23 novembro 2008

O governo por VPV


Vasco Pulido Valente diz, na última página do Público de hoje: «Uma pessoa abre o jornal ou liga a televisão e revê, pasmado, a velha propaganda antidemocrática de 1930. Umas vezes, subtil; outras vezes, muito taxativa e franca. Umas vezes, melancólica, outras vezes, quase triunfante. A miséria geral e perspectiva de uma miséria maior, a fraqueza do regime e uma irritação crescente anunciam o caos.»

22 novembro 2008

Paisagem do dia


Foto de João Rodrigues

A esquizóide cruzada de Maria de Lurdes Rodrigues

Os artigos de opinião de São José Almeida, jornalista do Público, são sempre lidos aqui na casa do Pisca. Há neles um olhar fresco, capaz de detectar pontos que ficam obscurecidos entre a propaganda e o frenesim das agências noticiosas.
Excertos do de hoje: «Durante mais de três anos Maria de Lurdes Rodrigues, com absoluto apoio de José Sócrates, foi esticando a corda, forçando a pressão sobre os professores. Sempre com uma táctica de afronta directa. Sempre insistindo na demagogia de que o mau funcionamento da escola era responsabilidade dos professores. Sempre assumindo um tom de insulto de quem considera que os professores são pessoas mal formadas, que estão de má-fé nas escolas, que escolheram ou aceitaram leccionar apenas para fazerem uma carreira fácil (?), relativamente bem remunerada (?) e que permite estar de papo para o ar (?), gozando a vida.
Quando é sabido que o Ministério da Educação é uma mastodôntica estrutura de poder que envia directivas em cascata para as escolas. Quando é sabido que nada se passa numa escola sem que haja autorização, ordens, licença da 5 de Outubro ou da 24 de Julho. Quando é sabido que o Ministério da Educação é uma espécie de Titanic à beira de se afundar, ingovernável e cheio de pequenos poderes autoritários e de tiranetes patéticos, como já afirmei aqui (PÚBLICO 17/06/2006). Maria de Lurdes Rodrigues achou que podia atirar-se aos professores, como se eles fossem a origem de tudo o que corre mal no mundo da educação, como se fossem bandidos, que é preciso admoestar.
Ou seja, Maria de Lurdes Rodrigues elegeu os professores como bodes expiatórios de um sistema de ensino, apontando-os como uma cambada de preguiçosos e calões, aproveitadores dos dinheiros públicos e que se estão nas tintas para os alunos. E assumiu-se a si como a salvadora do sistema, que ia moralizar a classe docente, impor regras, acabar com a balda da escola pública. Ora, ao fim de três anos, a esquizóide cruzada de Maria de Lurdes Rodrigues resultou naquilo que era previsível. Os professores fartaram-se de ser insultados, fartaram-se de ser tratados como párias. E Maria de Lurdes Rodrigues bateu contra a parede.»
(...)
«É pena que Maria de Lurdes Rodrigues dê o dito por não dito e vá abastardando o seu modelo de avaliação, que garantia perfeito, com pequenas alterações tácticas, que não resolvem nada do problema de fundo, só mostram a sua incapacidade para o lugar que ocupa. É pena que o Governo não perceba que não se governa satisfazendo as reivindicações da rua, mas também não se pode governar ignorando o pulsar da rua. É pena que o PS tenha esquecido que é Governo.»
(...)
«Quanto à reforma de José Socrátes e do PS para a educação: qual era mesmo o objectivo? Melhorar a escola pública? Era?»

Pranto pela cidade do Porto


Foi, no século XIX, uma cidade rica em peripécias, em vida, em história e cultura. A pouco e pouco foi perdendo importância, para uma Lisboa cada vez mais centralista. Hoje é uma cidade quase morta.

