15 julho 2009

Hermínio da Palma Inácio (a seguir)

No Almanaque Republicano faz-se história. Leiam a I parte do In memorian dedicado ao nosso revolucionário romântico. E dêem um passeio pelo arquivo. Há blogues que nos abrem mundo e o Almanaque é um deles.

14 julho 2009

Aventuras de um revolucionário romântico


Hermínio da Palma Inácio morreu (1922-2009). Era uma lenda. Porque foi um "terrorista". Pelo menos para o Estado Novo. Protagonizou diversos golpes. Foi um dos responsáveis pelo desvio político de um avião, a 10 de Novembro de 1961. Assaltou o Banco de Portugal, na Figueira da Foz, de onde levou cerca de 30 mil contos.
Numa operação concebida por Henrique Galvão e chefiada por Palma Inácio, o voo TAP de 11 de Novembro de 1961 do Super Constellation Mouzinho de Albuquerque de Casablanca para Lisboa foi desviado, com o objectivo de lançar panfletos anti-salazaristas em várias cidades portuguesas. Cerca de 45 m após o início do voo, Hermínio da Palma Inácio, entra no cockpit e aponta um revolver à cabeça do Comandante, explicando que o avião estava a ser assaltado. O objectivo era lançarem sobre Lisboa, Barreiro, Setúbal, Beja e Faro, 100 000 folhetos, denunciando as eleições para a Assembleia Nacional que se iam realizar 2 dias depois e incitando à revolta contra o regime de Salazar, regressando depois a Tânger onde Palma Inácio e os seus 6 companheiros, deviam obter asilo político. Esta operação planeada por Henrique Galvão tinha o nome de “Operação Vagô”. No Público online recupera-se um artigo de há sete anos (28 de Outubro de 2001) em que se narra o episódio. Transcrevemos:
«Hermínio da Palma Inácio sempre foi louco por aviões. Em 1951 chegara aos EUA, após uma fuga da prisão do Aljube, onde foi parar por ter sabotado os aviões da base de Sintra, operação integrada numa intentona que correu mal. No Massachusetts, tirou o brevet, tornou-se instrutor e voou sobre o país inteiro até ser preso e ir parar ao Brasil, onde trabalhou em empresas ligadas à aviação e de onde seguiu a aventura eleitoral de Humberto Delgado, em 1958.
Pouco depois, é o próprio Delgado a chegar ao Rio de Janeiro. A seguir, em Janeiro de 1961, Henrique Galvão, com Camilo Mortágua, protagoniza o espectacular assalto ao Santa Maria.
Depois de muitas peripécias, o navio acaba por atracar no Brasil, onde deixa Galvão e Camilo.
Em Portugal, a proeza enfurece a Pide, que começa a prender a torto e a direito. Um grupo de operacionais não militares que tinha participado na revolta da Sé, em Março de 1959, achou que era altura de coordenar a acção a partir do estrangeiro, e pediu asilo político na embaixada do Brasil, mal tomou posse na Presidência brasileira um homem que desde sempre mantivera distância em relação ao Governo de Salazar: Eugênio Quadros.
Amândio Silva, Manuel Serra, Raul Miguel Marques, José Paulo da Silva Graça chegaram todos ao Brasil pela mesma altura, com a intenção de lançar a revolução em Portugal sob a liderança de Henrique Galvão e Humberto Delgado.
Mas os dois líderes não se entendiam. Galvão considerava-se o chefe operacional e achava que a Delgado, a quem todos chamavam Sr. Presidente Eleito, devia ficar reservado o papel de líder político. Delgado considerava que, na situação em que estavam, não fazia sentido a distinção, e queria chefiar tudo. Era uma luta por protagonismo mas também por diferentes estratégias de acção, que acabou por levar os dois a uma ruptura formal, numa reunião supostamente conciliadora convocada pêlos operacionais em que Delgado se enfureceu e saiu porta fora.
Os operacionais convocaram outra reunião, sem Delgado nem Galvão, e decidiram organizar eles a sublevação, e concretizá-la, a despeito da luta de galos dos chefes, nem que para isso fosse preciso enganá-los.
Eis o plano, basicamente concebido por Galvão, que deveria ser posto em prática a partir de Marrocos: três operacionais partiriam clandestinamente para Portugal, com a missão de aliciar militares para uma revolta contra o regime.
As hipóteses seriam, ou tomar um quartel a Sul, como o de Beja, a partir do qual a revolução partiria para Norte, com ajuda de países do Norte de África, ou conquistar um quartel a Norte com capacidade de resistir durante meses, para que a revolução germinasse a partir daí.
Quando a insurreição tivesse começado, seria enviado, por código, um sinal verde para Marrocos, onde outro grupo de operacionais desviaria um avião comercial. Com Galvão e Delgado a bordo, o avião aterraria algures nas imediações do foco da revolta, de onde os dois carismáticos líderes oposicionistas encabeçariam a marcha de tomada do poder. O avião deveria ainda lançar sobre todo o país 100 mil panfletos incitando à revolta, que chegaram a estar impressos, com instruções precisas de guerrilha — como confeccionar um cocktail Molotov, como sabotar uma ponto ou os acessos a uma cidade, etc.
A primeira parto do plano foi posta em prática.
Os operacionais, Galvão e Delgado incluídos, começaram, em pequenos grupos, a sair para Marrocos. Raul Miguel Marques, um casapiano com grande habilidade manual, encarregou-se de falsificar os passaportes, que eram válidos apenas para o Brasil. Acrescentou: "Este passaporte também é válido para os seguintes países... e inscreveu a quase totalidade dos estados do mundo. Depois, aproveitando o carimbo de uma empresa ditosamente chamada Consórcio Geral de Portugal, mudou o "órdo" para "ulado" e falsificou a assinatura do cônsul por cima.
Raul, Miguel Serra (que militara na Juventude Católica e passava agora muitas horas a rezar para que a falsificação dos passaportes não fosse descoberta) e Amândio Silva foram os primeiros a partir, primeiro para Paris, depois para Amsterdão, onde Amândio foi "salvar" o operacional Jaime Conde, contacto de Fernando Oneto, um dos líderes da revolta da Sé, que entretanto fora preso. Conde estava num barco no porto holandês, desconhecendo a detenção de Oneto e a consequente iminência da sua própria prisão. Pela calada da noite, Amândio entrou clandestinamente no barco e levou o companheiro para uma embaixada onde pediu asilo político. Só depois rumou a Tânger.
Palma Inácio, Camilo Mortágua, José Paulo da Silva Graça partiram a seguir, com encontro marcado com Galvão em Roma, que não chegou a concretizar-se porque as autoridades italianas nunca tinham "compreendido" o assalto ao Santa Maria. Delgado chegou também a Marrocos, e instalou-se num hotel em Casablanca, para ficar o mais longe possível de Galvão.
Numa derradeira tentativa de sensibilizar os dois líderes para a necessidade de ultrapassarem divergências, Serra, Raul e Amândio alugaram um carro e foram a Casablanca. Era uma operação-relâmpago, ou pelo menos assim a entendia Amândio, que assumiu o volante com viril afoiteza. Ao passar em Alcácer Quibir, não se sabe se por causa do nevoeiro, consta que um beduíno se postou no meio da estrada. Para poupar o autóctone, Amândio guinou para a esquerda e entrou em contramão numa curva, onde vinha outro carro, em sentido contrário. Amândio emendou para a direita, de forma tão resoluta que um pneu rebentou, e em consequência a velha carcaça desceu uma ribanceira, subiu outra ribanceira e acabou estampada contra uma árvore.
O condutor foi levado, com um traumatismo craniano, para a maternidade de Alcácer Quibir, onde um médico lhe coseu a cabeça à pressa, esquecendo-se de limpar a terra e outros detritos, e onde ficou internado. Só um mês depois outro médico se decidiu a lancetar-lhe, sem anestesia, a cabeça, entretanto toda infectada, para retirar a terra de lá de dentro. Dias depois, Amândio estava bom, mas não a tempo de ir para Portugal iniciar a revolução, como estava previsto. Decidiu-se que José Paulo da Silva Graça partiria em seu lugar e Amândio passou a integrar a equipa do avião.
José Marcelino, piloto da TAP, então na casa dos 40 anos, era um homem casado que gostava de viver a vida. O pai tinha sido um republicano activo mas ele optara por ignorar a política, dedicando-se ao trabalho, na aviação, e, nas horas livres... às miúdas.



