvo-conduto contra a efemeridade de tudo o resto. E também contra a desilusão, como se nada, além dos livros, estivesse à altura dos padrões de excelência que estabeleceu. Do grau de pureza que cedo definiu para a sua vida.
Tendo concluído a licenciatura em Matemática com alta classificação, Laureano foi logo convidado, com 21 anos, para assistente de Rui Luís Gomes, um dos professores mais prestigiados da Faculdade de Ciências do Porto. A bela colega Leonor Moreira obtivera, no secundário, a segunda melhor classificação a Matemática (19) e ele (que teve 20) casou com ela, quando eram ambos estudantes no curso de Matemática da Faculdade de Ciências. Teriam três filhos: Carlos, Rui e Margarida, futuros médico, arquitecto e professora de Matemática.
Mas Rui Luís Gomes era um antifascista incorrigível. Em 1947, a seguir a vários episódios pouco felizes com a PIDE, foi expulso da faculdade, juntamente com outros dois matemáticos, José Morgado e, claro, o recto e incorruptível Laureano Barros, após terem enviado ao Governo uma carta protestando contra a prisão de uma aluna.
Desempregado, Laureano, então com 26 anos, montou uma sala de explicações, em frente ao mercado do Bolhão. Durante mais de 20 anos, viveu disso e pouco mais. Os rendimentos das propriedades familiares de Ponte da Barca, quando chegavam, convertiam-se imediatamente nalguma edição rara de Camilo ou Eça. O mesmo acontecia com as poucas remessas de Angola, onde o pai entretanto se estabelecera e constituíra outra família. Qualquer dinheiro extra era aplicado em extravagâncias bibliófilas, que incluíam, por exemplo, contratar um estudante para lhe catalogar a biblioteca.
Foi o primeiro emprego de Alexandre Outeiro. Laureano Barros pagava ao jovem de Ponte da Barca a estadia numa pensão, mais um salário simbólico, para ele passar os dias a fazer fichas dos livros no T2 que, depois de se divorciar pela segunda vez, arrendara na Rua de Sá da Bandeira. Alexandre cumpria o seu horário de trabalho sozinho no apartamento, mas por volta do meio-dia recebia um telefonema de Laureano convidando-o para o almoço num restaurante, onde passaria a refeição a falar-lhe de livros, cultura e aventuras.
Alexandre ficou a saber, maravilhado, como Laureano, que nunca foi comunista, deu guarida, na casa da Foz, ao militante comunista na clandestinidade Rogério de Carvalho, ou como se encontrou, a meio da noite, num pinhal em Vila do Conde, com a linda militante clandestina do PC Cândida Ventura, que ele não conhecia, para lhe passar uma pasta com documentos secretos. Ou ainda como numa aldeia chamada S. Martinho da Anta havia um velho olmo negro, descrito por Miguel Torga...

