05 março 2009

Mentiras? Negócios? Trapalhadas? Partidarices?

A Autoridade marítima, nos Açores, foi ignorada pelo governo. Associações ecológicas mantidas à margem. Não há decisão do conselho do governo. Desconhece-se parecer do Laboratório Regional de Engenharia Civil e não há estudo de impacto ambiental.
À primeira vista, choca a relação custo/benefício da obra. Custos não só de investimento como em termos de impacto ambiental para a população que passa o verão na Fajã. Quem ganha, na realidade, com o facto de os terrenos irem triplicar de preço?
O secretário regional do Ambiente e do Mar, Álamo Meneses, assegurou no Parlamento açoriano que as obras na falésia da Fajã do Calhau, na ilha de S. Miguel, “não trouxeram nada de mal ao mundo em termos ambientais”.
Diz Meneses: a obra tem um dono, que é o governo regional e o que se pretende é tão-somente, a “construção de um acesso, com segurança, a um espaço que é utilizado pelo homem desde o povoamento da ilha”.
De resto, como todos sabemos o governo anda a nadar em dinheiro e mais obra menos obra é coisa que não preocupa ninguém. Curiosamente, este mesmo senhor gastou milhões numa escola na Terceira onde faltam funcionários, onde há problemas de gigantismo e de falta de espaço - tudo, claro, com o dinheiro dos contribuintes. Aquilo que se está a passar na Fajã do Calhau é mais uma obra à Meneses: atirar areia para os olhos dos açorianos.

Fajã do Calhau

Haverá quem, num dia vindouro, ao ler o que abaixo se transcreve se comova e pense como foi possível, em pleno século 21, deixar destruir um lugar em nome da gula imobiliária e outra.
Dantes diziam que a fajã era assim: um percurso pedestre pela orla marítima a sudoeste da ilha de S. Miguelleva-nos até ao povoado da Fajã do Calhau, com cerca de 7 km, entre Água Retorta e Faial da Terra.
As fajãs têm origem em costas altas e escarpadas, formando-se, assim, entre arribas e o mar. São áreas em que, normalmente, o solo é fértil, o que faz dele uma atracção das populações, embora com algumas dificuldades quanto ao acesso. Na Fajã do Calhau, para além das explorações de vinha, a pesca constitui uma das principais atracções.
A Fajã do Calhau é um bom local para repousar da caminhada, sendo possível observar espécies de flora dos Açores, como o bracel (Fetusca petrae), a erva leiteira (Euphorbia azorica) e a vidália (Azorina vidali), a faia da terra (Myrica faya) e o incenso (Pittosporum undulatum). Também se podem observar algumas espécies da avifauna dos Açores, como o canário-da-terra (Serinus canaria), o melro negro (Turdus merula azorensis), o milhafre (Buteo buteo rothschildi), a alvéola (Motacilla cinerea patriciae).

Contra o crime ambiental na Fajã do Calhau (S. Miguel)


Hoje foi e é dia "F".


"F" de Fajã do Calhau.

"F" de fora com crimes ambientais desta natureza.

"F" de fartos de pressa e gula financeira.

"F" de fina asneira.

"F" de fantasias de iluminados que tudo vêem através de lentes escuras, muito escuras.

"F" de fancaria, pois quem executa uma obra dessas é abaixo de plástico.


Vejam a cronologia dos acontecimentos aqui.


(Embora tardiamente, não podíamos deixar de nos associar a este repto contra a barbárie).

O perigo é a minha profissão







PHotoBolsillo







Gatunos? Ou empresários de sucesso?


«O PCP pediu uma audição ao presidente da Galp Energia para dar explicações sobre os lucros da energética apresentados ontem, em particular o aumento de quase 200 por cento nos resultados do quarto trimestre do ano passado face ao período homólogo de 2007.»
Coitadinha da Galp, o que são lucros de 200%. O governo garantia há meses que estava tudo sob controlo. E estava. Portugal foi e é um paraíso para esse tipo de negócios. Infelizmente, os salários dos que trabalham para aquela empresa não acompanham os lucros. Há um discurso para os lucros e há um choradinho para os salários. Portugal continua na idade da pedra no que respeita a salários.

