17 janeiro 2009

HAND WRITING!!!








Outro poema de Barry Cole

Reported Missing


Can you give me a precise description?
Said the policeman. Her lips, I told him,
Were soft. Could you give me, he said, pencil
Raised, a metaphor? Soft as an open mouth,
I said. Were there any noticeable
Peculiarities? he asked. Her hair hung
Heavily, I said. Any particular
Colour? he said. I told him I could recall
Little but its distinctive scent. What do
You mean, he asked, by distinctive? It had
The smell of woman's hair, I said. Where
Were you? he asked. Closer than I am to
Anyone at present, I said, level
With her mouth, level with her eyes. Her eyes?
He said, what about her eyes? There were two,
I said, both black. It has been established,
He said, that eyes cannot, outside common
Usage, be black; are you implying that
Violence was used? Only the gentle
Hammer blow of her kisses, the scent
Of her breath, the ... Quite, said the policeman,
Standing, but I regret that we know of
No one answering to that description.

Barry Cole (n. 1936)

The Men Are Coming Back!

They say the men are
Coming back. An elder
Reports her daughter, out
For the morning manna,
As having seen short columns
At the foot of the hills.

There is a loosening of
Muscles and dampness
In the palms of some hands.
Inexplicably, the children
Begin to shout. Some of the
Elder women bolt the doors.

How did she know? asks
Someone. Know they are
Men? Instinct, says a
Harridan in yellow lace.
Does it matter? There are
Few moments to defence.

Even as they watch the
Elders scent defeat. Some
Of the younger are spitting
Upon the red cloth cover
Of a book, rubbing the
Dye across their untouched lips.

Outro poema de Roger McGough


The Leader

I wanna be the leader
I wanna be the leader
Can I be the leader?
Can I? I can?
Promise? Promise?
Yippee I'm the leader
I'm the leader

OK what shall we do?

Roger McGough (n. 1937)

My cat and i

Girls are simply the prettiest things
My cat and i believe
And we're always saddened
When it's time for them to leave

We watch them titivating
(that often takes a while)
And though they keep us waiting
My cat and i just smile

We like to see them to the door
Say how sad it couldn't last
Then my cat and i go back inside
And talk about the past.

Os portugueses adoram ler... e escrever


Cada assinante de serviços de telefone móveis em Portugal envia, em média, quatro mensagens escritas (SMS) por dia e 140 por mês. No terceiro trimestre do ano passado foram enviadas mais de seis milhões de mensagens (6.087.640).

O relatório da ANCOM refere que em Julho, Agosto e Setembro de 2008 existiam 14,5 milhões de assinantes do Serviço Telefónico Móvel (STM), mais 1,5 por cento face ao trimestre anterior e de 12,4 por cento em relação ao período homólogo do ano anterior.
O número de mensagens escritas enviadas continua a crescer, o que «estará associado à adesão a tarifários específicos que têm vindo a surgir e que incluem um elevado número de mensagens grátis», lê-se no documento.

O documento refere ainda que se realizaram, nesse terceiro trimestre do ano passado, 1,97 mil milhões de chamadas através de telefones móveis, o que representou um aumento de 7,4 por cento do que no trimestre anterior.
Para os telemóveis foram feitas 1,95 mil milhões de chamadas, sendo que «o tráfego fixo-móvel registou novamente uma descida, acentuando a tendência que se vem registando há alguns anos», segundo a ANACOM.


Fonte: DD

Impérios religiosos: 5 mil anos de conquistas


A história das religiões do mundo e o modo como se alastraram pelo planeta numa animação que dura 90 segundos. Não acredita? Vista o seu fato anti-alérgico e dê um saltinho a este sítio.

16 janeiro 2009

O valor de um automóvel


A humilhação servida em doses diárias cria barris de pólvora. As pequenas provocações são comuns e quase ninguém liga peva, sobretudo se não é vítima.
Não sei se o agressor é vítima ou apenas tem maus fígados. Há gente de todos os feitios. Mas também não é raro assistir a cenas de grande violência envolvendo adolescentes e adultos. Eu assisti a vários casos, várias vezes.
E que tudo cheira a ajuste de contas, cheira.
O homem que esfaqueou um rapaz de 20 anos, disse à polícia, quando foi detido, que a agressão ocorrera porque o aluno e outros colegas "tinham danificado o seu carro pessoal".
O presidente da escola diz que ali são todos ordeiros. Que havia ele de dizer?

15 janeiro 2009

“Entropa” e o barrete checo




A exposição “Entropa”, que assinala a presidência checa da União Europeia, já foi alvo de um protesto formal da Bulgária, pelo modo como está representada na instalação: transformada numa retrete turca, daquelas com um buraco no chão que obrigam a uma incómoda postura de cócoras.
A instalação, patente no átrio da sede do Conselho Europeu, em Bruxelas, foi apresentada como tendo sido coordenada pelo artista plástico checo David Cerny, que se comprometera a convidar artistas de todos os restantes estados membros, a quem caberia a versão crítica do país de cada um. Foi isso que o próprio Cerny disse há dias. Mas ontem soube-se que fez tudo sozinho (ou com a ajuda de um colega), apresentando nomes e biografias falsas de artistas que não existem. Tirando o seu próprio país, os outros países estão representados por pseudónimos de Cerny.
O objectivo era que “Entropa” fosse uma recolha dos estereótipos associados a cada país, para que, ridicularizados, fossem ultrapassados. E de facto, tem havido gargalhadas, perplexidade e indignação, tudo à mistura, como confirmam os que estão em Bruxelas. Mas o poder não gosta muito de humor e o governo checo sente-se embraçado. Os estados membros surgem desmembrados, assim a modos que trabalho de preguiçoso.
Portugal, por exemplo, é retratado pelos contornos do mapa, sobre o qual assentam mais três mapas, esculpidos em carne, alusivos à História colonial portuguesa. Tudo com autoria de uma Carla de Miranda que não existe, claro. A Alemanha está reduzida a um emaranhado de auto-estradas a lembrar uma cruz suástica. A Suécia foi transformada numa caixa de móveis Ikea, onde se esconde um avião de guerra. A Dinamarca mostra-se em Lego, a Holanda inundada, com minaretes de mesquitas fora de água. A Grécia está em fogo e Espanha coberta de betão. A Polónia aprece representada com um grupo de padres na postura dos soldados americanos de Iwo-Jima a plantar a bandeira da homossexualidade e a Itália transformada em campo de futebol. O eurocéptico Reino Unido aparece representado em forma de buraco.
A exposição de tão curioso trabalho artístico custa ao governo checo 50 mil euros. Nada de especial, dirão. Quanto terão pago a Cerny?
Como não podia deixar de ser em tempos modernos como os de agora, "Entropa" já entrou para a enciclopédia.

Salário principesco para guardar um ilhéu


O estado australiano de Queensland oferece «the best job in the world» cujo salário, por 6 meses, ascende a 105.000 dólares. Alojamento e comida garantida, juntamente com passagens.

Em que consiste o trabalho? Em guardar o pequeno ilhéu australiano de Hamilton, na Grande Barreira de Coral (parte das Ilhas Whitsunday, no leste da Austrália), um dos mais desejados paraísos naturais do planeta. Limpar a piscina do complexo turístico e recolher o correio que chega de avião. Além disso, terá de escrever as suas experiências num blogue, publicitando assim o turismo australiano. É para começar em Julho.

Os interessados ainda se podem candidatar no sítio «The best job in the world». Para tal têm de seguir os passos que ali se propõem.