No início dos anos 60, Marcelino era já um profissional tão respeitado na companhia, que o ministro da Guerra da altura, o general Gomes de Araújo, não confiava a mais nenhum piloto a sua mulher e filha. Nas deslocações que as duas faziam frequentemente a Paris, para ir às compras, viajavam sempre nos voos e ao cuidado especial do seu comandante preferido.
Uma noite, Marcelino, na companhia de uma jovem, conduziu o carro até um certo parque, na zona de Cheias, onde, à época, muitos homens e mulheres consumavam, no sigilo tácito dos carros, os seus namoros ilícitos. Marcelino, que já perdera a conta a quantas vezes ali estivera, não tinha o hábito de olhar para quem estava no carro do lado. Mas naquele dia olhou. E... surpresa! Quem, num afã, se recreava pacificamente com uma beldade semipubescente? O ministro da Guerra! Em pânico, Marcelino deu meia-volta, mas não antes de o ministro o ter enxergado. E quando, mais tarde, a legítima esposa de Gomes de Araújo veio a saber do caso deste com a jovem, o ministro convenceu-se de que fora Marcelino, com as suas relações privilegiadas com a senhora de Araújo, o delator. Nada mais falso mas, a partir dessa data, acabaram-se as compras em Paris e Marcelino passou a contar, na sua folha de serviço, com um ódio de morte da parte do ministro da Guerra.
Escaldado com os maus encontros em Cheias, Marcelino arranjou outros estratagemas para namorar secretamente, nomeadamente com a jovem hospedeira da TAP Maria Luísa Infante, por quem entretanto se tomou de amores.



Nos dias 10 e 11 de Novembro de 1961, por exemplo, os voos Lisboa-Tânger-Casablanca-Lisboa deveriam ser efectuados, como acontecera nos últimos meses, por um DC-6 francês da UAT, que a TAP fretava quando não dispunha de aviões suficientes na sua frota. Apesar de o avião ter matricula francesa, era um voo TAP, pelo que a tripulação, que viajaria até Casablanca e aí pernoitaria, para regressar no dia seguinte a Lisboa, era da companhia portuguesa. Pois nesse dia, José Marcelino estava escalado para fazer o voo da TAP Lisboa-Porto, num Super Constellation de última geração, de nome Mouzinho de Albuquerque. Ora Marcelino, que tinha competência para alterar as escalas de serviço, ao ver que Maria Luísa faria o Lisboa-Tânger-Casablanca no DC-6 francês, decidiu, à última hora, mudar tudo: ele, Marcelino, voaria com o Super Constellation para Marrocos, com a tripulação que incluía Maria Luísa, e o DC-6 faria a carreira para o Porto. O objectivo era assistir, com Maria Luísa, a um espectáculo de dança do ventre e dormir com ela, em Casablanca. A hospedeira soube do plano minutos antes da partida, e ficou radiante.
Em Outubro de 1961, Fernando Vasconcelos, com 19 anos, deveria entrar na Universidade do Porto. Isso não chegou a acontecer porque estava a começar a guerra colonial, porque parecia não haver forma de combater a ditadura, e porque, ele e Maria Helena, com quem casara há um mês, decidiram fugir do país.
Compraram um pequeno barco de seis metros com um motor fora-de-borda de 25 cavalos chamado Rumo e, com outros quatro companheiros, numa manhã de São João, enquanto o Porto dormia, fizeram-se ao mar.
Pararam em Cascais, onde entrou outro resistente, que era procurado pela Polícia, depois em Aljezur, e partiram, os sete, para Tânger. Como estava previsto que a viagem duraria quatro dias, levavam combustível ajusta para a travessia, 70 litros de água e latas de conserva. Como instrumentos de navegação levavam uma bússola, um receptor de rádio, porque sabiam que, ao sintonizar uma estação de ondas médias, o sinal era mais nítido quando se dirigiam na sua direcção, e uma edição liceal de um Atlas.
Mas ao segundo dia de viagem foram apanhados por uma tempestade. Desviaram-se da rota, andaram as voltas e quando o vento amainou estavam no alto mar sem combustível. Navegaram à deriva durante sete dias, racionando os mantimentos: dois copos de água e uma almôndega por dia. Já quase tinham perdido a esperança, quando surgiu um petroleiro, que os salvou. O navio, de bandeira liberiana, armador americano e tripulação italiana, meteu-os a bordo e rebocou o barco até Gibraltar. Pediram asilo político, mas a Grã-Bretanha recusou, concedendo-lhes um prazo de 24 horas para consertarem o barco e partirem. No dia seguinte, conseguiram chegar a Tânger, onde lhes foi concedida uma autorização de permanência.
Parte do grupo decidiu aceitar convites para estudar em países socialistas, mas o que Fernando e Maria Helena queriam era combater o regime de Salazar. Contactaram com revolucionários argelinos da FNL e, meses depois, com Henrique Galvão, que chegara a Tânger com os seus operacionais.
Quando Fernando Vasconcelos e Maria Helena Vidal se integraram no grupo de Palma, Amândio e companhia, já Manuel Serra, Raul Miguel Marques e José Paulo da Silva Graça tinham partido para Portugal, para atear a revolução. Saíram às 4h00 da manhã de Tânger, apanharam o barco de Ceuta para Algeciras, chegaram a Sevilha, de táxi colectivo, ao cair da noite. Dormiram numa pensão e pelas 8h00 da manha apanharam um comboio para Cáceres. Foi aí que tiveram pela primeira vez a suspeita de que estavam a ser seguidos. A polícia pediu-lhes os passaportes umas dez vezes durante a viagem. Apearam-se em Cáceres, esfomeados, entraram num restaurante, e estavam a comer a sopa quando entraram seis agentes da Polícia política espanhola. "Passaportes! Os senhores estão presos!".
Quando, na esquadra, foram interrogados, um de cada vez, José Paulo contou a história que tinham combinado: vinha, com aqueles amigos, visitar o comandante da Polícia Joaquin Cabrera, grande amigo do seu sogro, Rolão Preto... A história tinha um fundo de verdade.
José Paulo era casado com uma rapariga chamada Rita Rolão Preto, filha do famoso Rolão Preto, um líder do movimento fascista dos Camisas Azuis que nos anos 30 fora expulso para Espanha e se fixara na região de Cáceres. O velho Rolão Preto fizera amizade com o Comandante da Polícia secreta de Cáceres, o tal Joaquin Cabrera, que depois o ajudara muitas vezes a safar contrabandistas amigos que eram presos na fronteira. Ora no casamento de José Paulo com Rita, realizado na quinta de Roláo Preto, esteve presente como convidado nada menos que D. Joaquin, que por sua vez convidou o noivo para uma tourada, do lado de lá da fronteira...
"Telefone por favor ao D. Joaquin Cabrera", disse José Paulo aos boquiabertos polidas, "diga-lhe que está aqui o marido da filha do dr.
Rolão Preto, que o quer visitar . Os polícias obedeceram e, poucas horas depois, os três revolucionários dormiam num hotel aconselhado pela "secreta" espanhola, pela manha, José Paulo fez uma visita de cortesia ao circunspecto Cabrera, que, apesar de estar seguramente informado dos propósitos dos revolucionários, por respeito ao velho amigo lhes deu todas as instruções de como chegar à fronteira por Villanueva del Fresno.
Ainda receando ser esperados pela Pide à chegada, os três agitadores optaram por ir primeiro a Salamanca, vaguear de autocarro e de táxi pela região, e entrar a pé em Portugal. Para quem os visse naquela altura, sujos e escanzelados, devia ser imensamente triste — e significativo — pensar que a democracia e a liberdade de todo um povo dependiam daquele trio.
Chegados ao país, dividiram-se, para cumprir a sua missão: Manuel Serra foi para Caldas da Rainha, José Paulo para Viseu, e depois para o Porto, Raul para Lisboa. Duas semanas depois, como combinado, encontraram-se os três em Lisboa para darem conta dos sucessos de cada um no incitamento dos militares à revolta.
Decepção. Não tinham conseguido nada. Nem um só elemento das Forças Armadas se comovera com os seus argumentos. Ignoraram-nos.
Chamaram-lhes malucos. Dos três, só Manuel Serra se obstinou em não desistir. Separou-se dos outros e continuou sozinho, até lograr, já no fim do ano, organizar a revolta de Beja. Quarenta anos mais tarde, José Paulo diria, num suspiro: "Não gosto muito de falar nestas coisas. Tenho a sensação de que falhámos sempre".
A Tânger chegou a mensagem, em código: não há condições para a revolução neste momento.
Talvez daqui a três ou quatro meses. Abortar a operação.
A vida em Tânger não era fácil para o grupo de operacionais. Tinham ido para Marrocos com os escassos fundos angariados junto de alguns anti-fascistas portugueses exilados no Brasil.
Amândio, com a capacidade de organização que lhe reconheciam, era quem geria os recursos. A rotina do grupo, Galvão incluído, era austera: de manhã, tomavam um café; às 4h00 da tarde, ingeriam a única refeição do dia, sopa e um prato, numa tasca espanhola que fazia um preço especial; à noite, bebiam um copo de leite. Tudo isto acompanhado de muitos exercícios físicos, para se manterem em forma até ao momento da grande acção.
Perante a notícia de que a revolução não era possível no momento, que fazer? Não tinham dinheiro para se manterem em Tânger mais alguns meses, à espera da altura propícia. Aliás, nem tinham dinheiro para o bilhete de regresso ao Brasil. Foi principalmente esta circunstância, e a falta de coragem para dizerem aos seus financiadores que não tinham feito nada, que determinou a decisão que foi tomada. Numa reunião de emergência, em que nem todos estiveram de acordo, optou-se por manter a operação do avião. Não para apoiar a revolução em curso, mas simplesmente como acção de propaganda, uma espécie de golpe de charme da oposição não-comunista, tanto mais que se estava nas vésperas de eleições em Portugal. Desviariam o avião Casablanca-Lisboa, que fariam regressar a Marrocos, onde seriam certamente presos e expulsos do país, o que resolveria o problema do bilhete de regresso.
A operação, que baptizaram como "Vago", começou. Viajaram durante a noite, em dois carros, chegaram ao início da manhã a Casablanca.
Encontraram-se num café, onde tomaram o pequeno-almoço, Palma sempre a enxotar os teimosos engraxadores, para não darem com o revólver 32 que levava na peúga.
Chegaram ao aeroporto, para o voo das 9hl5. Despediram-se de Galvão, que perguntou: "O Palma, a que horas é que achas que estás de regresso, para eu avisar as autoridades marroquinas?" "Às 10 para o meio-dia estamos aqui. Certo como um relógio", respondeu Palma.
Quando avistaram o avião na pista, primeiro susto: não era o DC-6 francês, como julgavam, mas um Super-Constellation da TAP. Pensaram: Pronto, a Pide já nos descobriu, mandaram um avião cheio de polícias. Discutiram por minutos se continuavam. Avançaram. No check-in, entregaram as sete malas, cheias com os 100 mil novos panfletos que mandaram imprimir.