Gaia e Matosinhos recolheram os centros comerciais, e a cidade para a qual foram feitas muitas promessas (a última teve o nome de Porto 2001) está a perder gente, vida, dinamismo. O actual presidente da câmara, bem como os antecessores, nada fizeram para revitalizar a cidade. As obras da Porto 2001 complicaram a vida à população e aos turistas e muitos deixaram de lá pôr os pés. O comércio foi-se ressentindo. Junte-se ao caldo azedo a migração da população jovem para as periferias ou para outros países e tem-se uma cidade que necessita urgentemente de captar população para o seu interior. Há centenas, senão milhares de casas devolutas. Há gente que gostaria de viver no centro da cidade, mas não pode, quer pelo preço, quer por falta de estacionamento. A vida cultural da cidade esmoreceu. Os cinemas fecharam portas. Os teatros ficaram sem dinheiro, pois para Rui Rio tudo o que não corresponda ao seu gosto de iletrado não serve.

Os comerciantes parece que acordaram agora. Agora que se aproximam as movimentações para as eleições autárquicas. Ainda bem. Já vá vai sendo tempo de o Porto debater a sua situação.

Mulher bate no homem. Homem bate na mulher


Gosto muito de ti, pás, pás! Oh, como gosto de ti, pof, pof! À estalada e ao pontapé nos entendemos.
Ela lembra-se sempre que começamos a namorar há cinco meses e a primeira bofetada foi três dias depois. Ai como eu gosto dela.
Este será o tipo mais recorrente de violência física. Ele bate nela. Mas também há o inverso: ela bate nele.
E o que parece caricato, para não dizer absurdo, é o pão nosso de cada dia. Às vezes, o fim é trágico. Senão, veja-se: Cátia discutiu com o namorado, X. Aquilo foi um filme pegado. Na noite de quarta-feira terá ido a uma festa com o namorado e um grupo de amigos, nas redondezas. No final, por volta das 05.00, pararam numa bomba de gasolina. Cátia estava furiosa. Alguém a viu pontapear o Mercedes do namorado, aos gritos. A certa altura, terá agredido o jovem com uma cabeçada, partindo-lhe um dente. Entre discussões e agressões, o namorado decidiu ir para a viatura. Quando arrancava, Cátia lançou-se para o interior através da janela do condutor. Não se sabe o que se passou dentro do carro. Apenas que mais adiante o carro parou e Cátia saiu. O carro deu a volta para voltar ao posto de gasolina. Cátia atravessou a estrada para ir atrás dele, em direcção ao parque de uma bomba de gasolina, e nesse instante foi colhida por uma carrinha de uma empresa de panificação. Teve morte imediata. O acidente deu-se por volta das 05.30 em Vale Figueira, S. João da Talha, Loures. [in DN]

21 novembro 2008

A cores e a preto e branco


São fotos, senhor. Dois milhões de fotografias da Life, essa revista que durante gerações entreteve o mundo. Totalmente grátis. Muitas das fotos agora disponíveis nunca foram publicadas. As mais antigas remontam a 1860.

Uma parceria Google e Life que dá isto. Mark, Twain, Picasso, Marilyn Monroe, Neil Armstrong. Comboios, aviões, As duas grandes guerras e outros momentos bélicos que marcaram o século XX. A crise de 1929 e as consequências. Missões espaciais norte-americanas. E mais.

A Life saiu para a rua no ano de 1883 e morreu há dois anos.

Europeana, a biblioteca digital da UE


Mais de dois milhões de obras dos 27 Estados-membros da União Europeia num sítio: Europeana. Infelizmente, começou hoje e já está indisponível. Excesso de visitas. Pode ficar com uma ideia indo a outra ligação: aqui.

Acessível, em todas as línguas da UE, a biblioteca multimédia europeia conta com material fornecido por mais de 1000 organizações culturais de toda a Europa, incluindo Museus, como o Louvre de Paris, que forneceram digitalizações de quadros e objectos das suas colecções. Ali se podem consultar livros, mapas, gravações, fotografias, documentos de arquivo, pinturas e filmes do acervo das bibliotecas nacionais e instituições culturais dos 27 Estados-Membros da UE.

Diálogo... de surdos


Dar-se-á o caso de o Governo ter um problema do foro otorrinolaringológico? É que depois de tanto diálogo, depois de tanta reunião ainda não percebeu o que já todos perceberam: que a dita avaliação não avalia nada, pois não passa de devaneio burocrático de um governo de faz de conta.

