05 junho 2009

Três hurras por Pedro Costa


É um cineasta de eleição e capaz de dizer coisas tão certeiras como estas: considera que Portugal está em risco de se tornar uma "revista cor-de-rosa gigantesca", deparando-se com problemas sociais graves, falta de mobilização cívica e com uma classe "burguesa" que é "obscena na sua ostentação".
"Há um problema social qualquer e em qualquer capital europeia mobilizam-se centenas de milhares de pessoas e temos uma reacção cívica. Em Portugal aconteceu o 25 de Abril e nem se sabe bem como".
"Portugal sempre foi muito débil em muitos aspectos. Mas era um país pequeno que guardaria a sua elegância, que tinha alguma elegância. Um país suave, temperado e agradável de se viver".
"A pouco e pouco está a tornar-se muito desagradável viver em Portugal perante o espectáculo ultra-degradante nos media, nas televisões, na rua. Entre uma classe burguesa totalmente inculta e obscena na sua ostentação, no seu disparate".

04 junho 2009

David Carradine (1936-2009)


Estava na Tailândia a rodar um novo filme e foi encontrado morto no seu quarto de hotel. Tinha 72 anos.
A infância tem coisas assim, encanta-se com artes marciais e Carradine era o monge Kwai Chang Caine, na série "Kung Fu". Vivi as artes marciais com ele e com Bruce Lee.
Quentin Tarantino, outro nostálgico, deu-lhe um papel em Kill Bill. Papel que, diga-se de passagem, lhe assentou que nem uma luva.
Tinha aquele ar perdido de quem nada sabe, nem nada percebe (um perdedor nato, portanto) que acabava por ter de resolver as coisas à pancada, quiçá porque a adolescência ou a proto-adolescência sente um turbilhão dentro de si e a pancadaria sabe que nem ginjas (sobretudo se for vivida assim, por interposta pessoa, com o fulgor dos anti-heróis). Ainda por cima tinha qualquer coisa de Lucky Luke, com a sua flauta de eremita.

Relações entre professores


Há quem pense que os professores gostam muito uns dos outros. Nada mais falso. Deve ser mesmo a profissão onde há mais pessoas a detestarem-se. Os efeitos disso têm sido reduzidos porque não havia aquilo que se tornará realidade caso o PS repita a maioria absoluta: o novo modelo de avaliação do Ministério da Educação.
Transcrevemos um excerto de uma notícia que mostra como o relacionamento entre professores é péssimo.
A 15 de Novembro de 2006, Brites Marques, professora de Educação Musical da EB 2,3 de Maceda, foi agredida pela mãe de um aluno nas instalações da escola, por ter chamado a atenção do filho que estava a riscar a mesa na sala de aulas. A professora acabou por dar entrada com uma taquicardia no Hospital de Ovar e, depois de assistida, apresentou queixa às autoridades policiais. Alguns meses depois, foi-lhe diagnosticada uma situação de stress pós-traumático.
No ano passado, o Tribunal de Ovar deu como provadas as agressões e condenou a mãe do aluno a sete meses de prisão com pena suspensa por um ano, pela prática de um crime de ofensa à integridade física, de um crime de injúria e outro de difamação.
Durante o julgamento, a docente revelou que, logo após as agressões, a então presidente do conselho executivo da escola, actualmente na reforma, não lhe prestou qualquer auxílio e socorreu a mãe. (Daqui).

03 junho 2009

Arménio Vieira


"O prémio Camões foi ontem atribuído ao ficcionista e poeta cabo-verdiano Arménio Vieira, nascido em 1941, que assim se torna o primeiro escritor do seu país a receber o mais relevante prémio literário atribuído a autores de língua portuguesa." [LMQ e SCA in Público]
Aqui ficam alguns poemas de Arménio Vieira (daqui e daqui).

LISBOA - 1971


Em verdade Lisboa não estava ali para nos saudar.

Eis-nos enfim transidos e quase perdidos
no meio de guardas e aviões da Portela.

Em verdade éramos o gado mais pobre
d'África trazido àquele lugar
e como folhas varridas pela vassoura do vento
nossos paramentos de presunção e de casta.

E quando mais tarde surpreendemos o espanto
da mulher que vendia maçãs
e queria saber donde... ao que vínhamos
descobrimos o logro a circular no coração do Império.