Joe Berardo o mecenas da pátria


Há notícias do arco-da-velha. Por exemplo esta: O empresário e coleccionador Joe Berardo defendeu hoje que "os museus em Portugal deveriam ser todos de entrada gratuita para a população".

Ele diz que fez contas e que daí não vem dinheiro que se veja. Calcula-se que magnata como é esteja a pensar em oferecer à nação o borlix nos museus: Você visita que Joe Berardo paga.

Talvez tudo não passe de um pequeno golpe publicitário para voltar às notícias, quiçá em nome de outros negócios. Ou talvez seja a sua costela insular que, estimulada pelo prémio de Cristiano Ronaldo, o tenha levado a pensar na gratuitidade dos museus.

Até porque como todos sabemos quem paga o museu do senhor é apenas o próprio. Nós, pobres contribuintes não contribuímos com nada.

Ano Internacional da Astronomia


2009, um ano cheio de fenómenos, para contentamento dos astrónomos amadores: o mais longo eclipse solar a 22 de Julho, uma chuva de estrelas em Novembro e uma vista privilegiada para Júpiter em meados de Outubro.
Acreditando que não podemos ser os únicos em 100 milhões de estrelas, os astrónomos esperam não só encontrar provas de vida extraterrestre como respostas para as perguntas:
Como é que as galáxias se formam e evoluem?
Como é que as estrelas e planetas se formam?
Questões que certamente farão parte do Ano Internacional da Astronomia que arrancou hoje, em Paris. Sob a égide da UNESCO e da União Astronómica Internacional, o conjunto das comemorações evoca Galileu e apela à descoberta dos mistérios do universo.
Familiarizar o grande público com o conhecimento do cosmos é a missão estabelecida para o Ano Internacional da Astronomia, que marca no calendário das efemérides os 400 anos da descoberta das luas de Júpiter por Galileu, o primeiro a utilizar um telescópio para observações e a defender, contra todas as teorias vigentes à época, que é a Terra a girar em torno do Sol e não o contrário.
Um dos pontos cimeiros deste ano será o lançamento, previsto para Abril próximo, de dois satélites europeus de observação, o telescópio espacial Hershel e o observatório Planck. Eles ficarão posicionados a 1,5 milhões de quilómetros da Terra e, entre outras missões, farão a observação da formação de estrelas e galáxias e dos campos de radiação cósmica do passado.

14 janeiro 2009

Private protest em lua de mel


Eram uns cromos. Mas não uns cromos quaisquer. John e Yoko. John Lennon e Yoko Ono. Ele era uma estrela no firmamento da pop. Beatle tresmalhado, dera em promover-se com a mulher, transformando a lua de mel num happening. Ela tentaria uma carreira, mas os resultados não foram suficientemente estimulantes para a indústria discográfica.
Durante 7 dias, aqueles cromos mostraram-se ao mundo na cama... contra a guerra. Os resultados foram extraordinários. As guerras diminuíram drasticamente, como todos sabemos.
Bem, foi há 40 anos. E o politicamente correcto bate palmas. Comemoremos com um sorriso. Para os mais novos, podem ver tudo aqui ou aqui.

Eudora Welty (1909-2001)







A Antígona publicou há pouco tempo um livro desta autora norte-americana, “Os Ventos e Outros Contos” (traduzido e prefaciado por Diana Almeida).

Agora prepara-se uma exposição das suas fotos no Museum of the city of New York. Fotos da grande depressão (anos 30).

Escritora e fotógrafa, prestamo-lhes aqui uma pequena homenagem, já que neste 2009 (a 13 de Abril) se comemora o centenário do seu nascimento.

O lado cosmopolita do povo português


Se tem um problema intrincado... vê -se grego;

Se não compreende alguma coisa..."aquilo" é chinês;

Se trabalha de manhã à noite... trabalha como um mouro;

Se vê uma invenção moderna... é uma americanice;

Se alguém fala muito depressa... fala como um espanhol;

Se alguém vive com luxo... vive à grande e à francesa;

Se alguém quer causar boa impressão... é só para inglês ver;

Se alguém tenta regatear um preço... é pior que um cigano;

Se alguém é agarrado ao dinheiro... é pior que um judeu;

Se vê alguém a divertir-se... está a gozar que nem um preto;

Se vê alguém com um fato claro... parece um brasileiro;

Se vê uma loura alta e boa... parece uma autêntica sueca;

Se quer um café curto... pede uma italiana;

Se alguém cumpre horários... trata-se de pontualidade britânica;

Se vê um militar bem fardado... parece um soldado alemão;

Se uma máquina funciona bem... é como um relógio suíço;


Mas quando alguma coisa corre mal... é à boa maneira PORTUGUESA!

13 janeiro 2009

Catorze quadros do Prado vistos pela lupa do Google Earth


O Museu do Prado é um dos locais mais visitados de Espanha. Para quem não pode ir a Madrid pessoalmente, o Google Earth permite dar uma espreitadela ao espólio do museu através de um novo serviço, para ver algumas das pinturas mais famosas ali expostas. Catorze quadros vistos à lupa (com uma nitidez 1400 vezes maior do que a que obteria com uma câmara de 10 megapíxels). Que são:

«La crucifixión», de Juan de Flandes;

«El caballero de la mano en el pecho», de El Greco;

«Las Meninas», de Velázquez;

«El sueño de Jacob», de Ribera;

«3 de mayo», de Goya;

«La Anunciación», de Fra Angelico;

«El cardenal», de Rafael;

«El emperador Carlos V, a caballo, en Mþhlberg", de Tiziano;

«Inmaculada Concepción», de Tiépolo;

«El descendimiento», de Roger van der Weyden;

«El jardín de las delicias», de El Bosco;

«Las tres gracias», de Rubens;

«Autorretrato», de Durero;

«Artemisa», de Rembrandt.

As pinturas foram fotografadas em elevada resolução contendo 14.000 milhões de pixels (14 Gigapixels). Com esta elevada resolução, qualquer utilizador poderá visiualizar detalhes como a pequena abelha na flor na obra “As três Graças” (Las Tres Gracias), lágrimas nas figuras da obra “A Deposição da cruz” e complexas figuras em “O Jardim das delícias”.
O Google Earth disponibiliza ainda modelos em 3D que permitem visitar o Museu do Prado, oferecendo uma visita guiada aos utilizadores como se estivessem no local. Para tal, bastará seleccionar a opção edifícios 3D e escrever 'Prado' na opção “voar para” na caixa de pesquisa.

A calculadora dos escaravelhos


Um estudo elaborado por cientistas da Universidade de Valência (UV), que acaba de ser publicado na revista Animal Cognition assegura que os escaravelhos possuem um sistema rudimentar de cálculo.

O processo simbólico de contar, que nos permite calcular o número de objectos num conjunto utilizando a lista dos números inteiros, depende de conceitos e processos cognitivos complexos relacionados com a linguagem. No entanto, investigações recentes sugerem que as capacidades matemáticas dependem também de mecanismos inatos (não aprendidos) que se verificam em bebés (em fase pré-verbal). Assim o caso do chamado "sistema aproximado do número", que permite a crianças de mais de seis meses avaliar as partes de um todo de forma aproximada e parece ser o rudimento cognitivo que nos permite aprender a contar de forma simbólica.

Segundo os investigadores do Instituto Cavanilles de Biodiversidade e Biologia Evolutiva da UV, esse mesmo processo pode ser encontrado no escaravelho da farinha (Tenebrio molitor).