Educar é uma ciência e uma arte. Arte porque não tem regras fixas, ou seja, cada caso é um caso, cada circunstância é única. Ciência porque tem método, levanta problemas, coloca hipóteses, procura soluções.

Para o governo é uma religião. Ele diz como é (Sócrates é um iluminado e Maria de Lurdes a discípula que segue o mestre) e todos fazem como ele diz.

Curiosamente, o governo apenas diz que a avalição é assim e ponto. Porquê? Porque procura a qualidade do ensino? Não. Se fosse esse o caso saberia que leis fazer. Trata-se tão-só de poupar em salários. Repetimos: poupar em salários. O resto é para inglês ver.

Um governo para agir precisa de ter um programa de acção. Como é do domínio público, este governo deitou o programa que tinha no caixote do lixo e governa ao sabor de interesses e de momentos.

Não tem uma ideia que seja para a educação. Sublinhamos: uma ideia. Nada! A acção do governo, como a de antecessores, limita-se a atrapalhar a vida das escolas com despachos e decretos-lei. E sempre com o olho posto nas estatísticas internacionais, porque os governantes têm ambições, sonham com tachos mais atractivos em países onde se ganha muito mais do que em Portugal.

Já houve debates na sociedade civil por causa do eduquês. Que fez o governo? "Dialogou", ou seja, fez ouvidos de mercador, ignorou pontos de vista e opções. Persistiu no que já tinha. Porque assim é mais fácil, atira-se com a culpa para o lado mais fraco: os professores.

Sócrates e Maria de Lurdes Rodrigues desprezam os professores. Porque... ganham pouco e têm fraca representatividade social, embora tenham nas mãos mais de um milhão de alunos. Desprezam-nos porque os professores nunca fizeram uso desse poder. NUNCA!

Nem agora.

Os professores limitam-se a ter bom senso e a fazer o que podem para que o maior número de alunos alcance bons resultados, para que progridam, para que sejam cidadãos activos. O seu papel é diminuto. As escolas são sempre o reflexo do que as rodeia: política, económica, social e culturalmente. E seja em que domínio for, o país é débil. A classe política é medíocre (o governo aí está para o provar). A maioria dos portugueses têm salários de países de terceiro mundo, para que meia dúzia possa ganhar o que os congéneres dos países ricos não ganham (apenas nos referimos a salários pagos pelo erário público). A sociedade continua a reger-se por valores onde a cunha, a pequena vigarice e a pequena corrupção são sinónimos de sobrevivência. A cultura é o somatório disso tudo.

Que fez o governo, este governo, para mudar isso? Nada. Prometeu muito, mas sempre que o assunto toca nos grandes interesses, cala-se muito bem caladinho e faz de conta que faz (preço dos medicamentos, impostos, benesses de gestores, prazos e custos de obras públicas, acordos com empresas, etc.).

Isto da educação é um circo que lhe dá jeito, embora a conjuntura nem por um momento dê sinal de lhe facilitar a vida. A crise já fez estragos (BPN e o mais que aí está a pôr o nariz de fora), o desemprego aumenta, o consumo baixa, os salários e pensões não sobem...

O que se pedia era que ao menos revelassem inteligência e percebessem que abrir mão da avaliação era um sinal para negociar de outra maneira. Mas não, queimam cartuchos e habilidades para mostrar que não cedem. Não cedem? É só darem-se ao trabalho de ver os anúncios feitos por Sócrates com pompa e circunstância e ver onde param os resultados. Apenas isso.