04 março 2009

O asteróide DD45


O asteróide DD45, com 30 a 40 metros de diâmetro, passou na segunda-feira a 60 mil quilómetros do sueste do Pacífico, sete vezes mais perto do que a Lua. Uma surpresa para os astrónomos, que não esperavam que passasse tão perto do nosso planeta, referem os média australianos.

O mais recente objecto que se tinha avistado passar tão perto da Terra foi o 2004 FU162, um asteróide de seis metros que passou a mais de 6 mil quilómetros no nosso planeta, em Março de 2004.Nos tempos recentes apenas um asteróide de dimensões semelhantes ao 2009 DD45 colidiu com a Terra. Há cem anos, a 30 de Julho de 1908, o Tunguska atingiu a terra na zona da Sibéria libertando força equivalente a 85 bombas como a de Hiroshima e derrubando 80 milhões de árvores.

03 março 2009

Complex, irritadex, adiadex - não são gauleses, não, é Portugal no seu melhor


O nome, já de si, é meio idiota. Simplex soa a papel higiénico ou algo do género.

Os efeitos da dita desburocratização só se devem fazer sentir para quem está na Assembleia da República, ou para membros do governos ou militantes do PS.

Mesmo uma coisa tão simples como o cartão do cidadão exige mais tempo e papelada que o bilhete de identidade. Isto para não falar da trapalhada que é ter que apresentar um papel para levantar o dito cartão (se isso é desburocratizar vou ali e já venho).

Quanto a serviços da administração pública, a gente entra nas repartições e vê toneladas de papel, impressos para isto e para aquilo e continua a demorar horas para resolver coisas simples.

Tantos anos depois é como se tudo estivesse a começar agora. A voz estridente com que se anuncia o que já foi anunciado tantas vezes, as promessas que se repetem uma e outra vez, a papelada que continua como se fosse surda à retórica do senhor primeiro-ministro.

A morte em massa das baleias


Ontem, o cenário era desolador na praia da pequena ilha de King, no sul da Austrália. Podiam-se ver perto de 200 baleias-piloto e uma dezena de golfinhos a gemer, presos no areal, longe do mar que os ali deixara.

Segundo a imprensa local, pelo menos 48 foram salvas, incluindo uma baleia bebé que teimava em voltar à praia. Para além dessas, cinco golfinhos foram empurrados para a água com vida. A mesma sorte não tiveram outros 140 daqueles mamíferos que morreram na areia.

As autoridades estão agora preocupadas com outras baleias que apareceram perto da ilha. Cerca de 400 baleias - 80 porcento das baleias encalhadas na Austrália - deram à costa na Tasmânia, nos últimos quatro meses.

Dizem os cientistas que os cetáceos se sentem atraídos pelo radar dos grandes navios ou que seguem os líderes enfermos e desorientados por danos auditivos, acabando por morrerem em grupos.

Água e luz: bens essenciais mas demasiado caros


Os bens essenciais custam dinheiro e já são muitos os que não têm euros que cheguem para pagar a luz e a água. Da luz sabe-se pouco que a empresa, quiçá por estratágia comercial, não quer adiantar números (prefere vir alardear que todos devemos milhares à EDP). Adiante. O que se pode ler abaixo é trancrição de uma notícia vinda a público hoje.
Segundo a EPAL, que abastece a água à população do concelho de Lisboa, os avisos de corte emitidos em 2008 representaram quatro por cento do número das facturas, embora só tenham sido executados 0,3 por cento. A empresa revelou à Agência Lusa que, em 2008, emitiu 3.504.469 facturas, 140 mil cartas de aviso (a dar mais um prazo para ser efectuado o pagamento, antes do corte) e efectuou 10.660 cortes de abastecimento. Nos anos anteriores, foram realizados 9.174 (2007) e 8.069 (2006) cortes.