Nesta altura já Laureano e Alexandre eram amigos, e davam passeios de vários dias pelo Norte do país, a convite de Laureano, que pagava comidas e dormidas, mas no carro de Alexandre, porque o outro nunca teve carta de condução. Mesmo assim, Alexandre sabia que tinha de chegar ao encontro com o amigo à hora exacta que haviam marcado. Se se atrasasse um minuto, Laureano era capaz de, zangado, ir sem abrir a boca do Porto a Braga. "Ele exagerava", admite Alexandre Outeiro, que é hoje director de uma delegação da Caixa Geral de Depósitos em Gaia. "E sabia que exagerava. Mas era assim. Um homem de um rigor extremo, em tudo o que fazia."
Depois do 25 de Abril de 1974, Rui Gomes da Silva regressou do exílio no Brasil para ser nomeado reitor da Universidade do Porto. A primeira coisa que fez foi convidar Laureano para dar aulas na Faculdade de Ciências. Relutante, ele aceitou, mas, por discordar dos arbitrários saneamentos de professores, demitiu-se meses depois. Ainda voltou às explicações e leccionou num colégio, mas não se adaptou à balbúrdia da época e, após a morte do irmão, Joaquim, em 1976, mudou-se definitivamente para Ponte da Barca. Ia no terceiro casamento, com a professora de Francês Maria José Caleijo, que continuou a viver no apartamento de Sá da Bandeira. Os livros, esses, viajaram com Laureano. Agora, que herdara a casa grande da família, tinha espaço para eles.
Primeiras edições de Fernão Mendes Pinto, Camões, Vieira, Verney, Eça, Pessoa, Antero ou António Nobre, obras juvenis de Guerra Junqueiro, Torga ou José Gomes Ferreira, edições raras de poetas quinhentistas de Ponte da Barca - a biblioteca começou a crescer em majestade, a tornar-se maior do que si própria, misteriosa e imortal, exigindo reverência e devoção. Laureano foi ficando solitário. Ninguém sabe ao certo porquê.
Laureano Alves, primo de Laureano Barros, acha que ele se tornou um homem desiludido. "Passava muito tempo sozinho, embora adorasse conversar." O comportamento dos outros entristecia-o. Principalmente o dos mais comprometidos com o mundo. Por isso foi cortando elos. Recusou tudo o que lhe ofereceram. Foi convidado para professor catedrático da Faculdade de Ciências, como se tivesse leccionado durante todo o tempo desde a expulsão, em 1947. Não achou justo. Aceitou o cargo de director da Escola Secundária de Ponte da Barca, mas por pouco tempo. Segundo uma investigação que instaurou, descobriu serem falsos os atestados médicos que uma professora apresentava para faltar às aulas. Como ela não foi demitida, alegadamente por ter amizades no Ministério da Educação, Laureano pediu a reforma. Mais uma vez, recusou que lhe fosse contado o tempo de serviço desde a sua expulsão da Função Pública, como tinha direito, pelo que ficou com uma pensão miserável.
"Para ele, tudo tinha de ser perfeito", explica o primo.
Não facilitava. Essa era provavelmente a razão por que, sendo um amante da literatura, não escrevia. "O que fizesse teria de ser perfeito. Até uma carta, demorava semanas a escrevê-la. Esse perfeccionismo paralisava-o. E, no entanto, escrevia muito bem." Também terá sido por causa do perfeccionsmo e obsessão pela verdade que não conseguiu manter nenhum casamento, explica um amigo. Não suportava situações menos que perfeitas, e não conseguia mentir: de cada vez que tinha uma infidelidade, contava logo, o que acabava por levar à separação. Mas continuou amigo de todas as ex-mulheres.
A última, Maria José Caleijo, foi companheira até à sua morte, durante 45 anos, apesar de tudo. A certa altura, por imperativos de coerência, divorciaram-se, embora tivessem continuado juntos.
Laureano isolou-se em Ponte da Barca, onde passaria os últimos 30 anos de vida. Fugia das pessoas, e ao mesmo tempo procurava-as. Os outros surgiam-lhe como entidades algo imateriais e o encontro com eles não raro o fazia sentir-se perdido.
Para não se desiludir, preferia por vezes manter à distância aqueles de quem gostava, ignorando a crueldade da atitude. Quando Margarida, a filha, regressou de Inglaterra, onde, muito jovem, fora fazer o doutoramento em Matemática, Laureano fez tudo para que ela não o fosse visitar. Tinha medo que ela tivesse voltado muito esquerdista, e que se zangassem à primeira discussão. Fizera tudo, aliás, para que ela não seguisse Matemática, receando que não conseguisse. Margarida empenhou-se em mostrar que ele estava enganado, concluindo a licenciatura com média de 17.
Talvez cultivasse o relacionamento com os que se prestavam a ser amigos imaginários, metáforas de si próprios. Dizem os psicólogos que os coleccionadores compulsivos sofrem de incapacidade de lidar com os outros. Se isso é verdade, os livros, metáforas perfeitas da vida, são a colecção ideal do filantropo solitário.
No entanto, Laureano tornou-se amigo de pessoas que admirava. Lagoa Henriques, Óscar Lopes, Costa Gomes, que foi seu colega de faculdade. O general era visita regular da Quinta da Fonte da Cova, até quando foi Presidente da República (Laureano chegou a enviar-lhe uma carta criticando-o pelas cedências aos comunistas), e o mesmo acontecia com vários intelectuais e artistas, alguns bem pouco convencionais, como Luís Pacheco ou Eugénio de Andrade. Nestes, o austero e rígido Laureano apreciava a liberdade e a capacidade de surpreender. Mas mais tarde ou mais cedo a tolerância levava à colisão.
Eugénio passava grandes temporadas na quinta. Sentia-se em casa e dava largas às suas muitos próprias jovialidade e loucura. Mas quando a mãe de Laureano morreu, não mostrou grande consternação, explicando simplesmente que não gostava de funerais.
Uma vez, numa festa, Laureano apresentou-lhe uma personalidade de Ponte da Barca, um sujeito baixo e gordo que sorria de deferência para com o poeta. Eugénio apertou-lhe a mão - "Muito prazer!" - mas ao mesmo tempo disse para o lado, alto e bom som: "Isto é um homem ou é um cagalhão?"
Foi de mais. Laureano cortou com ele relações, que só viria a reatar, décadas depois, pouco antes da morte do amigo.

04 julho 2009

Os portugueses e a política


Descrença, descrédito, cinismo podem ser algumas das palavras de que os portugueses se servem para caracterizar a sua relação com aqueles que elegem. No entanto, basta estar num café ou ler os comentários que vão aparecendo em jornais e blogues para se perceber que esse relacionamento é feito de uma mistura de paixão/ódio que assenta numa tradição de calar, de ter medo, de "respeitinho".
Os portugueses consideram que quem tem mais posses tem melhores advogados e encontra buracos na lei, por isso a maioria dos nossos concidadãos sente-se desincentivada de recorrer aos tribunais para defender os seus direitos.

Além disso há a ideia generalizada de que a política é um trampolim para "bons tachos", ideia que vigora há muitos anos sem que se tenha assistido a uma corrida em massa à militância política, à procura de um lugar ao sol. Ou seja, os portugueses acham que dizer mal continua a ser óptima válvula de escape e por isso se consideram felizes.
Mesmo assim, como todos sabem, embora pouco falem disso, o país é hoje muito mais democrático do que era e, apesar dos exageros, para isso muito tem contribuído a guerra de audiências, ou seja, a necessidade sentida pela imprensa de dar voz ao povo, apesar da muita promiscuidade entre jornalistas e políticos (havendo casos, como o da Manuela Moura Guedes que chegam a ser as duas coisas ao mesmo tempo).
O que parece ainda faltar aos portugueses é maior empenho social, quiçá pelos resquícios da "minha alegre casinha" que os mantém pelos cafés ou por casa a exercitar a má língua.

03 julho 2009

Abstenção elevadíssima


O Benfica parece que tem muitos sócios. Cerca de 160 mil. E segundo vi há pouco, o número de votantes era superior a 15 mil. Ou seja, a abstenção é superior a 90%. Se isto é exemplo para o país vou ali e já venho.
Curiosamente, em lado nenhum se faz referência ao assunto. Quiçá porque o futebol é do domínio das paixões e a razão esquece-se disso. Mas não deixa de me incomodar que a suposta imprensa séria não reflicta sobre votações tão pouco participadas.
Será que o Benfica está mesmo moribundo?