Até agora, o "sistema aproximado do número" apenas tinha sido descrito em reçação a alguns mamíferos (sobretudo ratos e primatas), em aves (pombas, galhinhas e papagaios), em alguns peixes e numa espécie de anfíbio.

Por isso, as descobertas agora realizadas, além de fundamentais para aprofundar o estudo das capacidades cognitivas dos animais, sugerem que a origem do "sistema aproximado do número" pode ser mais antiga do que se tinha suspeitado até ao momento.
Fonte: El País e ABC

12 janeiro 2009

Miles Davis - Blue in Green

Foi há 50 anos que saiu o Kind of Blue, de Miles Davis



Miles Davis mudou a história da música com "Kind of blue", disco cujo aniversário se celebra com uma edição especial.
"Kind of blue" é considerado o disco mais importante do jazz e uma das grandes obras da música de todos os tempos. Foi e continua a ser um grande êxito comercial, com mais de quatro milhões de cópias vendidas desde a sua edição, em 1959.
Para saber mais, ir aqui.

Miles Davis and John Coltrane - So what

Miles Davis - Kind of Blue 50th Anniversary

Miles Davis - So What

Gordos não podem ter filhos... em Inglaterra


Era uma vez um homem. Por sinal inglês. O pobre queria ter filhos, mas não era capaz. Vai daí resolveu partir para a adopção. Ele e a mulher começaram a tratar dos papéis e zás, cai-lhes em cima o opróbio: não pode, não senhor. Porquê? Porque é gordo.

No país de sua majestade, ser gordo é um defeito. Uma pessoa, para ser pessoa, tem de ser elegante, frequentar o ginásio, não fumar, não beber, enfim, deve ser de plástico. Ai que lindas são as pessoas de plástico, de celofane, de revista social.

O caso envolve uma autarquia e médicos. «O casal recebeu uma carta do responsável da autarquia que impedia o progresso do pedido de adopção devido “às preocupações que os médicos expressaram em relação ao peso de Hall”. A carta diz que o médico acha importante que Damien altere de uma forma sustentável o estilo de vida através da alimentação e de exercício, para que a perda de peso possa ser mantida durante muito tempo. E termina adiando o processo de adopção para quando o inglês tiver um Índice de Massa Corporal menor do que 40.»

Se fosse na Alemanha antiga, diríamos que eram nazis, mas como é em terras insulares, a coisa até tem a sua graça - para quem vê de fora, claro.

Ao cabo de meio século, aquilo que os carrascos não conseguiram é posto em prática pelos funcionários do Estado.

Será que a autarquia vai pedir à polícia que visite os lares da localidade para medir o IMC? Quem for gordo e tiver filhos vai preso. Ou vê o Estado retirar-lhos.

Vêm aí o inferno (em 2100)


Metade do planeta poderá ser vítima de uma crise alimentícia em 2100. Causa? As mudanças climáticas, que afectarão as colheitas das zonas tropicais e subtropicais, pondo em risco a alimentação de 50 por cento da população mundial. Isto, claro, se não se tomarem medidas. Quem o diz é um estudo da Universidade de Stanford (Estados Unidos).

As probabilidades dessa alteração climática ter consequências desastrosas são de 90 %, diz o estudo.

Menos humidade e mais calor e colheitas tão essenciais para a alimentação como a do milho e do arroz serão reduzidas drasticamente. EUA, Brasil, vários países africanos e asiáticos (nomeadamente a Índia) e a Austrália serão os mais afectados.

Fotocópias e lição de moral


Não sei se é assim em todo o lado, mas ao ver a notícia do recurso massivo a fotocópias por parte dos professores das escolas profissionais, perguntei-me: e nas outras, que têm manuais, não se faz o mesmo?

Os alunos não têm capacidade auditiva (os próprios estudos americanos ou afins gostam de o confirmar). E não só não sabem ouvir como estudam apenas em vésperas de testes. À incapacidade de ouvir (bem notória nos estilos musicais mais apreciados) junta-se a incapacidade de ler (ao fim de 2 minutos já se baralham todos, já sentem carência de anúncio publicitário). Que resta? Um faz de conta que exige que tudo seja prática, pois como se sabe, tudo cai do céu pronto a usar. E as novas pedagogias gostam muito de apregoar a motivação (powerpoints, vídeos do youtube - mesmo que seja alguém a debitar discurso -, questionários de hot potatoes, ...) como se a motivação fosse algo extrínseco.

Aprender é cada vez mais um jogo de faz de conta, para que os Varas deste mundo possam continuar a receber aumentos para a reforma.

Se isto não é uma fábula deveria ser. Toca a pôr para aí uns animais e uns diálogos cheios de graça e já está.

11 janeiro 2009

De cuecas no metro III



Quase todos os participantes entraram nas carruagens do metro vestidos. Depois, despiram com naturalidade calças e saias, pondo à vista de todos roupa interior mais ou menos provocante, nalguns casos discreta.
E sentaram-se ou encostaram-se nalgum canto, como se nada fosse, consultando o diagrama da rede, falando ao telemóvel, ouvindo música ou lendo um livro ou um jornal.
Os não-participantes reagiram em conformidade: olhos esbugalhados, cabeças viradas, dedos apontados, risos contidos, olhares de reprovação.
Talvez porque andara com as cuecas à mostra implica uma certa arte e as cuecas dos participantes nem sempre são bem escolhidas, quiçá por andarem geralmente encobertas. Estas iniciativas são por isso uma boa maneira de pôr a nu a formação estética de uma nação, que das calças ou saias para dentro descura tantas vezes o básico.
A estética da cueca é um bom ponto de partida para uma tese sobre o vestuário no início do século XXI.
Texto elaborado a partir do JN e Público (papel)





10 janeiro 2009

De cuecas no metro II

Foto de Sara Matos

Serão doidos? Quarenta marmanjos (meninas incluídas) andaram no metro a deixar um rasto de boa disposição. O dia foi certamente menos frio para os passageiros que com eles se cruzaram.

As reacções, segundo dados de última hora, foram:

"Se calhar é para explicar que no metro não faz frio. É publicidade ao aquecimento".

"Devem ganhar uns cobres para isto. Ou então é para os "apanhados" ou isso assim. Devíamos era perguntar àquele de que manicómio saiu".

Os participantes aderiram porque:

"Não tinha nada para fazer".

"Interessa-me a produção destas manifestações espontâneas. Interessa-me a reação das pessoas. Interessa-me também a minha coragem, saber quais são os meus limites".

"Venho sempre porque é divertido. O objectivo é divertir-me e divertir os outros".

O ambientalista Sócrates

Diz a notícia: Ingleses suspeitam de corrupção e fraude fiscal de ex-ministro de Guterres (José Sócrates) no licenciamento da construção do Freeport de Alcochete. Os outros suspeitos que terão estado na origem do desfalque à empresa de “outlets” são administradores do Freeport, autarcas portugueses, construtores e advogados.
O Freeport, construído numa Zona de Protecção Especial do Estuário do Tejo, foi viabilizado num dos últimos Conselhos de Ministros do Governo de António Guterres, durante o mês de Março de 2002.
O processo relativo ao espaço comercial do Freeport de Alcochete está relacionado com suspeitas de corrupção na alteração à Zona de Protecção Especial do Estuário do Tejo (ZPET) decidida três dias antes das eleições legislativas de 2002, através de um decreto-lei, e que terá sido mudada para possibilitar a construção da infra-estrutura que já tinha sido anteriormente chumbada por colidir com os interesses ambientais acordados entre Portugal e a União Europeia.
O caso tornou-se público em Fevereiro de 2005, quando uma notícia do jornal "O Independente", a escassos dias das eleições legislativas, divulgou um documento da Polícia Judiciária que mencionava José Sócrates como um dos suspeitos, por alegadamente ter sido um dos subscritores daquele decreto-lei quando era ministro do Ambiente.
O caso ainda não está esclarecido. Para já, as autoridades judiciais inglesas, que têm em curso uma investigação criminal sobre o licenciamento da construção do Freeport de Alcochete, têm uma lista de 15 suspeitos de corrupção e fraude fiscal, encabeçada por José Sócrates.
O nosso primeiro-ministro sempre foi um modelo de virtudes. Os negócios, ambientalistas, informáticos e outros, nunca (NUNCA!) têm nada a ver com o PS, muito menos com Sócrates. Já o PSD é um nunca mais acabar de trapalhada. E o CDS-PP não fica atrás.
São os únicos partidos que têm passado pelo governo, não são?