A Ministra do Simplex

Primeiro enriça (complica). E teima que é assim. Depois vai a cem e tira três para dizer ao mundo que simplificou. Para que a máquina de propaganda do governo passe para a opinião pública a ideia de que a ministra está a facilitar o diálogo.
Talvez seja a proximidade da quadra natalícia. E Maria de Lurdes Rodrigues acredite no Pai Natal e deseje que o país também acredite nisso - afinal somos um dos países que mais gasta no euromilhões.
De resto, na prática continua tudo igual. E à enésima entrevista a nação já sabe quem é MRL, o que pensa, o que diz querer. Aquilo parece uma velha cassete riscada: dá sempre a mesma música e encrava. Ainda hoje ou amanhã assistiremos a mais um choradinho da senhora ministra, sempre tão aberta ao diálogo. Ela fala os outros dizem amém. Caso contrário ela chora e diz que passa muito tempo a dialogar.
Talvez Sócrates, tecnológico como é, deva oferecer aos seus ministros um ipod como prenda de Natal. Pelo menos à sua estimada Ministra da Redução Salarial - que outra coisa não pretende.

20 novembro 2008

Copérnico (1473-1543)




Reconstrução do rosto a partir do cránio encontrado em 2005
e o seu retrato mais conhecido


Quem era? O que fez? Eu, confesso, não faço ideia. Podem ajudar-me?

Pergunto isto porque descobriram na Polónia uns restos de alguém que dizem ser Nicolau Copérnico, um herege que ousou dizer (credo, cruzes, canhoto) que o Sol não andava à volta da Terra.

Parece que é dele a seguinte frase: "O que é na verdade mais belo do que o céu, que, certamente, contém todos os atributos da beleza? Isto é proclamado pelos seus verdadeiros nomes, caelum e mundus, este último significando clareza e ornamento, como a escultura antiga."

Uma ajudinha, por favor? Quem foi?

Dizem que receava os militantes da ignorância, sempre prontos a incinerar cientistas ou vegetais. Dizem ainda que para ele a ciência devia circular apenas entre os iniciados e os amigos. Já que era a água pura que, se derramada no chão onde imperavam os brutos, se tornava lama.

Seria um poeta?



A guerra dos números, à pressa

O Ministério usa as armas que pode. Faz o que fazem todos quanto têm de gerir: tentar levar a água ao seu moinho.
Avaliemos os procedimentos. Um e-mail da Direcção-Geral dos Recursos Humanos da Educação (DGRHE), em que se convida os docentes a apresentar os seus objectivos individuais através de uma ferramenta informática criada para tal. Poupa-se papel, logo é ecologicamente bom.
Para que se faz isto? Para que que o processo arranque e o ME disponha dos dados. De resto, garante que "não há nada de ilegal" na possibilidade de os professores preencherem os seus objectivos individuais, um dos primeiros passos do processo de avaliação, numa aplicação electrónica disponível no sítio na Internet da Direcção Geral dos Recursos Humanos da Educação.
A definição de objectivos deixa de ser discutida de forma directa entre avaliado e avaliador. Algo que só devia acontecer, nos termos da legislação em vigor, em entrevista do professor com o seu avaliador, devendo ficar arquivado na escola, no processo respectivo.
Assim, o ME salta por cima da lei e diz que não é ilegal. Insuficiente.
Os professores e educadores sabem que não existe qualquer obrigatoriedade legal de prazo para a entrega dos tais objectivos. Mas nem todos os professores sabem isso e habituados que estão a fazer o que o ME ordena, podem cair na esparrela. Este modo de entender a coisa com armadilhas é pouco dignificante e mostra que o ME não olha a meios para alcançar objectivos. Logo, os professores devem responder na mesma moeda, lutando pelos seus. Se assim for o ME mais uma vez sai derrotado. Mais um insuficiente.
Em resumo: não aprovado.
O governo começa a temer tanta reprovação e... (cenas daos próximos capítulos mais logo).