Maria João Pires na ditosa pátria


Ditosa pátria que «está metida / No gosto da cobiça e na rudeza / Duma austera, apagada e vil tristeza.»
Porque continuamos a ouvir Camões sempre que nos chegam notícias destas? Porque os negócios da nação continuam medíocres e a educação permanece uma fantasia.
Maria João Pires prefere ser brasileira? Óptimo. Mas que por cá não se deixe morrer uma escola só por mera cegueira mercantil.
A nacionalidade da pianista interessa-me pouco. Já o que tentou fazer em Belgais interessa-me muito. E creio que deveria ser uma prioridade nacional disseminar pelo país escolas desse tipo. Portugal criaria, no espaço de uma geração, uma nova cidadania. Mas, infelizmente, por cá a educação só é notícia por questões de mealheiro: poupar em salários, poupar em custos de manutenção; gastar em maquinetas e propaganda.

02 julho 2009

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)


Um lustro correu já sobre a morte de Sophia. Com dois dos seus poemas lhe prestamos homenagem.

Maria Natália Teotónio Pereira

Aquela que tanto amou
O sol e o vento da canção
Agora jaz no silêncio terrestre
Oculta na ressurreição

Porque em seu viver nascia
Porque estando era procura
Sua imagem permanece
Não passada mas futura

Sempre que rio e confio
E passo além do meu pranto
A sua presença irrompe
Erguida em nós como canto

Aquela que agora jaz
Como semente no chão
Ergue no vento seu riso
Transpõe a destruição

[in Dual, 1972]


Biografia

Tive amigos que morriam, amigos que partiam
Outros quebravam o seu rosto contra o tempo.
Odiei o que era fácil
Procurei-te na luz, no mar, no vento.

[in Mar Novo, 1958]

Descoberta de um novo auto-retrato de Miguel Ângelo



Na restaurada Capela Paulina do Vaticano encontrou-se, num dos frescos, um "autoritário" acompanhante romano com turbante azul que acompanha a crucificação, que é visto como um auto-retrato do pintor renascentista.
Embora à data do fresco Miguel Ângelo contasse já 70 anos e o auto-retrato mostre alguém substancialmente menos idoso, há características que apontam para o pintor. Segundo a estudiosa Cristina Acidini, do Pólo Museológico Romano, o rosto de Miguel Ângelo assemelha-se bastante ao do famoso retrato (imagem acima) pintado por Daniele da Volterra, em 1541: "a sua expressão é de sofrimento, triste, tensa, como se compreendesse a injustiça que se estava levando a cabo" ao crucificar S. Pedro.

Fonte: El País

Mistérios da lei


O Decreto-Lei n.º 15/93, de 22 de Janeiro, define o regime jurídico do tráfico e consumo de estupefacientes. E pelos vistos alguém andou a mexer na lei à revelia do legislador. Em causa está o artigo 40.º da lei que pune o "tráfico e consumo de estupefacientes e de substância psicotrópicas". Esta norma pune o "consumo", "cultivo", "aquisição" ou "detenção" de droga, mas na versão alterada e publicada em Diário da República do passado dia 11 de Maio foram retiradas todas as expressões, à excepção de "cultivo".
Onde devia estar "1 - Quem consumir ou, para o seu consumo, cultivar, adquirir ou detiver plantas, substâncias ou preparações compreendidas nas tabelas I a IV é punido com pena de prisão até 3 meses ou com pena de multa até 30 dias." Passou a estar: "1 - Quem cultivar plantas, substâncias ou preparações compreendidas nas tabelas I a IV é punido com pena de prisão até 3 meses ou com pena de multa até 30 dias."
A "nova" versão do artigo 40.º que veio a constar na republicação integral do decreto-lei - na sequência de pequenas alterações a outros artigos - causou polémica no meio judicial. Isto porque apenas os artigos 15.º 16.º tiveram alteração aprovada pelo Parlamento e não se compreende como pôde um artigo ser modificado substancialmente naquelas circunstâncias.
"Houve apenas um lapso fortuito, razão pela qual a Assembleia da República vai publicar uma declaração de rectificação", segundo disse ao JN a assessoria do ministro dos Assuntos Parlamentares. A rectificação foi publicada no passado dia 22 de Junho.

01 julho 2009

O graffiti segundo Vhils




Vhils é o pseudónimo artístico de Alexandre Farto, artista de rua que já saltou fronteiras. Amanhã inaugura a primeira exposição individual em Londres, na galeria Lazarides, que representa Banksy, Invader e David Choe.
Em Londres e também em Lisboa, o mercado da "street art" está a atrair a atenção de mais coleccionadores, agora que também passou a apresentar-se em "espaços expositivos". Segundo Matilde Meireles, da galeria Vera Cortês, que representa Alexandre Farto em Portugal, é uma arte que está na moda.
Para Vhils, a valorização da arte de rua ainda está para vir, quando a geração que mais se identifica com a estética, que está agora entre os 15 e 25 anos, ganhar poder de compra. "Acredito que, num futuro próximo, quando essa geração for a que tomar a situação, as coisas vão ser mais sérias".
O artista, que começou a fazer grafitti em muros e comboios aos 13 anos em Lisboa, nunca pensou que o interesse pela pintura e desenho tivesse futuro. A perspectiva mudou quando conheceu o trabalho de outros artistas internacionais e percebeu que "conseguia transmitir alguma coisa com isto e ter uma ideia por trás" das pinturas que fazia pela cidade.
A certa altura, recordou Matilde Meireles, Alexandre, então com 18 anos, começou a questionar-se se devia fazer um trabalho mais convencional, como pintar telas, para poder afirmar-se. Incentivaram-no a continuar na arte de rua, mesmo que isso implique intervenções ilegais - quer as que continua a fazer sozinho, quer as que desenvolve com o colectivo VSP. "Ser ilegal dá a liberdade de conseguir entrar num contexto que as pessoas não estão à espera e isso, na minha opinião, é o que diferencia a street art - graffiti de tudo o resto".