Viajavam 19 passageiros no avião, dois deles, os únicos portugueses, em primeira classe, que ficava na parte de trás. Amândio, suspeitando tratar-se de pides, disse logo a João Martins, ao ouvido: "Tu ficas aqui atrás. Aqueles dois não se levantam durante todo o voo, nem para mijar! Entendido?" Quando o avião descolou, os operacionais, que se sentavam em lugares separados, levantaram-se, um a um, para ir buscar a sua pistola. Maria Helena, que já retirara as armas da cinta, entregou-as subrepticiamente, com gestos de prestidigitadora. Mas foi apenas quando a aeronave saiu das águas territoriais marroquinas que começou a acção propriamente dita.
Palma e Camilo irromperam pelo cockpit. O copiloto estava nos comandos e o comandante, José Marcelino, sentava-se na pequena divisão contígua. Palma apontou-lhe o "32": "Comandante, somos um grupo revolucionário patriótico e estamos a fazer uma operação política, contra o regime ditatorial de Salazar. O senhor tem duas alternativas: ou colabora, fazendo tudo o que lhe for ordenado, ou afasta-se e eu próprio assumo os comandos do avião".



Marcelino, que estava de costas, deu um salto, assustado. "Que é isto, o que é que os senhores querem?" "Pretendemos voar baixo sobre Lisboa, o Barreiro, Beja e Faro, e lançar panfletos. Depois, regressaremos a Tânger. Queremos fazer isto garantindo a segurança de todos".
"Mas eu não tenho combustível para isso", ripostou o comandante. "E é impossível abrir as janelas para lançar panfletos, por causa da pressão..." "Não? Então mostre-me o plano de voo".
Palma, com modos rápidos de conhecedor, analisou os documentos de voo e concluiu que havia combustível suficiente. E esclareceu logo o problema da pressão: "Descemos abaixo de 3 mil pés e fazemos a despressurização. Depois, podemos abrir sem perigo as escotilhas de emergência e lançar os papéis".
Marcelino declarou imediatamente que era dele a responsabilidade dos passageiros e que, portanto, obedeceria, sem abandonar os comandos.
Cá atrás, começava a servir-se o pequeno-almoço. Uma das hospedeiras, Pilar Blanco, queixou-se à colega mais velha, Maria Luísa Infante: "Estão uns homens no cockpit. Não me deixam entrar".
O comissário de bordo, Orloff Esteves, riu-se.
"O quê? Eu vou lá. Vai ver como me deixam entrar". E entrou, de facto. Mas não saiu mais.
Foi Amândio e Maria Helena, incumbidos das "relações públicas" da operação, quem explicou às hospedeiras o que se passava. Foi chamado o mecânico de bordo, António Coragem, para ir ao porão buscar as malas. Aos passageiros que se sentavam nas últimas filas foi pedido que, por motivos de serviço, se mudassem para lugares livres à frente. Fechada a cortina separadora, a área de trás do avião ficou reservada para as operações patrióticas.
Tudo começou a acontecer com incrível naturalidade. Camilo saiu do cockpit, sentou-se num dos lugares da frente e desabafou: "Foi fácil de mais! Assim não tem graça!" O comandante, depois de ter pedido aos piratas que não exibissem as armas em frente dos passageiros, mandou servir champanhe. Depois whisky. As hospedeiras andavam numa roda viva, aparentemente até divertidas. Luísa, ainda em estado de beatitude depois das emoções da noite anterior, em Casablanca, preocupou-se por um momento com a segurança do amante Marcelino, embora se esforçasse por o não dar a entender. Mas logo percebeu que estava entre gente correcta.
Já Pilar, que fazia o seu último voo, porque tinha casamento marcado e decidira deixar de trabalhar, a certa altura sentou-se cabisbaixa, e deixou cair uma lágrima pelo rosto moreno.
"Que tem a menina?", condoeu-se o garboso Amândio. "Por que chora?" "Eu tinha combinado com o Gil, que é o meu noivo, ir hoje ao cinema em Lisboa, à primeira matiné do Império".
Amândio sacou do lenço, limpou as lágrimas à donzela. "Não se apoquente. Dou-lhe a minha palavra de honra que, se não for à primeira, há-de ir à segunda matiné do Império com o Gil".



A seguir, foi a vez do comissário Orloff proporcionar a Amândio mais um daqueles momentos cinematográficos que ele adorava. "Fique bem claro que estamos a fazer tudo isto porque somos obrigados, pela força das armas!", declarou heroicamente a Amândio. Este não hesitou: lançou a pistola para rima de um dos bancos (um que estava mais próximo dele do que do comissário, pelo sim pelo não). "Bom, diga lá agora: colabora ou não?" Orloff não respondeu.
O comandante mandou abrir mais champanhe, distribuir flores, e os passageiros, surpreendidos com tanta prodigalidade, riam e cantavam, sem se aperceberem de nada, quando finalmente chegaram a Lisboa. Marcelino comunicou à torre de controlo que ia aterrar e aproximou-se da pista. No momento em que parecia que ia tocar o solo, Palma Inácio irritou-se. "Ai vai aterrar? Então ficamos todos aqui!", gritou, e lançou-se sobre os comandos, embora, no íntimo, nem por um segundo tencionasse fazer despenhar o avião. Era um verdadeiro dogma do grupo não pôr em perigo a vida de inocentes, nem que para isso tivessem de ser presos, ou mesmo sacrificados. "Os fins não justificam todos os meios", costumavam dizer Galvão e Camilo, nas suas (poucas) conversas teóricas.
Mas Marcelino percebeu a mensagem. Dirigiu-se de novo à torre; "Peço autorização para voar baixo sobre Lisboa".
Para sua surpresa, a resposta surgiu imediata: "Autorização concedida". Pensou: "Estão feitos uns com os outros, não há outra explicação.
Isto afinal é uma coisa séria". E passou a agir com mais prudência, "Remeteu" motores, começou a sobrevoar a cidade, desligou os altifalantes do cockpit e sussurrou ao microfone: "Informo que o avião está a ser assaltado. É uma operação política do Henrique Galvão. Querem lançar panfletos e regressar a Marrocos". Silêncio do outro lado. Depois: "Comandante, pode repetir, se faz favor?" E antes que pudesse recomeçar a falar, Marcelino ouviu, nos auscultadores, a voz bem conhecida do general da Força Aérea Costa Macedo, que andava nas imediações a voar num Dakota: "Não é preciso repetir. Já percebi tudo! Vou já comunicar com a Batina, para ver se mo apanham ".
A Batina, designação por que é conhecido o centro de radar militar de Montejunto, comunicou pouco depois: "Não vemos o avião". Ao que Costa Macedo respondeu: "Não? Então é porque já o abateram".
Marcelino, que ouviu tudo isto, compreendeu subitamente o que acontecera, e que mais tarde lhe foi confirmado por várias fontes fidedignas: quando o ministro da Guerra, Gomes de Araújo, foi informado do que se passava, perguntou quem era o comandante do aviáo desviado. Ao saber, cedendo a um desejo de vingança antigo, deu ordem para abater o avião.
Mal pensara isto, Marcelino vislumbrou os dois pares de aviões caças que tinham saído da base de Sáo Jacinto, com a missão de abater o Super-Constellation. Para não ser detectado pêlos radares e ficar fora do alcance dos caças, o comandante baixou a altitude até escassos 30 metros por cima dos prédios.
Os piratas rejubilaram. Feita a despressurização, começou o lançamento dos comunicados, com a ajuda mais que solícita do mecânico Coragem, que a certa altura disse mesmo: "Dê cá, que eu também quero lançar alguns!" Aliás, as próprias hospedeiras acabaram por ajudar no lançamento dos papéis, bem como alguns passageiros, já francamente bêbados, acreditando que estavam a deitar fora alguma papelada que já não era necessária.
Com as mudanças bruscas de altitude, João Martins sentiu-se mal e foi à casa de banho vomitar. Pouco depois, Maria Luísa saía de lá aos gritos: "Quem foi o porco que sujou a sanita? Vá lá limpar imediatamente!" E o bom Martins lá foi, guardanapo numa mão, pistola na outra.
Estava um dia luminoso em Lisboa, cheio de sol e vento, e os panfletos voaram por todo o lado, espalharam-se pela Avenida da Liberdade, pousaram nos cafés do Terreiro do Paço, entraram pelas janelas abertas do Ministério do Interior.
"Agora, vamos ali à malta fixe do Barreiro", ordenou Palma Inácio. "Agora vamos à malta fixe de Beja". Voaram, "a rapar o solo" sobre o Alentejo e o Algarve. Martins, ao ver a sua terra-natal, chorou. E continuaram para Sul. No mar, ao largo de Faro, estavam dois navios de guerra que tomaram posições, alinhados com o avião.
Marcelino convenceu-se de que era o alvo e desceu ainda mais, passando rente ao mar entre as duas corvetas. Para seu espanto, os militares a bordo disseram adeus, sorridentes. Estavam ali, confirmou-se mais tarde, à espera da operação marítima de Henrique Galvão...