Porém o desencanto, que desce ao peito
e trepa a montanha,
necessita da levedura que o tempo fornece.

E num caminhão, por entre caixotes e resquícios da véspera,
fomos seguindo nosso destino
naquela manhã friorenta e molhada por chuviscos d'inverno


SER TIGRE


O tigre ignora a liberdade do salto
é como se uma mola o compelisse a pular.

Entre o cio e a cópula
o tigre não ama.

Ele busca a fêmea
como quem procura comida.

Sem tempo na alma,
é no presente que o tigre existe.

Nenhuma voz lhe fala da morte.
O tigre, já velho, dorme e passa.

Ele é esquivo,
não há mãos que o tomem.

Não soa,
porque não respira.

É menos que embrião
abaixo do ovo,
infra-sémen.

Não tem forma,
é quase nada, parece morto.

Porém existe,
por isso espera.

Epopéia, canção de amor,
epigrama, ode moderna, epitáfio,

Ele será
quando for tempo disso.


ISTO É QUE FAZEM DE NÓS

Isto!
E perguntam-nos:
- sois homens?
Respondemos:
- animais de capoeira.
Dizem-nos:
- bom dia.
Pensamos:
lá fora...

Isto é que fazem de nós
quando nos inquirem:
- estais vivos?
E em nós
as galinhas respondem:
- dormimos.

Jindrich Styrsky (1899-1942)





Fotógrafo checo.

Ugo Mulas (1928-1973)








Fotógrafo italiano.
De cima para baixo: Frank Stella, pintor. Lucio Fontana, pintor. John Cage, compositor. Eugenio Montale, poeta. Auto-retrato. Bar Giamaica. Milão.

02 junho 2009

Margaret Bowland






Margaret Bowland nasceu Burlington, Carolina do Norte, em 1953. Vive e trabalha em Brooklyn, NY, com o marido e dois filhos.

Grandes marcas mundiais destroem Amazónia


Adidas/Reebok, Timberland, Geox, Carrefour, Eurostar, Honda, Gucci, IKEA, Nike, Tesco, BMW, Wal Mart são algumas das marcas que têm uma pegada ecológica que inclui a devastação da Amazónia e que poderá estar ligada a casos de abuso dos direitos humanos (escravatura e exploração de mão-de-obra). Quem o afirma é a Greenpeace. Tudo porque têm como fornecedores de matérias-primas explorações que fazem abates ilegais da floresta tropical, diz a Greenpeace, depois de três anos de uma investigação secreta à indústria pecuária brasileira.
O incentivo de sucessivos governos brasileiros ao abate da Amazónia ganhou impulso durante a ditadura militar, nas décadas de 1960 e 70. Até há pouco, a substituição de floresta por pasto era financiada por dinheiros públicos na forma de subsídios.
Durante os mandatos de Lula, o Estado, através do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Económico e Social), tornou-se sócio e investidor directo no negócio de frigoríficos que, segundo a investigação do Greenpeace, compram matéria-prima a fazendas que abatem árvores ilegalmente, levam o gado bovino a pastar para áreas protegidas e terras públicas e utilizam mão de obra escrava.

A condução nas ilhas


Nos Açores conduz-me mal. Usa-se o eixo da via, obrigando quem vem em sentido contrário ou quer ultrapassar a aproximar-se das bermas. Estaciona-se em cima de curvas. Faz-se pouco uso dos piscas para sinalizar manobras. São constantes as manobras perigosas e a falta de civismo. E usa-se e abusa-se do álcool (veja-se como em diferentes ilhas se detectam elevadas taxas de alcoolémia: homem de 32 anos detido no Nordeste com 3,17 gramas; homem de 50 anos apanhado em ponta Delgada com uma taxa de álcool no sangue de 2,55 gramas; homem de 40 anos detido na Madalena, ilha do Pico, por provocar acidente ao conduzir motociclo com taxa de 2,71 gramas; três condutores detidos em Angra do Heroísmo, um de 40 anos, com uma taxa de alcoolémia de 1,97; outro, de 29 anos, apresentava 1,49, e o terceiro, de 47 anos, tinha 1,35 gramas por litro.)