Educar para a independência

Diz Pedro Lomba na sua crónica do DN: «Só podemos fazer coisas se soubermos primeiro aquilo que existe. Nem sempre sabemos porque obter informação implica custos e é um processo naturalmente desigual. O nosso "conhecimento" depende dos meios que frequentamos, das pessoas que conhecemos ou do que lemos. Além disso, a responsabilidade pessoal não é a virtude mais bem distribuída do mundo, porque supõe uma vontade de fazer escolhas próprias e correr riscos por isso. A sociedade portuguesa já é hostil à concorrência. O espaço é pequeno, os recursos escassos e toda a gente vive no pânico de perder o que já tem. Essa é uma constatação generalizável a quase tudo, até mesmo a "benefícios" que o "sistema" proporciona sem qualquer espécie de justificação. As pessoas que sabiam que a Câmara de Lisboa distribuía casas de graça estavam em óbvia vantagem sobre quaisquer outros potenciais "interessados" e assim se queriam manter.
O mundo de hoje é aberto e o que não existe "cá dentro" pode-se sempre tentar descobrir "lá fora". Os portugueses precisam de interiorizar toda uma nova cultura "internacionalizada" que lhes permita usar tudo o que para aí há de oportunidades e que nem sempre conhecem. O Estado tem aqui uma função imprescindível: garantir por todos os meios que a informação está disponível para todos. A isto chama-se educar para a independência.»

Grande, robotizada, fechada


Falamos da Livraria Byblos, localizada num edifício nas Amoreiras (Lisboa), com 150 mil títulos, uma área de 3.300 metros quadrados e um sofisticado sistema de identificação por radiofrequência.

A Byblos é uma empresa de Américo Areal, que vendera a editora ASA a Miguel Pais do Amaral e anunciara a entrada no negócio de livraria com pompa e circunstância. Inaugurada em Dezembro de 2007, a Byblos não chega sequer a ter um ano de vida. Fechou.

Dívidas a fornecedores e outros problemas de tesouraria ditaram a sorte da megaloja.

Areal esperava facturar 10 milhões por ano. Pelos vistos não chegou lá.
Porque se investe tanto em tipos de livrarias que já existem?

Grátis? Ou a caminho da ruína?

Por enquanto é cedo, tanto mais que todos os governos têm medo. Gastam-se fortunas em propaganda e o dinheiro não é elástico. Por isso, corta-se onde dói menos: na educação. Porque a gente bem pode pagar colégios e ter o que os outros não têm nem nunca terão.
Escola grátis é escola sem dinheiro. Soa bem encher a boca com integrar, incluir e outros verbos politicamente correctos, mas pagar o que isso custa é que ninguém gosta. Gastam-se fortunas com a inclusão e todo o ensino está a orientar-se para a mediocridade: vale mais um aluno problemático do que cinco bons. Ao aluno problemático dá-se tudo: leis, material, tolerância para lá dos limites do razoável, dinheiro. Os resultados são o que são. Mas qualquer governante gosta de mostrar essa consciência social. O problema é que a pouco e pouco a degradação da escola pública é maior, pois os alunos rapidamente percebem que são reis e senhores de um sistema que, na verdade, se está nas tintas para eles.
Passou-se, em três ou quatro lustros, do oito para o oitenta. Em nome da democracia, dos direitos, da igualdade. Mas e os deveres, a responsabilidade, o esforço?
Integrar sai muito caro e o povo de um país tem de saber quanto custa e decidir se quer ou não que isso seja assim. Os governos não podem, a pretexto dos ares do momento, cortar para "poupar", quando logo a seguir gastam muito mais em propaganda ou a salvar bancos.
Se o Estado quer que a escola seja um imenso parque de entretenimento tem de abrir os cordões à bolsa e pagar aos que vão entreter. Se o Estado quer que os alunos aprendam, conheçam, saibam, tem de se deixar de tangas e dar o nome aos bois.
De resto, onde é que está provado que o homem nasce bom e é o meio que o estraga?

19 novembro 2008

Mammuthus primigenius


Há cerca de 1,6 milhões de anos apareceram os mamutes. Viveram em África, na Europa, na Ásia e na América do Norte, acabando por demandar a norte regiões mais frias. Desaparecerem há dez mil anos.

Os mamutes-lanudos (Mammuthus primigenius) gostavam imenso do frio. Não admira portanto que alguns deles, quando morreram, tenham ficado presos e muito bem conservados no solo gelado da Sibéria. Mesmo o pêlo que os cobria sobreviveu até aos dias de hoje, durante milhares de anos, no permafrost.

Webb Miller e Stephan Schuster, da Universidade Estadual da Pensilvânia, conseguiram agora reconstituir a gigantesca molécula de ADN contida no núcleo das células de mamute – e começar a desvendar os segredos mais íntimos da evolução e da biologia destes mamíferos pré-históricos. É o primeiro genoma de um animal de uma espécie extinta.