Tintin, o octogenário


Não gosto. E chateia-me. Estes gajos chegam a idades avançadas como se nada fosse. Mickey, Batman, Tintin. Velhos, mas com cara de putos. Deve ser das plásticas.

O gajo tinha a cabeça redonda, o nariz saliente, grandes sobrancelhas e um cabelo rebelde ali para as bandas da testa. Como se não bastasse, calçava sapatos enormes e usava um fato de golfe aos quadrados. E lá vinha ele, pimpão, a exibir as suas proezas no País dos Sovietes, corria o ano de 1929. A notícia aparecia escarrapachada no suplemento infantil do jornal belga "Petit Vingtième".

A culpa é dos padres. Mais precisamente de um: o padre Norbert Wallez, director do Vingtième, que encomenda ao jovem colaborador Hergé, então 22 anos, uma história que metesse um adolescente e um cão. A ideia era transmitir valores católicos aos leitores, que ele pretendia educar no culto da virtude e do espírito missionário. O envio do jovem repórter à Rússia soviética, um reino satânico onde imperava a pobreza, a fome, o terror e a repressão, era uma solução que se adequava às mil maravilhas ao desejo do padre conservador.

O êxito desta primeira aventura fará com que Tintin vá depois ao Congo, numa homenagem de colonialista à acção da Bélgica no seu antigo território africano. A seguir, parte para a América. Virão, depois, mais aventuras e outras personagens – o capitão Haddock, o professor Tournesol, os detectives Dupond e Dupont, a diva Bianca Castafiore, o untuoso Oliveira da Figueira e mais.

Assim, o reaccionário Tintin ganhou fôlego e viveu muitas aventuras, lutando contra os inimigos da ordem e correndo mundo.

Outro poema de Gavin Bantock


The Last Dragon



Can be seen from the man in the moon.

Lays its head on the faded purple cushion of Europe.

A molten cannon-ball hovers in its mouth,
its eyes dull stones reflecting the crimson of fires,
yet a brilliant colony of cells, uranium green,
churns still in its frogspawn brain.

Belly lies cold and white, full of undigested bread,
upturned like a dead whale
spreading from Cracow to Kamchatka.

Gut squirms and chortles from the Golden Gate to Manhattan,
dark brown, the richest of manures, to foster perhaps
a fragile blue eden somewhere else in another era.

Bone-white claws gouge highways across the Earth:
far down to the frost-bitten toes of Magellan,
ripping along the banks and lean shins of Ganges,
never touching the white cows, no matter how mad their eyes.

Barnacled tail lashes bitterly in the hissing
precision and steam of horned Asian peninsulas,
yellowed bones visible through tattered parchment.

Its fires are everywhere, far from where they started:
Askja, Stromboli, Krakatoa, the Great Hanshin;
its regurgitations, cess and midden, riddle the oceans.

Gradually relinquishing the hoards it was once guardian of;
its mines and treasuries are running dry.

The moon has no tears.

Gavin Bantock (n.1939)

Joy

And Paradise does come

Paradise comes like a breeze and like a breeze
drifts elsewhere than where we are at the time

and we have no way of following the wind
to the world's end.

Outro poema de Douglas Dunn


I Am a Cameraman

They suffer, and I catch only the surface.
The rest is inexpressible, beyond
What can be recorded. You can't be them.
If they'd talk to you, you might guess
What pain is like though they might spit on you.
Film is just a reflection
Of the matchless despair of the century.
There have been twenty centuries since charity began.
Indignation is day-to-day stuff;
It keeps us off the streets, it keeps us watching.
Film has no words of its own.
It is a silent waste of things happening.
Without us, when it is too late to help.
What of the dignity of those caught suffering?
It hurts me. I robbed them of privacy.
My young friends think Film will be all of Art.
It will be revolutionary proof
Their films will not guess wrongly and will not lie.
They'll film what is happening behind barbed wire.
They'll always know the truth and be famous.
Politics softens everything.
Truth is known only to its victims.
All else is photographs - a documentary
The starving and the playboys perish in.
Life disguises itself with professionalism.
Life tells the biggest lies of all,
And draws wages from itself.
Truth is a landscape the saintly tribes live on,
And all the lenses of Japan and Germany
Wouldn't know how to focus on it.
Life flickers on the frame like beautiful hummingbirds.
That is the film that always comes out blank.
The painting the artist can't get shapes to fit.
The poem that shrugs off every word you try.
The music no one has ever heard.


Se preferir ouvir o poema:

Douglas Dunn (n.1942)

The Clothes Pit

The young women are obsessed with beauty.
Their old-fashioned sewing machines rattle in Terry Street.
They must keep up, they must keep up.

They wear teasing skirts and latest shoes,
Lush, impermanent coats, American cosmetics.
But they lack intellectual grooming.

In the culture of clothes and little philosophies,
They only have clothes. They do not need to be seen
Carrying a copy of International Times.

Or the Liverpool Poets, the wish to justify their looks
with things beyond themselves. They mix up colours,
And somehow they are often fat and unlovely.

They don’t get high on pot, but get sick on cheap
Spanish Burgundy, or beer in rampant pubs,
And come home supported and kissed and bad-tempered.

But they have bright clothes, bright enough to show they dream
Of places other than this, an inarticulate paradise,
Eating exotic fowl in the sunshine with courteous boys.

Three girls go down the street with the summer wind.
The litter of pop rhetoric blows down Terry Street,
Bounces past their feet, into their lives.