01 junho 2009

Democracia de audiência

[Tese de doutoramento em Ciência Política defendida em 2008 por Conceição Pequito Teixeira, professora de Ciência Política do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa e da Universidade Aberta. Sob orientação de Adriano Moreira e co-orientação de Julían Santamaria Ossorio, director do Departamento de Ciência Política na Universidade Complutense de Madrid. Clicar na imagem para aumentar]


No Público de hoje, em artigo de São José Almeida divulga-se a obra de Maria da Conceição Pequito Teixeira, O Povo Semi-Soberano. Partidos Políticos e Recrutamento Parlamentar em Portugal.
Extraímos citações desse artigo que vem confirmar aquilo que era do conhecimento de uns quantos.
As citações entre aspas pertencem a Conceição Pequito. As citações em itálico são da jornalista São José Almeida.
"Vivemos uma democracia de audiência, feita de comunicação social, sondagens e líderes, em que há uma espécie de sondocracia, de videocracia e de lidercracia".
"As sondagens funcionam como um escrutínio permanente ao eleitorado e é desse escrutínio que saem as ofertas políticas que os partidos direccionam, como produtos no mercado, para rentabilizar votos. Depois há a questão da videocracia, com o peso da comunicação social, que personaliza, por sua vez, os líderes. Tudo isto se vai afunilando, até que torna a sociedade civil claustrofóbica".
[Portugal é] "uma democracia demasiado jovem, mas com traços de envelhecimento precoce".

Ou seja, a sociedade está distanciada dos partidos e o povo não se sente neles representado.

"(...) a UGT é uma espécie de prestação de serviços; quando o PSD está no Governo, presta-se a assinar os acordos, e com o PS o mesmo".

A segunda especificidade portuguesa é que os partidos foram também criados "em torno das figuras dos líderes e cada saída de um líder dá quase uma crise de sucessão e de perda de eleitorado e de descaracterização", o que "mostra a fragilidade, como os partidos acabam por ser quase sinónimo dos líderes conjunturais e não instituições com implantação social e ideologia sólida". Alem disso, os partidos portugueses nascem "em época mediática" e a "mediatização da política junta-se à personalização, são fenómenos que se alimentam mutuamente". E Conceição Pequito pergunta: "Quando o que interessa é o líder e os dirigentes de topo e o palco é a TV, os partidos servem para quê?"

A investigadora opõe-se frontalmente às candidaturas de independentes à Assembleia da República. "Isso era um risco muito grande de populismo", afirma, alertando: "Nós, em Portugal, não estamos sequer preparados para governos de coligação, como é que estamos preparados para a balbúrdia de partidos com independentes? Não acredito que tenhamos sociedade civil preparada para isso nem classe política para o efeito."
E, veemente, insiste: "Temos um legado histórico com uma sociedade civil muito fraca, que vem da Monarquia Constitucional, vem da Primeira República, vem do Estado Novo, com o seu paternalismo que é conhecido. E no pós-25 de Abril, com as maiorias absolutas ou quase absolutas, anestesiou-se a sociedade civil."

"Há governamentalização do Parlamento. Os outros partidos fazem oposição para a televisão. "