A chegada a Tânger registou-se precisamente ao meio-dia menos 10, como previsto. Galvão esperava os seus homens no aeroporto, as autoridades estavam avisadas.
O avião regressou horas depois a Lisboa e os operacionais foram todos presos. Após algumas andanças pouco agradáveis em Marrocos foram mandados para Dacar, precisamente no dia da declaração da independência do Senegal. Galvão, apresentado como um famoso anti-fascista e anti-colonialista português, ainda fez um discurso às massas, antes de as autoridades senegalesas terem enfiado o grupo à força num avião com destino à Argentina. A entrada, Camilo pôs-se aos gritos de que, mal levantassem voo, desviaria o avião. O comandante mandou dizer que não transportava tão difíceis passageiros, e, pouco depois, estavam de regresso ao Brasil, prontos para outra operação, Em Portugal, foram todos julgados à revelia e condenados a penas entre os 15 e 20 anos, ajuntar às que já tinham O comandante Marcelino, que não foi capaz de explicar satisfatoriamente por que razão tinha alterado o voo de Casablanca, foi interrogado inúmeras vezes pela Pide e ficou suspenso das suas funções.
Um mês depois, recebe um telefonema do aeroporto, às 2h00 da manhã. "Comandante Marcelino, tem um voo para fazer agora, para Goa", disseram. Acrescentaram que a ordem de suspensão tinha acabado de ser levantada e Marcelino foi à pressa para o aeroporto. De tão radiante por recomeçar a trabalhar, nem estranhou que o voo, àquela hora, fosse repleto de passageiros e com a carga máxima.
Já nas proximidades da Índia, foi um controlador aéreo paquistanês quem o informou: "O quê? Vai para Goa? Você está louco? Goa acaba de ser tomada pelo Nehru. Já chegaram aqui, ao aeroporto de Carachi, dois aviões crivados de balas." Marcelino começou, com todas as cautelas, a explicar aos passageiros por que razão teriam de aterrar em Carachi... mas um deles dirigiu-se ao cockpit: "Sr. comandante, não perca o seu tempo. Sabemos o que se passa. Somos todos militares à civil, o avião vai carregado de armamento".
Sabendo da iminente invasão de Goa, o Governo português decidira enviar, à última hora, soldados e armas para defender a colónia. E quem melhor para pilotar o avião-suicida, pensou o ministro da Guerra, do que o comandante Marcelino? Hoje, é casado com Maria Luísa, tem três netos.»

13 julho 2009

Hipocondria informática


O El País traz um artigo sobre algumas das fobias mais recorrentes nos dias que correm: micro-ondas; o uso de telemóveis nas bombas de gasolina; as interferências perigosas dos instrumentos electrónicos com os aparelhos de navegação de um avião ou com máquinas de hospitais; a surdez provocada por iPods e afins; problemas de visão, de coluna e artrites provocadas pelo uso de computador; esterilidade causada pelo uso frequente de portátil, cancro provocado pelo uso de telemóvel ou dores de cabeça relacionadas com wireless.
Vale a pena dar lá um pulo, para ver o que é ou o que não passa de lenda urbana.

10 julho 2009

Rui Pires Cabral


«He loved beauty that looked kind of destroyed.»


Gostava dessa espécie de beleza
que podemos surpreender a cada passo,
desvelada pelo acaso numa esquina
de arrabalde; a beleza de uma casa devoluta
que foi toda a infância de alguém,
com visitas ao domingo e tardes no quintal
depois da escola; a beleza crepuscular
de alguns rostos num retrato de família
a preto e branco, ou a de certos hotéis
que conheceram há muito os seus dias de fulgor
e foram perdendo estrelas; a beleza condenada
que nos toma de repente, como um verso
ou o desejo, como um copo que se parte
e dispersa no soalho a frágil luz de um instante.
Gostava de tudo isso que o deixava muito a sós
consigo mesmo, essa espécie de beleza arruinada
onde a vida encontra o espelho mais fiel.

in Oráculos de Cabeceira, Averno, 2009

Há coisas que não mudam


Já aqui o dissemos repetidas vezes: o problema de Portugal não é a produtividade de quem trabalha, mas a produtividade de quem gere. A gestão deixa muito a desejar e de quando em quando isso é tornado público.
Veja-se o caso dos CTT (mais de 1,7 milhões de euros para estar com Scolari num encontro). Os gestores gastavam à tripa forra. Mas a qualidade dos serviços da empresa é fraca. No que aos Açores diz respeito, os atrasos na correspondência são sistemáticos. Poupança, claro. Poupa-se na natureza da empresa, para se gastar em prebendas e luxos para quem gere.
A média salarial dos portugueses é baixa. A média salarial dos gestores portugueses é igual ou superior à dos congéneres europeus. Isto diz tudo, não acham?

08 julho 2009

A provecta idade dos super-heróis


O italiano Donald Soffritti publicou um livro com 40 caricaturas dos mais conhecidos super-heróis da BD e imaginou-os a todos já na meia idade ou na velhice. O resultado é caricato.



Prometeo, de José de Ribera vendido em Londres


Um quadro do pintor espanhol José de Ribera (1591-1652), "Prometeo", bateu hoje um recorde ao vender-se por 3,84 milhões de libras (4,45 milhões de euros) num leilão da Sotheby's, em Londres. O quadro (de 193,5 por 155,5 centímetros) aborda um tema mitológico: Prometeu, o titã que atraiu a fúria de Júpiter ao roubar o fogo para o dar aos homens. Pertencia a Barbara Piasecka Johnson, viúva de J. Seward Johnson, um dos fundadores da empresa de produtos médicos e farmacêuticos Johnson & Johnson.
"Prometeo" é o primeiro de uma série que Ribera pintou sobre os titãs e de que apenas se conservam três, dois deles no Museu do Prado, em Madrid.

O estado comatoso da educação

A senhora ministra da educação tem graves problemas. E continua o seu trabalho de destruição lenta do ensino público. Dizer que a culpa dos maus resultados dos exames nacionais é da comunicação social não lembra ao diabo. A culpa é dela e dos secretários de estado que durante quatro anos tudo fizeram para desprestigiar professores, escolas e ensino público. Brincar à educação tem estes resultados. Os alunos convencem-se que o ministério tudo fará para os ajudar e não só não estudam como passam as aulas a brincar.
É fácil descartar culpas. E a médio prazo assistiremos a mais mazelas e às sacudidelas de água do capote. A escola deveria ser um lugar de rigor e é, cada vez mais, um imenso jardim infantil. A formação de professores é ridícula e menospreza-os. Os professores devem ser dos poucos grupos profissionais que estão impedidos de participar em colóquios e congressos das suas áreas científicas, pois para o governo de Sócrates tudo se resume a TIC e magalhães. Ou à demencial repetição do aprender a aprender cujos resultados dão no que se vê.

