17 julho 2008

ACh, a acetilcolina


A "chave" química da atenção é a acetilcolina (ACh), uma "molécula mensageira" que se encontra de forma natural no organismo. Consiste numa substância química que actua como neurotransmissor, transmitindo os impulsos nervosos entre as células do sistema nervoso.

Os cientistas descobriram, ao trabalharem com macacos, que a acetilcolina é a "chave" que abre as "fechaduras" necessárias do córtex (visual) do cérebro, para que as células nervosas possam comunicar entre si e o processo de fixação da atenção seja efectivo.
Depois de receberem injecções de acetilcolina, os macacos mostraram-se mais rápidos ao fixarem um objecto.

Calculam-se os efeitos farmacêuticos da coisa e os alunos a receberem em casa comprimidos de ACh para estarem ao rubro nas aulas. Ou as empresas a constrangerem os seus empregados no sentido de aumentar os seus níveis de atenção.

Simão Bessa IV

16 julho 2008

Quem tem medo do casamento homossexual?




Casamento é um vínculo emocional, religioso ou social e como tal contemplado pela lei, conferindo aos cônjuges diversos direitos e algumas obrigações.

O Estado pode ou não consentir casamentos entre pessoas do mesmo sexo. Em Espanha consente, em Portugal ainda não.

Por cá, talvez na próxima legislatura o assunto fique resolvido. Se Sócrates voltar a ter maioria absoluta.

O assunto desassossega muita gente, pois, mesmo divorciadas ou com maus casamentos, são homofóbicas e parece-lhes que o casamento é apenas coisa entre um homem e uma mulher. Mas há muito se sabe que não é assim. Ao Estado apenas compete garantir que pessoas do mesmo sexo possam beneficiar das mesmas regalias que são concedidas às de sexo diferente, por exemplo, prestar apoio em caso de doença ou garantir assistência económica em caso de falecimento de um dos cônjuges. De resto, não muda nada.

Porque é que há tanta gente contra? Por inércia? Por medo? Por falta de formação?

14 julho 2008

Estendal


Com a devida vénia, transcrevemos um post de Ana de Amsterdam. Literatura da melhor.

«Chega-se um homem ao pé de mim e diz assim: a menina tem um cigarro? Reparo-lhe nos olhos encovados de espectro, na pele tisnada do sol, na barba emaranhada, na boca sem dentes. Empurra um carrinho de supermercado. Deve viver na rua. Espanta-me que saiba falar. Acho sempre que quem vive na rua acaba, mais cedo ou mais tarde, por perder o dom da fala. A solidão seca-lhes a voz. Desaprendem a linguagem dos homens. Aprendem a dos bichos. Grunhem como animais. A voz deste homem, porém, é limpa. Ele sabe falar. E está a falar comigo. Não lhe respondo. Continuo a andar. O homem continua atrás de mim. O carrinho que empurra chia. Está cheio de sacos de plástico velhos. Em cima dos sacos há um urso de peluche branco e preto. Está imundo. Já não tem olhos. Da boca sai-lhe uma linguazinha de feltro cor-de-rosa. O homem repete a mesma frase. A menina tem um cigarro? Há gentileza na sua voz. Não sou menina. Trago escondido, no bolso interior da mala, um maço de cigarros que fumo às escondidas dos meus filhos. Durante a noite, quando adormecem, cansados de tanto jogarem às escondidas, sento-me junto ao estendal da varanda e fumo um cigarro. É o melhor momento do meu dia. A roupa estendida cheira bem e está fresca. Podia dar um cigarro ao homem do carrinho. Assim livrava-me dele, da sua sujidade, da sua imundície, da sua voz límpida. Mas uma mulher grávida não fuma. Não posso dar-lhe um cigarro. Continuo a andar.

Paro na montra do talho. Tenho uma atracção antiga por talhos. Gosto de ler os letreiros que certos talhos, sobretudo nos bairros pobres das periferias, ostentam. Procuro sempre os que anunciam pezinhos de porco, miudezas, testículos, bofes. Também gosto de observar os mapas que mostram como se divide o corpo de uma vaca. Aqui a alcatra, ali a pá, acolá o acém, o pombinho, o ganso. Como se retalhará o corpo de um homem? Que parte de nós será mais tenra? Mais saborosa? Observo a montra deste talho. Não me agrada a sofisticação da oferta. Num quadro preto anuncia-se que hoje há lombo de porco recheado com frutos secos e espinafres e picanha argentina. Ando devagar. Sinto-me uma tartaruga vagarosa. Daquelas que têm mais de cem anos e chegam às praias de águas tépidas para se livrarem de centenas de ovinhos. Detesto estar grávida. Sempre detestei. Perder o controlo do meu corpo. Passar a ser um mero invólucro. Uma cabaça. Um casulo. O homem do carrinho continua ao meu lado. Chia o carrinho de supermercado como se fosse um lamento. Continua a perguntar: a menina tem um cigarro? Paro. Digo-lhe Não fumo. Ele olha para mim. Escarafuncha o nariz com as unhas sujas. Fuma. A menina fuma, diz com lentidão. Depois vai-se embora.»