Fonte: DN

A flauta mágica





30 junho 2009

Trinta anos de Walkman


Walkman era um aparelho que lia cassetes e se podia transportar facilmente. Os leitores portáteis de cassetes existiam há anos. O Walkman teve o mérito de ser um aparelho barato, prático (para os padrões da altura) e, sobretudo, bem publicitado pela Sony. O aparelho era azul e cinzento – e substancialmente maior do que qualquer moderno leitor de áudio.
O walkman foi lançado em 1979. Anunciado a 21 de Junho, começou a ser vendido no Japão no 1º de Julho. E o sucesso foi retumbante. Marcou o mundo da música da década de 80.
Por cá, dois poetas juntaram-se numa espécie de homenagem. Falamos de Walkmen, de José Miguel Silva e Manuel de Freitas, que recorda os tempo de uma banda, os Tuxedomoon.
Aqui fica um poema de Manuel de Freitas, retirado da pág.16 desse livro, com o título Loneliness (e dedicado "à memória de Eduardo Guerra Carneiro").


Há refrões que não são fáceis de aprender:
Here comes loneliness.
Foi essa, desde o início, a nossa história.

Que passos te levam
ou não levam agora aos mesmos
bares, a portas fechadas,
àqueles de que nem pudeste despedir-te?

Procuras uma resposta,
a forca simples de um olhar.
Mas é demasiado tarde,
canções
que fingindo a vida nos sepultam.

Pina Bausch (1940-2009)


A coreógrafa alemã Pina Bausch, que fundiu o teatro, a dança moderna, a pantomima e o musical, moldando um novo estilo, morreu. Tinha 68 anos. Disse numa entrevista: "Todos os pormenores são tão importantes! Tudo é pormenor."
António Pinto Ribeiro, ensaísta e consultor da Fundação Gulbenkian, diz: “Pina Bausch deixa um reportório absolutamente invulgar e único; é uma das artistas e autoras mais criativas do século XX, cuja obra ultrapassa largamente o domínio da dança. Um dos aspectos mais notáveis é ela ter começado pela dança tradicional e, depois, ter ultrapassado todas as fronteiras, tornando-se numa das heroínas da cultura do século XX. É uma obra atravessada por um grande humanismo, no modo como retrata as contradições da natureza humana, e no olhar sábio que lança sobre o homem e sobre a mulher”.


29 junho 2009

O discurso da pobreza


Essa coisa do "pobres mas felizes" soa um pouco a "o povo é soberano", mas vai-se a ver e a soberania é apenas fachada e a felicidade é o mesmo lado da moeda. Maneira de dizer que apesar dos sofrimentos e das faltas se conserva o espírito.
Basta andar pelas ruas para ver a felicidade espelhada nos rostos. Até assusta tanta felicidade. É como perguntar a alguém que chora se está triste... quantos não dizem que não, que choram de alegria. Sim, Portugal é o país da euforia. E quiçá da esquizofrenia.
Portugal tem 1,8 milhões de pobres. Por coincidência, é esse o número de reformados existentes no país e cuja pensão média é de 385 euros.
Só em quatro concelhos, a pensão do reformado médio permite ultrapassar o limiar de pobreza (360 euros). São eles Lisboa, Setúbal, Porto e Aveiro.
Nas cidades é mais comum encontrar casos de miséria extrema e abandono, apesar do crescente número de equipamentos sociais. E também de pessoas com vergonha de pedir ajuda. Veja-se o caso de um idoso que foi encontrado morto já em decomposição, no Porto, na semana passada. Na cidade, a solidão é muito mais densa. Vale a pena ler Nos rastos da solidão, de José Machado Pais (Ambar, 2006).
Já os ricos, coitados, devem andar tristes. Ascende a mais de 24 milhões de euros (24.301.669 euros) o montante total que os cinco arguidos do caso BCP (Banco Comercial Português) - os ex-membros do Conselho de Administração (CA) Jardim Gonçalves, Filipe Pinhal, Christopher de Beck, António Rodrigues e António Castro Henriques - receberam entre 2001 e 2004, respectivamente: 9693 milhões de euros, 2913 milhões, 2684 milhões, 2661 milhões e 1505 milhões. "Montantes que os arguidos, apesar de bem saberem não lhes serem devidos, fizeram seus e permitiram que os restantes membros do CA igualmente o fizessem", sendo recebidos nos anos seguintes, tendo a última vez sido em Junho de 2007
No final do estudo "Necessidades em Portugal – Tradição e Tendências Emergentes", os investigadores viram-se perante um país socialmente muito frágil, pouco capaz de se mobilizar individual e socialmente. Mas, apesar disso, com altos níveis de satisfação e felicidade. Como é que se avaliam esses níveis? Só pelo que as pessoas dizem? A ser assim...