Do 8 ao 80

Em duas décadas passamos de um ensino centrado nos conhecimentos para um ensino centrado no fazer de conta. As consequências ainda não podem ser avaliadas, mas não tarda sê-lo-ão.
Lembrar-se-ão, os mais velhos, que dantes não havia apoios nem cuidados com alunos desinteressados ou que se davam mal com a aprendizagem. A pouco e pouco, fruto de diversas circunstâncias, o ensino público orientou-se para estes alunos, desleixando a maioria. A preocupação com as estatísticas e um novo modo de entender a escola (cada vez mais um mero espaço de ocupação de crianças e adolescentes) fazem com que ao nível central haja uma verdadeira obsessão com os números. Pouco importa que os alunos saibam de facto. Apenas que cumpram na aparência. O que é tão perverso quanto isto: muitos, ao perceberem que a escola facilita a vida aos que não cumprem as regras, optaram por desleixar o estudo e não se têm dado mal.
O Estado não se importa de gastar mais uns trocos com aquilo que chama de planos de recuperação e quem paga impostos não sabe que esses trocos são, afinal, milhões de euros. O que importa é que as aparências sejam eficazes, isto é, que o governo possa fazer alarde do sucesso. Que sucesso é este? Nenhum. É apenas mais do mesmo. Dantes abandonavam a escola e integravam o mercado de trabalho. Agora ficam mais uns tempos na escola e vão integrar o número de desempregados ou de mão-de-obra barata e sem qualificações. Enquanto estiverem na escola, apenas chateiam os colegas, os auxiliares e os professores, infernizando uns e outros para que a senhora ministra e os camaradas possam sorrir.
O que o governo ensina é que se pode enganar o povo com burocracia. Quanto mais papelada, melhor. Ao mesmo tempo que se vai constrangendo os professores, dizendo-lhes que o insucesso dos alunos é avaliado negativamente e ameaça a carreira.
Quem fala daqueles alunos que não desenvolvem mais as suas capacidades pela simples razão de que ninguém se interessa? Bom bom é passar três trimestres a fazer pouco de todos, a nunca estudar, a não saber ler, nem fazer contas, com muito gel e piercings e tatoos e ipods e telemóveis e chegar ao fim e upa, ciclo seguinte, em nome do sucesso, em nome dos problemas familiares, do rendimento social de inserção e de tantos outros dramas.
Entenda-se: não pomos em causa que se faça tudo para que os alunos aprendam. O que questionamos é esta metodologia que faz da mentira uma fachada e diz: façam sempre de conta que no fim terão um prémio.

31 maio 2009

Ainda os salários ou o "mileurismo" ou o babyloser


No El País de hoje vem um longo artigo sobre o fim da classe média e o crescente número de gente que tem de viver com mil euros por mês ou até menos, em países onde essa massa salarial representa pauperização. Estão nessa situação jovens universitários recém licenciados, operários qualificados, desempregados de longa duração, imigrantes, quarentões que perderam empregos e até gente com idade provecta mas ainda não incluídos na idade da reforma. Em Espanha estima-se que sejam já 12 milhões. França, Grécia, Alemanha, EUA também possuem muita gente nessas condições. Portugal não é referido, mas sabemos que há muita gente a recibos verdes e muito licenciado desempregado.
O jornal refere que apesar da riqueza criada entre 1995 e 2006, a mesma não contribuiu para o aumento dos salários mas para o aumento dos lucros dos que já eram ricos.
Segundo os autores do livro El fin de la clase media y el nacimiento de la sociedad de bajo coste (Massimo Gaggi e Eduardo Narduzzi) "A classe média era accionista do financiamento do Estado de bem-estar, e o seu desaparecimento implica a crise do welfare state, porque à [nova] classe de massa já não lhe interessam impostos elevados como contrapartida politica para com a classe operária, que em grande parte foi também absorvida pela classe de massa. A nova sociedade é menos estável e potencialmente mais atraída pelos alarmes políticos reaccionários, capazes de trocar maior bem-estar por menos democracia. Também é uma sociedade sem uma identidade clara de valores, por isso é oportunista, consumista e sem projectos a longo prazo".
Os riscos são elevados: perda de qualidade de vida, fim das conquistas sociais e laborais que levaram a séculos a conquistar, generalização da política-espectáculo (de que Berlusconi e Sarcozy são já bons exemplos, dando-se mais atenção aos seus casos amorosos do que às políticas que põem em prática).

Estilística da língua portuguesa

Os diminutivos são geralmente usados como descarga sentimental, traduzindo uma manifestação que pode ser tanto de afecto como de aversão por pessoas ou coisas. Talvez porque sempre fomos sentimentais e escarnecedores e os sufixos captam bem essa dupla e contraditória faceta do nosso temperamento, às vezes de grande delicadeza lírica, às vezes ostensivamente galhofeiro e motejador.
O diminutivo inho é, dentre os sufixos, aquele que mais absorveu essa característica temperamental do ser português, associando a pequenez a algo ternurento, simpático, gracioso (pobrezinho, mãezinha, paizinho, velhinho), pois, como em tempos disse Jaime Cortesão, o português é uma língua lírica, franciscana, repassada de ternura e de piedade e por isso muito rica em diminutivos caridosos. No entanto, como assinalou Rodrigues Lapa, somos, porém, gente apaixonada, e facilmente vamos de um extremo ao outro, pelo que não é de surpreender que o mesmo sufixo evoque em nós sentimentos depreciativos.