"No tempo de Salazar é que era bom"

«Mais de quatro mil presos políticos foram julgados em tribunais plenários, sem culpa formada, desde que aqueles foram criados em 1945. Foram sujeitos a tortura em interrogatórios onde não era admitida a presença de advogado e seleccionados para julgamento segundo os critérios da polícia política. São dados revelados no estudo intitulado Tribunais Militares Especiais e Tribunais Plenários durante a Ditadura Militar e o Estado Novo (1926-1974), apresentado na semana passada em Lisboa.

(…)

Durante a apresentação deste estudo, no Tribunal da Boa Hora, em Lisboa (precisamente na sala onde eram realizadas os julgamentos do plenário), Rosas criticou que a maioria dos magistrados que pertenceram a estes tribunais tenham ficado impunes.
Os autores do estudo referem que apenas os juízes que estavam nos plenários em 25 de Abril de 1974 foram aposentados compulsivamente. Os restantes acabaram a sua carreira no Supremo Tribunal de Justiça sem nunca terem sido julgados.
De 1926 a 1945, existem registos de 10.366 presos políticos com processos e 2500 condenados, refere o estudo. A partir de 1945, o número de presos totaliza os quatro mil, aos quais foram aplicadas medidas de segurança. A maioria (51,4 por cento) provém do operariado, aumentando ao longo dos anos o número de estudantes e de intelectuais.»

[Fonte: Público]

Simão Bessa II


Neandertal em Portugal


«Dois fragmentos do homem de Neandertal foram descobertos no sábado pela equipa do arqueólogo João Zilhão na gruta da Oliveira, localizada na rede de grutas da nascente do rio Almonda (Torres Novas). Trata-se de um pedaço de um úmero direito e de um fragmento do crânio, explica Zilhão, da Universidade de Bristol, no Reino Unido. Têm 50 mil a 60 mil anos.

Os neandertais surgiram há 300 mil anos; viveram apenas na Europa e no Médio Oriente. Aos poucos, foram recuando até ao seu último reduto, a Península Ibérica, onde se extinguiram há 28 mil anos.

Os motivos do seu desaparecimento são alvo de um longo debate na comunidade científica. Há quem diga que o homem moderno os dizimou. Mas também quem defenda, como Zilhão, que neandertais e homens modernos chegaram a reproduzir-se entre si. Desapareceram como espécie, por alguma fraqueza de adaptação, mas continuaram a existir através de nós.

Em Portugal, os restos de neandertais são poucos. Limitavam-se a dois dentes isolados, um encontrado na gruta Nova da Columbeira (Bombarral) e outro na gruta da Figueira Brava (Sesimbra) e, ainda, a quatro fragmentos ósseos descobertos na gruta da Oliveira.

Zilhão anda a escavar esta última gruta há 20 anos. Por volta de 1998, encontrou um fragmento do cúbito e da falange, com cerca de 43 mil a 45 mil anos. Em 2003, apareceu um úmero direito, com 50 mil a 60 mil anos. Em 2006, foi uma tíbia, também com 50 a 60 mil anos.»

[Fonte: Público]

Anda descansar, pá. Não vale a pena trabalhar


A pobreza é terrível. Há séculos que Portugal é um país pobre. Não porque não tenha recursos mas pelo modo como estão distribuídos. Meia dúzia com muito e milhares sem quase nada.

Milhares que cumprem a sua rotina de desabafo, de zanga interna e jamais são capazes de se unir para dizer: Basta!

Meia dúzia que jamais se inquieta ou receia a multidão de pobres. Porque estes são educados diariamente a desejar o luxo e a empenharem-se para terem um mínimo de aparência.

Que uma percentagem não despicienda trabalhe e seja pobre só espanta quem anda a dormir, ou seja, quem continua a acreditar que a vida se limita ao carro, ao telemóvel e a meia dúzia de trapos. A miséria é muita e transversal a estratos económicos: é mental. E não vão ser as leis portuguesas que alterarão seja o que for. Talvez sinais que venham de fora, acaso lá comece a ser tão duro como sempre foi aqui.

De resto, a pobreza é um estigma que anda associado a farrapos, quando há muita gente que já aprendeu a disfarçá-la, apresentando-se limpa. O olhar às vezes trai-os. Mas só às vezes.