28 junho 2009

Juan Bonilla


Denominación de origen: extranjero

La patria es estar lejos de la patria:
una nostalgia de la infancia en noches
en que te sientes viejo, una nostalgia
que sube a tu garganta como el agrio
sabor del vino en las resacas duras.

La patria es un estado: pero de ánimo.
Un viejo invernadero de pasiones.
La patria es la familia: ese lugar
en el que dan paella los domingos.

Una patria es la lengua en la que sueñas.
Y el patio del colegio donde un día
bajo una lámina de cielo oscuro
decidiste escpar por vez primera.

Mi patria está en el cuerpo de Patricia:
mi himno es su gemido, mi bandera
su desnudez de doce de la noche
a ocho de la mañana. Tras la ducha
mi patria se va al trabajo, yo me exilio.

[in Partes de Guerra, Pre-Textos, 1994, pág. 35]


Epitafio del enamorado

Si alguien quiere escribir mi biografia
no hay nada más sencillo.
Dispone de dos fechas solamente:
la del dia en que te conocí
y la del que te fuiste.
Entre una y outra transcurrió mi vida.
Lo que ocurriera antes, lo olvide.
Lo que suceda ya, carece de importancia.

[in El Belvedere, Pre-Textos pág. 18]


Contra San Juan

Pusiste amor donde no había amor
y allí creció la flor del desengño.
Donde aguardabas oro hallaste estaño
y el entusiasmo se enquisto en sopor.

Se equivocaron De Yepes y Sor
Juana, que amor sembrado en sitio extraño
no proporciona sino antiguo daño
al que no sobrevive su esplendor.

Así que el que sembrare en un erial
su amor, no cuente com que se agigante.
Ni lo recobrará, pues, contagiado,

su corazón habrá adquirido el mal
que impide que otro amor se le trasplante.
Él mismo en un erial se ha transformado.

[in Buzón Vacío, Pre-Textos, 2006, pág. 33]

Javier Rodríguez Marcos


Autorretrato

Estoy hecho de golpes, de agujeros,
de ceniza caliente que llena mis arterias
y me pinta una estrella en el cielo de la boca.
Soy el dueño de heridas extranjeras
que sangran todavía bajo las cicatrices,
y lo terrible del dolor ajeno
es saberse la causa.
Fui la llaga, el cuchillo.
¿Por qué esta vida nuestra viene siempre
de la mano de la muerte de alguien?
(Ya sé que cada paso traiciona un pensamiento,
que la única inocencia es no pensar,
pero la vana lógica
no sirve de consuelo).
Estoy hecho de huecos, de túneles, de barro
de palabras que significan poco.
Soy la sombra de lo que pensó alguien
hace ya muchos años. No soy lo que soñaron
(el sueño de aquel sueño, un fuego que se apaga)
Soy una piel reseca y poco más,
este golpe de huesos mal sumados.
Lo demás, viento y vanidad, miseria.

[in Mientras ardem, Hiperión, 1996, págs.39-40]


Todo

La resaca de todo lo vivido
como un charco de culpa.

Por pedirle a la vida
más de lo que esta ofrece,

este dolor es todo
lo que tengo,

este dolor es todo
lo que yo puedo darte.

[in Frágil, Hiperión, 2002, pág.59]

27 junho 2009

Irene Lisboa


Escrever

Se eu pudesse havia de... de...
transformar as palavras em clava!
havia de escrever rijamente.
Cada palavra seca, irressonante!
Sem música, como um gesto,
uma pancada brusca e sóbria.
Para quê,
mas para quê todo o artifício
da composição sintáctica e métrica,
este arredondado linguístico?
Gostava de atirar palavras.
Rápidas, secas e bárbaras: pedradas!
Sentidos próprios em tudo.
Amo? Amo ou não amo!
Vejo, admiro, desejo?
Ou não... ou sim.
E, como isto, continuando...

E gostava,
para as infinitamente delicadas coisas do espírito
(quais? mas quais?)
em oposição com a braveza
do jogo da pedrada,
da pontaria às coisas certas e negadas,
gostava...
de escrever com um fio de água!
um fio que nada traçasse...
fino e sem cor... medroso...
Ó infinitamente delicadas coisas do espírito...
Amor que se não tem,
desejo dispersivo,
sofrimento indefinido,
ideia incontornada,
apreços, gostos fugitivos...
Ai, o fio da água,
o próprio fio da água poderia
sobre vós passar, transparentemente...
ou seguir-vos, humilde e tranquilo?

[Transcrição da versão incluída por Eugénio de Andrade na Antologia Pessoal da Poesia Portuguesa, págs. 386-7, Campo das Letras, 2000. Há uma outra versão, que se encontra nas págs. 300-1 de Poesia - I, Presença, 1991, organizada por Paula Morão. Não conseguimos averiguar qual a fonte de que se serviu Eugénio de Andrade e não sabemos, por isso, qual das versões é mais antiga.]

26 junho 2009

R I P


Morreu, ontem. Por overdose. Coitado. Era e não era. Em quase tudo. Ganhou milhões. Perdeu milhões. Deu o seu contributo. Chamam-lhe rei. Já lhe vimos chamar nomes piores. Cada um tem os insultos que merece. Talvez quisesse (a pequena moral é sempre tão alarve e cómica) ser o que todos somos, um Zé-Ninguém. Mas era o Michael Jackson. Tinha 50 anos. Que descanse em paz.
E que os vivos apurem a gula, pois à custa do era e não era factura-se um pouco mais. E os que ainda há pouco escarneciam do pedófilo enaltecem agora o artista. Isto de ser artista é quase o mesmo que ser e não ser. Mas Shakespeare não é para aqui chamado.