09 janeiro 2009

De cuecas no metro de Lisboa



Andar sem calças no Metropolitano de Lisboa é o objectivo de uma acção flash mob marcada para amanhã, com início na estação de Telheiras.
O flash mob começou em 2002 em Nova Iorque, tendo-se espalhado por várias cidades mundo fora. É uma iniciativa marcada para lugar público e previamente combinada por mail, SMS ou outra modalidade virtual.
Há um código de conduta a seguir. Uma das regras mais importantes é manter a compostura e aparentar normalidade.
Quando o comediante Charlie Todd promoveu o primeiro No pants! no metro de Nova Iorque, em 2002, foi só ele e meia dúzia de amigos a viajarem em cuecas. Inquiridos por outros passageiros sobre o que se estava a passar, o grupo de Charlie Todd respondia "Imagino que toda a gente esteja encalorada" ou então "Bolas, nem reparei que não vesti as calças".
Risinhos e olhares cúmplices são vivamente desaconselhados.
Em 2006, alguns polícias nova-iorquinos mais diligentes resolveram evacuar uma carruagem onde seguiam vários participantes e prendê-los por conduta desordeira. Mais tarde, a justiça ilibou-os.
O grupo que organiza o Sem Calças em Portugal, o ImprovLisboa, sugere o uso roupa interior especial, mas por favor nada que transmita a mensagem 'Vesti esta roupa interior porque estou a fazer uma cena bué marada e parva!'. O objectivo é os passageiros verem que são pessoas normais, apenas sem calças. Propõem também que se leve um livro, um jornal, uns auscultadores, etc.
Nada de fios dentais, boxers transparentes ou outra roupa mais ousada: a finalidade não é atentar ao pudor alheio, mas sim "causar situações de caos e alegria no dia cinzento dos habitantes de Lisboa".
Não vale aparecer de collants nem de calções.
Um dos últimos happenings do ImprovLisboa foi uma batalha de almofadas que juntou duas centenas de pessoas na Alameda Afonso Henriques, jovens na sua maioria. Depois disso foi levado a cabo um flash mob de dimensões bastante menores: várias pessoas foram às compras a uma loja de roupa no centro comercial Vasco da Gama, primeiro fazendo tudo em câmara lenta, depois paralisando os movimentos durante vários minutos, em diferentes posições - uns esticando o pescoço para a prateleira dos ténis, outros mirando saias ao espelho.

Solenodon paradoxus


O pequeno animal tem tanto de pequeno (30 centímetros) quanto de raridade. De linhagem bem antiga, 73 milhões de anos, manteve-a conservada, possuindo características ancestrais como a produção de veneno. Algo raro, já que o solonodonte-do-Haiti (Solenodon paradoxus) é um mamífero. A espécie só existe no Haiti e na República Dominicana.
Com 30 cm de corpo e 15 a 25 de cauda, parece-se com um musaranho, mas tem um focinho alongado, cauda como a das ratazanas e patas sem pêlo. Alimenta-se de invertebrados, répteis, aves e frutos. Alcança grande velocidade, tem hábitos noctívagos e produz veneno que expele com a saliva, servindo-se dos incisivos para a injectar.
Um grupo de investigadores da Durrell Wildlife Conservation Trust (DWCT) do Reino Unido, e do Ornithological Society of Hispaniola, da ilha da Espanhola, esteve na República Dominicana no Verão passado para estudá-lo. Durante um mês puseram armadilhas em vários locais da ilha para conseguir obter indivíduos, medi-los e retirar amostras de ADN.
O solonodonte-do-Haiti assim como o seu parente mais próximo de Cuba, o solonodonte-de-Cuba (que também é venenoso) estão ameaçados. A desflorestação, a introdução de espécies exóticas nas ilhas e a caça, têm desgastado as populações destes insectívoros nocturnos.Os dois mamíferos fazem parte do programa Edge of Existence, da Sociedade Zoológica de Londres (SZL), destinado a conservar os animais em perigo e que ao mesmo tempo são únicos devido à sua história evolutiva. “O registo de fósseis mostra que outros grupos de mamíferos que agora estão extintos também tinham um sistema de injecção de veneno. Isto deveria ser uma característica mais geral, que se perdeu na maioria dos mamíferos modernos”, disse Sam Turvey da SZL.
Podem vê-lo em acção num breve filme indo aqui.

Importa-se de repetir?


- Man, vou limpar a tosse ao gajo e ser eu a estrela da tomada de posse.
- Ai não vais não, que levas com um esguicho de teias e quatro bufardos no focinho.
- Ó mãe, aquele gajo quer-me bater!...
- Ah, mascarado dum raio, sai já daqui senão parto-te as ventas em dois tempos.

CENAS DOS PRÓXIMOS CAPÍTULOS

O homem aranha tropeça na máquina de repórter e Camaleão vê, na semana seguinte, que afinal o herói foi apenas o Obama. Ainda antes de ser empossado já é um herói super.

Desabafo de um consumidor pobre


Os bancos são generosos. Podem arranjar milhões para socorrer um filho ou um camarada, podem pagar lautos salários e outras mordomias aos chefões, mas não perdoam pequenas dívidas, pois aprenderam que grão a grão enche a galinha o papo. E são os grãos que lhes dão margem para outros voos.

Os bancos podem gastar uns milhares a prometer benesses aos clientes, tudo para garantirem que ali vai parar o salário de mais um... consumidor, de mais uma vítima. Quando, por alguma razão, as pessoas ficam com um saldo negativo nas suas contas bancárias (descoberto bancário), os bancos cobram multas, além das altas taxas de juro com que sobrecarregam o... empréstimo. A agiotagem faz-se assim às claras.

Os bancos adoram os pequenos aforradores, os trabalhadores por conta de outrem, os pequenos proprietários. Adoram emprestar para fazer render o seu pecúnio.

E o que é mais engraçado é que os chefes, grandes ou pequenos, andam por aí de papo inchado, pavoneando-se felizes, porque os pobres coitados dependem das instituições bancárias para tudo: para receber o salário; para o cartão multibanco, para pagarem as despesas correntes. Ou seja, para quase tudo.

Aos pobres coitados sabe-lhes bem ver que há quem tente defender os seus parcos haveres, mesmo que saibam, de intuição e por educação, que os bancos encontrarão novas maneiras de meter a mão nos seus bolsos.

A medida que agora vem à praça pública é curiosa, não acham. O pessoal fica sem chavo e o banco ainda cobra uma taxa, além dos juros. Obrigado, bancos, muito obrigado, como sois generosos.

08 janeiro 2009

Da leptina ao buphenyl e ao ácido tauroursodesoxicólico


Quando, há pouco mais de 13 anos, se descobriu a leptina – hormona produzida pelos tecidos adiposos que regula as reservas de gorduras no organismo e diz ao cérebro para “desligar” o apetite –, pensou-se ter descoberto o caminho para o medicamento-milagre contra a obesidade. Só que o cérebro das pessoas obesas (e dos ratinhos) revelou-se insensível à leptina. Possivelmente por, nas células do hipotálamo (região cerebral onde a leptina actua), a estrutura que fabrica as inúmeras proteínas de que a célula precisa não conseguir “dar conta do recado” e falhar a produção da molécula que supostamente receberia o sinal da leptina.

Pensa-se agora ter descoberto um modo de aliviar essa situação de stress celular: duas substâncias, os chamados Buphenyl (4-PBA) e ácido tauroursodesoxicólico (TUDCA).

Os dois medicamentos, o Buphenyl e o TUDCA já obtiveram sinal verde do Food and Drug Administration, a agência federal de medicamentos e produtos alimentares americanos.
O Buphenyl é prescrito para tratar disfunções do fígado e a fibrose cística. O TUDCA é usado há séculos na medicina chinesa tradicional e aplicado para curar doenças hepáticas.

07 janeiro 2009

Rajini contra Satish ou um caso de sonambulismo


Uma luta desigual. Ele, Satish, acordou com o pénis a arder. Ela, Rajini, foi a responsável. O pénis dele ardeu mesmo enquanto ela ficava a ver no que aquilo dava.

O melhor é copiar a notícia.
«Rajini Narayan, de 44 anos, despejou um líquido inflamável sobre o pénis do marido, Satish de 47 anos, enquanto ele dormia, incendiando-o e ficando a ver como regia o homem.
Segundo o jornal australiano "The Sydney Morning Herald", Narayan confessou o crime dizendo que era uma "esposa ciumenta" e que "o pénis do marido deveria ser só dela". No entanto, aos vizinhos terá confidenciado que estava a sonhar que tinha relações sexuais com o marido e que foi inconscientemente que lhe despejou o líquido.