Em Setúbal, são aos milhares os cortes de abastecimento de água por falta de pagamento.

Segundo Natália Nunes, da Deco, viver sem água e electricidade é um cenário "cada vez mais frequente", que resulta, principalmente, de casos em que o desemprego bateu à porta. "São famílias que têm poucos e cada vez menos rendimentos, até que deixam de poder pagar bens como estes", disse, revelando que a Deco, nestes casos, tenta ajudar de modo a que o consumidor consiga pagar faseadamente as dívidas e possa, quanto antes, voltar a ter água e electricidade.

Para Carlos Braga, dirigente do Movimento dos Utentes dos Serviços Públicos (MUSP), essas "empresas [privadas] só pensam no lucro e não levam em atenção as fragilidades dos cidadãos que, pelos mais variados motivos, podem deixar de honrar os seus compromissos".
Fonte: Público

Contra os altos salários dos gestores


Cavaco Silva e Horst Köhler. Ambos presidentes da república. Ambos eleitos com pequenas margens.

Ex-director-executivo do Fundo Monetário Internacional e ex-presidente do Conselho Directivo do mesmo FMI, Horst Köhler é desde 2004 presidente da Alemanha.

02 março 2009

O congresso do PS

São José Almeida diz (Público, edição papel) e nós registamos:
"(...) características do actual PS que se evidenciaram a quem observou, das bancadas, o desenrolar do espectáculo montado na nave polidesportiva em Espinho. Uma foi a da solidão e da fragilidade do poder de José Sócrates, outra a sede de poder e do medo da perda desse mesmo poder que assola o PS."
"(...) Para lá do elogios ao líder - por vezes tão panegíricos que se tornavam ridículos -, os discursos centravam-se numa questão vital para os delegados que se reuniram em Espinho e que é o real problema que ali os levou: a manutenção e a conquista de poder.
E, se o unanimismo à volta de José Sócrates foi intenso e imenso, o que dele transparecia era um surpreendente medo de perder o poder. Os incessantes e lancinates apelos ao repetir da maioria absoluta, o fervor quase de crença em que não há alternativa à governação iluminada de José Sócrates, uma estranhamente pueril ausência de dúvidas e de interrogações, foram profundamente reveladores de um quase cândido desespero de que, ao longo do ano de 2009, o poder que o PS detém hoje se desfaça entre os dedos, como areia na praia."

Vem aí o "i"

Quando nos mentideros se fala da não publicação do Público senão às sextas, sábados e domingos, e quando o futuro do DN se afigura incerto, eis que surge uma equipa de estrelas a arriscar num novo projecto, "i".
O director do "i" é Martim Avillez Figueiredo. A redcação conta com setenta jornalistas que estão a receber formação para ficarem a saber tudo sobre o jornal em que começam a trabalhar na próxima segunda-feira, dia em que ocupam os lugares na redacção.
Na redacção serão instalados 16 ecrãs de televisão, para que "não escape uma história" à equipa que prepara diariamente o jornal. No rés-do-chão, onde estarão montadas as secretárias e uma sala de reuniões, haverá também um estúdio de gravação e imagem. Segundo o director do "i", cada jornalista receberá um kit composto por um telemóvel (que captará imagens e sons), um tripé e um microfone, "para que cada um produza imagens onde quer que esteja e quando considerar que pode ser uma mais valia". No mesmo espaço, sem divisórias, estarão dispostas as mesas dos redactores, editores e directores do jornal, para que a informação flua mais facilmente entre todos. Numa das paredes será colocado um painel que muda de cor ao longo do dia, assinalando os vários períodos de fecho do jornal e as necessidades de actualização do site. O andar de cima, um espaço "lounge", servirá para "descomprimir do ritmo do andar de baixo". Quanto ao nome do jornal, "não há nenhuma razão especial" que explique a escolha, "a não ser a convicção de que uma marca é o que fez dela".
Há um ijornal no Brasil, mas, que se saiba, este nada terá a ver com esse.