25 junho 2009

Paulo da Costa Domingos

CONSTRUÇÃO CIVIL

1.
Contra o vento que sopra
corremos a desejos inconcussos
por veleidade e atrevimento
enquanto raparigas carregam
seus violoncelos às costas
e nós aqui na obra evitamos
a magueira do cimento.

Escravas, que são!, da
vibração de cordas, de
esfregar os arcos
em gemidos conclusivos.

Nós, o mais que nos ocupa
são saladas de orelha,
como bons e pacíficos católicos
domina-nos a féria.


2.
A horas certas em regulares cadências
sobem ou descem palavras nossas
leva-as o vento na grua:
cartas de amor ao sindicato,
guias para a junta médica, a bola
(fora de jogo eu vi, o penalty),
elogios à fêvera da boa fêmea...

Que a elas soa como impropério
estimulante ofensa à paridade
(fossem antes solos de violino...)
na boca de bocas inúteis.

Nós, o menos que nos preocupa
é desenterrar os botins do lodaçal,
como bons e fiáveis operários
não perder no cimento fresco o nível.

Poemas transcritos daqui.

Delírios canadianos


A retórica tem destas coisas. Quando alguém quer veicular certo ponto de vista procura exemplos que o sustente, pois desse modo o seu ponto de vista tem algo de concreto que confirma não só a sua veracidade como o seu valor.
Don Tapscott faz isso mesmo no seu post. Quem o ler com atenção verifica que ele deduz, ou seja, formula uma opinião. Não descreve um facto. A diferença está nisso. Será um especialista em tecnologia, mas é um tanto ou quanto aldrabão em assuntos pedagógicos. Pelo menos no que nos diz respeito a nós, portugueses. Desde o tipo de matéria leccionada a crianças do 1º ano (astronomia), passando pela cuidada formação de professores (terá sido um pink dream do Mr. expert?), acabando nas extrapolações o que ele faz é política e lóbi.

24 junho 2009

Os Surrealistas


O surrealismo chegou tarde. Chegou bastante depois dos manifestos de Breton e quando o Estado Novo levava já 16 anos de existência.
Os surrealistas eram: Mário Cesariny, Cruzeiro Seixas, Pedro Oom, Risques Pereira, António Maria Lisboa, Mário Henrique Leiria, Fernando José Francisco, Carlos Eurico da Costa, Carlos Calvet, Fernando Alves dos Santos, António Paulo Tomas e João Artur da Silva.
Cesariny é, digamos, a abelha mestra. Da sua acção, dos seus textos, da sua persistência provém o fulgor que o surrealismo teve entre nós. Sem ele, teria sido mais uma curiosidade, espécie de flor de papel para os manuais da história de arte e da história literária.
Mário Cesariny descobriu com Alexandre O´Neill a revolução surrealista. Foi considerado suspeito de vagabundagem pela Polícia Judiciária e cultivou a homossexualidade sem medo. Viveu para a liberdade, o amor e a poesia, a bandeira dos surrealistas. E deixou obra, obra temperada pela vida, pelos combates que quis e precisou de travar.
Agora, temos as comemorações. Vão-se sucedendo. O costume.
E o surrealismo tem a particularidade de ficar bem nas notícias, espécie de picante para gente fina, mas não subnutrida, claro.

Sesta à sombra

Que procurará tão inquieta a brisa no jornal? O tempo para amanhã, naturalmente.

Os cães fazem a sesta com a seriedade de autênticos profissionais.

As moscas, andorinhas do inferno.

Há quem escreva com sangue. Eu também molho a pena nas veias. Escrevo com café, por isso mesmo, insone. (Estou a abusar ultimamente.)

Não haverá tanta literatura bucólica porque não há quem pregue olho nos campos?


Enrique García-Máiquez em Rayos y truenos

Dizer e não dizer

Agrada-me que todo o mundo saiba o que penso, mas que ninguém adivinhe o que sinto.

Preciso de pôr um pouco de ironia no que digo; sem a ironia estou despido.

Digas o que digas, no final é como se não dissesses nada.

Em silêncio sei mentir.

Quando estou absolutamente convencido do que digo, quase sempre me engano.

Nunca acredito em tudo o que acredito.

Gosto de brincar ao jogo do gato e do rato comigo mesmo.

Quando não digo nada é quando digo mais coisas.

José Luis García Martín in Café Arcadia

23 junho 2009

Malick Sidibé




Memórias de um Portugal antigo.


António Fernandes de Castro era a pessoa mais idosa de Portugal. Tinha 111 anos, era boa boca, ou seja, comia de tudo e morreu ontem. Nascido a 6 de Janeiro de 1898 (século XIX), António Fernandes de Castro viveu mais de 40.800 dias, cumprindo todo o século XX e entrando pelo século XXI.
A sua vida foi repartida entre o trabalho do campo, sobretudo no "ramo" das videiras, onde se revelou um negociante exímio, e o desempenho de vários cargos públicos, tendo sido regedor durante 33 anos. Podia entrar na casa de qualquer pessoa, mas apenas antes de o sol se pôr. Podia até prender quem infringisse as regras da Nação. No entanto, como o próprio relata num livro que a Junta de Freguesia editou aquando do seu centenário, era "um regedor bom", que nunca prendeu ninguém.
Durante dois ou três anos, foi também juiz de paz, com poderes para resolver os pequenos problemas que se passavam no seu território, mas também com autoridade para fazer conciliações em partilhas.
Outro cargo que desempenhou foi o de presidente da Junta, tendo sido no seu tempo que nasceu a primeira escola em Durrães, para evitar que os meninos da freguesia tivessem que "emigrar" para outras terras para tirar a quarta classe.
Integrou a Comissão Fabriqueira de Durrães, ficando ligado ao processo de construção da nova Igreja Paroquial.
Criou 10 filhos, que lhe deram mais de duas dezenas de netos e quase trinta bisnetos, tendo ainda conhecido dois trinetos.