A casa de Narayan sofreu danos provocados pelo incêndio que se espalhou quando o marido acordou e, apavorado e em chamas, espalhou o fogo na tentativa de fuga.»

Deus e Barcelona



Em Espanha, Deus anda nos anúncios de autocarro (o anúncio começou britânico e tem-se espalhado). Ora dizem: Probablemente, Dios no existe. Deja de preocuparte y goza de la vida (ateus). Ora: Díos si existe. Disfruta de la vida en Cristo (evangélicos).
Madrid poderá também ter autocarros com anúncios teleológicos.

É bonito ver que Deus saiu do limbo e se passeia com a gente. O problema é o Demónio, claro, esse que, segundo o exorcista do post de ontem, anda pelo mundo todo a queimar dinheiro só para chatear o people.

Mais aqui e aqui.

O milagre


A economia vai contrair-se, mas o rendimento disponível das famílias vai ter, em média, um crescimento real. Apenas para os que mantiverem os empregos. E para os que recebem boas reformas. A maioria do povo continuará a vidinha triste de sempre.

A subida de 1,6 por cento representa para os homens do Banco de Portugal uma façanha, pois é o melhor resultado desde 2001. Isto acontece porque, ao mesmo tempo que se registam alguns aumentos nominais dos salários e pensões, a taxa de inflação deverá cair para um por cento, o valor mais baixo desde que o país está em democracia.

O problema das previsões é esse, são previsões. A inflacção sempre é calculada por baixa e acaba sempre por subir. Veremos se as anunciadas baixas são para manter ou se haverá surpresas lá para o segundo trimestre.

Outro problema é se as empresas nacionais terão ou não capacidade de exportação e se o país importará na mesma proporção de anos anteriores. Já vimos há tempos que quanto a produtos de luxo, os portugueses continuam pródigos em compras. Pois a lusa classe possidente sempre pautou a sua vidinha pela ostentação burgessa.

A classe média, depauperada, conseguirá algum desafogo? A ver vamos.

06 janeiro 2009

Rir é bom

Transcrevemos, sem comentários, esta peça de lusitano humor jornalístico, da autoria de João Céu Silva. Quem quiser ler o texto na íntegra, pode ver como a publicidade vende mais travestida de 'jornalismo':
"Literatura. O livro foi uma das prendas preferidas pelos portugueses este Natal. Se os escritores estrangeiros tiveram o comportamento habitual, já os nacionais surpreenderam pelo número excepcional de vendas. É certo que dos pesos-pesados só Miguel Sousa Tavares esteve parcialmente fora do ringue
Mulheres deram taça a Rodrigues dos Santos
Dar e receber um livro no Natal é a troca de presentes preferida dos portugueses. Fazê-la com livros de autores nacionais é a grande moda. O resultado destas duas situações fez com que os autores nacionais tenham sido os recordistas de vendas de livros neste último trimestre, num total muito próximo de um milhão de exemplares.
(...)
É uma mudança de rumo do mercado editorial, que se acentuou em 2008 - acompanhando a tendência internacional - e que tem duas razões: o peso do leitor feminino e a aposta das editoras em dar romances historicamente comerciais e com um mínimo de credibilidade.
Com esta "receita literária", lucram as editoras e os livreiros, ganham os autores e aumenta o seu número, ficam os que lêem mais satisfeitos e o rácio de leitura em português melhora, sem se necessitar de alimentar o debate inócuo de que a literatura light destrói a boa escrita e não atrai novos leitores aos já fiéis ao livro."

Milionário atira-se para debaixo de um comboio


O multimilionário alemão Adolf Merckle suicidou-se depois de perder milhões na Bolsa. Não, não, não é nenhum caso decalcado de 1929, é actual, de ontem.
Merckle era tão-só o quinto milionário da Alemanha e um dos 100 homens mais ricos do planeta, com uma fortuna avaliada em sete mil milhões de euros.
Perdeu 400 milhões na Bolsa e atirou-se para debaixo de um comboio. Tinha 74 anos.
Isto de ser empreiteiro e guloso tem os seus quês. Se calhar não cumpriu a palavra dada a Belzebu.

Fonte: El País

O Demónio é o culpado


O decano mundial dos exorcistas, padre Gabriele Amorth, garantiu que a actual crise económica e financeira existe por culpa do Demónio. Como? Belzebu sugere decisões económicas equivocadas para dividir e empobrecer os países.
Numa entrevista concedida ao sítio católico Pontifex Roma, o sacerdote considera que Satanás está em grande, pois as crises e desordens económicas têm influência na esfera pessoal: criam distanciamento e ruptura, "exactamente o que quer Satanás".
Podia ser uma piada um pouco parva, mas não. Amorth é daquela fibra divina, capaz de entrar na cabeça do Demónio, captar-lhe os pensamentos e traduzi-los para nós, ímpios, incrédulos e pobres humanos.
Amorth é um deus entre os homems. É padre apenas por disfarce.

O fabuloso destino de Portugal nas mãos socráticas


Nós somos todos uns ingratos. Nunca aplaudimos a acção extraordinária de Sócrates. Ele é um cúmulo de empenho e esforço. Como ele próprio diz: “não se lidera assistindo a tudo do lado de fora”. De resto, já sabemos que se estamos onde estamos, enquanto país, é por causa da educação. Sócrates subiu a pulso (com cartões do ministério enviados aos profs.) e isso não lhe parece bem. A educação é fundamental para o sucesso económico do país. Vai daí, este governo quer acabar com esses professores que aprovam alunos que lhes mandam cartões.

Assim que todos forem licenciados à maneira de Sócrates o país vai dar um pulo enorme. Crê-se que ficará colado à Finlândia. O Algarve deixará de ser uma instância de férias de Verão e tornar-se-á uma estância de esqui. A Serra da Estrela perderá o seu lugar de relevo no turismo de inverno e apenas se consolará com a volta a Portugal em bicicleta.

Os portugueses emigrarão em massa para Espanha, que será, finalmente, dona absoluta da Península Ibérica.

E Sócrates será o grande timoneiro dessa aventura maravilhosa. Juntamente com esse grande líder sindical que é João Proença, um homem cheio de receios e de esperanças.

05 janeiro 2009

Um texto curioso e diplomático

A opinião é fácil para uns e extremamente complicada para outros. Sobretudo quando se parte para a apresentação de um ponto de vista começando logo por jogar à defesa.
Um jornalista é um jornalista, na medida em que uma nuvem é uma nuvem. Relata factos (muitos crêem piamente nisso) e de quando em quando opina. Alexandra Lucas Coelho, jornalista do Público, resolveu vir a público (edição papel de hoje) dizendo de sua justiça sobre a atitude criminosa de Israel. Fá-lo com pinças, deixando para a meia dúzia que tem paciência de ler tudo (como os serviços de espionagem israelitas) a sua tese: "fazer da defesa de Israel a origem e a moral de uma semana de bombardeamentos da Faixa de Gaza me parece do domínio da obscenidade. E uma obscenidade que fazemos nossa - nós, os cristãos, os compassivos, que bebemos o sangue de Cristo e tanta culpa carregamos, da Inquisição, do Holocausto, de sermos cúmplices por pensamentos, palavras, actos e omissões."
Os mais pacientes, que foram capazes de ler aquele texto poético, percebe que Alexandra Lucas Coelho tem medo que lhe chamem anti-semita, não sabemos se por querer voltar a casa da amiga que tem em Israel, se por outras razões. Ela diz: "Chegou-se a um ponto - totalitário, intimidatório - do discurso contemporâneo em que qualquer pessoa pode ser insultada como anti-semita por criticar Israel. (...)
Não sou sionista nem anti-sionista. Não sei se um Estado judaico seria o melhor para os judeus, mas hoje Israel existe, pujante, fascinante, e eu aceito-o nas fronteiras internacionalmente reconhecidas. Vivi em Israel, tenho amigos judeus dentro e fora de Israel e não admito que alguém me chame anti-semita."
E depois lá diz que: "Toda a gente sabe que a violência gera violência. Toda a gente sabe que não há solução militar. Toda a gente sabe - está em todos os documentos internacionais assinados por Portugal - que Gaza, Cisjordânia e Jerusalém Oriental são territórios nas mãos de Israel. Toda a gente sabe que há milhões de refugiados palestinianos há mais tempo do que eu estou viva e ninguém os quer. E é por isso que justificar o bombardeamento de Gaza com a defesa de Israel é tão obsceno - simplesmente porque toda a gente sabe que os palestinianos são os perdedores desta História."
Portanto, o crime de Israel é ser... obsceno. Termo que, como é do conhecimento geral, incomoda sobremaneira as pessoas.
E assim vai a opinião pública. Felizmente, poedemos ir aqui e ver que outras opiniões dispensam as pinças e vão directas ao assunto: a), b), c), d).