07 julho 2009

Caravela portuguesa (Physalia physalis)


A fisália ou caravela-portuguesa (Physalia physalis)é “um animal” do grupo dos cnidários. Tem cor maioritariamente azul, com algum vermelho e tentáculos cheios de células urticantes. Não é propriamente um animal mas um conjunto de vários organismos, unissexuais, com características diferentes e onde cada um tem uma função que assegura a sobrevivência de toda a colónia (alimentação - os gastrozóides; reprodução – os gonozóides; filamentos que pescam as presas – os dactilizóides). Semelhante a um barco em miniatura, sem locomoção própria, flutua à superfície das águas suave e lentamente ao sabor das marés e dos ventos – daí o seu apelido “Caravela Portuguesa”.
Tem uma estrutura em forma de carapaça, que pode atingir 30 centímetros de comprimento e 10 centímetros de largura. Os seus tentáculos, por baixo, podem chegar aos 30 metros e estão sempre prontos a envolver um peixe para a sua alimentação. São estes longos filamentos os responsáveis pelo perigo da caravela portuguesa, uma vez que é lá que se encontra o veneno usado para ajudar a capturar as presas.
Os filamentos funcionam como uma espécie de tentáculos que apenas são eficazes para capturar peixes de pequenas dimensões, camarões e outros animais encontrados no plâncton. É nos tentáculos que se encontram os cnidócitos, que são as células urticantes, portadoras dos nematocistos, accionados pela "rede nervosa". A caravela-portuguesa tem dois tipos de nematocistos: pequenos e grandes; estes "órgãos" conservam as suas propriedades por muito tempo, mesmo que o indivíduo tenha ficado várias horas a seco na praia, pelo que devemos evitar tocar-lhes mesmo quando as vemos em seco no areal de uma praia.
Os tentáculos azulados podem provocar, em contacto com o corpo humano, queimaduras de terceiro grau ou mesmo levar à morte de indivíduos com problemas cardíacos ou respiratórios.
Vêem-se com frequência nos mares dos Açores. Onde também se avistam enormes aglomerados de águas-vivas ou alforrecas (Pelagia noctiluca). Nos Açores as pessoas dizem que foram "mordidas" ou que levaram uma "dentada", pois o choque produzido pelos tentáculos provoca uma sensação semelhante.


06 julho 2009

ONE AND OTHER ou o Plinto vazio


Em Trafalgar Square começou hoje a primeira escultura viva, com "esculturas" humanas, ou com pessoas que se voluntarizaram para estar de pé no plinto vazio durante uma hora. Ao todo, serão 2400, que se irão revezando de hora em hora, durante cem dias. Enquanto permanecerem no plinto podem fazer o que quiserem (logo que a lei o permita). A escultura é ideia de Anthony Gormley.
Ligado à geração dos novos escultores dos anos oitenta, Anthony Gormley tornou-se conhecido através de uma série de esculturas modeladas a partir do seu próprio corpo, em tamanho natural, colocadas em espaços interiores e exteriores, que estabelecem diversos tipos de relações com o espaço circundante. O chumbo é o material mais utilizado por Gormley. As folhas de chumbo revestem inteiramente a forma dos corpos e estão soldadas entre si de forma evidente e deliberada, de tal modo que as juntas formam um desenho reticular. Estas esculturas têm um carácter arcaico e interrogam a noção do ser dentro de um corpo, o homem fechado dentro da sua pele e a relação que existe com o mundo que o rodeia.

Max Roach and Randy Weston - Duo

Exuma - Damn Fool

Exuma - African Rhythm

Arre burra!


A aldeia de Carpinteiro, Guarda, organiza todos os anos uma concentração de burros. O burro doméstico (Equus asinus, Lin.) é animal de uma sobriedade notável, come pouco e contenta-se com forragem e grãos de inferior qualidade que outros animais rejeitariam. A água, porém, tem de ser límpida e sem qualquer cheiro, preferindo sempre as dos regatos e ribeiros já seus conhecidos.
Era muito utilizado como animal de carga e nos trabalhos agrícolas, sendo comum na paisagem portuguesa até aos anos 70 do século passado. Aos poucos, foi desaperecendo e hoje restam poucos.
O poeta espanhol Juan Ramón Jiménez cantou-o em Platero e eu (1917): "Platero é pequeno, peludo, suave; tão macio, que dir-se-ia todo de algodão, que não tem ossos. Só os espelhos de azeviche dos seus olhos são duros como dois escaravelhos de cristal negro."

05 julho 2009

Laureano Barros, leitor 3

Além de coleccionador de livros raros, Laureano Barros foi um genuíno leitor. Amigo de muitos escritores, como Eugénio de Andrade ou Luiz Pacheco, a sua biblioteca incluía numerosos manuscritos e dactiloscritos que lhe foram sendo oferecidos por estes e outros autores. "Ao Laureano, com uma amizade que chega ao ponto de lhe oferecer isto", escreve Eugénio num raríssimo exemplar do seu primeiro livro, Narciso, que publicou aos 16 anos, ainda com o seu verdadeiro nome de José Fontinhas, e que depressa veio a rejeitar.

O facto de Laureano Barros não se ter regido apenas por critérios de coleccionismo deu à sua biblioteca uma abrangência pouco vulgar. Quem colecciona primeiras edições de Fernão Mendes Pinto, de António Vieira ou de Luís António Verney não costuma ter também o mítico O Amor em Visita de Herberto Helder ou os primeiros livros de João Miguel Fernandes Jorge. Laureano Barros tinha tudo isto e ainda arranjou tempo e dinheiro para compor uma boa biblioteca de historiografia portuguesa, para lá de livros dedicados a vários outros temas que o interessavam, como, por exemplo, a botânica.
Um dos núcleos mais importantes da colecção de Laureano, era um exaustivo conjunto de edições portuguesas e estrangeiras dos cancioneiros medievais. Outro, o das principais revistas literárias portuguesas, desde as oitocentistas, como Ave Azul, passando pelas mais importantes publicações do primeiro modernismo - Orpheu, Centauro, Exílio, Portugal Futurista, Byzancio ou Athena -, até às que saíram já na segunda metade do século XX.
Havia, depois, primeiras edições dos poetas quinhentistas Diogo Bernardes e Frei Agostinho da Cruz, uma segunda edição das poesias de Sá de Miranda, a edição original dos Apólogos Dialogais de Francisco Manuel de Melo e a segunda da sua Carta de Guia de Casados, ou ainda as primeiras edições de diversas obras do pedagogo iluminista Luís António Verney, incluindo o Verdadeiro Método de Estudar.

Laureano Barros coleccionou sobretudo literatura portuguesa, mas a sua biblioteca incluía também autores brasileiros e algumas obras em línguas estrangeiras, entre as quais se destaca um raríssimo exemplar da primeira edição em volume de Madame Bovary, de Flaubert. Outra peça curiosa era um exemplar setecentista, em latim, do Index de livros proibidos pelo Vaticano.
A partir do início do século XIX, e no que respeita à poesia e ficção portuguesas, o mais simples seria assinalar o que falta, e não falta quase nada de significativo até ao final da década de 1950. Atendendo só aos autores mais relevantes, pode começar-se por Garrett, com primeiras edições dos poemas Camões ou D. Branca, que introduziram o romantismo em Portugal, ou as de Folhas Caídas e do drama O Alfageme de Santarém, a par de muitas outras obras menos conhecidas.
a raríssima primeira edição dos Sonetos de Antero de Quental, as duas primeiras edições de Claridades do Sul, de Gomes Leal, o invulgar Mysticae Nuptiae, que Guerra Junqueiro publicou aos 16 anos, ou ainda, para não alongar os exemplos, as primeiras edições de O Livro de Cesário Verde e do , de António Nobre. No caso da obra-prima de Nobre, Laureano Barros deu-se mesmo ao luxo de reunir as oito primeiras edições.
Na ficção oitocentista, imensas primeiras edições de Camilo e de Eça de Queirós, por exemplo de Os Maias. Mas podiam acrescentar-se muitos outros autores, entre os quais Júlio Dinis, de quem possuía, além dos livros de ficção e poesia, um raríssimo opúsculo intitulado Da Importância dos Estudos Meteorológicos para a Medicina, de que apenas se publicaram 100 exemplares.
Quanto a Fernando Pessoa e à geração de Orpheu, a coisa volta a poder resumir-se em três palavras: não faltava nada. Nem sequer a segunda edição de Mensagem, menos valiosa do que a primeira (que, claro, Laureano Barros também tinha), mas provavelmente mais rara. Tinha todas as edições que o poeta publicou em vida, dos volumes de poesia inglesa ao texto O Interregno. Defesa e Justificação da Ditadura Militar em Portugal. De Almada Negreiros, algumas das peças mais raras são as primeiras edições da Cena do Ódio e do Manifesto Anti-Dantas. Bastante difíceis de encontrar são também as edições originais de Confissão de Lúcio, Céu em Fogo e Dispersão, de Mário Sá-Carneiro. Alfredo Guisado não é um autor da mesma importância dos anteriores, mas, por isso mesmo, o facto de Laureano Barros ter conseguido reunir todos os nove livros que o poeta publicou mostra bem até que ponto era um coleccionador minucioso. Que dedicava particular atenção a Aquilino Ribeiro, Agustina Bessa-Luís, Miguel Torga, António Botto, Camilo Pessanha, Florbela Espanca, Raul Brandão, Wenceslau de Moraes, José Régio, Irene Lisboa, Ferreira de Castro, Vitorino Nemésio, Sophia, Jorge de Sena, Herberto Helder e por aí adiante. Do primeiro livro de Mário Cesariny, Corpo Visível, que muitos coleccionadores bem gostariam de ter, o matemático de Ponte da Barca dava-se ao luxo de ter dois exemplares.
E mais, muito mais, como pode verificar quem consultar o catálogo que
Manuel Ferreira organizou, com a minúcia que se lhe conhece, para o leilão que decorreu na cidade do Porto há tempos.