Utilizaram como material de base, para extrair o ADN, o pêlo de uma múmia de mamute com 20 mil anos e de outra com 60 mil, ambas da Sibéria. O ADN capilar apresenta duas vantagens em relação ao ADN dos ossos, que é o habitualmente disponível nos restos fósseis: resiste melhor às intempéries, “porque o invólucro do pêlo o protege como uma embalagem de plástico biológico” e resiste melhor à contaminação pelo ADN de bactérias ou fungos, algo que pode fazer com que o ADN sequenciado nem sempre pertença ao animal e torna ainda mais árdua a autenticação dos genes.

Os cientistas conseguiram obter algumas pistas acerca da história deste antigo elefante e dos seus parentes actuais: divergiram há cerca de seis milhões de anos e deram origem a dois grupos há dois milhões de anos, que formaram duas subpopulações na Sibéria. Apenas uma delas sobreviveu até há dez mil anos (a outra ter-se-á extinto há 45 mil). As diferenças genéticas entre os mamutes e os elefantes modernos são mais pequenas do que se pensava. Ao contrário dos humanos e dos chimpanzés, que se separaram mais ou menos na mesma altura e que rapidamente deram origem a espécies diferentes, os mamutes e os elefantes evoluíram de forma mais gradual.

O trabalho agora publicado mostra que é mesmo possível sequenciar o ADN de espécies extintas. A próxima etapa nesta saga será a da sequenciação da totalidade do genoma do homem de Neandertal, extinto há uns 30 mil anos, que Svante Pääbo, do Instituto Max-Planck de Antropologia Evolutiva em Leipzig, na Alemanha, espera completar num futuro não muito longínquo (em Agosto, a equipa de Pääbo publicou a sequência do ADN mitocondrial daquele homem primitivo). Aí saber-se-á, finalmente, o que nos separa e nos aproxima desse homem pré-histórico.


Fonte: Público

National Geographic Games


O grupo National Geographic anunciou a criação do National Geographic Games (NGG), que produzirá videojogos orientados para a exploração do mundo e da natureza.

Herod's Lost Tomb é o primeiro jogo e... grátis. Sim, leu bem. Pode descarregá-lo do sítio do National Geographic.

Ainda este mês serão lançados mais jogos: o National Geographic Panda e o National Geographic Africa.

18 novembro 2008

Sapiência e opinião

Quando se avalia para dizer que se avalia ou quando a avalição tem como finalidade limitar o mérito, resta o vazio ou a brincadeira.
O Estado tem escolas mas não sabe como avaliá-las. Porque a política do governo e do partido que o sustenta é omissa quanto à educação.
O assunto parece simples, mas é complicado. Se o governo tem apenas como objectivos poupar nos salários e parecer bem nas estatísticas, é porque não tem uma ideia válida. Limita-se a gerir o vazio, criando mais vazio (de que os magalhães são um bom exemplo).
A questão de fundo continua arredada dos debates: que educação? que escolas? que tipo de ensino?
Se isso fosse claro, avaliar era simples. Assim, continuaremos a fazer de conta que todos sabemos muito bem o que é a educação e a dizer que os professores são uns malandros que não querem ser avaliados. Se lhe juntarmos o ressentimento de quantos, mesmo adultos, continuam a pensar que foi o professor A ou B que lhes tramou a vida, facilmente concluimos que o problema não é a avaliação mas como castigar esses malditos que leccionam. E que inventam tudo: programas, políticas, comportamentos e o resto.
Os professores (que Maria de Lurdes Rodrigues desprezou e a quem apelidou de professorzecos, acreditando, como tantos, que um professor só é gente se é professor universitário) têm vindo a mostrar-se e os resultados estão à vista. São muito melhores do que todos pensavam. Estão muito melhor preparados do que parecia. Sabem o que fazem e o valor que têm.
Pela primeira vez são eles que falam. E como são eles que falam a população pode perceber o que pensam. Até há pouco falavam os sindicatos e gentinha que escreve para jornais e tem espaço na TV que da escola sabe mada. Agora falam os professores e, convenhamos, sabe bem ouvi-los.
São a prova de quem ainda há muita qualidade na escola pública. Se isso não se converte em resultados convém perguntar aos políticos o porquê?
É que são eles quem há décadas produzem leis contraditórias e tentam com remendos de circunstância evitar o debate necessário: que escola? que ensino? que futuro?