Inquérito de site brasileiro é notícia no Público

O Público não quer que o Acordo Ortográfico caia em saco roto. Vai daí divulga um inquérito... online de um jornal brasileiro e atira-se, contente, às percentagens. Se há coisa de que os jornalistas gostam é de percentagens. Deve ser uma propensão para a Matemática ou então um mero prazer pelo jogo, pois se há coisa que a gente gosta é de brincar com números.
E o Público, quando é que adopta o acordo? Isso é que nós gostaríamos de saber. Mas, por enquanto, os de cá olham para o outro lado do Atlântico. Por curiosidade, por curiosidade...

Números

Quase 4 milhões de portugueses auferem pensões de reforma abaixo do salário mínimo (450 euros). Assim vai o fabuloso país de Sócrates. O tal onde os banqueiros e gestores recebem 30 a 100 salários mínimos e, em fazendo asneira, o Estado contribui com milhões.
Para ver mais, aqui.

04 janeiro 2009

Ladrões gourmets


Há ladrões e ladrões. Os desta história eram gourmets. Não sabemos se leitores assíduos do Da literatura e das prosas finas do conaisseur Eduardo Pitta.

Foram ao supermercado e levavam uma listinha com os produtos que queriam desviar. A saber:
Caixas de camarão congelado
Lombos inteiros de carne
Fiambre embalado
Queijos
Vinhos seleccionados
Whiskies velhos
Aguardente velhas
Champagne

Tudo filmado pelo sistema de videovigilância, que captou um assaltante a tirar uma lista do bolso e a verificar os objectos que lhe interessavam.
De luvas calçadas e cara tapada, os assaltantes são jovens, do sexo masculino e usavam calças de ganga descaídas e camisolas largas.
Todos os passos dos indivíduos no interior do supermercado foram registados pelas quatro câmaras de videovigilância. A partir da 1.04 horas da madrugada, e durante cerca de meia hora, agiram com calma e naturalidade.
Começaram pelas bebidas mais caras. Depois de "limparem" a área das bebidas, os homens passaram para a zona do talho e dos congelados. Também ali a escolha foi criteriosa e refinada.
Um dos assaltantes esteve a maior parte do tempo com um pé de cabra na mão. A determinada altura, quando um deles está de costas a colocar várias garrafas de bebida no cesto, o outro aproveita para abrir a caixa registadora e meter ao bolso os trocos que ali se encontravam.
Cerca da 1.25 da madrugada, quando estão quase a dar por terminado o assalto, um dos homens tira do bolso a lista, que já tinha consultado várias vezes.


Fonte: JN

Entrou na esquadra em cuecas e t-shirt


Entrou na esquadra em cuecas e com a t-shirt ensanguentada e disse:

- Acabei com eles. Fiz justiça.

O polícia de turno olhou para ele e... tomou nota da ocorrência.

Setecentos metros é muito metro. Foi o que o homem andou para sair de casa e chegar à esquadra da PSP.

Horácio -assim se chama o herói - saiu a correr de casa, deixando para trás a faca usada nas agressões. Feriu o pai, a madrasta e o irmão com a faca de cozinha e saiu de casa em cuecas, descalço e só com uma t-shirt.

Nesse momento já o pai, José Maria (75 anos), a madrasta, Maria da Conceição (54) e o irmão, José Maria (22) estavam a ser transportados para o Hospital de S. João, no Porto. O casal foi golpeado na cara. O jovem foi esfaqueado na barriga. O agressor foi detido.

Maria da Conceição encontrava-se na cozinha e Horácio gritou:

- São todos uns ladrões!

Depois, puxou da faca e feriu a madrasta na cara, por baixo do olho direito.
Apercebendo-se da situação, o filho, que estava no quarto, tentou socorrê-la, mas também ele provou da fúria de Horácio, sendo golpeado no abdómen. Seguiu-se o pai, que tem problemas de saúde e foi golpeado junto ao lábio.

Vários moradores abordados garantiram, à boa maneira portuguesa, que nada fazia antever um desfecho tão violento, apesar da fama de Horácio.

- Ele sempre teve problemas com droga e já esteve preso. Quando era novo, assaltava casas. Ultimamente, parecia andar mais sossegado e era pouco visto. Só saía de casa à noite - contou uma residente na zona, pedindo para não ser identificada por ter "medo que ele se vingue".

- Não temos conhecimento de problemas naquela família. Não mereciam o que lhes aconteceu - disse outra moradora, que se recorda de ter visto Maria Conceição poucos minutos antes do incidente:

- Chegou a casa com duas embalagens de leite. Dez minutos depois, ouvi os gritos.

Aproveitou para informar que a vítima é "mulher a dias".
Ainda de acordo com informações de conhecidos da família, o septuagenário é "estofador reformado" e o filho de 22 anos "estuda em Viana do Castelo".

Fonte: JN

Outro poema de Hugo Williams


SATURDAY MORNING


Everyone who made love the night before
was walking around with flashing red lights
on top of their heads — a white-haired old gentlemen,
a red-faced schoolboy, a pregnant woman
who smiled at me from across the street
and gave a little secret shrug,
as if the flashing red light on her head
was a small price to pay for what she knew.

Hugo Williams (n. 1942)

The butcher

The butcher carves veal for two.
The cloudy, frail slices fall over his knife.

His face is hurt by the parting sinews
And he looks up with relief, laying it on the scales.

He is a rosy young man with eyelashes
Like a bullock. He always serves me now.

I think he knows about my life. How we prefer
To eat in when is cold. How someone

With a foreign accent can only cook veal.
He writes the price on the grease-proof packet

And hands it to me courteously. His smile
Is the official seal of my marriage.

Outro poema de Brian Patten


A blade of grass


You ask for a poem.
I offer you a blade of grass.
You say it is not good enough.
You ask for a poem.


I say this blade of grass will do.
It has dressed itself in frost,
It is more immediate
Than any image of my making.


You say it is not a poem,
It is a blade of grass and grass
Is not quite good enough.
I offer you a blade of grass.


You are indignant.
You say it is too easy to offer grass.
It is absurd.
Anyone can offer a blade of grass.


You ask for a poem.
And so I write you a tragedy about
How a blade of grass
Becomes more and more difficult to offer,


And about how as you grow older
A blade of grass
Becomes more difficult to accept.