Texto ligeiramente modificado por nós, a partir daqui (não está assinado, mas supomos que é da autoria de Luís Miguel Queirós).

A história de um leitor compulsivo 2

Em Ponte da Barca, Laureano era amado e odiado, e retribuía ambos os sentimentos. As eminências locais tinham a noção de ter ali uma personalidade de craveira nacional, e tentavam aproveitar-se, oferecendo-lhe cargos e medalhas. Laureano nunca aceitou, alegando que nada fizera pela terra, o que não podia ser mais verdade.
Limitava-se a ser um exemplo, o que nem sempre era devidamente apreciado. Para desconforto de muita gente, a legalidade fiscal era uma das obsessões de Laureano. Quase uma doença. Pagava tudo antes do tempo e até mais do que devia, para não correr o risco de errar. Não admitia a mínima batota. Nas transacções de propriedades, era comum assinar-se a escritura por um valor inferior ao real, para pagar menos imposto. Laureano recusava-se, o que lhe impediu alguns negócios. Mas não cedia. Uma vez, quis vender uma das terras da família por 100 mil euros. O comprador aceitava o preço, desde que se fizesse escritura por 10 mil. Laureano fez um acordo: pagaria ele próprio o montante do imposto de transacção correspondente a 90 mil euros, que era devido ao outro. Foi aceite e o negócio fez-se.
Intransigente em relação à dignidade das pessoas, Laureando comia com os seus trabalhadores à mesma mesa, o que muitos consideravam esquisito.
Foi também o primeiro, na região, a fazer descontos para a reforma e segurança social dos trabalhadores. Os outros agricultores sentiram-se prejudicados com este precedente e nomearam um representante para interceder junto de Laureano. Quando aquele chegou à quinta sugerindo, com falinhas mansas, que o "senhor doutor", pelo menos, descontasse para a segurança social apenas um dia ou dois, e não a semana inteira, foi corrido com insultos.
A Quinta da Fonte da Cova era um oásis de legalidade. E de alguma loucura também.

O patrão achava que devia iniciar os empregados no mundo da bibliofilia e da cultura. Lia para eles, convocava-os para sessões temáticas nos aposentos por onde se distribuía a biblioteca: a sala, a salinha, o quartinho ou mesmo a saleta. Por vezes, anunciava-lhes que iam dar um passeio. Chamava então Arlindo, o seu taxista de serviço, e partiam para um tour literário pelas aldeias do Gerês. No fim, jantavam todos no Restaurante Elevador, no Bom Jesus de Braga. Previamente informado, o gerente reservava uma mesa num recanto discreto, para que o grupo (de "secretários", como Laureano os apresentava) não assustasse os clientes normais do luxuoso restaurante. E lá iam, o Nelinho, o Carlos, o Nuno, o Gi e todos os jornaleiros da quinta, incluindo o lenhador José Corga, que carecia de uma indicação especial à cozinha do restaurante. Corga era um fenómeno: só comia batatas (em dias de festa, com bacalhau - era a sua única concessão), mas não em doses normais. Precisava de um prato especial, de Viana, onde coubesse "meia quarta" (o equivalente a três quilos) de batatas cozidas. Repudiava, aliás, a ideia de que alguém conseguisse comer mais do que ele.
Laureano, que se maravilhava com os prodígios da Natureza, gostava de encorajar e exibir este apanágio do empregado. Por isso, no Elevador, o senhor Corga tinha direito ao seu prato especial de batatas.
O "senhor" Corga. Laureano tratava toda a gente por "senhor". Até um pobre que ia lá a casa levar a carne do talho merecia sempre um "Obrigado, senhor Manuel". Para o Nelinho, isto era pura magia. Nunca tinha visto nada assim. Laureano tinha o estranho poder de elevar as pessoas. De transformar um zé-ninguém num senhor.
"O doutor foi a pessoa mais honesta e culta que conheci à face da terra", diz Manuel Rocha, a quem Laureano chamava Nelo, ou Nelinho, que hoje tem 36 anos, mas está na quinta desde criança. "Ele para mim era tudo. Sempre pensei: com este homem, não preciso de mais nada."
Nelo era uma das várias crianças que trabalhavam ou habitavam na Quinta da Fonte da Cova, tais como o seu irmão, Carlos, o Nuno Leitão ou o Moisés Cerqueira (conhecido como o "Gi"), ou os sobrinhos mulatos de Laureano (filhos dos seus meios-irmãos de Angola), que lá iam passar férias.
O pai de Nelo fora jornaleiro na quinta. Levava-o para lá na época da apanha da maçã, trabalho que requeria gente pequena e leve. Mas um dia emigrou para França e deixou com o "doutor" os filhos, Nelo e Carlos. O "doutor Manuel" e o "engenheiro Carlos", como Laureano passou a designá-los, celebrando o talento para a conversa de um e o jeito de mãos do outro.
Carlos, com efeito, acabaria por arranjar emprego como mecânico de máquinas, e passou a ir à quinta apenas às quartas-feiras, almoçar. Nelo continuou a viver lá, até à morte de Laureano, no ano passado. Encarregava-se de vários trabalhos na quinta, mas também tomava conta da biblioteca e, acima de tudo, tornou-se discípulo, amigo e confidente do patrão. "Nelinho, hoje o dia já está ganho, vamos conversar", chamava Laureano. "Nelinho, comprei um livro novo, vamos vê-lo". E Nelo interrompia o trabalho na quinta, sentava-se na salinha. "Isto, Nelinho, fica só entre nós. Não sai daqui", dizia-lhe Laureano, depois de contar uma visita a um alfarrabista ou a um leilão para adquirir um certo livro raro.
Nelo percebera que a biblioteca se tornara muito valiosa, e não convinha que isso constasse. Era um segredo que guardava. "Nelinho, hoje vamos tirar os livros daquela prateleira. Vamos vê-los." Ou então: "Vai ali à saleta, à segunda prateleira da estante do meio, encostada à janela, tira o terceiro livro a contar do lado norte para sul. Abre na página 153..."
Nelo abria e Laureano, da outra sala, começava a dizer o texto de cor, excertos enormes de Camilo ou Pessoa. Conhecia ao pormenor cada um dos seus livros e sabia exactamente onde se encontrava.
Um dia, Nuno Leitão, que trabalhou na quinta mas depois estudou Informática de Gestão, ofereceu-se para catalogar toda a biblioteca em computador. Laureano agradeceu, mas não precisava: tinha os ficheiros todos na cabeça.
Nuno chegou a viver na Fonte da Cova, mas acabou por ir estudar, encorajado por Laureano. O "Gi", que foi criado na quinta, sairia para casar e arranjar emprego como serralheiro.
A família dele, muito pobre, vivia numa casa em frente. Eram oito irmãos, que cedo se fizeram aos caminhos do fracasso ou do crime. Para lhe dar um futuro alternativo, a mãe de "Gi" pô-lo a viver na quinta, aos seis anos.
Ele e o Nelo, bem como o Carlos e o Nuno, eram como filhos de Laureano. Os seus "meninos", dizia ele. Todos falam do "doutor", hoje, com incondicional afecto e uma orgulhosa emoção. A exaltação quase fanática, possessiva, de quem sente ter tocado uma esfera superior da existência. "Faço questão de ser como ele, na minha vida", diz o Nelinho. "Em cada situação, penso: se o senhor doutor fosse vivo, faria assim. E tento fazer igual."
Não é fácil entender que tipo de influência Laureano exerceu sobre os espíritos destes jovens. Mas basta falar um pouco com eles para perceber que ainda lhe estão submetidos. Têm uma transparência comovente no olhar, que nos faria confiar-lhes a própria vida, sem hesitação.
Não que Laureano tenha sido condescendente com eles. Mas talvez por isso mesmo. "Gi" não teve uma relação fácil com o "doutor", que se zangava, e lhe batia, se ele chegava tarde a casa. Para o punir, mandava a Mariquinhas cozinhar favas com carne, o prato que "Gi" detestava. Uma vez, por ele ter ido ver as cheias do rio e não comparecer a horas no trabalho, deu-lhe uma bofetada. "Gi" fugiu para casa dos pais. No dia seguinte, Laureano telefonou-lhe a pedir que voltasse.
Acima de tudo, irritava-se por o seu "menino" não levar os estudos a sério. Ele ia, no entanto, concluir com êxito o secundário, não tivesse Laureano, que era na altura director da escola, irrompido pela reunião de professores, expressamente para não os deixar aprovar o "Gi". "Eu estou com ele em casa e vejo que ele não estuda", garantiu o director. "Gi" chumbou e foi trabalhar como serralheiro. Mas não ganhava o suficiente e teve de emigrar para Andorra, porque o "doutor", com os seus rígidos princípios, se recusou a meter uma cunha para lhe arranjar um emprego.
Já o Nelo não quis continuar os estudos, nem empregar-se, para ficar com Laureano. "No meu íntimo, eu sentia que não podia deixar o doutor. Achava que ele precisava de mim", explica o Nelo, que ainda continua na quinta, sem saber que ela vai ser vendida. "A minha filosofia de vida era: enquanto o doutor for vivo, eu fico com ele."
Parece que os dois competem pela maior dedicação a Laureano. "Gi" conta que passou muitos Natais sozinho com ele, quando nem os filhos o vinham visitar. E que, pouco antes da sua morte, era ele quem lhe dava banho.
Nelo e "Gi" contam cheios de vaidade estas compassivas intimidades, como se defendessem um fundamental património humano.
Laureano dissera à empregada: "Maria, se eu morrer, chama os meninos, para virem ajudar." Foi nessa altura que escreveu a lista de quem deveria ser avisado e as regras para o funeral, que incluíam ser enterrado sem caixão, sem discursos e sem cerimónia religiosa, de preferência na quinta (vontade que, obviamente, não pôde ser cumprida).
Nos últimos tempos de vida, aliás, depois de ter ficado doente, Laureano começou a preocupar-se com a posteridade. Não teve nenhuma fraqueza religiosa - manteve-se agnóstico até ao fim - mas passou a tomar disposições. Uma delas fora o divórcio com Maria José Caleijo, para não causar aos filhos problemas com a herança. Margarida, aliás, que só soube pelos jornais do casamento do pai, foi convidada formalmente para um almoço de divórcio.
Depois, Laureano doou todos os bens aos filhos. Quis poupá-los a burocracias e eventuais contendas. Organizado e precavido como era, passou os últimos anos a preparar o seu desaparecimento. Distribuiu as casas e os terrenos pelos três filhos, mas a sua grande preocupação eram, obviamente, os livros.
"Este ficará para a minha filha", ia dizendo ao Nelinho, "esta colecção para o Carlos...", mas à medida que se aproximava do fim, e ia perdendo o interesse por tudo excepto pelos livros, apercebia-se também de que os filhos não queriam a biblioteca. Pensou em várias soluções - doar as obras a uma instituição, criar uma fundação (ideia do filho Carlos). Mas nenhuma lhe agradou. Por fim, deixou de pensar no assunto. Mergulhou numa estranha apatia, uma inconsciência meticulosa e desesperada, que apenas aos seus "meninos" era visível. E os fazia sofrer.
Como pôde aquele homem que tudo calculava e tudo prevenia ter cometido um erro tão grosseiro? No seu afã de tudo medir pela beleza dos livros, de sublimar neles os seus dias e o seu futuro, nunca lhe passou pela cabeça que a biblioteca pudesse não ser eterna.
Mas não deixou, mesmo sabendo (e decerto aceitando) que em breve tudo aquilo seria vendido em leilão, de folhear, tratar e acariciar os seus livros, com a leveza confiante com que uma criança diz adeus a quem ama. A mesma com que, pouco depois, as mãos grossas e calejadas do "Gi" lhe seguraram o rosto que partia.