Instrução pública


Dois em cada três agentes da PSP e da GNR não têm o 12º ano de escolaridade.

Os quadros da PSP e a GNR incorporam, no seu conjunto, 49 mil efectivos, dos quais 35 mil têm qualificação escolar inferior ao 12º ano.

Resta dizer que muitos nem sequer o 9.º ano de escolaridade possuem.


Fonte: JN

Resposta a um velho livro de estilo

Ler é, de facto, complicado. A gente escreve 2 e há logo quem se ponha aos gritos a dizer que não são 5. Isso mesmo fez o autor deste blogue emrelação a este post. O autor não leu, tresleu, para concluir o que muito bem quis.
A gente tão intelectualmente honesta que podemos dizer senão que reiteramos os nossos pontos de vista, acrescentando: vai mal um país que em tempos de crise gasta tanto dinheiro a mudar algo sem primeiro conhecer a realidade que pretende alterar; vai mal uma equipa que, estimulada pelos seus tiques académicos, esquece a mundividência da população escolar - que domina muito bem a teconologia, mas domina bastante mal a língua materna, algo que se reflecte, por exemplo, na dificuldade em perceber os enunciados dos exames de matemática. Quanto a textos literários, poderão um dia entusiasmar-se com Equadores e Sei Lá, mas dificilmente com Novelas do Minho, O Primo Basílio, Húmus, Mau Tempo no Canal ou Torre de Barbela.
Relativamente ao Plano Nacional de Leitura, enferma do tique muito gauche de que ler por ler cria leitores. Ou muito me engano ou é apenas o prazer de descobrir e de aprofundar que os cria. A lista é um amontoado de obras (muitas delas bacocas) que em nada ajudarão a criar leitores.
Já agora, aproveitamos para dizer ao sr. Ricardo Nobre que aqui não se pagam comentários que não interessam. E que no século XIX apenas uma minoria endinheirada podia frequentar a escola. Embora tenha sido nesse século que se começou a falar de questões que ainda hoje debatemos: como o saber ler, escrever, contar, pensar.