22 junho 2009

Berlusconi ignora a lei?


Há pessoas que, apesar de eleitas em regimes democráticos, julgam poder estar acima das leis aprovadas pelos seus próprios partidos. Fazem-no por se considerarem ricas e porque ao fazê-lo esperam obter certo tipo de benesses. Alguns até podem considerar esses actos de transgressão um investimento.
Silvio Berlusconi é uma dessas pessoas? A justiça italiana crê que sim. E investiga o que pode ser prostituição e consumo de drogas nas casas do primeiro-ministro italiano.
Sabendo-se que as opções políticas do senhor, na linha do conservadorismo populista, são castigadoras quer quanto à prostituição, quer quanto ao consumo de estupefacientes, estamos perante uma situação muito grave. E se já associávamos Itália às histéricas gritarias familiares, não tarda olharemos para o país como a nação dos prepotentes aldabrões.

21 junho 2009

Os tormentos de Tony Blair


Tony Blair pediu ao seu sucessor, Gordon Brown, que efectuasse em segredo o inquérito independente à guerra no Iraque, por temer sujeitar-se a um julgamento público se o mesmo fosse feito às claras.
Blair parece ter ficado alarmado com a perspectiva de ter de depor em público e sob juramento quanto ao recurso a dados secretos e às suas numerosas conversações com o Presidente norte-americano George Bush quanto aos planos de avançar para a guerra.
Porque será? Aznar, Blair e Bush mais Barroso. O quarteto maravilha que jurou a pés juntos que havia armas de destruição maciça, tudo em directo da BA4, Ilha Terceira, Açores.

Corrida de saltos altos


Pela primeira vez em Portugal, a prova de corrida de saltos altos (stiletto) realizou-se no passeio marítimo de Alcântara, em Lisboa. Acorreram à linha de partida cerca de 300 pares de sapatos. Depois, foi ver quem, após os 280 metros de "pista", conseguia cortar a meta em primeiro lugar. A sorte e a destreza sorriram a Maria Filipa Guedes, que ficou assim com os mil euros.
Berlim (ver filme), Sydney, Moscovo, Amsterdão, Sófia foram outras cidades onde decorreram edições anteriores. As regras são simples, ser maior de dezoito anos e levar uns sapatos de salto alto, no mínimo com sete centímetros de altura. O resto é agilidade e boa disposição.



Criar empregos


A China está preocupada com a crise, vai daí pensa recrutar milhares de pessoas para... censurar a "lascívia".
As ditaduras sempre se preocupam com o que os seus cidadãos lêem, vêem e ouvem. Gostariam, claro, que apenas lessem, vissem, ouvissem, pensassem e sentissem o que os chefes querem.
O Google é um dos visados pela comissão de censura chinesa.
Na China a lascívia está apenas ao alcance dos altos membros do Partido.
Viva o Partido! Abaixo a lascívia... para os outros.

O paraíso da internet


Uma rapariga chamada Agustina Vivero tornou-se um fenómeno internacional por ser... flogger. Não é nenhuma beldade, não joga futebol, nem possui dotes relevantes. Diz ela "Sou uma celebridade 'quenem': que nem dança, que nem canta, que nem é actriz (...). Creio que tenho popularidade graças a uma página de Internet". A página é o fotoblog Cumbio. Tem 18 anos, é argentina, lésbica, gosta de comida de plástico e é afirmativa.
O fenómeno terá começado a 30 de Dezembro de 2007, quando Agustina Vivero decidiu reunir os seus amigos virtuais e fazer una festa. O fotoblog tinha poucas visitas e ela convidou vinte e quatro para a festa, mas foram trezentos. Em Janeiro de 2008, convocou-os novamente para um encontro à porta de um centro comercial de Buenos Aires chamado Abasto. No quinto encontro eram já três mil.
Essa multidão de adolescentes que segue um líder espontâneo chamou a atenção dos adultos. A notícia saltou para os jornais diários, para as revistas e para a televisão, por onde ela se passeou, falando com naturalidade da sua vida, dos seus pais, da sua namorada. Pouco depois recebeu uma proposta da Nike para uma campanha publicitária de roupa desportiva. A seguir veio o convite para um livro que relatasse a sua vida, Yo, Cumbio (Planeta Argentina, 2008).
Actualmente, as discotecas de toda a Argentina oferecem-lhe dinheiro -500 euros por noite- a troco da sua presença. Tem uma linha de perfumes e de vernizes de unhas, prepara um programa de televisão para adolescentes produzido pela Endemol, estuda jornalismo e continua a viver na mesma modesta casa em que vivia.
O fenómeno Cumbio há muito saltou fronteiras e jornais de referência como o New York Times já lhe dedicaram páginas. O mais recente foi o El País, onde colhemos a informação.

20 junho 2009

Chapéus há muitos 2





Chapéus há muitos







A moda sempre foi um sinal de civilização. Ao mesmo tempo, sempre incomodou, por mexer com a vaidade, a inveja, o poder, o dinheiro.
Hoje, que é sábado, trazemos aqui umas imagens do Royal Ascot ou das mulheres que aproveitam para mostrar a sua criatividade e o seu gosto no dia dos chapéus.