Texto de Paulo Moura in Público

A história de um leitor compulsivo 1


Era uma vez... Laureano Barros (1921-2008). Planeava tudo. Era organizado, previdente e perfeccionista. Inflexível com a verdade, a liberdade, a independência, o rigor e a pontualidade, exigia-os de si e dos outros. Tinha, portanto, poucos amigos.
Esta é a história de um leitor, tal como vem aqui. Um luxo dominical.

Foi quando foi viver para o Porto, para frequentar o liceu, que o jovem Laureano Barros começou a comprar livros. Frequentava os alfarrabistas e iniciou uma colecção, tal como fazia com os paliteiros, bengalas, relógios, louças, antiguidades ou alfaias agrícolas. Mas ao contrário de toda a traquitana que sempre gostou de trazer para casa, aos livros ergueu uma fidelidade. Não os vendia, não desistia nem se esquecia deles. Começou a acumulá-los na moradia que o pai lhe comprou para se instalar na cidade, na Foz, continuou a ampliar a colecção enquanto viveu nessa casa com a primeira mulher, Leonor, e depois quando se divorciou dela e das seguintes. De cada vez que se separava da mulher com quem vivia (e foram mais mulheres do que os três casamentos), deixava-lhe tudo: a casa, os móveis, as antiguidades. Mas levava consigo a biblioteca. Eram livros de Matemática, de Filosofia, de Botânica, mas acima de tudo de Literatura Portuguesa, e, cada vez mais, volumes curiosos e raros, obras pouco conhecidas, primeiras edições. Por alguns autores tornou-se obcecado e comprava tudo. Depois estendeu a obsessão a todos os escritores. Comprava e lia, várias vezes, os livros de Camilo, Eça, Pessoa, Torga. Sempre teve insónias, e passava-as a ler. Dono de uma memória prodigiosa, sabia páginas e páginas de cor. Perdia horas a arrumar os livros, a manuseá-los, a acariciá-los.
Para ele, eram um salvo-conduto contra a efemeridade de tudo o resto. E também contra a desilusão, como se nada, além dos livros, estivesse à altura dos padrões de excelência que estabeleceu. Do grau de pureza que cedo definiu para a sua vida.
Tendo concluído a licenciatura em Matemática com alta classificação, Laureano foi logo convidado, com 21 anos, para assistente de Rui Luís Gomes, um dos professores mais prestigiados da Faculdade de Ciências do Porto. A bela colega Leonor Moreira obtivera, no secundário, a segunda melhor classificação a Matemática (19) e ele (que teve 20) casou com ela, quando eram ambos estudantes no curso de Matemática da Faculdade de Ciências. Teriam três filhos: Carlos, Rui e Margarida, futuros médico, arquitecto e professora de Matemática.
Mas Rui Luís Gomes era um antifascista incorrigível. Em 1947, a seguir a vários episódios pouco felizes com a PIDE, foi expulso da faculdade, juntamente com outros dois matemáticos, José Morgado e, claro, o recto e incorruptível Laureano Barros, após terem enviado ao Governo uma carta protestando contra a prisão de uma aluna.
Desempregado, Laureano, então com 26 anos, montou uma sala de explicações, em frente ao mercado do Bolhão. Durante mais de 20 anos, viveu disso e pouco mais. Os rendimentos das propriedades familiares de Ponte da Barca, quando chegavam, convertiam-se imediatamente nalguma edição rara de Camilo ou Eça. O mesmo acontecia com as poucas remessas de Angola, onde o pai entretanto se estabelecera e constituíra outra família. Qualquer dinheiro extra era aplicado em extravagâncias bibliófilas, que incluíam, por exemplo, contratar um estudante para lhe catalogar a biblioteca.
Foi o primeiro emprego de Alexandre Outeiro. Laureano Barros pagava ao jovem de Ponte da Barca a estadia numa pensão, mais um salário simbólico, para ele passar os dias a fazer fichas dos livros no T2 que, depois de se divorciar pela segunda vez, arrendara na Rua de Sá da Bandeira. Alexandre cumpria o seu horário de trabalho sozinho no apartamento, mas por volta do meio-dia recebia um telefonema de Laureano convidando-o para o almoço num restaurante, onde passaria a refeição a falar-lhe de livros, cultura e aventuras.
Alexandre ficou a saber, maravilhado, como Laureano, que nunca foi comunista, deu guarida, na casa da Foz, ao militante comunista na clandestinidade Rogério de Carvalho, ou como se encontrou, a meio da noite, num pinhal em Vila do Conde, com a linda militante clandestina do PC Cândida Ventura, que ele não conhecia, para lhe passar uma pasta com documentos secretos. Ou ainda como numa aldeia chamada S. Martinho da Anta havia um velho olmo negro, descrito por Miguel Torga...