01 março 2009

Tanta palavra para nada dizer

Há um senhor deputado dos Açores, vice-presidente do grupo parlamentar do PS e Presidente da JS Açores, que gosta muito de opinar. Fá-lo com regularidade nos jornalinhos da Região e hoje também no blogue do Tibério Dinis.
É um orgulho para a Região ver que há deputados assim tão novos e tão seguros das suas opiniões. Algo que mostra bem como aqui, neste Pisca de Gente, nos enganamos: há quem tenha subido na vida apenas por mérito, como é o caso do senhor deputado.
Ora diz o senhor deputado que acha «pertinente falar das Novas Tecnologias como base para estratégias ligadas a uma Nova Economia, a uma cultura de capital de risco e de fomento da livre iniciativa jovem.» E nós, leitores curiosos e ávidos de conhecimento ficámos eufóricos. Finalmente alguém que nos apresenta não uma economia nova, mas, bem à maneira socialista, uma Nova Economia. O segredo está no uso das maiúsculas, pois dizer pão é muito diferente de dizer Pão ou até PÃO.
E o que diz afinal o senhor deputado sobre essa Economia? Vejamos: «No sistema económico actual a chamada Nova Economia, relacionada com as Tecnologias da Informação assume uma importância vital. Tanta que, mundialmente, esta Nova Economia deixa de ser Nova passando a ser um cenário cada vez mais presente e determinante para qualquer modelo de desenvolvimento sustentável futuro.» Como? Importa-se de repetir? Afinal a Nova não é Nova, é apenas uma Economia como outra qualquer? Não, não é bem isso. Pois a economia de que fala o senhor deputado não é uma realidade, é apenas algo virtual, ele chama-lhe «um cenário» (serão resquícios dos bailinhos do Carnaval?).
A frase, rebuscada e confusa, além de evidenciar dotes raros de oratória (o senhor deputado faz um post em que nada diz) engana, pois a Nova Economia não é Nova, é um cenário.
Diz ainda o senhor deputado, que, além de grandes dotes de oratória exibe um elevado conhecimento das potencialidades da língua materna: «Por todo o mundo é visível que as economias mais desenvolvidas têm apresentado uma crescente “leveza”. Esta “perda de peso” das estruturas económicas é um factor comum das economias que se tem vindo a desenvolver acima da média.»
A que é ele se refere? O texto nada diz. Será que para ele crise é sinónimo de leveza? Não, nada disso. Como explica o senhor deputado vice-presidente do grupo parlamentar trata-se de uma «“desmaterialização” da Economia». Uma quê? Que é que quer dizer desmaterialização? Será tirar a matéria economia do discurso do senhor deputado? Será mostrar-nos que de economia nada percebe?
Para não nos acusarem de má-fé, transcrevemos o parágrafo: «Esta “desmaterialização” da Economia, sendo um factor de sucesso nos mais variados sectores económicos revela-se como um importante instrumento para o desenvolvimento de um quadro económico favorável. As Novas Tecnologias de Informação e Comunicação, o Conhecimento ou a Mega Base de Dados que é a Internet e o fluxo de informação que permite são a base desta Nova Economia.»
A desmaterialização da Economia (com letra grande, faz favor) é um factor de sucesso[???] nos nais variados sectores económicos [quais? como?]. E o que é um «quadro económico favorável«? Será como aquele dos cartoons que se inverte para só mostrar resultados positivos?
O senhor deputado, imparável, certamente inspirado, continua: «A possibilidade de ultrapassar, facilmente, as barreiras comunicacionais de uma Região com a localização e disposição geográfica dos Açores utilizando os conceitos e mais valias desta Nova Economia representa a criação de mecanismos para uma fácil e rápida difusão destes novos produtos ultrapassando, também, os custos de transportes que algumas vezes bloqueiam investimentos na Região.»
Saberá o que são barreiras comunicacionais? E de que novos produtos fala? Será que para o nosso douto presidente da JS Açores o virtual é um produto? Assim do género, eu que moro em Lisboa encomendo por e-mail duas toneladas de carne terceirense e o vendedor envia-mas num ficheiro zip?
Para terminar, que este post já vai demasiado longo, reparem como o senhor deputado adora mais valias: «É sabido que o passatempo de muitas crianças, adolescentes e jovens açorianos é navegar na Internet. A utilização deste hábito e desta apetência dos jovens açorianos para o aumento da sensibilidade às mais valias da Nova Economia revela-se estrutural para o Modelo de Desenvolvimento Futuro da nossa Região.»
Eu, ao ler este texto ainda pensei que se tratasse de alguma brincadeira de um aluno do 8.º ano de escolaridade a fazer de conta que sabia do que falava. Mas não, é mesmo do senhor deputado Berto Messias.
Com deputados assim, a Região pode descansar, pois «Estamos na era do Conhecimento. Vivemos “à distância de um click”.»

Porque há tanta gente a acreditar no Pai Natal?


«Os cursos com médias mais altas, como Medicina, são tendencialmente preenchidos por alunos de famílias com mais recursos, revela um estudo na Universidade de Lisboa, que conclui que o acesso ao ensino superior não é “apenas uma questão de mérito”.»

Ou é de mim ou é óbvio. Pensar, ler, estudar exige estímulo, ambiente adequado, algum esforço e isso só é possível quando o meio envolvente cria condições e exige resultados.

Portugal vive muito para as fachadas, para as encenações. É um país, como em tempos disse um pensador, algo esquizofrénico. E muita boa gente julga que a sua vida pode mudar se... acontecer um milagre (por alguma razão somos um dos países que mais dinheiro gasta em jogos do tipo euromilhões). Mas os milagres são-nos por isso mesmo: por serem raros.

Portugal não tem, ao contrário doutros países, uma tradição tão classista como por exemplo o Reino Unido. Mas adopta os mesmos princípios escolares: mediocridade, indiferença, tédio, passatempo. Só que isso destina-se às classes baixas, já que as ricas frequentam outro tipo de escolas.