A minha amiga Televisão


Os infelizes vêem mais TV, diz um estudo norte-americano. As pessoas felizes lêem mais jornais e socializam-se mais do que as infelizes.
Dizem os cientistas que a televisão é ela mesmo um dos factores que provoca infelicidade e ao mesmo tempo dependência, sobretudo, nos sujeitos mais vulneráveis como os com poucas habilitações, John Robinson explica: "A televisão pode dar aos telespectadores um prazer de curto prazo, mas um mal-estar com o passar do tempo." A mesma opinião é reforçada por Steven Martin que diz: "Actividades de adição produzem momentos breves de prazer, mas a longo prazo infelicidade e arrependimento. As pessoas mais vulneráveis à adição tendem a estar socialmente ou pessoalmente em desvantagem com a televisão a tornar-se um opiáceo."
A crise irá fazer aumentar o consumo de televisão em minutos, segundo previsão da União das Televisões Comerciais Associadas (Uteca). Este organismo constatou uma queda de 9% nos gastos com o ócio - ir ao cinema, jantar fora, ou viajar - e um aumento de 3% no consumo de minutos de televisão.
O mesmo estudo revelou ainda que os jovens são aqueles que menos tempo passam em frente ao televisor - 146 minutos por dia, contra os 314 minutos dos maiores de 65 anos e os 263 minutos da faixa etária dos 45 aos 65 anos.

17 novembro 2008

Aprender

Fala Ron Aharoni, professor de Matemática Pura, que dava aulas na universidade em Israel e que, há oito anos, aceitou o desafio de ensinar ao 1.º ciclo. Autor do livro Aritmética para os Pais (Gradiva), veio a Portugal participar na Conferência Internacional sobre Educação da Fundação Calouste Gulbenkian, este ano dedicada à Matemática.
«Os pais aprenderam melhor do que os filhos?
Sim, aprendemos muito melhor do que eles. Aconteceu algo na educação em todo o mundo... O maior problema é que os professores não ensinam porque lhes foi dito para não ensinarem. No ensino estão os profissionais mais fracos, os que não foram para outras áreas como as tecnologias. E isto é um problema em todo o mundo. Foram poucos os países que tiveram sabedoria para dar salários atraentes aos bons professores. Não sei como é que se resolve este problema, que é grave.
A solução passa por ensinar os professores?
O principal caminho para ensinar os professores é através dos bons manuais escolares. Os manuais que existem vão na direcção errada, porque promovem actividades divertidas e a aprendizagem fica perdida. O problema é que os livros saltam etapas ou seguem teorias modernas.
(...) A verdade é que todos ensinam o que sabem e não o que os outros precisam de saber. Por isso, os académicos ensinaram teorias ou estatística. Também ensinaram actividades divertidas e isso é horrível, porque as crianças não precisam de estar divertidas, elas precisam de compreender e só se o fizerem é que aprendem a gostar. A Matemática não tem que ser divertida, mas compreendida.
(...)
É importante saber a tabuada?
Se cada vez que queremos escrever uma carta tivermos que pensar como é que se juntam as letras... Para a Matemática o raciocínio é o mesmo: é preciso ter automatismos e a tabuada é essencial. Os pais podem ajudar os filhos a aprender, por exemplo, a dizê-la de trás para a frente.
(...) Qualquer actividade em que a criança tenha de se concentrar é boa para desenvolver a capacidade de trabalho que a Matemática exige. Outra coisa muito importante e que sempre ensinei aos meus três filhos é: ser preciso nas formulações, dizer correcta e claramente o que se quer dizer, nunca deixar os outros adivinharem o que se quer dizer, mas usar as palavras certas.
(...)
O Governo português iniciou este ano a distribuição de computadores portáteis às crianças do 1.º ciclo. Concorda?
Não conheço o projecto. Sabemos que o cérebro das crianças é completamente diferente e que trabalha muito rapidamente. Se elas podem aprender com o computador? Todas as tentativas feitas até hoje nesse sentido falharam. Não sei se porque as crianças preferem brincar no computador do que trabalhar... Penso que no 1.º ciclo o contacto com o professor é o mais importante. Muitos pais podem apoiar os filhos nos primeiros anos, mas há-de chegar uma altura em que deixam de conseguir fazê-lo.
E depois, o que é que podem fazer?
Quando eles sabem mais do que nós é bom, faz parte da vida, é sinal de que estão a crescer! Mas os pais também podem investir na sua aprendizagem, como ler um livro ou estudar. Não é difícil!»
Fonte: Público