19 junho 2009

Jean-Michel Maulpoix


Dans les rues de la ville, il y a les excréments canins.
La passante d’aujourd’hui téléphone en marchant. Elle porte sur les oreilles un walkman.
La passante de naguère est devenue touriste.
La rue appartient aux « rollerbladers » : à ceux qui circulent et qui glissent, et non à ceux qui cherche ce mystérieux quelque chose qu’on appelle « la modernité ». Ceux qui roulent sur leurs patins ou sur leur trotinette ne cherchent rien : ils jouissent d’eux-mêmes. Voici que la rue s’est changée en salle de jeux ou terrain de sport...
On pourrait continuer ainsi...
« Dans les rues de la ville » : il y a trop de lenteur et de romantisme tardif dans cette expression, trop de flânerie heureuse ou mélancolique. Trop d’état d’âme pourrait-on dire. Trop d’élégie latente. Voilà donc un motif à présent nostalgique qui ne rend compte ni de notre réalité ni de notre vitesse.

Jean-Michel Maulpoix, Dans les rues de la ville ...

Fonte: JMM

Boca do Lobo nas bocas do mundo do design





Boca do Lobo é uma empresa de design que fica situada em Rio Tinto (arredores do Porto) e que muito tem dado que falar. O culpado é Pedro Sousa, cuja ambição é trabalhar com a NASA, a Agência Espacial Americana. Porquê? "Costumo dizer que, se um dia pudéssemos trabalhar com a NASA ia ser perfeito, porque a função deles é pesquisar novos materiais. Sempre que houve saltos no design foi muito devido às evoluções tecnológicas".
A Boca do Lobo tem outros dois designers, Amândio Pereira e Ricardo Magalhães, que, com Pedro experimentam, ousam, inovam. Com eles trabalham artesãos que fazem à mão as peças por eles arquitectadas. No início, a relação com os marceneiros não era muito pacífica. Torciam o nariz aos desenhos e às teorias de geometria descritiva. A persistência e alguma teimosia do artista resolveram o problema. "Hoje são os primeiros a querer coisas novas. Vêem o seu trabalho valorizado, vêem o que aprenderam uma vida inteira a ser aproveitado".
"Temos de fazer coisas que sejam a nossa visão do design, mas que as pessoas se identifiquem com elas. Não vale a pena fazer uma peça brilhante conceptualmente que só serve para outros designers, ou para estar num museu. O interessante é encontrar uma pessoa no outro lado do mundo que compreende essas peças, gosta delas e as compra".

Fonte: JN

Os Açores e os militares americanos

Quando se fala dos treinos aéreos nos Açores, a grande questão parece ser a do dinheiro (as "contrapartidas"). De facto, como já aqui dissemos, são meia dúzia os que vivem no concelho da Praia da Vitória, percurso usado pelas aeronaves. Falamos portanto de nada. Tanto mais que grande parte das pessoas que ali vivem nada farão que contrarie os desígnios americanos, quer por uma tradição de indiferença, quer pela dependência que ainda persiste.
Aqueles que se incomodam com o ruído, com a poluição atmosférica e com possíveis danos nas habitações são uma minoria.
Espanta-nos que só os deputados do PSD tenham inquirido nesse sentido o ministro dos Negócios Estrangeiros. Porque o PS também tem deputados eleitos pela Terceira na Assembleia da República.

18 junho 2009

Jorge de Sena


A ditadura obrigou-o a sair. Foi para o Brasil. Dali para os EUA (Santa Bárbara, Califórnia), onde trabalhou e morreu (1919-1978). Mécia de Sena ficou com o encargo da obra e, ao que se sabe, descurou obra própria em nome da do marido. A ela, mais uma vez, se deve a doação de manuscritos, objectos pessoais, obras de arte e a biblioteca do autor à Biblioteca Nacional de Portugal. Falta trasladar os restos mortais do autor para o nosso país.
O espólio de Jorge de Sena manterá a sua unidade e terá uma cota própria - a JS -, pois não será integrado nas respectivas colecções existentes na BNP. Quanto à sua consulta, os manuscritos só estarão disponíveis após ter-se completado o processo de inventariação e catalogação, que ainda demorará alguns meses. É neste período que se segue que os técnicos da Biblioteca aguardam por algumas surpresas, à medida que forem trabalhando o espólio, como o de poderem encontrar documentos inesperados. Entre os documentos já inventariados destacam-se várias cartas para Eugénio de Andrade, Ruy Cinatti e Ruy Belo, as recebidas de José Régio, os manuscritos em versão dactiloscrita de Sinais de Fogo, as Líricas, várias peças de teatro e muitos cadernos de poesia, artigos publicados em jornais e muitas notas pessoais e literárias.
Para completar o espólio doado à BNP, falta ainda chegar a Lisboa um grupo de obras pertencentes à sua colecção de arte privada. Aí se incluem obras de Dominguez Alvarez, António Dacosta, Vespeira e Bartolomeu Cid dos Santos, (datadas de 1940, 1950 e 1960) e uma pintura de José Augusto França.
Tantos anos depois e após muita zanga e outros imbróglios, Sena regressa aonde sempre pertenceu: Portugal. E bem se pode dizer que só temos a ganhar com isso, pois ele foi, além de um extraordinário poeta, um crítico rigoroso, autor de várias obras de referência sobre a nossa literatura, sem deixar de ser, também, um grande divulgador da poesia de outras línguas.

Rodrigo Leão

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