A educação anda há muito pelas ruas da amargura. Fruto de muitos anos de Salazar, a que se veio juntar uma democratização acelerada do ensino. E como se isso não bastasse, ao caldo de pais analfabetos, famílias desestruturadas, baixos rendimentos, altos consumos de álcool e drogas juntou-se a ideia de que a escola é inclusiva se for uma fachada. Isto é, se fizer com que todos transitem de ano de escolaridade mesmo sem terem adquirido conhecimentos (ou, como agora se gosta de dizer: competências).

A maior parte dos alunos não consegue concentrar-se senão durante mínimas fracções de tempo. Nas aulas, tudo se lhes afigura aborrecido. Os ritmos de estudo resumem-se a alguns minutos nas vésperas de testes. Acresce a dificuldade em distinguir o que é essencial do que é acessório, o não perceber o que é relevante ou axial e que justifica um determinado ponto de vista, ou ainda o transitar de ano sem ter adquirido conhecimentos (relacionar matérias, perceber a complexidade e a interdependência de assuntos, ...).

A maior parte, claro. Os tais que se julgam muito espertos por não serem capazes de executar determinado tipo de raciocínios e de tarefas.

Assim, entre 2003 e 2008, as vagas dos cursos que requerem notas mais elevadas, como Medicina, Belas Artes e Farmácia, foram preenchidas principalmente por alunos com origem em famílias mais favorecidas, cujos pais são “quadros dirigentes e superiores das empresas ou da administração pública, especialistas das profissões científicas e intelectuais, técnicos e profissionais de nível intermédio”.

Sócrates continua a trabalhar para o faz de conta e anunciou hoje ao seu partido que vai conceder bolsas de estudo a alunos entre os 15 e os 18 anos. Que eu saiba essas bolsas existem há muito e sempre deixam de fora alunos das classes médias baixas porque os rendimentos do agregado familiar sempre ultrapassam os plafonds que a lei determina. Ou seja, alguns dos que precisavam mesmo da bolsa não a obtêm. Mas isso que importa? O que interessa é que os títulos das notícias veiculem as boas intenções do PS e de Sócrates. Se isso vai ou não mudar alguma coisa só interessa a meia dúzia (e não é com meia dúzia que se ganham eleições).

Porque é que não conseguimos acreditar nos empresários portugueses?


a) Porque a maioria se alimenta da vaca do orçamento;

b) Porque a maioria nada mais faz do que enriquecer à custa de baixos salários;

c) Porque não têm iniciativa e continuam a pensar à velha maneira aristocrática: fazer o mínimo, roubar ao máximo;

d) Porque sempre que vemos problemas nas empresas (falências fraudolentas ou danosas) quem paga a factura são os que trabalham e nunca os ditos empresários;

e) Porque são afectados, tacanhos e provincianos;

f) Porque, salvo duas ou três excepções, nada criaram que seja internacionalmente representativo, mas auferem vencimentos muito superiores aos dos seus congéneres europeus;

g) Porque depois de milhões mamados com sucessivos orçamentos, Portugal continua a ter os mais baixos índices de produtividade (e quem tiver olhos na cara, percebe que a culpa é dos empresários chico espertos, preguiçosos e perdulários que temos).

Uma nota de rodapé sobre a tão ilustre figura que dá pelo nome de Pedro Ferraz da Costa: que serviços relevantes prestou ele ao país?

Há coisa de meio ano defendia cortes nos salários. Não nos que ele ou os amigos dele auferiam, mas nos já ínfimos salários que quem realmente produz recebe no fim de cada mês. Agora vem com estas atoardas. A que propósito? Certamente no de fazer pela vidinha, ou seja, no de conseguir margem de manobra para algum negócio, a fim de conseguir uns euros mais. Ah, doce "massa crítica" de Portugal...