Brian Patten (n. 1946)

Portrait of a Young Girl Raped at a Suburban Party

And after this quick bash in the dark
You will rise and go
Thinking of how empty you have grown
And of whether all the evening's care in front of mirrors
And the younger boys disowned
Led simply to this.

Confined to what you are expected to be
By what you are
Out in the frozen garden
You shiver and vomit -
Frightened, drunk among trees,
You wonder at how those acts that called for tenderness
Were far from tender.

Now you have left your titterings about love
And your childishness behind you
Yet still far from being old
You spew up among flowers
And in the warm stale rooms
The party continues.

It seems you saw some use in moving away
From that group of drunken lives
Yet already ten minutes pregnant
In twenty thousand you might remember
This party
This dull Saturday night
When planets rolled out of your eyes
And splashed down in suburban grasses.

Ano europeu da criatividade e inovação


O que é a inovação? Ainda é vista como um desvio, como uma infracção ou, pelo contrário, foi assimilada e é algo que hoje se considera necessário para enfrentar a voragem do consumo?

E criatividade é o quê?

Há quem acredite que a criatividade é algo plástico que se programa consoante a vontade.

Há quem vá mais longe e suponha que a inovação depende das planificações.

Esta concepção funcionalista de pessoas e instituições dá vontade de rir. Se assim fora viveríamos no melhor dos mundos, o que, como facilmente se constata, está longe de ser verdade.

A única verdade é estar nas nossas mãos preparar as pessoas para não se afundarem em rotinas nem se deixarem cegar pela censura. É dar à cultura um espaço maior capaz de tornar relevante o seu papel económico, não enquanto geradora de lucro, mas enquanto potenciadora de riqueza e de bem-estar. Isso que no entendimento de políticos medíocres se torna fazer de conta, para que através do fazer de conta a crença das pessoas funcione como um gatilho de consumo. Mas não se trata de consumo. Trata-se de vida. Trata-se do que é intrinsecamente humano e de como criar espelhos (de feira ou simples) que reflictam o que habitualmente se procura esconder.

Praga é a cidade do Ano Europeu da Inovação e da Criatividade. Vale a pena seguir o que se vai passar. Alguns dos temas em destaque:

Actividade artística e outras formas de criatividade, desde a pré-escola ao ensino básico e secundário, incluindo o pensamento inovador assim como a capacidade de resolver problemas de forma criativa;

Diversidade cultural como fonte de criatividade e inovação;

Estratégias de desenvolvimento local e regional baseadas na criatividade e inovação;

Indústria cultural e criativa, incluindo o design - onde o estético e o económico se encontram.

02 janeiro 2009

Vem aí a Biblioteca Digital Luís de Camões em livre acesso


Mil e duzentos documentos da cultura portuguesa dos últimos cinco séculos vão passar a estar acessíveis sem restrições a partir de dia 8 de Janeiro. Um espólio composto por textos literários, pautas musicais, ensaios, poemas e estudos científicos. Estarão igualmente disponíveis para consulta textos de grandes autores portugueses falecidos há mais de 70 anos (autores no domínio público).

31 dezembro 2008

Um poema de...


um prémio para quem adivinhar. Era médico. Nasceu e morreu no século XIX (1839 - 1871). Viveu quase sempre na cidade do Porto. Chamava-se Joaquim Guilherme Gomes Coelho e usava um pseudónimo literário que era...

O poema foi trancrito de uma edição de 1909 que segue a de 1874 e que lhe acrescenta poemas publicados noutros livros.



Uma Consulta

– Dá licença? – Entre quem é.
– Muitos bons dias. – Olé,
Por aqui, minha senhora?
Desculpe Vossa Excelência
Se a não conhecia agora.
– Sem mais… À sua ciência
Recorrer venho. – Deveras?
(Senhor me dê paciência!
Nunca tu cá me vieras).
Então que temos? – Padeço.
– Sim? porém de que doença?
– Essa é boa! acaso pensa
Que eu porventura a conheço?
– Ah! não conhece? – Quem dera!
Então não o consultava.
– (E eu que muito estimava).
Mas diga, então? – Eu lhe conto…
Oiça bem. Não perca um ponto.
– Nem um ponto hei-de perder.
– Ai, doutor, doutor, meu peito…
– É do peito que padece?
Quem havia de o dizer!
– E Jesus, doutor, parece
Que me quer interromper?!
Não era a isso sujeito.
– Nem o tornarei a ser…
Vamos lá. – Ora eu começo…
Atenção é o que lhe peço;
Diga-me: que lhe pareço?
Não me acha muito abatida?
– Assim, assim; mas às vezes
A vista pode enganar.
– Não, não. Pode acreditar
Que há já um bom par de meses
É um tormento esta vida.
– Então que é o que sente?
–O que sinto? Ora eu lhe digo:
O doutor é meu amigo?
– Oh! senhora… – E é prudente?
Oiça, pois: Eu dantes era
Fera e rija, que era um gosto!
Ou em Dezembro ou Agosto
Correr o mundo pudera,
Sem no fim me achar cansada.
– E hoje? – Não lhe digo nada,
Nem comigo posso já.
– Mau é! – Quer saber, doutor?
Só para vir até cá,
Que tormentos não passei!
– Diga-me, se faz favor.
Que idade tem? – Eu nem sei…
Eu sou mais nova três anos
Que o reitor da freguesia.
– (É grande consolação!)
– Tenho ainda outros dois manos
Que mais velhos do que eu são,
Porém, como eu lhe dizia,
Doutor… – Que mais sente então?
– A vista sinto estragada,
Até já me custa a ler,
Demais a mais sou nervosa.
Isso não lhe digo nada!
Olhe, estou sempre a tremer.
– Faço ideia. – Andava ansiosa
Por consultar o doutor;
Eu tenho em si muita fé.
– Lisonjeia-me. – Outra queixa…
Que eu sofro também… – Qual é?
– É dum forte mal de dentes.
Todos me caem. – Bem, bem.
– E os que restam, mal assentes,
Qualquer dia vão também.
– É provável. – Ai, doutor!
Que cruel enfermidade!
Não acha? – Acho e o pior…
– Há-de curar-se, não há-de?
– E então não sente mais nada?
– Nada… ai, sim, tem-me parecido,
Porém, talvez me iludisse…
– Diga. – A semana passada,
Como ao espelho eu me visse…
Pareceu-me ter percebido…
– O quê? – Que a pele não era
Como dantes, tão macia.
– E então? – Quem me visse dissera
Que eram rugas. – (Eu dizia)
E é isso o que padece?
– Ainda pouco lhe parece,
Doutor? – Por certo que não.
– Então que doença tenho?
– Em sabê-lo muito empenho
Sempre tem? – Eu? Pois então?
Para isso o procurei.
– Bem, então sempre lho digo
Mas julgo não ficarei
Por isto, seu inimigo.
– Ó meu doutor! – O seu mal
É, senhora, de algum perigo.
– Ai Jesus! – E muita gente
Dele morre. – Oh Santo Deus!
Por quem é, não diga tal!
E… morre-se de repente?
– Conforme. – Pecados meus?
E então é isso o que pensa!
Porém ainda não me disse
O nome dessa doença
E eu sempre o quero saber…
– O nome? – Sim. – É… velhice!
…………………………………
– E o remédio? – Morrer.

Janeiro de 1860


Nota do autor: A lembrança não é minha absolutamente. Foi-me sugerida de um caso semelhante, que me contaram.

Freddie Hubbard - Cantelope Island