Transcrevemos dois sonetos, um do ferino Bocage, outro do sofrido António Nobre, que fazem distinto uso do diminutivo. Os exemplos foram colhidos nesse livro magistral de Lapa que é Estilística da Língua Portuguesa. Esperamos que contribuam para um bom domingo de quantos aqui vêm.



Junto ao Tejo, entre os tenros Amorinhos,
as belmíricas musas pequeninas,
para agradar a estúpidas meninas
haviam fabricado uns bonequinhos.

Com eles os travessos rapazinhos,
que são mui folgazões e mui traquinas,
armaram mil subtis alicantinas
e os lançaram depois nuns bispotinhos.

Eis tágide louçã, de ebúrneo colo,
a quem não vencerá, por mais que lute,
o nosso Belmirinho, anão de Apolo,

Surge d'água e lhe diz: – Filhinho, escute,
olhe com que notícia hoje o consolo:
é poeta do rei de Lilipute!




Fazes-me pena, ao ver-te. Andas rotinho,
como que envolto em transparente véu:
pouco me falta para te ver nuzinho,
pouco te falta para andar ao léu!

Tens a batina, pálido Misquinho,
cor da esperança... e tem a cor do breu...
No entanto assim foi Cristo, em rapazinho,
e hoje é o duque de Morny no céu!

Por isso, ó flor ideal dos rapazitos,
paciênciazinha, cose os farrapitos
dessa batina. Toma a agulha e as linhas.

Dar-te-ia, crê, meu lindo pequerrucho,
uma das penas orientais – um luxo! –
se eu fosse Deus, o pai das andorinhas.

30 maio 2009

O populismo da candidata do PCP


Os salários elevados são um direito, embora isso possa soar mal aos ouvidos da populaça. E a mim desagrada-me que uma deputada comunista venha acenar com causas que são recorrentes em partidos populistas como o CDS-PP. Se não é aflição é outra coisa pior.
Os deputados devem ter um salário digno, para que possam exercer a sua actividade de representantes do povo livremente, mesmo que falar disto seja correr o risco da pura ficção. Já que eles quase sempre representam interesses particulares do partido ou de outras clientelas. A senhora Ilda Figueiredo é um bom exemplo disso.
A crise de que fala enferma ou da falta de ideias ou do medo de a votação do PC diminuir drasticamente (à medida que os velhos comunistas vão morrendo, o PC perde base de apoio). Há muito para fazer na Europa, ao nível salarial e a outros níveis. E disso deveria falar. Por pedagogia e em nome da ideologia que parece ser a sua, mas não. Sendo assim, porque não opta por receber o salário mínimo nacional?

Fala quem sabe


Excertos da entrevista de José Gil ao Público:

Há sempre na aprendizagem aquilo que se chamava antigamente na filosofia, e hoje também, a intuição. A intuição é fundamental porque se aprende à sua maneira. Não é um dado formal, universal, que se possa definir da mesma maneira para todos.

P - Não se pode comparar, quantificar?

JG - Não. O que se põe agora nos parâmetros e critérios de avaliação, que se multiplicaram, é uma espécie de factores analisados, decompostos, daquilo que era o terreno da intuição. Por exemplo, mede-se a criatividade. Ora a criatividade o que é? O que é a produção do novo? Como é que se inventa? Quais são os processos de invenção?
Como sabemos, na ciência, a invenção está muitas vezes fora da escolaridade, do ensino, das regras. São as pessoas um bocado desviantes que fazem as maiores descobertas e depois tornam-se Nóbeis, etc. Isto tudo é abolido pelo controlo da avaliação. Quer dizer vai-se abolir a singularidade, a capacidade de inovação, porque se integra este terreno da intuição numa aferição da performance, do desempenho, que é quantificável.

(...) como não se pode avaliar isso, as pessoas que vão ser submetidas a essa avaliação vão ser homogeneizadas, o que conduz à morte da singularidade.

P - As utopias políticas do século passado anunciaram um “homem novo”. A avaliação, como a descreve, aponta para um homem com uma postura de subordinação. Qual é o objectivo que está subjacente?