28 fevereiro 2009

A lógica da batata


"São epifenómenos minoritários [a proibição de umas imagens num computador Magalhães num Carnaval, ou o confisco de uns livros com a "origem do mundo" de Courbet na capa], não revelam qualquer doença social, porque de um modo geral toda a gente os condenou. Naturalmente, sem dúvidas, sem hesitações." José Pacheco Pereira dixit (Público, edição papel de hoje).
Toda a gente condena o racismo. No entanto as anedotas sobre pretos são frequentes e tranversais a faixas etárias e grupos sociais. Seguindo a douta lógica do inquisidor-mor não há racismo em Portugal. Ou há de facto racismo, mas não é aqui, não é nos actos isolados de fulano e beltrano.
Se pensássemos como o inquisidor-mor perceberíamos que também a ele lhe faz espécie a "Origem do Mundo" de Courbet, os pénis de Mapplethorpe ou o casamento de homosseuxuais, entre outras coisas, claro. Os inquisidores são sempre feitos dessa mesma massa: atiram areia para os olhos dos que já estão cegos.

Lindo, tão lindo como um pôr do sol


Há postais de que as pessoas gostam. Há momentos que emocionam as pessoas. Há situações que comovem as pessoas.

Gostar, emocionar, comover: todo o meu ser (mais uma expressão linda linda) reage assim ao belo (lindo lindo) discurso do senhor professor Carlos Reis. Diz o sr. professor que a revalorização dos textos literários, enquanto "repositórios de uma cultura, de uma memória cultural e de um legado estético" e as alterações na linguagem introduzidas pelas tecnologias de informação e comunicação são dois aspectos tidos em conta nos novos programas.

Leitores, limpem as lágrimas. Carlos Reis é de um singeleza tão arrebatadora. Esta preocupação pelo literário e pelas novas tecnologias é absolutamente extraordinária. Quem haveria de se lembrar de algo assim tão lindo lindo salvo um génio como o sr. professor e a respectiva equipa?

Agora, para quantos deixaram de acreditar em Deus mas acreditam em Carlos Reis, o mundo da leccionação fluirá como nunca, pois as alterações metodológicas, didácticas, científicas, sociais e técnicas dos últimos anos que motivaram "reajustamentos" nos programas e, nalguns casos, "alterações substanciais" encarregar-se-ão de mostrar como a língua materna é moderna, gira, bué de fixe.

Não bastava a incapacidade cada vez maior de perceber o que se lê (logo que se saia da disparatada listagem de obras literárias do plano nacional de leitura), fruto das modernices pedagógicas ("metodológicas, didácticas, científicas, sociais e técnicas")... Não, era urgente gastar uns quantos euros com uma equipa que criou e vai distribuir os pozinhos de perlimpimpim... E assim tudo será mágico.

A maior parte dos manuais do ensino básico são elaborados por gente que gosta muito de esquemas, de imagens giríssimas, de perguntas bacocas. Ou seja, gente com a velha escola salazarista de tudo dirigir. Gente que, vê-se logo, nada lê, mas cuja preocupação é como a do senhor professor doutor Carlos Reis - serem modernos, actuais, lindos lindos.

Se julgam que fazemos bluff, folheiem esses manuais. Seja qual for a editora e a equipa redactorial e vejam se não é como dizemos.

Há uns anos houve uma editora, a Raiz, cuja percepção de manual era bem distinta da mediocridade instalada, mas não deve ter tido clientes à altura. Eu, por exemplo, sei de um senhor que é actualmente presidente de um conselho executivo e que se queixava muito da falta de perguntas.

O país, em vez de gastar os tais euros a formar professores como devia, gasta-os em show off, na certeza de que cada equipa que passa pelo Ministério da Educação pode fazer a porcaria que quiser que a culpa será sempre endossada aos que obedecem.

O novo programa é um amontoado de TLEBS que só virá complicar a vida dos alunos - porque as TLEBS enfermam do tique estruturalista que sempre se esquece que só a partir de determinadas idades os alunos são capazes de reflectir sobre a língua. Antes têm que ultrapassar os vícios apreendidos no meio onde vivem e onde se movem. Mas isso que importa, se falar de tecnologias é tão bem e tão in?