Aprender a ler


Fala Robert McKee, que o DN considera o 'guru' dos argumentistas e autor da chamada 'bíblia' destes, Story: Substance, Structure, Style and the Principles of Screenwriting.

Vejamos um excerto dessa entrevista que, esperamos, possa ser útil a professores, leccionem ou não língua materna.

«O que significa escrever? Significa que recorremos à nossa imaginação constantemente. Vemos o mundo pelos olhos da nossa personagem, imaginamos que somos essa personagem e escrevemos uma página. A seguir, lemo-la. E o que estamos a fazer ao lê-la? Estamos a criticá-la, a analisar o que redigimos. E a qualidade da nossa crítica baseia-se na nossa técnica, no nosso ofício de escrita, no que sabemos sobre o que significa escrever, estruturar, pensar personagens, cenas, situações, e reescrever e melhorar o que escrevemos. Nós criamos e criticamos, Escrevemos e lemos, para a frente e para trás. Se não temos a técnica, se não dominamos e compreendemos os elementos da arte de contar uma história por escrito, quando fazemos a crítica, estamos apenas a comparar o que escrevemos com o que todos os outros escritores escreveram. Por isso, não será uma crítica, será apenas uma cópia, porque não analisámos criativamente o que escrevemos.

Podemos escrever muito e ser tudo sempre mau, podemos estar sempre a repetir banalidades. Temos sempre que nos afastar do que escrevemos e examinar tudo. É verdade que quanto mais escrevemos, melhores ficamos, se, como disse Norman Mailer, "o escritor for capaz de cheirar a sua própria merda". Isto é, temos que saber quando estamos a escrever porcaria, e sermos capazes de puxar o autoclismo (risos). A autocrítica é a chave (...). Uma das coisas de que nos apercebemos quando escrevemos, é que 90 por cento de tudo o que fazemos não presta.

O talento só não chega, há que ter também o ofício. Uma pessoa pode ter muito talento para escrever, mas se não é capaz de se auto-criticar, de se ajuizar a ela própria, não irá longe. O talento só também não é suficiente na música. Se os meus alunos quisessem ser compositores em vez de argumentistas ou escritores, iriam frequentar uma escola de música. E estudar muito. Porque é que a escrita tem que ser diferente da composição musical?

Vivemos numa era, em todas as artes, em que só se faz arte sobre a arte. A humanidade já explorou até à exaustão as possibilidades de todas as formas artísticas. Todas as artes estão formalmente esgotadas. Para onde vamos agora? Temos que regressar à fonte que é a vida. Uma obra de arte não é uma metáfora sobre outra metáfora. É uma metáfora sobre a vida. A vida é difícil de expressar. Fazer arte sobre a arte é mais fácil. Mas temos que voltar ao concreto da vida, à nossa essência humana. Não é sexy, não é vistoso, não é cool, mas é tudo o que tivemos desde o início, e é tudo o que teremos enquanto seres humanos: as nossas vidas miseráveis. E quanto mais sentido fizermos delas e de nós, melhor. Acho que a nova geração está a ficar farta de tretas e a perceber que o espectáculo da má música, da má literatura, da má pintura, do mau cinema, é banal, superficial, e uma perda de tempo.»