12 julho 2008

Gershwin - Rhapsody in Blue pt.1/2

Luciano Berio - Sequenza III

Pedro Costa vence Prémio Gulbenkian Arte


Um júri composto por João Marques Pinto, João Bénard da Costa, Jorge Calado, José Gil e Raquel Henriques da Silva atribuiu ao realizador Pedro Costa o Prémio Gulbenkian Arte pelos «traços fortes» do seu cinema que possui «uma estética pura e austera, com uma forte presença das comunidades urbanas marginalizadas, e a integração de actores com pouca ou nenhuma experiência nos elencos».
Pedro Costa nasceu em Lisboa, 30 de Dezembro de 1958, estudou na Escola Superior de Teatro e iniciou-se no cinema como assistente de realização de Jorge Silva Melo e João Botelho. É um dos mais destacados realizadores portugueses da actualidade. Estreou-se no cinema, em 1989, com a longa-metragem «O Sangue», a que se seguiram «Casa da Lava» (1994), «Ossos» (1997), «Sicília» (1999), «No quarto de Vanda» (2000), «Onde jaz o teu sorriso?» (2001) e «Juventude em Marcha» (2006).
«No quarto de Vanda» conquistou o Prémio para o melhor filme do 32.º Festival de cinema da universidade católica do Chile e «Juventude em Marcha» o Prémio da Associação de Críticos de Los Angeles na categoria de melhor filme independente / experimental.

11 julho 2008

A importância do vermelho


O vermelho afecta a capacidade de discernimento? Para quem é júri parece que sim. Parece que é cor relacionada com a violência e os membros do júri preferem a violência. Veja aqui.

10 julho 2008

Era uma vez


- Mãe, perdi a pen.

- Perdeste o quê, filho?

- A pen.

- Como é que perdeste o pé?

- Não sei, mãe. Deve ter caído.

- Tá bem, filho. Vai mas é fazer os trabalhos.

- Não posso, mãe. Perdi a pen.

O mundo


O mundo é um lugar terrível: vírus letais, sismos, água vinda do espaço. E como se não bastasse, num pequeno ponto do planeta, uns banqueiros que só se tornam fora-da-lei depois, muito depois.

Talvez por isso seja também um lugar cheio de humor. Porque não há melhor arma contra as desgraças e as inquietações do que uma boa gargalhada.

Operações de vigilância e de espionagem à margem da lei


Falam em protecção e depois, como é da praxe, vêm a público casos como este: Polícia Judiciária tem uns serviços secretos que realiza escutas e vigilância à margem da lei. As missões são feitas por agentes do Departamento Central de Prevenção e Apoio Tecnológico (DCPAT), nome que serve para designar a 'secreta' daquele órgão de polícia criminal. Com sede num armazém completamente disfarçado na linha de Cascais. Recentemente, a PSP esteve lá a fazer buscas, e levou dados que estão agora sob investigação do Ministério Público.

Os meios tecnológicos em poder desta 'secreta' são muitos e sofisticados: malas que registam todos o números de telemóvel num raio de 50 a 100 metros, podendo escutar as conversas em tempo real, até "alfinetes" de gravata que gravam imagem e som sem que ninguém dê por isso.

Até agora falava-se do assunto mas ninguém queria assumir. As dúvidas acabaram quando a PSP entrou no coração da 'secreta' da PJ - através de uma denúncia de um caso de espionagem feito por detectives privados que tinham elementos das duas polícias como colaboradores. Quem passa pelo armazém não se apercebe do que é. Mas no interior há meios tecnológicos que julgamos possíveis apenas nos filmes de ficção. Meios que oficialmente não existem nos inventários, mas que são usados na investigação.

O alvo do DCPAT pode ser qualquer pessoa: cidadão anónimo ou político, ou uma organização criminosa. Não há registo dos trabalhos realizados. As missões podem ser pedidas por fonte oficial, nomeadamente pelas directorias ou pelos departamentos da PJ, no âmbito de uma investigação em curso, mas também podem partir da iniciativa dos dirigentes - nacionais, do director do departamento, ou dos coordenadores das brigadas, à margem de qualquer investigação. "Às vezes, em troca de favores".

Os agentes quando partem para o terreno sabem que o que fazem, regra geral, é à margem da lei - por isso têm de realizar o trabalho no maior secretismo - mas nem sempre sabem para quê ou para quem. Quando nos meandros da PJ se fala em "saquinho de veneno", todos sabem que se está a fazer referência ao DCPAT, e a quem o dirige. Entre as altas esferas da Judiciária, dizem as fontes, há quem considere que aquele departamento da PJ esteja a funcionar "em roda livre".

Depois da visita da PSP, a 26 de Junho - que constituiu uma humilhação para a instituição - o Director Nacional da PJ, Almeida Rodrigues, mandou que o responsável do departamento, João Carreira, passasse mais tempo no armazém da linha, onde o homem forte é Sá Teixeira, coordenador das brigadas mais secretas da 'secreta'. Debaixo das suas ordens estão os agentes infiltrados e os que realizam escutas ambientais. João Carreira passava a maior parte do tempo na Gomes Freire, sede da Judiciária.
Este é o mais sensível departamento da PJ. A informação que os agentes recolhem, nomeadamente no crime organizado, é fundamental na maior parte dos casos para o êxito das investigações. São informações que nem sempre é possível obter pelas vias legais, mas ajudam os processos. Mas, segundo as fontes policiais, as críticas contra o DCPAT dentro da PJ, centram-se nas acções à margem das investigações, sem que se saiba qual é o objectivo policial.

[Fonte: DN]