JG - A formação de uma subjectividade adequada às exigências da economia da globalização, da economia que vem aí, cujo eixo principal é o capitalismo, de que nós talvez ainda nem conhecemos as formas. Mas isso parece-me evidente. E o que é mais paradoxal é que nunca se falou tanto em criatividade, em inovação como agora, quando se estão a impor os meios de um controlo para que a inovação, criatividade, desapareçam.

P - Institui-se a avaliação como meio de controlo, como relação de poder?

JG - É uma questão de controlo e uma questão de poder. Isto não vai fazer desaparecer a inovação, não vai fazer desaparecer as grandes descobertas científicas. O que vai fazer é criar um hiato, uma separação cada vez maior. Vai haver uma elite hipercientífica, filosófica não sabe, hiperespecializada, e essa sim poderá inovar.
Para os outros estamos a multiplicar os parâmetros de avaliação, absorvendo essa margem de indeterminação num espaço de controlo cada vez maior. E com isso estamos a acabar precisamente com a experimentação interior, o erro possível, a liberdade interior que é possível e necessária à criação.

(...) É preciso que o professor tenha uma autoridade espontânea. E idealmente não tenha que a exercer. A relação antiga do mestre e discípulo na Renascença, por exemplo, é essa. Não é uma relação de poder.
(...)
Posso dizer, toda a gente pode dizer, que um dos efeitos da politica do Ministério da Educação foi virar todos contra todos. Virou-se os alunos contra os professores.

(...)
P– No seu entender, qual é o objectivo deste modelo de avaliação?

JG - Em Portugal havia uma espada de Damocles sobre o Ministério, todos os Ministérios, que é o dinheiro. Por outro lado, há um problema real de que os sindicatos não falam.
A nossa escola não estava boa. Muitos professores, ou pelo menos uma parte deles, não têm qualificações. Com a avaliação, alegadamente, matavam-se dois coelhos: reduziam-se as despesas, reduzindo o pessoal, e punha-se fora os que não eram bons.
Mas o que é que aconteceu?. Muitos dos que eram bons é que saíram. Saíram porquê? Não aguentam. E o que é que eles não aguentam? Não aguentam não poder ensinar, não aguentam não poder ter uma relação em que precisamente se construa um grupo em que o professor age, em que se aprende ensinando, em que os alunos querem.
Tem que haver avaliação. Não pode é haver a inversão da subordinação da avaliação porque agora se estuda para se ser avaliado. Veja as Novas Oportunidades, para que é que serve?

P- Para fornecer um diploma?

JG- É o chico-espertismo que entrou na escola. Vamos não trabalhar para obter um diploma.

P- No seu livro alega que há como que um objectivo maior. Conjugando as políticas e omodo como o Ministério reagiu à contestação dos professores, está-se perante uma estratégia de domesticação?

JG- Isso parece-me evidente. É um projecto maior, que talvez não seja muito consciente na cabeça dos nossos dirigentes e, em particular, na do primeiro-ministro José Sócrates.
A ideia intuitiva, ele ainda tem intuições, é a de que o autoritarismo é um método económico. Resolvem-se mil coisas. Há essa ideia: funciona ser autoritário. Uma vez vendo que funciona, vamos estender. Os portugueses querem um certo autoritarismo, nós tomos, que estamos desnorteados, perdidos. O autoritarismo é um meio de governo. (...) E como não há quase resposta a este autoritarismo, ele rebate-se, plasma-se, na realidade.

P - Ficámos com uma escola pior?

JG - Arriscamo-nos a isso. A escola já não era boa. A escola precisa de reformas, é necessário pensar uma avaliação, mas para pensar uma avaliação temos primeiro que pensar em conteúdos. A primeira das coisas a fazer é revalorizar os professores, agora. A relação geral dos alunos relativamente ao saber é de rejeição. A ideia do professor como alguém que abre as portas para o mundo acabou ou está em vias de acabar. Isto tem de ser restaurado.
Depois tem que se parar com a avaliação multiplicada a todo o instante. Estamos sempre a comparar-nos. O mal desta avaliação é que ela compara e a competitividade, a rivalidade, que existem numa escola, que são necessárias para a aprendizagem, torna-se inveja.