Nesta altura já Laureano e Alexandre eram amigos, e davam passeios de vários dias pelo Norte do país, a convite de Laureano, que pagava comidas e dormidas, mas no carro de Alexandre, porque o outro nunca teve carta de condução. Mesmo assim, Alexandre sabia que tinha de chegar ao encontro com o amigo à hora exacta que haviam marcado. Se se atrasasse um minuto, Laureano era capaz de, zangado, ir sem abrir a boca do Porto a Braga. "Ele exagerava", admite Alexandre Outeiro, que é hoje director de uma delegação da Caixa Geral de Depósitos em Gaia. "E sabia que exagerava. Mas era assim. Um homem de um rigor extremo, em tudo o que fazia."
Depois do 25 de Abril de 1974, Rui Gomes da Silva regressou do exílio no Brasil para ser nomeado reitor da Universidade do Porto. A primeira coisa que fez foi convidar Laureano para dar aulas na Faculdade de Ciências. Relutante, ele aceitou, mas, por discordar dos arbitrários saneamentos de professores, demitiu-se meses depois. Ainda voltou às explicações e leccionou num colégio, mas não se adaptou à balbúrdia da época e, após a morte do irmão, Joaquim, em 1976, mudou-se definitivamente para Ponte da Barca. Ia no terceiro casamento, com a professora de Francês Maria José Caleijo, que continuou a viver no apartamento de Sá da Bandeira. Os livros, esses, viajaram com Laureano. Agora, que herdara a casa grande da família, tinha espaço para eles.
Primeiras edições de Fernão Mendes Pinto, Camões, Vieira, Verney, Eça, Pessoa, Antero ou António Nobre, obras juvenis de Guerra Junqueiro, Torga ou José Gomes Ferreira, edições raras de poetas quinhentistas de Ponte da Barca - a biblioteca começou a crescer em majestade, a tornar-se maior do que si própria, misteriosa e imortal, exigindo reverência e devoção. Laureano foi ficando solitário. Ninguém sabe ao certo porquê.
Laureano Alves, primo de Laureano Barros, acha que ele se tornou um homem desiludido. "Passava muito tempo sozinho, embora adorasse conversar." O comportamento dos outros entristecia-o. Principalmente o dos mais comprometidos com o mundo. Por isso foi cortando elos. Recusou tudo o que lhe ofereceram. Foi convidado para professor catedrático da Faculdade de Ciências, como se tivesse leccionado durante todo o tempo desde a expulsão, em 1947. Não achou justo. Aceitou o cargo de director da Escola Secundária de Ponte da Barca, mas por pouco tempo. Segundo uma investigação que instaurou, descobriu serem falsos os atestados médicos que uma professora apresentava para faltar às aulas. Como ela não foi demitida, alegadamente por ter amizades no Ministério da Educação, Laureano pediu a reforma. Mais uma vez, recusou que lhe fosse contado o tempo de serviço desde a sua expulsão da Função Pública, como tinha direito, pelo que ficou com uma pensão miserável.
"Para ele, tudo tinha de ser perfeito", explica o primo.
Não facilitava. Essa era provavelmente a razão por que, sendo um amante da literatura, não escrevia. "O que fizesse teria de ser perfeito. Até uma carta, demorava semanas a escrevê-la. Esse perfeccionismo paralisava-o. E, no entanto, escrevia muito bem." Também terá sido por causa do perfeccionsmo e obsessão pela verdade que não conseguiu manter nenhum casamento, explica um amigo. Não suportava situações menos que perfeitas, e não conseguia mentir: de cada vez que tinha uma infidelidade, contava logo, o que acabava por levar à separação. Mas continuou amigo de todas as ex-mulheres.
A última, Maria José Caleijo, foi companheira até à sua morte, durante 45 anos, apesar de tudo. A certa altura, por imperativos de coerência, divorciaram-se, embora tivessem continuado juntos.
Laureano isolou-se em Ponte da Barca, onde passaria os últimos 30 anos de vida. Fugia das pessoas, e ao mesmo tempo procurava-as. Os outros surgiam-lhe como entidades algo imateriais e o encontro com eles não raro o fazia sentir-se perdido.
Para não se desiludir, preferia por vezes manter à distância aqueles de quem gostava, ignorando a crueldade da atitude. Quando Margarida, a filha, regressou de Inglaterra, onde, muito jovem, fora fazer o doutoramento em Matemática, Laureano fez tudo para que ela não o fosse visitar. Tinha medo que ela tivesse voltado muito esquerdista, e que se zangassem à primeira discussão. Fizera tudo, aliás, para que ela não seguisse Matemática, receando que não conseguisse. Margarida empenhou-se em mostrar que ele estava enganado, concluindo a licenciatura com média de 17.
Talvez cultivasse o relacionamento com os que se prestavam a ser amigos imaginários, metáforas de si próprios. Dizem os psicólogos que os coleccionadores compulsivos sofrem de incapacidade de lidar com os outros. Se isso é verdade, os livros, metáforas perfeitas da vida, são a colecção ideal do filantropo solitário.
No entanto, Laureano tornou-se amigo de pessoas que admirava. Lagoa Henriques, Óscar Lopes, Costa Gomes, que foi seu colega de faculdade. O general era visita regular da Quinta da Fonte da Cova, até quando foi Presidente da República (Laureano chegou a enviar-lhe uma carta criticando-o pelas cedências aos comunistas), e o mesmo acontecia com vários intelectuais e artistas, alguns bem pouco convencionais, como Luís Pacheco ou Eugénio de Andrade. Nestes, o austero e rígido Laureano apreciava a liberdade e a capacidade de surpreender. Mas mais tarde ou mais cedo a tolerância levava à colisão.
Eugénio passava grandes temporadas na quinta. Sentia-se em casa e dava largas às suas muitos próprias jovialidade e loucura. Mas quando a mãe de Laureano morreu, não mostrou grande consternação, explicando simplesmente que não gostava de funerais.
Uma vez, numa festa, Laureano apresentou-lhe uma personalidade de Ponte da Barca, um sujeito baixo e gordo que sorria de deferência para com o poeta. Eugénio apertou-lhe a mão - "Muito prazer!" - mas ao mesmo tempo disse para o lado, alto e bom som: "Isto é um homem ou é um cagalhão?"
Foi de mais. Laureano cortou com ele relações, que só viria a reatar, décadas depois, pouco antes da morte do amigo.

04 julho 2009

Os portugueses e a política


Descrença, descrédito, cinismo podem ser algumas das palavras de que os portugueses se servem para caracterizar a sua relação com aqueles que elegem. No entanto, basta estar num café ou ler os comentários que vão aparecendo em jornais e blogues para se perceber que esse relacionamento é feito de uma mistura de paixão/ódio que assenta numa tradição de calar, de ter medo, de "respeitinho".
Os portugueses consideram que quem tem mais posses tem melhores advogados e encontra buracos na lei, por isso a maioria dos nossos concidadãos sente-se desincentivada de recorrer aos tribunais para defender os seus direitos.

Além disso há a ideia generalizada de que a política é um trampolim para "bons tachos", ideia que vigora há muitos anos sem que se tenha assistido a uma corrida em massa à militância política, à procura de um lugar ao sol. Ou seja, os portugueses acham que dizer mal continua a ser óptima válvula de escape e por isso se consideram felizes.
Mesmo assim, como todos sabem, embora pouco falem disso, o país é hoje muito mais democrático do que era e, apesar dos exageros, para isso muito tem contribuído a guerra de audiências, ou seja, a necessidade sentida pela imprensa de dar voz ao povo, apesar da muita promiscuidade entre jornalistas e políticos (havendo casos, como o da Manuela Moura Guedes que chegam a ser as duas coisas ao mesmo tempo).
O que parece ainda faltar aos portugueses é maior empenho social, quiçá pelos resquícios da "minha alegre casinha" que os mantém pelos cafés ou por casa a exercitar a má língua.

03 julho 2009

Abstenção elevadíssima


O Benfica parece que tem muitos sócios. Cerca de 160 mil. E segundo vi há pouco, o número de votantes era superior a 15 mil. Ou seja, a abstenção é superior a 90%. Se isto é exemplo para o país vou ali e já venho.
Curiosamente, em lado nenhum se faz referência ao assunto. Quiçá porque o futebol é do domínio das paixões e a razão esquece-se disso. Mas não deixa de me incomodar que a suposta imprensa séria não reflicta sobre votações tão pouco participadas.
Será que o Benfica está mesmo moribundo?

Maria João Pires na ditosa pátria


Ditosa pátria que «está metida / No gosto da cobiça e na rudeza / Duma austera, apagada e vil tristeza.»
Porque continuamos a ouvir Camões sempre que nos chegam notícias destas? Porque os negócios da nação continuam medíocres e a educação permanece uma fantasia.
Maria João Pires prefere ser brasileira? Óptimo. Mas que por cá não se deixe morrer uma escola só por mera cegueira mercantil.
A nacionalidade da pianista interessa-me pouco. Já o que tentou fazer em Belgais interessa-me muito. E creio que deveria ser uma prioridade nacional disseminar pelo país escolas desse tipo. Portugal criaria, no espaço de uma geração, uma nova cidadania. Mas, infelizmente, por cá a educação só é notícia por questões de mealheiro: poupar em salários, poupar em custos de manutenção; gastar em maquinetas e propaganda.