Jogos e outras aventuras


Dinheiro fácil é o sonho do povo, mesmo que seja povo que se faz transportar em viaturas de gama alta. Há um jogo, a que chamam jogo da bolha, que funciona em pirâmide, ou seja, precisa que haja jogadores novos a chegar com dinheiro fresco para que os mais antigos possam ir ganhando grandes quantias dinheiro. Aos neófitos é pedido que percam 2 mil euros, para que, meses depois, se o jogo continuar, possam arrebanhar 10 vezes esse montante ou até mais.
O esquema funciona como um bolo fatiado. Cada fatia de cada círculo corresponde a uma posição mais distante ou menos do centro onde está o dinheiro. Só se entra com dinheiro no primeiro anel da bolha, que está dividido em oito partes. Quando estas estiverem preenchidas por novos membros, poderão subir ao segundo e depois ao terceiro círculo até serem empurrados para o centro da bolha.
Para continuar o jogo é preciso angariar novos participantes, por isso os convites são peça chave do jogo. Os locais variam e as reuniões são marcadas com meia hora de antecedência por sms ou através de outras formas.
Num desses encontros, em Vila Nova de Gaia, foram os convivas surpreendidos por visitas policiais: três indivíduos, de farda e encapuzados, munidos de metralhadoras e caçadeira, surpreenderam cerca de 800 pessoas numa quinta, informaram-nas de que era um assalto, retiraram-lhes o dinheiro, criaram um cenário de tensão, desejaram "boa noite e bom jantar" aos participantes e as vítimas não se queixaram às autoridades.
Reparem: "Vestidos de polícias, encapuzados, com metralhadoras e caçadeira, três indivíduos surpreenderam cerca de 800 pessoas que, anteontem à noite, participavam no "jogo da bolha", numa quinta em Gaia. Assalto pode ter rendido até um milhão de euros."
O jackpot foi para aqueles três que já deviam ter participado naquelas reuniões e foram suficientemente audazes para perpetrar o golpe (soa bem, não soa?).

Fonte: JN

29 maio 2009

Bonnie e Clyde





Viveram pouco, mas vertiginosamente. Morreram baleados e ficaram para a história como o par mais sedutor de sempre.
O filme de 1967 contribuiu para perpetuar a lenda do casal, cujos assaltos e assassínios abananaram a América dos anos 30. Que se deixou seduzir pela história de Bonnie Elizabeth Parker e Clyde Chestnut Barrow.
O percurso de ambos é um bom postal ilustrado da América dos anos de crise, e de um velho sistema judicial que penalizava os mais pobres, empurrando-os para uma violência cada vez maior. Bonnie e Clyde cedo perceberam que só podiam defender a vida com a lei da bala e usaram-na.
A fama (que não era o que procuravam) envolveu-os numa aura que ainda acelera corações e desperta interesse, o que levou o FBI a disponibilizar material sobre os bandidos.

28 maio 2009

Vargas Llosa contra Hugo Chávez


O poder não gosta de contrariedades e sempre reage mal. Em se tratando de um poder que raia a ditadura as reacções configuram abuso, prepotência, quando não a morte.
Hugo Chávez é um ditador que faz de conta que é democrata. O seu populismo, fruto do dinheiro do petróleo, permite-lhe a brincadeira, tanto mais que a maioria dos votantes venezuelanos cede, sob efeito da ébria alegria das promessas do ditador. Mas nem todos dependem de Chávez para levar a vida para a frente. E alguns nem sequer são venezuelanos, como Mario Vargas Llosa, escritor peruano
Vargas Llosa está na Venezuela para participar no Encontro Internacional Liberdade e Democracia e mal aterrou ficou retido no aeroporto, numa tentativa de o constrangerem a não falar mal do regime de Chávez. Em vez de o calarem, deram-lhe mais força e amplificaram internacionalmente as suas afirmações: "No queremos que Venezuela se convierta en una sociedad totalitaria comunista. No lo es todavía porque si lo fuera no estaríamos aquí"; "La democracia fiscaliza el poder, por eso estamos aquí para defender las democracias de mercado"; "No vengo a insultar a Chávez, a los presidentes los critico cuando me parece que hay que criticar, y lo hago con energía, pero jamás a través del insulto".

Fontes: ABC; El País

Pai e filha

La Migration Bigoudenn